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Buscando...?

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

hoje eu acho engraçado...

Ouvir este áudio trouxe a lembrança da história que conto a seguir.
Foi a alguns anos atrás.
Convidado para uma comemoração (não lembro bem do quê) em um sítio ou chácara aqui na minha cidade. Na região são muito comuns estes imóveis usados para fins de semana, festas e tal.
O local ficava bem longe, lá no fim do nada de uma cidade que tem um grande quase nada em volta de um centro bem pequenininho.
Fomos lá. Eu, mulher e filhinho bebê. E a concunhada que sabia o caminho.
Buracos e lama, mato e boi, mais buraco, mais lama, passarinho mato e boi e chegamos.
Aquela gentarada animada. Familiares, amigos, conhecidos e conhecidos dos conhecidos. Música. Comida. Bebida. Jogos e diversões. O local tinha uma infraestrutura e tanto! Uma maravilha. Para quem gosta deste tipo de maravilha.
E eu lá, no meio de toda aquela alegria e diversão. Ansioso pela hora do "obrigado por ter vindo, até a próxima, tchau!"
Até que eu aguentei por um bom tempo daquela vez.
Mas consegui arrumar uma encrenca e, para mostrar pra eles como eu era um cara marrento, decidir ir embora! (como se todos que me conheciam esperassem outra coisa!)
Quer ir? Vai, ué! Mas deixa o carro que aqui parece que só tem dois horários de ônibus: um em que ele vem e outro em que ele vai. Com criança pequena não dá para ficar dependendo disso e nem vou encher o saco de ninguém por carona...!
Ah! É?!
É.
Bom, e agora? Encrenca arrumada e palavra dita, o que que o cavaleiro da triste figura podia fazer? Um camarada assim, de opinião, carioca e tal...
Olhei pro céu: nublado do jeito que eu gosto! Um ventinho fresco...
Então, tá! Fui!
Quando pus o pé na estrada, do lado de fora da porteira...
Antes disso eu havia considerado a idéia de esperar pelo ônibus, mas o risco de ficar ali até a hora de ver o pessoal passando, indo embora, foi uma hipótese que não me agradou.
Pondo os pés na estrada (e na lama), uma estrada e tanto, respirei fundo e uma sensação extremamente legal começou a surgir.
Não era o chutão no balde, nem sair, era uma coisa boa de deixar algo para trás, de abandonar uma situação, para mim desagradável, com tudo o que tinha nela. Sem levar nada. Um gozar da liberdade de ter pés. Um adios amigos maravilhoso!
Fui andando e andando. Estufando o peito. Ainda conseguia murchar a barriga mas já não havia muitos cabelos ao vento. E deixando tudo: a encrenca, a chatice, a raiva, até a vontade de ir embora. Era só o que eu queria, andar e desfrutar daquele momento de soltura de tudo. Eu e a estrada. E que todos fossem felizes.
Mas que não me chamassem para a festa.
Já envolvido com o budismo, foi de imediato que romantizei o momento...
'Deve ser esta a sensação de deixar a vida laica! A renúncia! Deixar a opressão do mundo!'
E seguia eu viajando.
E tempo e espaço para viajar não me faltaria. A solidão ampla e vasta, vasta e vasta. Mais ou menos meia hora de carro. A pé foram horas inteiras. Sem ter me preocupado em aprender o caminho, duas vezes fiquei meio preocupado com escolhas que tive que fazer. Mas não me perdi.
O que mais me marcou da experiência, além do que veio mais pra frente, foi o completo sossego de toda a aporrinhação que eu sentia. Tendo tomado atitude tão intempestiva, quando eu pus o pé na lama, pronto! Arrefeceu-se completamente o mal-estar, surgiu uma surpreendente alegria. E assim foi, lentamente, tranquilo e calmo, que cheguei no portão de casa.
E a vida voltou ao normal.
Até mais ou menos uns dez dias depois.
Uma dor tremenda me travou a perna esquerda, da junção da coxa com o quadril até a lateral do pé, perto do dedinho!
Putz, como doía aquilo!
Quase precisei de uma cadeira de rodas para ir ao ortopedista!
Diagnóstico: inflamação do nervo ciático. Fruto da combinação de um sedentarismo pétreo com um esforço intenso e repentino.
Além de pílulas, houve uma sequência de injeções tão doídas quanto a dor a ser curada. A primeira que tomei foi no glúteo direito e saí da farmácia mancando das duas pernas! Coisa antológica!
Mas como tudo na vida, passou. Não sem deixar consequências. Como tudo na vida.
O nervo nunca mais foi o mesmo, como eu também não. Mas enquanto ele me permitir o lótus completo, não fico tão triste.
Tenho a impressão de que meu índice de APM (asnidades por minuto) tem diminuído.
Outras festas vieram.
De algumas eu até gostei.
E em todas eu fiquei até o fim!
A dor ensina.
O prazer ensina.
Mas é a percepção e a aceitação da coexistência inevitável dos dois o que ensina mais.
Eu acho.
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