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quarta-feira, 25 de novembro de 2015

O Descaminho Do Bodhichátova

É um tipo numeroso. Você provavelmente conhece um. Quer ele se denomine bodhisattva, cristão piedoso, rotariano, espírita caridoso ou o que for. 
Ele ou ela se orgulha da própria bondade, humildade, modéstia e generosidade. Um nobre, enfim. 
O bem que faz continua sendo ótimo para aquele que recebe, mas vá conviver com o tipo. Uma benção para os distantes, um tormento para os próximos.
Não raro uma pessoa autoritária, dona da verdade, aquela que sabe. A que nos contempla do topo do monte, de onde nos prega, guia e salva.
No início do meu buddhismo, essa coisa do bodhisattva sempre me incomodava. Não engolia essa obrigação de iluminar o universo. Com o tempo e o estudo, compreendi melhor a coisa e convivo bem com a ideia hoje. Ao meu modo.
É que pensar nos outros é funcional para o Despertar. 
Simples assim. 
Uma vez que o Despertar é ou se revela fundamentalmente ao desfazer a ilusão de que existe o ego, pensar nos outros é um modo prático de ir esmerilhando a ideia do eu.
E não é só isso.
A bondade é funcional. O bom humor, o otimismo, a alegria também são. 
É a arte de fazer limonadas.
Contemplar o vazio de um refrescante copo de limonada é muito mais fácil que de um azedo limão.
Saber da desgraça que é a vida é básico. Identificar e valorizar o que há de tolerável e bom na vida é funcional para acabar com esta mesma desgraça.
Para meditar, preciso de uma mente contente. Parece que há mesmo raízes biológicas no sentir-se bem ao fazer o bem, já li isso em algum lugar. Logo...
Aquele tipo do qual comecei falando é um dos imbróglios do querer ser bodhisattva, que nos deixam ressabiados com essa coisa de abnegação. Porque é a distorção em pessoa a nos expor à perigosa falácia do desprendimento. Nós todos, no íntimo, sabemos do quase absurdo que é a ideia de fazer o bem sem esperar algo em troca. Queremos sempre algo em troca. Fazemos o bem para sentirmo-nos bem, no mínimo. Ao menos aqueles de nós que são sinceros e não altamente realizados. 
Ao eu, que imaginamos ser, alimentamos com a ideia da santidade.
Muito melhor, me parece, é fazer o bem porque é bom para mim: medito melhor. 
Se estou em paz na vida, se me permito a alegria de dar água ao beija-flor, que é um bichinho feroz e violento, medito melhor; se me permito a alegria de contemplar a beleza da flor, este estágio que prenuncia sua morte e apodrecimento, medito melhor.
E vamos vivendo, fazendo o bem. Reconhecendo e aceitando nossa realidade, tudo fica mais pacificado.
Estou numa fase de grande interesse pelo dzogchen, em grande parte porque do que vou elucubrando das preleções do Bhikkhu Kaṭukurunde Ñāṇananda, acho que o dzogchen está lá, nos suttas antigos. Lendo bastante sobre o assunto, passei pelo seguinte trecho do ótimo livro de um dos vários mestres do buddhismo chamado mahayana que transitam por essa prática:

"Muitas vezes, em nome do amor, acabamos desenvolvendo um ego enorme, quando o queríamos pequeno. A motivação é o nosso bem-estar, não o de nossos semelhantes. Ajudar os semelhantes, sem dúvida, nos deixa felizes por nossos atos, mas, como o ovo e a galinha, a questão é o que vem primeiro, qual é a nossa intenção original. Portanto, não se apresse a doar cegamente todos os seus bens materiais. Aos poucos, descobrirá o que realmente quer entregar ao mundo e aos outros. Faça o que tem a fazer sem deixar nada para trás e sem se forçar de maneira alguma. Vá devagar, avaliando bem suas ações."

por Gyalwang Drukpa
Editora Pensamento

Todos apreciam e gostariam de ser salvadores do universo. Eis o sucesso dos filmes dos Vingadores a demonstrar.
Mas é essencial voltarmos nosso olhar equânime e compassivo para a nossa própria necessidade de salvação.

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