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sábado, 7 de novembro de 2009

Adinavakatha

Dia desses eu escrevi: "uma importante causa das nossas tristezas pode ser não investigarmos apropriadamente nossas alegrias".
Ou mais ou menos isso.

Achei, então, que a frase passou bem um meu entendimento do Dhamma.

Hoje estava lendo o texto Meditation, de Ajahn Chah, (estou pensando seriamente em imprimir uma foto desse velhinho para por no meu altar...!) quando lá no final descobri que existe até uma expressão em pali para aquilo que eu tentei dizer!

Adinavakatha, nas palavras de Ajahn Chah, conforme minha leitura, é o refletir na imperfeição e limitação do mundo condicionado. Significa refletir sobre a felicidade ao invés de aceitá-la pelo seu valor aparente. (...) Quando a felicidade surgir, contemple-a bem até que suas desvantagens se tornem claras.

É claro, recomendo fortemente a leitura do texto, bem como de qualquer outro do Ajahn.

Não posso negar a alegria que senti ao ler estas palavras!!

:D

domingo, 1 de novembro de 2009

Ignorância Cultural

Hoje em dia é comum as religiões focarem bastante em aspectos culturais. Há bandas, grupos de dança, teatro, oficinas artísticas, viagens, passeios, enfim, atividades para todos os gostos a apetites.
Como quase tudo, há o lado bom.
Impregnar a vida com princípios espirituais com os quais nos identificamos é muito bom.
Eu acho.
Quanto mais fizermos com sentido espiritual, melhor. Até por que isto ajuda a corrigir o equívoco de que existam a 'vida' e a 'religião'.
Mas me parece que há o risco de que se fique também só no lado 'vida'. E aí, como com quase tudo, a ignorância prevalece.
O Caminho transforma-se numa grande festa como qualquer outra. Uma jornada de alegria e celebração, consumo e esgotamento, sede e ganância, competição e vaidade e mais um monte de substantivos.
E a religião seca desprovida de substância.
Resta a brincadeira superficial e imatura que conquista o volúvel sofredor que existe em nós.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Acordar

Acompanho este ótimo blog, como podem ver aí do lado. Esta postagem recente que surge no link me chamou a atenção. Principalmente no final quando a pessoa fala que: "Assim há um grande desinteresse pelo mundo e por outro a dificuldade de se vivenciar a atenção plena". Me lembrou de que aqui, neste meu blog, de certa forma eu tentei tocar neste assunto.
Não é possível negar que uma certa angústia surge em algum momento, para algumas pessoas. Mas esta angústia deveria servir para fomentar a prática espiritual, especialmente a da atenção. É através da atenção que a realização muito maior, a da convicção, deverá surgir. Deverá haver a inversão do motivo para a tristeza. Triste é uma vez surgido, ter-se que desaparecer. Uma vez obtido, ter-se que perder, uma vez feliz ter-se que entristecer. Sem alternativa.
Triste é a ilusão.
Atroz é avijja.
Pode ser que uma importante causa de nossas tristezas seja o fato de não investigarmos adequadamente nossas alegrias.
O fato de desencantar-se com o mundo, não deve ser, de forma alguma, um fator que leve à prostração, inação e torpor. Uma grande felicidade é o que deverá brotar de sabermos, finalmente, por que, afinal, não há felicidade no mundo!
E aí a vida continua. Porque embora possamos saber, há os que não sabem. Se um dia eles quiserem saber, precisaremos estar bem dispostos!

simples

O Buddha diz que o todo pode ser encontrado aqui neste corpo. O todo é o cosmo. Nossa experiência do mundo é o todo. E é tudo de que precisamos.
Um sentido profundo desta afirmação é a irrelevância de conceitos, idéias, crenças para alcançarmos a meta. Nos basta observar ardente e atentamente o todo de que dispomos.
Mesmo palavras que com o tempo foram mitificadas (e mistificadas) tais como nibbana e suñña, eram de uso corriqueiro no tempo do Buddha. Assim ele ensinava. Com o dialeto popular de sua época e com palavras simples. O uso que fazia de símiles, parábolas é fabuloso. O fascínio pelos símiles do Buddha é uma coisa que só cresce a medida que a experiência na prática do Seu ensinamento se aprofunda.
Do aqui e do agora para a transcendência.
O Buddha começa de uma constatação: a onipresença de dukkha. E, a partir disso, não elabora teorias, não cria dogmas, não especula. Nos aconselha meramente a fazer como ele próprio fez: cultivar a mente, nos tornar-mos atentos e conscientes com base na nossa vida diária, motivações, sentimentos, posturas. Nos ensina a afinarmos esta atenção até o mais elevado grau com base na mera respiração (e isto é a meditação como foi ensinada pelo Buddha!).
No início, o buddhismo me parecia coisa de outro mundo! Algo realmente diferente e fascinante. "A solução para o meu problema só podia ser assim mesmo"... "Era disso que eu precisava para cair fora dessa realidade decadente e opressora".
Hoje, fui descobrindo pelo tempo, nada mais do que a mera realidade é o que me é suficiente.
Nada mais fantástico que aprender a olhar.
Simplesmente.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Cobras

O Buddha diz que as sensações são como cobras.
As sensações oriundas do atender aos nossos desejos são como cobras.
Nós sabemos que cobras não são coisas com as quais se brinca. É preciso ter cuidado ao lidar com elas! Quanto a isso não há problema. Mas dizer que o meu bolo de chocolate é uma cobra!? Meu carro novo!? Meu tocador de MP(sei lá em que número está)!?
O "amor" da minha vida é uma cobra!!?
Isso é difícil de engolir!!!
Qual é o problema com as cobras, afinal? Elas são o que são. Fazem o que as cobras fazem. Nós aceitamos isso e não queremos que elas sejam outra coisa.
Mas parece que queremos que as sensações sejam algo que elas não são.
Ficar triste, deprimido, revoltado ou cegar-se não são as reações adequadas.
Precisamos é nos questionar se é possível ou não viver com cobras.

domingo, 11 de outubro de 2009

Superfície

Estávamos em um grupo de mais ou menos sete pessoas. Caminhávamos de volta do restaurante para o trabalho. Num momento, em função do vai e vem dos bate-papos, um amigo me pergunta: "Você é evangélico?" E eu: "Não." "Católico?" "Não." "Você não é nada?" "Não." "O que você é, então?!" "Eu sou buddhista." "Ah, já ouvi falar... E no que você acredita?" "Eu acredito numa disciplina de vida que conduz ao fim do sofrimento..." "Acredita em Deus?" "Não." "...numa força, energia...?" "Não." "Ué! Mas como assim!? Quem criou as coisas? No que você acredita!?" Iniciei a explicação dizendo 'calma que vou chegar lá...' A partir daquele momento, uma coisa significativa aconteceu: começamos a afundar! Estávamos até então num grupo que ria, brincava, dava risada, ali, boiando na superfície. Mas então, daquele momento em diante, eu e o outro começamos a afundar. E fomos ignorados! Nossos companheiros começaram a se afastar, caminhar na frente, em silêncio e dali a pouco eu os via lá do fundo, brincando de novo!
Aquilo foi para mim uma imagem bem colorida do quanto estamos superficializados hoje. O quanto valorizamos tudo o que seja rápido, simples, prático, imediato em resultado e prazer. Tenho a impressão de que há mesmo um medo das profundezas. Parece que sabemos o quão poluída ela se encontra. Há uma determinação reinante de ficar na superfície a todo custo. Levados pelas marés, sob o calor do sol. Qualquer sombra é rejeitada. Qualquer nuvenzinha é amaldiçoada!
Mesmo nas religiões isso é uma clara tendência. Já vi gente estufar o peito e louvar a própria religião por que a prática dela não se faz 'isolando-se do mundo para meditar'... Queremos que o espiritual mostre serviço!!!
Terminado o nosso rápido mergulho, voltamos sorridentes e fomos aceitos de novo na brincadeira! Só faltou alguém perguntar: "O que aconteceu!? Vocês sumiram!!"

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Taṇhā 2

Pelo pouco que eu conheço da vida daquele meu amigo, eu sei que ele passou por momentos em que a necessidade de sobrevivência o impedia de pensar na vida.
É assim com todos nós.
Ou uma boa parte.
Como o 'espelho de sabedoria' do buddhismo pode ajudar numa hora dessas?
A honestidade na contemplação de si mesmo aliada à constatação da condicionalidade de todas as coisas, ao mesmo tempo em que nos lembra do grau de responsabilidade que temos em relação àquilo que vivemos agora, nos alerta para a infalibilidade das consequências daquilo que intencionamos e realizamos no mesmo presente.
Não sobra (muito) espaço para lamentações nem negligência.

Valeu Ter Lido?