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quinta-feira, 19 de agosto de 2010

mentira (de novo! fazer o quê?...)

Terminei de ler o livro "O  Que Nos Faz Felizes" do psicólogo americano Daniel Gilbert (Editora Campus/Elsevier). Resumindo, o livro fala sobre como nos iludimos na busca pela felicidade devido às falhas de percepção que temos.
Lê-se na página 149:

Se tivéssemos a experiência do mundo exatamente como ele é, cairíamos numa depressão tão grande que não conseguiríamos levantar da cama pela manhã, ficaríamos tão desiludidos que seria difícil achar nossos chinelos. É possível que tenhamos uma visão cor-de-rosa do mundo, mas essa visão nem é opaca nem é muito clara. Não é opaca porque precisamos ver o mundo para participar dele, para pilotar helicópteros, fazer a colheita do milho, trocar as fraldas dos bebês e todas as outras coisas que os mamíferos precisam fazer na luta pela sobrevivência. Mas também não pode ser muito clara, pois precisamos de um pouco de rosa para projetar os helicópteros ("Tenho certeza de que esse negócio vai voar"), plantar o milho ("A safra deste ano será ótima") e ter os bebês ("Que coisinha mais linda!"). Não podemos abrir mão da realidade, mas também não podemos abrir mão da ilusão. Cada uma tem seu propósito, e cada uma impõe um limite ao domínio do outra. Assim, nossa experiência do mundo resulta do compromisso fechado entre essas duas fortes concorrentes.

A ideia é desenvolvida em todo o livro mas na página 154 há o seguinte:


No final das contas, o cérebro e o olho talvez tenham uma relação contratual na qual o cérebro concorda em acreditar no que os olhos vêem, mas, por sua vez, o olho concorda em ver aquilo que o cérebro quer.


Quem tem passado por aqui deve imaginar que estes foram meus trechos preferidos do livro. Está certo. Foram. Acho legal que as disciplinas que estudam a mente acabem sempre esbarrando nalgumas verdades buddhistas.

Mas o autor para por aí.
Terminei o livro com a sensação de que sua proposta é que cheguemos a uma resignação com esta nossa, segundo ele, imutável condição de simbiose com a ilusão. Temos que aceitar que entrar em acordo com a ilusão é a forma de ser feliz e, todas as vezes que nos desiludirmos em função desta inescapável necessidade, podemos extrair algum consolo do prazer de saber que é assim que as coisas são. Ou seja, estou perdido, mas pelo menos eu sei que estou perdido e este saber é fantástico!
E há quem considere o buddhismo uma visão pessimista da vida!
Entendo o buddhismo como sendo, fundamentalmente, uma doutrina de transformação pela percepção/conhecimento. Afiamos a mente tanto em termos perceptivos quanto cognitivos através do cultivo da atenção reflexiva/vigilante.
Assim, onde para o autor, começa o Buddha.
A felicidade de saber que não há felicidade no mundo  não surge de saber que  não há felicidade! 
Há o nibbana.
O nibbana declarado pelo Buddha é um objeto da mente. E segundo o Venerável Ajahn Buddhadasa, muito mais acessível do que séculos de elucubrações metafísicas acabaram ocultando! O Buddha, quando nos diz que ao continuarmos buscando a felicidade da forma que buscamos só vamos ter problemas, afirma como 'opção' a felicidade real . Saber que não há felicidade no mundo é apenas a primeira parada rumo a felicidade. 
Deste ponto deveríamos levantar a cabeça e mirar os olhos na direção que o dhamma aponta!
Eis o ato que requer um esforço colossal da maioria dos humanos: considerar a possibilidade de um tipo de felicidade que não seja nos moldes do 'mundo'. Um tipo de felicidade que não dependa de ganhos parece até assustador para nós! Mesmo quando nos 'espiritualizamos' continuamos a conceber a felicidade da forma que sabemos: paraísos, sensações, lugares maravilhosos! Nossa versão de felicidade espiritual não consegue ser mais do que uma hipermundanidade. Continuando a nossa busca por felicidade nos mesmos moldes de sempre, a prática buddhista que para mim é uma espécie de desaprender os caminhos do mundo, em especial aqueles para a felicidade, é corrompida e rebaixada a um paliativo para a tristeza que resurge, para a frustração que resiste, para a insatisfatoriedade que permanece oculta da mente e ativa, como sempre foi, no coração. 
Um buddhismo para uso tópico.
Eu acho que temos que fazer uma escolha: ou ficamos na nossa versão do caminho do meio que é um vagar bobo e assustado entre aquilo que o dhamma revela e a nossa zona de conforto que sabemos ilusória ou damos o passo no Caminho do Meio do Buddha que requer alguma coragem para, ao menos, procurar por uma felicidade que não dependa de resignação com a natureza irremediavelmente ilusória do mundo.

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