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quarta-feira, 11 de novembro de 2020

Vontade de Escrever: pós-samsara?

 


Faz quase três anos que escrevi aqui pela última vez. Muita coisa aconteceu desde então, muita coisa acontece o tempo todo, mas no sentido de provocar espanto como as que vem se sucedendo, não. 

Pra começar, as pessoas com medo, ódio, ignorância ou ressentimento para com a realidade intensificaram suas conexões e interações via internet. E outras pessoas descobriram que aquelas formam um capital valioso. Daí que gente como Donald e Jair, para ficar nos mais conhecidos por nós e nas consequências mais aterradoras desse movimento, se elegeram presidentes de seus países com discursos e ações que agradam e fomentam o tal capital valioso.

Nada mais samsárico que isso:

- Parte da humanidade dedicada a extrapolar o conceito de projetar um mundo em acordo com sua visão distorcida pela ignorância e acreditar que vive nele. Tipo um pós-samsara, pra usar uma prática comum dos nossos modos de comunicar: inventar termos e palavras novas para aquilo que é só repetição do que sempre foi.

Nesse pós-samsara, a realidade deve ser uma opção pessoal. Ao menos até que surja uma pandemia e nos desperte. Desperte alguns de nós, na verdade. Muitos seguirão, ao que parece, até o fim em seus delírios.

E foi, em grande parte, esses acontecimentos que tanto me mantiveram sem vontade de escrever quanto me fizeram ter vontade agora de esboçar alguma coisa que poderá vir a ser mais desenvolvida no futuro.

Vai que alguém passe por aqui: oi!

domingo, 28 de abril de 2013

brevis

não há problema em dizer 'eu'. 
'eu vou', 'eu sou', 'eu quero'.
o problema é que sentimos que há tal entidade. culpa da ignorância, o escuro que impede a percepção do que surge e cessa incessantemente.
a escuridão da ignorância é a condição para tudo que existe no mundo. avijja paccaya sankhara.
só isso já é tarefa para alguns dias: olhar para o entorno e tomar consciência da escuridão.



visite +Bhante Katukurunde Ñanananda 






sexta-feira, 22 de junho de 2012

por que que a gente é assim?

não sou um grande leitor de suttas. 
na maior parte das vezes que vou a um sutta é porque ele foi, todo ou em parte, comentado em algum texto que eu esteja lendo. e aí eu fico maravilhado pela perspicácia do Buddha, pela beleza e profundidade da metáfora e, quase sempre, por eu já ter passado por ali e não ter apreendido toda a nuance do agora tão completo ensinamento.
por eu conhecer pouco os suttas eu não deveria expressar a ideia que vou mesmo assim.
ainda não vi o Buddha dizer que o mundo é perfeito.
ainda não vi o Buddha dizer que a natureza das coisas é bela. que tudo é maravilhoso em si. ainda não vi o Buddha dizer para nos fazermos abertos à mágica da vida.
o que sempre encontro é o Buddha falando da necessidade do desapego, do desencanto, da temeridade do surgir e cessar dos compostos, da vanidade da beleza, da doença, do envelhecimento, da morte e da absoluta necessidade do escape disso tudo.
mas não é raro eu ver textos de dhamma falando as coisas que eu ainda não vi o Buddha falar.
mas, se eu não estiver escrevendo (mais) uma grande besteira, por que o Buddha não falava, então?
porque Ele sabia como a gente é.
é porque Ele sabia que daríamos um jeito de elucubrar formas absurdas para despertar e continuar dormindo. Ele sabia da nossa incomensurável preguiça e sono. Ele sabia que a mais tênue sujestão de concessão ao samsara iria prevalecer sobre qualquer milhar de conselhos que desse para abandoná-lo. 
então, mesmo que o Buddha não tenha feito tal concessão, como eu disse, não sou qualificado para afirmar isso, ela foi achada e nós nos aconchegamos nela sempre que podemos ou descuidamos.
e a noite nunca tem fim. 
preferimos tais abordagens e nos encantamos na sua profundidade. aquelas vindas de mentes que superaram a dualidade. que afirmam a maravilha do surgir e cessar, a mágica do existir, o fulgor, a intensa beleza e possibilidades que a vida nos oferece. isto sim é a sabedoria que combina com o modo como sabemos ser. nos é agradavelmente enlevante. aí não é a vida que é imperfeita, nós é que não sabemos enxergar sua perfeição, afinal podemos escapar da prisão e continuar nela, como um pasarinho capaz de voar carregando a gaiola consigo.
eu vou continuar buscando pela condescendência do Buddha.
enquanto não a encontro, prefiro me manter empenhado em um dia compreender "sabbe sankhara dukkha".
e pedindo para que, por favor, me ajudem a corrigir meu possível erro.

sexta-feira, 9 de março de 2012

meu mantra

somos todos uns pobres diabos.
adoro esta frase.
muito por tê-la lido do saramago. mais por ecoar o que tenho apreendido do Buddhadhamma. ela me é como um mantra.
o girar da vida a minha volta e dentro de mim é quase sempre no sentido oposto ao Dhamma do Buddha. um sinal deste giro contrário é a forma como nos vamos apegando aos saberes que acumulamos. cada novo saber é um tijolo, uma pá de concreto na estátua do ego. "Eu sei isso agora!" comemoramos, e está posto mais um peso sobre esta carroça de rodas quadradas que puxamos para todo lado.
sempre que me pego carregando a minha eu recito: somos todos uns pobres diabos. 
não sei muita coisa que efetivamente me alivie o peso. e não quero mais peso sobre a garupa. aquilo que vou descobrindo, que seja mais um retirar de ignorância do que um acrescentar de saber.
é difícil reconhecer que sou filho de avijja. mas a única forma de sair de baixo das enormes asas de mamãe é aceitando-a e compreendendo-a.
somos todos uns pobres diabos.
o que efetivamente sabemos que nos tire o amargo da boca quando comemos muito chocolate? 
qual o conhecimento que nos tranquiliza quando na insônia nos vem a lembrança de nosso destino certo: uma doença horrível, uma perda, a tumba...? 
o que eu sei que não possa ser dito ou pensado ou conceituado mas apenas organicamente sentido como paz no corpo e mente?
quanta tralha eu ainda preciso tirar da carroça antes de efetivamente abandonar a própria com suas rodas quadradas?

segunda-feira, 4 de julho de 2011

sem graça

Acharam que eu não fosse mais escrever por aqui. Eu também achei. Há estes momentos na vida: a graça some de onde havia. Depois volta. Este último ainda não é o caso.
E, para mim, tem havido fases de uma sensação de imersão tão acentuada no dhamma que a realidade ocupa o espaço todo. Não sobra muito tempo para pensar na vida.
Mas numa das subidas em que esqueço de lembrar que respiro, eis que conversava sobre esta, para mim, curiosa onda de alegria que assola o nosso avijja ambient: tem muita gente engraçada por aqui. E eu digo na mídia, especialmente TV. Muitos programas de humor, muita entrevista engraçada, muita novela engraçada, jornal engraçado, reportagem engraçada, concursos de piadas, graça para todo lado! É só uma impressão, pois eu fico sabendo que estão assistindo TV muito mais do que eu mesmo assisto. E ouço os comentários dos momentos hilários que são transmitidos e vejo as pessoas rindo. Não acho que rir seja algo sempre ruim, óbvio, nem me incomodo com a alegria alheia mas, no meu mundo, a Terra da Alegria está no mesmo continente do País da Estupidez.
Comentava o assunto com alguém que disse que "é por que a vida é triste..." Será? Não sei. Se for por isso ela deve estar mais triste do que sempre foi?... O que eu sei é que me enjoa. Rir demais cansa. Preciso de um pouco de tristeza vez em quando. E olha que enquanto pensava sobre o assunto, que interessante, me apareceu este texto que joga uma luz sobre uns pontos a que minha lanterninha não alcança. E, cereja do bolo, finalmente assisti ao Tropa de Elite 2 que é uma aula, do meu ponto de vista, dentre outras coisas, de auto-engano e boas intenções gerando maus efeitos, além de um balde de água fervente na alegria que se possa estar sentindo, menos aquela, talvez, de contemplar o fato de que não há felicidade no mundo.
Dito isso, a que conclusão posso chegar? A nenhuma! Desculpe a quem tenha insistido até aqui. Mas eu avisei, lá no começo, que as coisas estavam meio sem graça por estas bandas...

quinta-feira, 21 de abril de 2011

palavras

Lutar com palavras é a luta mais vã.
Fiz este copy/paste do Drummond porque foi do que eu lembrei enquanto refletia na dificuldade de expor o dhamma. 
Nenhuma novidade. 
É uma coisa repetida desde Lao-Tzu "o tao que pode ser proferido não é o tao eterno". Mas, nenhuma novidade também, nos emaranhamos repetidamente nas palavras, quer seja tentando compreender, quer seja tentando explicar. E se ficarmos satisfeitos com a explicação que recebemos ou damos pode ser sinal de que não entendemos, ou tínhamos entendido, realmente.
Queremos saber, por exemplo, o que é a mente. E lá vão e vem palavras e mais palavras, construções, raciocínios e o embolo só aumenta. 
Não é que as palavras sejam dispensáveis. Se o fossem o Buddha não teria passado mais de 40 anos pregando. Mas empacamos no meio do caminho entre as placas sinalizadoras que são as palavras e o caminhar efetivo que conduz ao entendimento. Voltamos as costas à trilha e ficamos a decifrar os sinais, suando os miolos.
Catamos palavras como se com conchas colhêssemos porções do oceano na tentativa de entendê-lo. Palavras são pedaços da imagem que compomos da realidade. Engrenagens e ferramentas que mantem o mundo do jeito que nos aparenta ser. Enquanto que o mundo que o Buddha vê e revela é um fluxo contínuo de manifestações experienciáveis das quais, viciosamente, insistimos em nos por a parte. Se Ele fez um recorte, se tentou uma palavra, é só porque não havia outro jeito a não ser render-se  à nossa limitação. 
Precisamos das palavras. Precisamos ler, estudar, debater, dialogar mas sem nos emaranhar. Sem confundir. Sem a esperança de que vamos entender alguma coisa do que o Buddha falou antes de ter experienciado lá onde as palavras não chegam. Lá onde não há lutas vãs. Na paz de uma mente incompreensivelmente pacífica e lúcida. E de uma forma que não consigamos expressar.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

uma dose de Bukowski e muito dhamma

paro
não importa o quanto corram, eu vou devagar
e paro

ouço
não importa o quanto chamem, eu ouço

não importa quantos sabores criem
quantos modelos
quantos recursos
quantos aplicativos
de quantas necessidades precisem

não importa quantas festas
quantos shows
quantos bares
quantos assuntos
quanto barulho
quanta tv

eu não ligo
eu não vou
me basta o bastante

não importa quanta realidade inventem
quantos jogos
quantos programas
quanta disputa
quanto celebrem
quanta celebridade
eu ignoro

não importa quanto tocam
quanto compoem
quanto vibram
quanto pulam
quanto gritam
quanto cantem
eu silencio

e eu recuso os panetones de setembro
os ovos de páscoa de fevereiro
as canjicas de abril
e as micaretas todas

os amistosos
os preparativos
eu recuso

eu me enraízo
e abdico da razão
eu não penso enquanto caminho
eu sinto meus pés no chão

meditação, meditação...
quase ninguém percebe que
O Buddha
ao despertar
tocou a terra

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

cinco agregados

Os nomes são forminhas nas quais congelamos os fenômenos no tempo e no espaço. 
Como fazemos com os Cinco Agregados. 
O Buddha nos diz que somos meramente um conjunto de cinco: corpo, sensações/sentimentos, formações mentais/pensamentos, percepções e consciência. Não é forte o entendimento de que então, oras, podemos ser divididos nessas cinco 'coisas'? Nos imaginamos como um constructo de onde podem ser tirados, um a um, estes componentes.
Mas acho que não é bem assim.
A mente agarra qualquer fenômeno do qual se conscientize. E nomeia, congela e separa: isto, aquilo, aquele, aquela lá... Assim é como faz com os agregados que o Buddha listou. A qualquer cousa que surja para a mente e que possamos identificar como 'meu/eu/meu eu', eis um agregado embalado em upadana. Por exemplo: me 'identifíxo' com(o) meu corpo, meu sentimento/sensação, meus pensamentos, minha percepção, minha consciência. A cada vez que um (ou mais) surge, congelamos e compomos um eu com base nisso. E se há tal objeto precisa haver um eu possuidor/observador. É assim. Eis eu.
Eu acho que o que o Buddha quis dizer foi que estes fenômenos transitórios e compostos, como quase todo o resto, que ele chamou agregados, são por onde nos vemos como seres. Não é que sejam pedaços do ser. São sim eventos que a mente pontua e discerne no processo de existir. Cenas da peça que encenamos e que chamamos minha vida.
O Buddha declara cinco agregados. Eu não consigo ver mais nenhum. Se alguém encontrar, tudo bem. Certamente será mais um objeto "eusificado/eusificante".
Então, o caminho do despertar não é o de separar estes agregados mais do que o de perceber como a mente interpreta estas diversas formas de engendramento do eu, do mundo. É perceber como se dá a construção de um personagem com base nestes fenômenos distintos e identificáveis no contínuo do existir. É deixar a mente fazer o trabalho dela, que é conhecer. Este é o objetivo da meditação. Porque existe a ignorância que impede a mente de experienciar os agregados tal como são. Porque encapsulamos as coisas, congelamos e separamos. É um ciclo, mesmo. Repetitivo. Não é só o meu texto que é tosco. É avijja que é assim! Seguimos congelando repetidamente e nos mantendo cegos para o fato de que tudo é um ir vertiginosamente dinâmico e sem identifixidade.
E por conta disso, talvez a pergunta surja: mas quem medita?
Estritamente falando, ninguém. Mas não gosto de acabar com declarações pseudoprofundas e repetitivas.
Não há um que medite.
Começa lá atrás, com uma tomada de consciência de que algo não está bem. Achamos que há um eu que sente, tudo bem. Aí conhecemos o ensinamento do Desperto, do Buddha. Começamos a meditar. Achamos que "eu" meditamos. Tudo bem. Estudamos, entre outras coisas, os Cinco Agregados. Achamos que há um eu composto pelos Cinco. Tudo bem. Se continuamos a meditar e estudar, poderemos experienciar, vez ou outra e definitivamente todo o descrito até aqui livre de uma falsa terceira pessoa, que para nós sempre foi primeira: o eu. E revelarse-a, então, só o acontecendo: inspira, expira; tomada de consciência; inspira, expira. Sem primeira pessoa, nem segunda, nem terceira. A experiência acontecendo e absolutamente impossível de ser capturada e posta na forminha.
Tudo bem.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

vencer

No satipatthana sutta o Buddha nos ensina a prática integral. Sobre tudo a faculdade de contemplação e reflexão pode ser aplicada e gerar conhecimento. Aquele conhecimento que nos levará ao Despertar.
O que eu tento aprender da contemplação das últimas eleições? Porque eu quis evitar, mas não consegui, me restou refletir... Da reflexão, até gerei esperanças.
Vimos que condenar a mentira e mentir, condenar a dubiedade e ser dúbio, condenar a vacilação e vacilar, a maquinação e maquinar, a censura e censurar, o disfarce e disfarçar, ou seja, tornar-se aquilo que se combate não levou a nada. Infelizmente? Em um sentido não há como saber. Mas felizmente se isto servir para cada um de nós, do lado de cá, a perceber que ser aquilo que se diz é o que devemos tentar. Pôr nossas convicções a frente de nossas metas. Princípios, uma questão simples de ter princípios e vivê-los, custe o que custar.
Pode ser que os motivos que listei não determinaram a vitória nem a derrota... Mas é uma forma de enxergar o fato que me é mais útil que nutrir qualquer esperança. A não ser aquela em relação a mim mesmo...

quinta-feira, 15 de julho de 2010

mentira, mentira, mentira

Desde que comecei a ler este texto do bikkhu Bodhi, ponderá-lo e mantê-lo como referência em comparações e estudos, minha compreensão sobre os preceitos buddhistas, sobre sila, vem se transformando, ganhando clareza e fortificando minha convicção no Caminho.
E, especialmente o trecho em que ele disserta sobre o abster-se de mentir, abster-se do uso da comunicação como recurso para o engano, me gerou uma percepção que,  talvez de tão  aparentemente simples depois de surgida, me enche de uma energética alegria a cada vez que o contemplo:

It is said that in the course of his long training for enlightenment over many lives, a bodhisatta can break all the moral precepts except the pledge to speak the truth. The reason for this is very profound, and reveals that the commitment to truth has a significance transcending the domain of ethics and even mental purification, taking us to the domains of knowledge and being. Truthful speech provides, in the sphere of interpersonal communication, a parallel to wisdom in the sphere of private understanding. The two are respectively the outward and inward modalities of the same commitment to what is real. Wisdom consists in the realization of truth, and truth (sacca) is not just a verbal proposition but the nature of things as they are. To realize truth our whole being has to be brought into accord with actuality, with things as they are, which requires that in communications with others we respect things as they are by speaking the truth. Truthful speech establishes a correspondence between our own inner being and the real nature of phenomena, allowing wisdom to rise up and fathom their real nature. Thus, much more than an ethical principle, devotion to truthful speech is a matter of taking our stand on reality rather than illusion, on the truth grasped by wisdom rather than the fantasies woven by desire.

Traduzindo pode ficar assim:

É dito que no curso de sua prática rumo ao despertar ao longo de muitas vidas, um Boddhisatta pode quebrar todos os preceitos morais exceto o compromisso de falar a verdade. A razão para isso é muito profunda e revela que o compromisso com a verdade tem um significado que transcende o domínio da ética e até mesmo da purificação da mente, levando-nos ao domínio do conhecimento e da existência. A fala verdadeira provê, na esfera da comunicação interpessoal, um paralelo com a sabedoria na esfera da compreensão individual. As duas são, respectivamente, as modalidades externa e interna do mesmo compromisso com o que é real. Sabedoria consiste na realização da verdade, e por verdade (sacca) não se entende apenas uma afirmação verbal, mas sim a natureza das coisas como elas realmente são. Para realizar a verdade, nosso ser inteiro deve ser conduzido em conformidade com a realidade, com as coisas como elas são, o que requer que, na comunicação com os outros, nós respeitemos as coisas como elas são, falando a verdade. A fala verdadeira estabelece uma correspondência entre o nosso ser interno e a real natureza dos fenômenos, permitindo que a sabedoria desperte e investigue a sua real natureza. Assim, muito mais que um princípio ético, a devoção para com a fala verdadeira é uma questão de tomar posição em favor da realidade ao invés da ilusão, da verdade apreendida pela sabedoria ao invés das fantasias tecidas pelo desejo. 

E observando o mundo comprovo a onipresença da mentira.
Como gostamos de estórias.
Gostamos de todos os tipos de mentiras: desde aquelas inofensivas, contadas por aquele mentiroso compulsivo que há em quase todo grupo de amigos, aquela pessoa que sempre tem um fato engraçado, pitoresco ou interessante para contar de uma vez que aconteceu com ela, até as dos terríveis mentirosos que nos prometem tanto tantas vezes. Que aparecem a cada ciclo eleitoral com soluções arrojadíssimas para inúmeros problemas que a mera honestidade solucionaria.
Adoramos a beleza dos fotoshops, dos efeitos especiais, das maquiagens e roupas.  Adoramos os aromas dos perfumes. Nos deleitamos com os sabores da existência. O progresso nos oferta, cada vez mais, infindáveis opções de fantasias e proteções.
Dentro destas armaduras a realidade segue.
É uma opção que é feita cada vez mais às cegas. Tudo é mantido e engendrado de tal forma  a nos fazer ignorar que há algo que não se pode deter por baixo da cobertura. E é por que todos gostamos! É da natureza de avijja, o mal de que todos padecemos, gostar disso. Não é  'por mal' que mentem para nós. E porque mentimos. Num sentido mais fundamental, parece que nos enganamos porque só sabemos viver assim.
Até que alguém desperte!
Não é fácil aceitar que mentimos. Aceitar que construímos a vida, mesmo coisas das quais gostamos tanto, sobre algum(s) tipo(s) de mentira. E que até mesmo o gostar pode ser mentira! Aquele mentiroso do nosso grupo não é boa companhia? Alegre, divertido, descontrai! Faz a gente rir! Sempre está acompanhado. Quem não tem o dom de contar estórias não é tão popular. Sua vida comum e sem aventura não interessa a ninguém! Nem a ele mesmo!
Não sabemos o valor da realidade.
Nossa ignorância nos assegura que pensar em morte, envelhecimento, doença e introspecção e auto-conhecimento é uma coisa desagradável. Parece que temos que optar pela beleza da rosa ou pela matéria podre que lhe possibilita a vivacidade!
Será que precisamos escolher entre esta dualidade? Ou existe uma possibilidade de ver a inadequação que existe em ambas as aparências?
A atenção diligente nos permitirá ir além. Tanto das mentiras que nos contamos quanto da realidade que nos amedronta. Se vencermos o medo inicial e persistirmos com confiança, o Buddha nos oferece a paz de não precisar escolher. Nos diz que a visão da realidade nos liberta da dependência dos gostos e desgostos para nos sentirmos vivos. Nos livra do apreço pelas construções, pelos engendramentos que parecem dar graça às nossas vidas.
Talvez eu continue...

sábado, 30 de janeiro de 2010

born to kill

É frequente o incômodo causado pelo primeiro dos cinco preceitos dados pelo Buddha aos não monges como treinamento.
O Buddha para nós, buddhistas, foi o ápice evolutivo a que um ser pode chegar. Ele, claro, sabia que viver onde vivemos, sem matar, é praticamente impossível. 
Embora ele tenha deixado claro que matar intencionalmente é o que deve ser evitado, o problema ainda persiste: "E quando precisamos matar"?
Na minha opinião, uma das causas fundamentais deste incômodo é a nossa arraigada incapacidade de exercitar uma virtude cardinal do buddhismo, a saber, o questionamento ou não aceitação tácita daquilo que nos chega, via sentidos, de forma óbvia.
Ora, e é óbvio que, vez ou outra (?), eu preciso matar um pernilongo, uma barata, um rato, uma formiga (ou imensas quantidades destes!), sem falar em vermes, parasitas... Então, eu preciso arrumar alguma justificativa para ir contra aquilo que o Buddha me disse, um discípulo Seu, para não fazer! Não me passa pela cabeça a tarefa, muito mais complicada, de pensar o preceito sob o ponto de vista do ensinamento completo, o dhamma todo. Não me passa pela cabeça questionar a legitimidade do samsara e dos relacionamentos samsaricos. A irresistível necessidade de adaptar o mandamento do meu Mestre ao imperativo samsarico do vir-a-ser. Apesar de o Buddha ter dito, também, que é melhor abandonar o samsara...
A incrustada resistência e a instintiva compulsão por adaptar o dhamma ao nosso modo de vida samsarico são a principal fonte de nossas dificuldades no Caminho. Talvez possamos começar a diminuir o nosso medo da correnteza do dhamma refletindo sobre a nossa inquestionável precisão de matar.

domingo, 11 de outubro de 2009

Superfície

Estávamos em um grupo de mais ou menos sete pessoas. Caminhávamos de volta do restaurante para o trabalho. Num momento, em função do vai e vem dos bate-papos, um amigo me pergunta: "Você é evangélico?" E eu: "Não." "Católico?" "Não." "Você não é nada?" "Não." "O que você é, então?!" "Eu sou buddhista." "Ah, já ouvi falar... E no que você acredita?" "Eu acredito numa disciplina de vida que conduz ao fim do sofrimento..." "Acredita em Deus?" "Não." "...numa força, energia...?" "Não." "Ué! Mas como assim!? Quem criou as coisas? No que você acredita!?" Iniciei a explicação dizendo 'calma que vou chegar lá...' A partir daquele momento, uma coisa significativa aconteceu: começamos a afundar! Estávamos até então num grupo que ria, brincava, dava risada, ali, boiando na superfície. Mas então, daquele momento em diante, eu e o outro começamos a afundar. E fomos ignorados! Nossos companheiros começaram a se afastar, caminhar na frente, em silêncio e dali a pouco eu os via lá do fundo, brincando de novo!
Aquilo foi para mim uma imagem bem colorida do quanto estamos superficializados hoje. O quanto valorizamos tudo o que seja rápido, simples, prático, imediato em resultado e prazer. Tenho a impressão de que há mesmo um medo das profundezas. Parece que sabemos o quão poluída ela se encontra. Há uma determinação reinante de ficar na superfície a todo custo. Levados pelas marés, sob o calor do sol. Qualquer sombra é rejeitada. Qualquer nuvenzinha é amaldiçoada!
Mesmo nas religiões isso é uma clara tendência. Já vi gente estufar o peito e louvar a própria religião por que a prática dela não se faz 'isolando-se do mundo para meditar'... Queremos que o espiritual mostre serviço!!!
Terminado o nosso rápido mergulho, voltamos sorridentes e fomos aceitos de novo na brincadeira! Só faltou alguém perguntar: "O que aconteceu!? Vocês sumiram!!"

domingo, 31 de maio de 2009

Testemunho

Ainda há gente que relaciona buddhismo a 'erudição' e 'práticas ascéticas'!
Num país com a média per capta de leitura do Brasil, realmente não ter como ouvir o Dhamma com a frequência que precisamos, acaba por nos tornar 'eruditos'. Temos que ler, talvez, um volume acima da média de três livros por ano!! E é possível que, para alguns, treinar a introspecção e a atenção, e manter um comportamento ético com base nos Cinco Preceitos seja uma prática de ascetismo!!
Fora isso, acho que quem afirma tais bobagens padece mesmo é de ignorância. Desconhece aquilo sobre o que está falando. E, hoje em dia, isso é um completo absurdo!
Há uma imensa quantidade de sites sobre as mais variadas tradições, em trocentos idiomas.
Por que falar bobagem?
No século passado, eu lia sobre o 'hinayana' e ficava aquilo na minha cabeça: "hinayana, hinayana... Como será esse tal de hinayana?" Naquele tempo os livros eram escassos, era uma peregrinação por sebos e livrarias, contato por carta... Outros tempos! Mas eu nunca acreditei muito naquelas histórias que eu lia. Ficava era mais curioso!
Hoje aqui estou, praticante do Theravada, o ramo mais antigo do buddhismo, aquele que preserva o conjunto de escrituras mais próximo histórica e geograficamente do próprio Buddha, um pacato cidadão, pai de família, industriário, um cara normal, nem erudito, nem asceta (ainda não fui para nenhuma caverna!) que colhe diariamente os benefícios da introspecção, da modesta horinha de meditação, do comportamento esforçado, da contemplação constante das verdades reveladas pelo Buddha e que acredita que o nibbana é uma meta tão desejável (e realizável!) hoje quanto era e tem sido por mais de dois mil e quinhentos anos!
E até escrevo num blog!
Se você chegou aqui clicando pelo mundo virtual, não considere algo confiável. Por isso mesmo há uma lista de links aí do lado para que você comece a construir a sua própria opinião e conhecimento.
Como eu disse, sou apenas um pacato cidadão que resolveu colocar o seu grãozinho de areia no caminho para que outros saibam que, entre outras coisas, esse papo de erudição e ascetismo é uma furada e pode impedir muita gente, por um tempo pelo menos, de conhecer um caminho digno e, principalmente, plenamente possível de ser trilhado.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Atroz é Avijja

Diante deste fato absurdo que vitima mais uma criança, como outros que vêm numa sequência assustadora nos torturando pelos últimos anos, como pai, são o horror, o medo e a dor as reações imediatas a um tiro disparado contra a cabeça de uma menina de oito anos de idade por um rapaz de 17 em um assalto numa cidade de SP.
Como buddhista, entendo que preciso ir além da reação natural e espontânea.
Acredito que, de acordo com o que o Buddha ensinou, não devemos aceitar a distância que imediatamente surge entre nós e os 'monstros' que protagonizam tais atrocidades. Antes, me parece ser mais realista e de acordo com o Buddhadhamma, examinar as nossas mentes buscando identificar aquelas sementes ruins que, se nutridas, dariam os frutos apodrecidos de ações abomináveis como estas. Identificar à nossa volta quais são as condições que tornam possível essa safra maldita que temos colhido tão frequentemente. Porque o Buddha ensina que não há outro mal que não sejam as três raízes da aversão, do apego e da ignorância, sendo, esta última, a que reina sobre as outras duas. Ela que nos engana, nos obscurece o pensamento, nos entorpece o julgamento.
Em mim e nos 'monstros'.
Penso que o meu dever como buddhista, no sentido de proteger o mundo, deve ser estar atento a esta miséria comum antes de clamar por qualquer outra coisa.

Speech by ReadSpeaker