What is your language?

Bornes relacionados com Miniaturas

Buscando...?

Mostrando postagens com marcador condicionalidade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador condicionalidade. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 5 de março de 2015

você é luz. é raio, estrela e luar.

o wando disse. 
agrada a muita a gente.
também agrada qualquer visão de mundo que nos afirme parte de algo luminoso, transcendente, sublime e divino.
o buddhismo registrado nos suttas antigos, aquele considerado mais próximo do Buddha no tempo e no espaço, às vezes mela um pouco com nossas esperanças de sermos assim como disse o wando.
vejamos o corpo.
o corpo, naqueles suttas, é descrito como coisa repulsiva, fonte de preocupação, estresse, dores e odores. algo que nos engana, nos toma tempo, nos escraviza e submete para, no fim, vir finalmente a se explicitar tão apreciável quanto um cocô de cachorro.
nos resta a mente. 
mas que também não é lá esta coisa que queríamos que fosse. aquilo assim meio luz eterna, una com o 'universo', verdadeiro eu, raio, estrela e luar...
vejamos o que diz o Buddha no mahatanhasankhaya sutta:

 da mesma forma como o fogo é designado pela condição particular de dependência, dependendo do que ele arde – quando o fogo arde na dependência de lenha, ele é designado um fogo de lenha; quando o fogo arde na dependência de gravetos, ele é designado um fogo de gravetos; quando o fogo arde na dependência de capim, ele é designado um fogo de capim; quando um fogo arde na dependência de estrume de vaca ele é designado um fogo de estrume de vaca; quando um fogo arde na dependência de palha, ele é designado como um fogo de palha; quando um fogo arde na dependência de lixo, ele é designado um fogo de lixo – assim também a consciência é designada pela condição particular de dependência, dependendo do que ela surge.

ou seja, consciência é um fenômeno dependente como outro qualquer: olho, mais forma, mais faculdade de visão, é igual a consciência visual. ouvido, mais som, mais faculdade de audição, é igual a consciência auditiva. 
e assim sucessivamente.
experimentar isso de forma precisa, direta, sem intermediação intelectual parece ser o que possibilita conhecer a meta buddhista que é a segunda parte de tudo o que o Buddha ensinou, a saber:

“bhikkhus, tanto antes como agora o que eu ensino é o sofrimento e a cessação do sofrimento."

sábado, 14 de setembro de 2013

filosofia buddhista sem mistério

Abaixo a minha tradução para a conclusão do quarto capítulo (pág. 59) de "History of Buddhist Philosophie - Continuities and Descontinuities" de Davi J. Kalupahana.
Decidi publicar aqui, primeiramente porque é um daqueles trechos cujo fascínio me surge pelo poder que tem de dizer tanto com tamanha concisão. Merece ser lido e relido e servirá como guia para aprofundamento no Buddhadhamma naquilo que é fundamental.
Em segundo lugar pela satisfação que me causou ao perceber que, dentro dos meus limites, tenho escrito aqui sobre algumas ideias presentes neste trecho e naquele livro.

O princípio do surgimento dependente é concebido como uma alternativa à noção Brahmanica de um eu eterno (ātman) bem como ao conceito de natureza (svabhāva) apresentado por algumas escolas heterodoxas (contemporâneas do buddhismo e oposicionistas ao brahmanismo). Como uma alternativa, não só evita o mistério mas também explica os fenômenos como em um estado de surgimento e cessação contínuos. O Buddha realizou que, embora tal princípio seja verificável (ehipassika), não é facilmente percebido (duddasa) pelos seres humanos ordinários, que são absortos pela e deleitados na adesão (ālaya) tanto à coisas quanto às visões. Tais inclinações podem cegá-los em tamanha extensão que eles ignoram até os fatos mais evidentes. Assim a dificuldade em perceber e compreender a dependência é devida não a qualquer mistério quanto ao princípio em si, mas sim ao amor das pessoas pelo mistério. A busca pelo mistério, pelo algo oculto (kiñci), é considerada como causa fundamental de ansiedade e frustração (dukkha). Por isso diz-se que aquele que não procura nenhum mistério (akiñcana) e que percebe as coisas “como elas vem a ser” (yathābbhūta), desfruta da paz mental, a qual eleva tanto intelectualmente quanto moralmente. Isto explica a classificação do surgimento dependente como pacífico (santa) e sublime (panīta).

The principle of dependent arising is intended as an alternative to the Brahmanical notion of an eternal self (ātman) as well as to the conception of nature (svabhāva) presented by some of the hetorodoxy schools. As an alternative, it not only avoids mystery but also explains phenomena as being in a state of constant arising and ceasing. The Buddha realized taht even though such a principle is verifiable (ehipassika), it is not easily perceived (duddasa) by ordinary human beings, who are engrossed and delighted in attachment (ālaya) to things as well as views. Such leanings can blind them to such an a extent that they ignore even the most evident facts. Thus the difficulty in perceiving and understanding dependence is due to not any mystery regarding the principle itself but to people´s love of mystery. The search for mystery, the hidden something (kiñci), is looked upon as major cause of anxiety and frustration (dukkha). Therefore the one who does not look for any mystery (akiñcana), and who perceives things “as they have come to be” (yathābbhūta), is said to enjoy peace of mind that elevates him intellectually as well as morally. This expçain the caracterization of dependent arising as peaceful (santa) and lofty (panīta).

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Imasmiṃ sati idaṃ hoti, imassuppādā idam uppajjati, imasmiṃ asati idaṃ na hoti, imassa nirodhā idaṃ nirujjhati.

nada sei é um extremo.
onisciência é outro.

mas há um justo. um possível. que requer esforço:

isto sendo, este vem a ser
com o surgimento disto, este surge
isto não sendo, este não vem a ser
com a cessação disto, este cessa *

*Bahudhatuka Sutta


quarta-feira, 26 de junho de 2013

tudo igual

quando a gente diz que é buddhista, a maior parte das vezes somos associados com um modo de ser que convencionou-se chamar de zen. somos então pessoas da paz, que apreciam chá e incenso, que meditam ou alguma outra coisa meio yoga, que repetem mantras, auuuummmmm e por aí.
eu não sou zen, não gosto de chá nem de incenso, meditação formal é uma parcela da minha prática, sem mantras e sempre me esforço pela paz, em muitos sentidos.
dito isso, falemos sobre a capa ao lado. 
se for  para ver algo de bom nessa capa, e eu como buddhista aprendo que tudo tem um lado bom, eu vejo que é mostrar que somos todos iguais. 
os não buddhistas, os curiosos e os não amistosos vão questionar, atacar e, talvez até, querer entender o assunto. os buddhistas que gostam de se apresentar assim como quem exibe uma etiqueta significando "eu sou gente boa" vão sentir a fantasia meio amarrotada. 
não conheço mianmar além do Dhamma do Buddha que vem de lá, e mesmo disso conheço pouco, mas sei que é um dos países onde o Buddhamdhamma tem raízes profundas e floresce na sabedoria de vários grandes mestres assim como na cultura do país, em monumentos e templos belíssimos, inclusive. pois apesar disso, absurdos estão ocorrendo. realmente não sei se há monges incitando violência, mas que está havendo violência em "nome do dhamma", entre aspas, negrito, itálico e sublinhado porque é impossível violência em nome do Dhamma, isso está. 
violência é sempre em nome do ódio, da ignorância e outras qualidades humanas. e em mianmar, o que há são seres humanos, antes de buddhistas, como aqui, como no tibete ou na china. seres humanos que precisam ter em mente que buddhismo, ou qualquer religião, não é roupa nova, etiqueta ou atestado de bons antecedentes, é labuta momento a momento contra a corrente do mundo, que é muito mais forte do lado de dentro de nós. quando o nome 'buddhismo' começa a ter muita importância na vida, a ponto de a gente esquecer de estar vigilante mesmo ao atender aos chamados da natureza, a saber, defecar e urinar, conforme ensinou o Buddha, surge o perigo de distorções como estas e outras mais menos manchetáveis mas tão tristes quanto. conforme ensinou o Buddha.
então, perdeu, playboy. a casa caiu. tá na capa da time a frase: 'a face do terror buddhista'. somos todos iguais. e a despeito do sensacionalismo natural, da provável imprecisão das informações e algo mais que nosso 'ódio à mídia' puder imputar, o fato é que pisaram na bola por lá, pois onde há fumaça, ao menos uma brasinha tem. e como o Buddha ensinou: pisou na bola, cai. 

quinta-feira, 13 de junho de 2013

à revelia

No buddhismo tibetano, estudando e praticando sob a abordagem do Lam Rim, eu meditava e contemplava o renascimento nos infernos. Haveriam diversos infernos frios e quentes ao extremo e a instrução é para que sejamos o mais detalhistas possível com respeito a visualizar os tremendos sofrimentos que lá se passa.
Eu tinha grande dificuldade com esta meditação.
O objetivo da prática, até onde me lembro, era gerar o medo de cometer ações que levassem a tais renascimentos tanto quanto servir de ilustração para o que é o saṃsāra e ajudar a fomentar o sentimento de renúncia.
Uma vez que creio em renascimento, ou pelo menos considero tal possibilidade, pensar no inferno tem lá seus momentos de eficácia. Mas com respeito à ir gerando alguma renúncia, quase sempre me basta olhar por dentro e em volta do que ocorre aqui mesmo.
Existo à revelia não é de hoje. E sendo assim, não há outra vida que me seduza após esta aqui, podem vir com o paraíso que for que dispenso sem hesitação, podem me prometer ser um deus qualquer, tô fora! Então, porque cargas d'água ainda não despertei do pesadelo do saṃsāra? Porque não basta não querer renascer em outra vida. Isto, aliás, eu acho que é até comum, o ó do borogodó é desistir de renascer nesta aqui!

quinta-feira, 30 de maio de 2013

simples ficando ll

na disciplina do Buddha, do encontro do objeto com a percepção surge o mundo.

se uma mente não desperta, mais ou menos assim: um carro... um opala... rosa... bonito... do mário... o que saiu do armário... e a mente não desperta segue se enrolando num emaranhado de conceitos. 
papañca-saññā-saṇkhā

se uma mente desperta:
um carro... anicca, dukkha, anattā, paz... um opala... anicca, dukkha, anattā, paz... rosa, anicca, dukkha, anattā, paz... ...anicca, dukkha, anattā, paz...  ... anicca, dukkha, anattā, paz... paz... paz...
paz.



entenda, melhor que eu, este processo fundamental no livro Concept and Reality do Venerável Bhikkhu Kaṭukurunde Ñāṇananda
só em inglês, por enquanto.

sábado, 20 de abril de 2013

a coprofagia da cadelinha, o filho, o pai, a biologia e o dhammā

"...eu falei com a (...)inha e ela deu rizada! disse que é legal ter um cachorro que come cocô, a gente economiza ração!"
"é, hehehe. seria legal se ela comesse cocô e soltasse ração, né filho!? era só arrumar um cachorro normal e a gente tava feito!"
"é mesmo! seria perfeito"
"mas tem um problema nessa lógica louca nossa, filho: ia sempre faltar um pouquinho mais de alimento a cada vez..."
"hmmm, como assim?"
"ué! eles iam crescer como? de onde sai o corpo novo que eles vão tendo que por no lugar do que vai morrendo?"
"é mesmo...!"
"ela é feita de ração! nós todos somos feitos daquilo que comemos."
"somos feitos de comida! hehehe!"
"nosso corpo vai pegando uma coisa e transformando em outra. juntando os tijolinhos que faz de comida."
...
"e aí surge uma pergunta filho: se nosso corpo é feito de comida, do que é feito o nosso eu?"
"ih, pai! lá vem você com as suas filosofias...!"
"hahahahahaha."






quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

tu és só isso

mente e matéria. 
nada mais. 
uma condicionando a outra. 
só isso.
não é uma descrição agradável quando contemplada cuidadosamente. implica em que no visto há só o processo de ver, no degustado só o processo de degustar, no ouvido só o ouvir, no sentido só o sentir, no pensado só o pensar. tudo começando só para acabar, começando a acabar já no começo. nenhuma testemunha para curtir ou dar um plus. onde não há ninguém, ninguém há para haver, apesar das aparências. esta mesma aparência que faz de tudo tão sofridamente frustrante. 
segundo a segundo; hora a hora; dia a dia; semana a semana; mês a mês; ano a ano; só isso.
aparência até o fim.


quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

aqui estou, mais um dia

no fim do ensaio 'the taste of freedom', bikkhu bodhi diz:

Em sua plenitude, a liberdade para a qual o Buddha aponta como a meta do Seu ensino só pode ser experimentada por aquele que conquistou a realização da meta, algo que diz respeito a sua vívida experiência pessoal. Mas assim como o sal empresta o seu gosto a qualquer comida que tempera, assim também o sabor da liberdade penetra toda a Doutrina e Disciplina proclamadas pelo Buddha, no começo, meio e fim. Qualquer que seja o grau do progresso em que estamos na prática do Dhamma, na correspondente extensão pode o sabor da liberdade ser sentido. Sempre deve ser levado em consideração, contudo, que a liberdade verdadeira — a autonomia interna da mente — não surge como um presente da graça. Só pode ser obtido pela prática do caminho que conduz à liberdade, o Nobre Caminho Óctuplo.
mas tem dias terrivelmente quentes em que você acorda suando. ainda que sem saber o que é caminhar sob a mira de uma hk, sente que está verdadeiramente emaranhado. o calor, pequenas coisas, a coprofagia da sua yorkshire, um conflito que surge entre a renúncia e o sorvete de chocolate com paçoca, entre a meditação, a tv por assinatura e a internet. você imagina como seria pular ao invés de transitar por aquela mesma ponte, de todo mesmo dia.
tem dias em que olhar para cima e não ver nada, olhar para os lados e ver tudo, olhar para o espelho e ver só aquilo que tem para ver, te leva a sentimentos confusos que não se decidem alegria ou tristeza. e agrilhoam.
não.
tem dias difíceis.
neste dia você conversa com um bom amigo, que aos seus olhos tem motivos para não ser como você está.
mas este amigo diz que sim, que você tem razão, que a vida é realmente o que parece. que tudo dói e viver é um desastre que sucede a alguns. e aí você sabe que este é, com toda a certeza do mundo, um bom amigo. um bom amigo por não dizer que a vida é bela, que há um sentido maior, que tudo vai acabar bem no final. não. um bom amigo te diz a verdade. e você decide o que fazer com ela.
e você lembra de um outro texto, talvez de um outro autor, não lembro, em que é dito para que nos matenhamos conscientes de uma coisa muito importante: tudo, todo momento, todo movimento é dependente de condições.
e aí brilha uma centelha.
aí, apesar de nada mudar, apesar de tudo, parece que você tem escolha. aquela liberdade da qual falou o bikkhu bodhi começa a clarear a sua frente.
se você está aqui, o fim é certo. todo o sofrimento continuará, é só isso, você está preso. mas você pode escolher continuar presa das condições que fazem você imaginar o salto, ou escolher as condições que vão te fazer atravessar para o outro lado. você pode escolher ceder ao hábito de querer que tudo mude ou pode escolher a alegria de estar se aproximando da verdade pela contemplação da verdade visceral que se apresenta. pode escolher a alegria de resistir, a alegria de desistir, a alegria de saber aquilo que pode no momento: Qualquer que seja o grau do progresso em que estamos na prática do Dhamma, na correspondente extensão pode o sabor da liberdade ser sentido.
e nada muda, mas aqueles sentimentos, antes confusos, agora você sabe: uns são alegria, outros são tristeza.
você sabe alguma coisa da verdade.
você escolhe o que fazer com ela.



segunda-feira, 3 de setembro de 2012

dual

a vida é feita de experiências boas e ruins.
isto é uma dualidade.
a vida é experiências que começam boas e terminam ruins ou começam ruins e terminam piores.
isto é começar a compreender a não dualidade.
dualidade é resultado da conceituação, da concepção de entidades, coisas,  saṅkhāras.
não ficamos na experiência sensorial até o seu fim. nos primeiros sinais de desconforto, mudamos para outra coisa e aquilo que surgia como bom fica sendo "bom". fica saṅkhārizado como bom. se ficássemos até o fim, veríamos sua mudança e saberíamos que as coisas são surgimento, aparência e cessação
do contato entre sentido e objeto surge o saṅkhāra . deste a proliferação de conceitos duais: isto, aquilo; bom, ruim; prazer, dor; felicidade, sofrimento; tudo, nada.
este o fundamento do mundo. este o motor da existência.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Je Tsongkhapa

 abaixo, o texto que mais estudei, em sua versão extensa chamado Lam Rim, durante o tempo em que estive sob orientação de professores ligados à tradição tibetana de Je Tsongkhapa
embora envolvido com o buddhismo desde 1995, só passei a me considerar buddhista quando ingressei no estudo e prática por meio desta tradição, em 1999. este texto fundamentou o entendimento do dhamma que sustento até hoje.
a versão é do livro "Bondade, Amor e Compaixão" de Sua Santidade o Dalai Lama, editora Pensamento.




Os Três Principais Aspectos Do Caminho

Homenagem aos principais lamas sagrados

Explicarei o melhor que puder
O significado essencial de todas as escrituras do Conquistador,
O caminho louvado pelas eminentes Crianças Conquistadoras,
Porto para os afortunados que desejam a libertação.


Aqueles desapegados dos prazeres mundanos, a lutar
Para que lazer e fortuna signifiquem dignidade, inclinados
Que são para a senda que deleita ao Buda Conquistador,
esses afortunados devem ouvir com mente límpida.


Sem a profunda convicção de abandonar a existência cíclica
Impossível deixar de perseguir os frutos do prazer no oceano da vida,
E mais: o anseio pela existência cíclica agrilhoa por completo o encarnado.
Que se busque, pois, de início, a determinação de abandoná-la.


Lazer e fortuna são difíceis de encontrar
E a vida se esvai: esse conhecimento
Converterá em seu oposto a importância dada
Às exterioridades da existência.


Se pensarmos sempre e sempre nas ações,
Em seus efeitos, que são inevitáveis,
E nos sofrimentos da existência cíclica
Converter-se-á em seu oposto a importância dada
Às circunstâncias exteriores das vidas futuras.


Se tendo assim meditado, não geramos, por um instante sequer,
Admiração pelo florescimento da existência cíclica, mas se, dia e noite,
Se faz presente a atitude de busca da libertação,
O pensamento de abandonar para sempre essa existência foi gerado.


E mais, se o pensamento de abandonar de vez a existência cíclica
Não estiver enlaçado à geração da total aspiração pela iluminação suprema,
Não será ele a causa da bênção esplêndida da iluminação excelsa.
Sim: que os inteligentes gerem a tão alta e altruísta intenção de se converter em iluminados.


[Todos os seres comuns] são arrastados pelo continuum de quatro torrentes poderosas
E atados pelos liames de ações muito duras de combater.
Na jaula de ferro da autopercepção [existência inerente], lá estão eles,
Aturdidos pela densa escuridão da ignorância.


Vezes sem conta já nasceram, e cada nascimento
Traz a tortura incessante dos três sofrimentos.
Ao pensar nas mães que caíram nessa rede,
Geram eles então a intenção altruística de converter-se em iluminados.


Sem a sabedoria que compreende o modo de ser das coisas,
Mesmo que tenham sido desenvolvidos, tanto
O pensamento de abandonar para sempre a existência cíclica
Como a intenção altruísta,
A raiz da existência cíclica não poderá ser exteirpada.
Pratica, pois, os métodos que te farão entender a manifestação dependente.


Aquele que, percebendo serem inquestionáveis
Causa e efeito de todos os fenômenos
Da existência cíclica e do nirvana,
E destruir, inteiro, o modo de percepção equivocado
Dos objetos [tidos como de existência inerente],
Terá, assim, ingressado num caminho que apraz ao Buda.

Enquanto se afigurem como separadas as duas compreensões
Da indubitabilidade da manifestação dependente
E do vazio - a não-afirmação [da existência inerente] - 
Não será compreendido o pensamento do Buda Shakyamuni.


Quando [ambas as percepções ocorrem], simultâneas, sem alternância,
E quando, apenas por ver a manifestação dependente como indubitável
O conhecimento preciso destrói por completo o modo de percepção [da concepção de existência inerente], 
Está completa a análise da apreensão [da realidade].


E mais: exclui-se o extremo da existência [inerente]
[Conhecendo-se a natureza] das circunstâncias externas
[Que existem apenas como designações nominais].
E, ao extremo da [total] não-existência, elimina-se
[Conhecendo-se a natureza] do vazio
[Como ausência de existência inerente e
Não como ausência de existência nominal].
Se for por ti sabida, dentro do vazio, a presença da causa e do efeito,
Não serás aprisinado pelas percepções extremas.


Ao teres compreendido com exatidão, do caminho
Os três aspectos principais, no que tem de essencial,
Procura a solidão e gera o poder do esforço.
Que logo chegues à meta final, meu filho!




quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

TEDxEdges - José Eduardo dos Reis - "Buddhism, Science and Reality"



Espere um pouco... Ele vai falar português...

sábado, 13 de agosto de 2011

eu acredito - 1

quando um ser nasce, eu acredito que sua mente (ou parte dela, não sei bem) não surgiu com aquele corpo. acredito que mente é mente e matéria é matéria. duas naturezas distintas. e acredito nisso porque o Buddha assim ensinou, ao que parece. é algo em que confio. porque o Buddha, e isso é uma coisa que eu sei, foi muito preciso e acertou em muitas coisas, Suas instruções dão resultado, Sua teoria é extremamente coerente, Seu Caminho não me decepciona. quanto mais eu me aprofundo e pratico, mais desejo me aprofundar e praticar. então, minha experiência pessoal me garante este ato de fé sem problema. 
porém, eu mantenho esta crença num compartimento separado. ela não é o que define e nem sustenta minha prática. 
quando acreditamos que a mente segue num processo de condicionamento de um novo ser após a morte física, isto implica na aceitação da doutrina do kamma como definidor de alguns aspectos da vida daquele novo ser: méritos definem coisas boas, deméritos coisas ruins. doutrina que o Buddha declarou estar além da compreensão intelectual. e esta, sendo uma crença, não imediatamente verificável por experiência, tem um caráter dúbio. por exemplo: um buddhista como eu crê que está praticando o dhamma libertador do Buddha porque assim seu kamma o conduziu, ou seja, as ações passadas condicionadas pelas intenções deste mesmo contínuo mental frutificaram agora para que tal contato com o Buddhadhamma ocorresse, ou se repetisse, acontecimento digno de regozijo e alegria, um fator motivador. mas o mesmo raciocínio pode, em momentos em que outros fatores desta vida condicionam um estado mental menos animado, circunstâncias que, sabemos, não são raras, levar a pensar que os méritos não foram tantos assim, pois veja quão difícil é a prática, quão desprezível eu sou, ou o quanto minha vida é impulsionada por necessidades e tão pouco por escolhas...!  e, num movimento vicioso, deixar claro para nossa mente obscurecida como será difícil acumular os méritos necessários para um bom nascimento ou despertar futuro! por essas, mantenho a crença no seu devido lugar.
e é no próprio Buddhadhamma que baseio este meu caminhar.
Ajahn Buddhadasa ensina que há três tipos de nascimento elucidados pelo Buddha: o convencional, aquele que todos conhecemos, o nascimento através dos órgãos dos sentidos que ocorre a cada contato estabelecido entre olhos, ouvidos, pele, etc. e seus respectivos objetos e o nascimento mental que ocorre a cada vez que a idéia de eu e meu surge na mente. e é a compreensão destes dois últimos nascimentos que é relevante para obter o resultado da prática do Caminho, a saber, o cessar de dukkha, pois nada mais que dukkha e o fim de dukkha foi o que o Buddha ensinou.
a compreensão destes dois já é bastante a se fazer, mas é a compreensão do que está aqui, ocorrendo agora, é só uma questão de vir e ver. 
posso, assim, deixar a minha crença lá, nem pensar muito nela.
o nascimento que me interessa é este que ocorre agora.
a continuar, um dia...

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

dois sucos e uma 'fritas' grande

- ...e quando eu vi aquele monte de gente correndo, pensei: lá vão os pobres coitados acordados aos tiros de seu sonho de poder...
- é... mesmo que a gente saiba, né? de tudo o que eles são capazes, das crueldades e tal...
- quem de nós não é, né?
- o bezerra cantou: "somos vítimas de uma sociedade, famigerada e cheia de malícia"...
- não concordo muito com o lance da vitimização... mas até um ponto é considerável.
- lá ia aquele bando de infelizes, subindo morro semi nus porque há agora interesses maiores do que os que permitiam que eles continuassem em cena.
- não é tão simples assim.
- não é.
- mas é um resumo possível...
- o que me impressiona é o modo de virtualidade em que vivemos, em que nossa mente opera...
- ouvi gente dizendo: eu com uma metralhadora ali... não sobrava um...
- é triste! o grau de fantasia em que estamos operando. estamos num vídeo game.
- é uma loucura isso! na minha cabeça as coisas vão como que se encadeando em elucubrações...
- é. é uma coisa meio matrix! hahaha... tosco dizer isso, mas é!
- meio até além de matrix! a forma como a realidade vai sendo composta! de repente faz-se uma coisa que sempre foi possível fazer, na verdade, completamente evitável de se ter a necessidade de fazer! e tudo é recebido como algo extraordinário, heróico e tal! o que que é isso!?
- e toma tiro mas é tudo um vídeo game! as conexões são claras mas ninguém se importa..
- reality! esta obsessão por reality! o que vem a ser isso, afinal? será que é de uma sede inconsciente por realidade que estamos sofrendo?
- será que uma parte de nós sinaliza que estamos saturados de mentira, é?
- hahaha... piração! dá uma viagem boa isso!
- não, tudo bem,vamos viajar talvez... hahaha... mas olha só: faz todo sentido isso. vivemos num mundo dominado por tecnologia, fruto do racional...
- total. mente domina natureza!
- isso, isso, isso! compomos tudo! na linguagem buddhista, sankharizamos de maneira plena e absoluta. o mundo é o que nós fazemos!
- total sentido. o que a mente faz? cria, compõe... a realidade nós é que fazemos.
- e aí, num nível tudo funciona normalmente. mas alguma coisa em nós pede terra. alguma coisa precisa ser tocada de verdade. mas está atrofiada, esquecida...
- isso remete a...
- exato! desvios de comportamento de todos os tipos no que diz respeito ao que é tátil.
- vivência obsessiva/distorcida do sexo.
- fast touch!
- hahaha... boa! fast touch. com a cabeça no sonho e o corpo no fast touch...
- por favor! mais dois sucos, beleza? obrigado.


e a coisa continuou...

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

dukkhinha

"O ano que vem vai ser uma chatice...!"
"Que isso, filho!? Por quê?"
"Ah, o Huguinho vai voltar a morar com o pai dele e talvez mudar de escola... O Luizinho vai para a turma da manhã..."
"E daí...!?"
"E daí, pai!? Eles são meus melhores amigos!!"
"Ah, tá...! Vai ter saudade, né?"
"Lógico!"
"Antes de você conhecer, eles já eram seus melhores amigos?"
"Claro que não, né pai!? Dãaa...!"
"Então, com a saudade não há muito o que fazer... Mas há um monte de melhores amigos que você ainda não conhece por aí...!"

***

Podemos passar a vida sem perceber isso: julgamos o futuro sempre com base no como estamos agora.

domingo, 7 de novembro de 2010

house X a mente quieta, a espinha ereta e o coração

Acho que é do funcionamento da mente esta aversão pela passividade. A qualquer estímulo a mente reage querendo algo mais do que aquilo que há.
Começar a entender que o fruto do cultivo da mente ensinado pelo Buddha é resultado de observar as coisas serem como são é algo que, paradoxo talvez, exige uma dose cavalar de esforço e boa vontade. Queremos, lá no íntimo, que a observação resolva para nós! Mesmo no estado de observação subsiste a natureza de querer que algo aconteça. Mas o Buddha ensina que nada vai acontecer antes que suas condições estejam presentes. Muitas fora de nosso controle. E uma delas a passividade. Mas aceitar isso chega a doer. E essa dor é mais uma coisa a observar. Assim como o é o desejo de que a dor passe.
O primeiro episódio da sexta temporada de House MD, chama-se Derrotado, é a ilustração de um aspecto disso. Permanecer na derrota até que se aprenda algo ao invés da busca frenética pela compensação da vitória. O poder da desistência. Porque não é hábil vencer o tempo todo. Além de não ser possível.
Ouvi de quem entende do assunto que ninguém subjuga um cavalo. Não ao menos quem aprecia ter um cavalo ao invés de um animal destruído. É preciso o entendimento. Um diálogo humilde deve ser estabelecido entre montador e montaria para que ambos se reconheçam e se aceitem. Só aí o cavalgar surge.
Temos que, humildemente, nos entender com as condições que nos mantém aqui. Compreender pela mera observação depende de verdadeiramente acolher àquilo que é tal como é. Parece que não há como ser de outra forma, não de um modo real, ao menos.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

vencer

No satipatthana sutta o Buddha nos ensina a prática integral. Sobre tudo a faculdade de contemplação e reflexão pode ser aplicada e gerar conhecimento. Aquele conhecimento que nos levará ao Despertar.
O que eu tento aprender da contemplação das últimas eleições? Porque eu quis evitar, mas não consegui, me restou refletir... Da reflexão, até gerei esperanças.
Vimos que condenar a mentira e mentir, condenar a dubiedade e ser dúbio, condenar a vacilação e vacilar, a maquinação e maquinar, a censura e censurar, o disfarce e disfarçar, ou seja, tornar-se aquilo que se combate não levou a nada. Infelizmente? Em um sentido não há como saber. Mas felizmente se isto servir para cada um de nós, do lado de cá, a perceber que ser aquilo que se diz é o que devemos tentar. Pôr nossas convicções a frente de nossas metas. Princípios, uma questão simples de ter princípios e vivê-los, custe o que custar.
Pode ser que os motivos que listei não determinaram a vitória nem a derrota... Mas é uma forma de enxergar o fato que me é mais útil que nutrir qualquer esperança. A não ser aquela em relação a mim mesmo...

segunda-feira, 15 de março de 2010

all day, all day... domino dancing

Quando eu era criança houve a onda do dominó. Uma série de reportagens no Fantástico sobre pessoas que montavam aquelas longas e belas imagens de dominós que caíam durante hipnotizantes minutos. 
O Fantástico era fantástico!
Aquele negócio de outro mundo ficava na minha cabeça pela semana e as tardes depois da aula  eram animadas pelas minhas próprias elaboradas sequências. Conseguir mais caixinhas de dominó era uma necessidade tremenda.
Mas, em momentos mais contemplativos, que não eram raros na minha infância, estas imagens serviram para que eu construisse uma visão da realidade que me cativa até hoje: o mundo é como uma sequência de dominós! Uma queda sem fim (nem começo)! Passei bons momentos "vendo" tudo a minha volta desse jeito...
Lembrei disso agora ao acabar de ler este texto do Marcelo Gleiser. 
Não sei exatamente porque lembrei... Talvez o fato de ele defender a importância da assimentria tenha me remetido ao desequilíbrio que é o imperativo para a queda dos dominós...

sábado, 23 de janeiro de 2010

ānāpānasati


inspirando. expirando. inspirando. expirando.
a vida, enquanto isso.
desatento ao tudo que a respiração revela
a vida passa...

"tudo é impermanente! sinta!" é o que, insistente, ela nos fala
inspirando, expirando... "não percebe que se esvai?"
inspirando, expirando... "o que resta nas tuas mãos de sêde sem fim?"
o veloz movimento, o seguir dos fenômenos,
serenamente me ensina, a pacífica respiração
inspirando, expirando...
segue

"impossível de reter!"
tão clara esta segunda mensagem!
o mundo, e eu em volta dele

revolve em seu ritmo o mundo, caudaloso turbilhão de aparências,
corredeira irrepresável de causas e condições
com total descaso arrasta o displicente
inspirando, expirando
se tranquila, a mente não afunda
nem a leva a correnteza
se atenta inspira e expira
acomoda-se, em paz, na sábia e poderosa rendição
se desperta, aprende, a não sonhar, acordada, o sonhador

se despertando inspira e expira
vê que a morte leva tudo que teima em resistir
se despertando inspira e expira
vê que no fim é onde amarga a ânsia de um princípio
e a dor é o que sobra da posse do prazer
se contente inspira e expira
permanece suave e satisfeita
no conhecimento pleno da insatisfação
do inspirar expirar sem fim
do universo que o corpo abarca

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

ano novo, impermanência e morte

O ano acabou em chuvas na minha região. Nuvens carregadas estragaram a festa de muita gente. E muita gente começa o ano sem casa, comida, dinheiro e saúde. Alguns sem vida. A situação mais triste é de uma cidade patrimônio histórico do estado de São Paulo: São Luís do Paraitinga.
Construções da época colonial ruíram devido a enchente que cobriu a maior parte da cidade. A igreja matriz foi completamente destruída. Foi ao chão. Casas, pontos de comércio, histórias apagadas. Gente que começa o ano no zero.
Uns dias antes do desastre, eu passei duas vezes pela entrada da cidade. Estava tudo bem. Construções de pé, vaquinhas pastando, rio correndo. Aí, veio o réveillon.
Quando eu era moleque tinha a mania de pensar: como estarei daqui a dez anos? Tinha a sensação de que eu seguiria seguramente pelos anos afora e em dez estaria de tal ou qual forma.
Hoje é diferente.
Estava no trabalho, ontem, pensando em uma data que virá daqui a alguns meses. Um evento. E tive uma clara sensação do quão estranho é pensar assim. Uma sensação de absoluta incerteza. Como eu posso saber se estarei aqui em alguns meses? Sem verbalizar desta forma, foi o alerta que piscou na minha mente. Isto, curiosamente, não implica em aflição, tristeza, morbidez. Há um senso sutil de séria consideração pelo momento presente. De reconhecimento e reflexão sobre o fato de que neste processo que sou eu, nada vai sobreviver até lá, mas cada ato, pensamento, fala, intenção e hábito será o condicionante daquilo que surgir. Daqui a pouco, amanhã, mês que vem, daqui a dez anos, depois de uma tragédia...

Speech by ReadSpeaker