What is your language?

Bornes relacionados com Miniaturas

Buscando...?

Mostrando postagens com marcador busca espiritual. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador busca espiritual. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 26 de junho de 2015

A Escola Buddhista Caetanovelosoyana*

O Buddha simplificava as coisas. 
Nos suttas antigos, quem sou eu para falar nos suttas antigos? Parênteses. Mas sou um releitor permanente dos eruditos que podem falar, então replico o que destes consigo apreender... 
Nos suttas antigos o Buddha utiliza comparações frequentes com elementos do cotidiano ordinário de seus ouvintes para transmitir seus insights.  São vários os símiles e parábolas com arcos, serras, fogo, pedra, pregos, árvores, barcos e etc. que o Buddha belamente constrói e utiliza de forma sempre iluminadora e desconcertante como forma de, com palavras, dar instruções para que sigamos rumo ao indizível. Aqui é um momento em que eu deveria colar trechos daqueles suttas para corroborar minha afirmação, mas eu não planejei escrever isso aqui e não sou muito de fazer anotações nas minhas leituras. Fica por sua conta buscar pelas provas. Há muito material disponível.
O Buddha não promete pouco. É o completo fim do sofrimento o que ele garante. Ainda assim, é sempre claro, limpo, simples nas suas falas. Para nos levar ao fim completo do sofrimento ele nos indica o que investigar: nosso próprio sofrimento, aqui, agora, nesse corpo. Não nos manda contemplar a beleza transcendental da vida. Se você é um feliz e satisfeito mas ainda assim quer praticar o buddhismo, eu acho, eu, veja bem, outro parêntese, eu acho que você vai precisar aguçar sua percepção para a dor que existe nessa sua felicidade...
Mas voltando ao simples, estas linhas proliferaram na minha cabeça e forçaram sua vinda para cá depois de umas leituras que fiz por estes dias. Primeiro aqui, este texto do professor Ricardo Sasaki e, nos dias seguintes, dois outros que não vou citar. Enquanto o primeiro me parece estar em linha com aquilo que penso, os outros dois desalinham completamente. Apesar de serem de mestres que respeito, eles complicam, e complicam muito, seguindo devotamente uma longa linhagem de complicadores do Buddha Sasana surgida pelos milênios de expansão dos ensinamentos. 
É quase como se pensassem assim: se eu falar o simples, e eles entenderem, como é que eu fico?
Pensassem inconscientemente, talvez, pelos milênios afora até hoje... Sei lá, entende?
O Buddha ensinou e se mandou. Quando morreu, disse que nosso mestre seria o que ele deixou ensinado, ponto. Percebe o link com o texto do Sasaki? Nossa relação com um mestre deve ser a de buscar entender, e entender o que é dito para por em prática, e não passar a vida agarrado em seu manto encantado com a profundidade ininteligível do que ele fala. E ao mestre cabe a disposição de falar o que se pode entender...
Ouviu, entendeu, praticou, realizou, parabéns. Gratidão e respeito eternos, caso esse negócio de eternidade exista.
Quem é de nibbāna, nibbāneia. Quem é bodhissatta, boddhissatteia.
No livro que estou traduzindo, biografia e ensinamentos do Venerável Paññāvaḍḍho, terminei agora um capítulo em que há o seguinte trecho: Quanto mais vocês puderem conhecer o Dhamma, mais vocês terão um professor interno para guiá-los. Vocês provavelmente tem um professor externo, o que é necessário; mas, em última instância, vocês devem substituir o professor externo pelo interno. Quando isso tiver sido feito, vocês não precisam mais estar com um professor. Vocês podem praticar sozinhos, então.
Ser capaz de estar sozinho pode ser um estágio distante para a maioria de nós, mas é o espírito da coisa que precisa ser compreendido...
Mas voltando ao simples, quando o Buddha simplificava as coisas, me parece claro ser essa a intenção, que as pessoas entendam e sigam o caminho do abandoneísmo, conforme o Venerável Kaṭukurunde Ñāṇananda maravilhosamente explica.
As coisas, os ensinamentos, são para uso e descarte. Quanto mais simples for, melhor. A gente vai por etapas, gradativamente, mirando o fim.
Isso nos leva ao símile da jangada elaborado pelo Buddha, mas deixa isso pra outro dia, talvez.

*Escola fundada por um amigo que gosta de complicar as coisas...

sábado, 24 de janeiro de 2015

tentação

Na manhã do último domingo de 2014 eu estava lendo Ensinamentos de Buddha, Ensinamentos de Cristo, livro do mestre tailandês Ajahn Buddhadasa, publicado pela Edições Nalanda, quando chamaram no portão os Testemunhas de Jeová. Eu estava bem inter religioso. Como sempre, ouvi, sorri, agradeci, fui legal... Eu realmente respeito pessoas boas, com boa vontade. Inegável a boa vontade dessa gente que bate nas nossas casas nas manhãs de domingo, de calor infernal inclusive. Calor que vem dando medo, se somado à decadência humana que nos chega por todas a mídias em todas as resoluções, dá pânico, na verdade. De repente tudo o que sempre soubemos revela-se verdade, mesmo! Somos roubados, enganados, dilapidados, explorados, feitos de idiotas todo o tempo, desde há muito. De repente tudo o que sabíamos que ia acontecer realmente acontece: o equilíbrio que nos possibilitou chegar até aqui foi abalado por nosso consumo alucinado de tudo que há e não há mais para ser consumido. Agora a terra começa a se relacionar conosco como o câncer que vamos sendo. 
E aquelas pessoas boas tem certeza de que tudo isso tem uma solução e é essa certeza que nos vem transmitir: esta esperança de que um mundo maravilhoso nos será restaurado para desfrute e deleite. Seus olhos realmente brilham, suas expressões serenas, vozes suaves, sorrisos amáveis. Eu presto pouca atenção nas suas palavras.
Agradeci, entrei com o folheto que anunciava a algo da forma de habitar aquele mundo com aquelas boas pessoas e me senti realmente tentado: seria realmente maravilhoso acordar a cada dia com aquela esperança, aquela certeza... um mundo perfeito num futuro tão aparentemente próximo... 
Seria por conta do clima de fim de ano? Ou do livro que estava lendo? Ou do clima de fim de mundo? 
Seja como for, foi que permaneci naquele estado por um tempo, um estado de querer crer, de esperar... Até balbuciei mantras de outros tempos, achei meu mala, pus no pescoço... Mas passou.
Passou, porque tudo passa se a gente deixa. E passam mais rápido coisas com as quais desafinamos. Meu desafino com as verdades duvidosas é desde que me lembro de mim. Guardo de uma palestra em que o Bhante Mudito disse que a um buddhista uma qualidade essencial é "querer saber a verdade, por pior que ela seja", me confirmou mais isso que eu já sabia: meu caminho é este que está por aqui e não tem jeito. Não me convencem outros poderes que não meus próprios feitos, outras bençãos que não minhas intenções, outras ajudas que não os dedos que apontam o caminho. Só acredito que há uma verdade, só espero um dia encará-la. Talvez a única exceção para essa paixão pela verdade seja com respeito à minha conta bancária. Evito ao máximo saber dela no momento.
No final é essa mente instável, sujeita a tentações deste tipo e de outros, reveladora da fragilidade e inconstância de nossa ilusão de posse e controle de um ego, é este prestar atenção e saber um pouco do que de fato vai ocorrendo que acabou por permitir passar o desejo por uma fé que fosse, que trouxe os pés de volta à trilha, que me lembrou de seguir aceitando ser o cão de palha, que no final das contas me parece ser a grande salvação.

domingo, 29 de junho de 2014

controle


num texto que li de palestra de ajahn chah, do qual não me lembro o nome mas está por aí, ele diz que alguns vez ou outra o questionavam sobre aparentes contradições no que ensinava. ele explica, então, que era assim mesmo: esse precisa ir mais à direita, o outro mais à esquerda. e aquele, quando começa a ir demais pela direita é preciso que volte pra esquerda... e vice-versa. 
fato é que o caminho do Buddha é simples assim: esteja atento ao agora! coisa que é tremendamente complicada!
eu, nessa vida há algum tempo, tenho aprendido a perceber as ordens: há momentos em que devoção faz falta e eu busco refúgio com mais intensidade... noutros que a mente está mais saltadora que o (a)normal: hora de concentrar. estudando demais? fico sem fazer nada, contemplando o tédio... 
percepção que se nutre da introspecção, é óbvio. mais um tanto de rendição, não tão fácil pois que o mundo demanda controle! direção! ação! mas a natureza condicionada e incontrolável, desconhecida e misteriosa, o assombroso desequilíbrio que é estar vivo... aqui, talvez caiba um parêntese: (aquela história de ser atraído ao buddhismo pela expectativa de controlar a mente? é bom rever...).
acabo de ler um ensaio do livro recém lançado pela path press publication, meanings, livro do qual eu certamente vou falar muito por aqui (estou no terceiro ensaio, mas voltando ao primeiro... um livro para ser lido muito, muito lentamente acompanhado de muita, muita reflexão introspectiva...): existence means control (existência significa controle). basicamente: se o engodo do controle é enchimento do existir, existir é dukkha. bom... li só uma vez... ainda ruminando...

***

...estar atento ao aqui e agora. tão repetido que a profundidade a que deveria conduzir nem sempre conduz, talvez... 
uma implicação: a ambição de encontrar um início para tudo! de onde isso veio? como isso começou? e quem criou deus? 
estar atento ao aqui e agora é abrir mão dessa obsessão e mergulhar no que ocorre, seja lá o que for...

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

texto de incertos e vazios

o buddhismo talvez tenha chegado ao ocidente como mais uma forma de ilusão: arte da felicidade ou programa para ser feliz.
...
mas o buddhismo, em sua pós-modernidade, nunca foi. buddhismo é combustível que, desiludindo, tudo queima e deixa resto de nada. nem de buddhismo.
...
o Buddha, pós-modernamente, declarou o poder do desencanto: forçando a densidade que nos mantém a boiar como nacos de fezes, afundemo-nos assim: para que internet? para que remédios? para que viver mais e melhor? para que crescer? para que consumir? para que tanta felicidade? para que opinar? para que debater? para que acreditar? para que tomar partido? para que liberdade? inumeráveis questões a todo gosto e desgosto, abaixo de tudo.
...
Buddha, o pós-moderno, declara a cessação. tudo certamente seguirá a lutar contra, perenamente, samsaricamente, inutilmente.
... 



domingo, 22 de setembro de 2013

i want to believe

já vi algumas argumentações em favor da veracidade do renascimento, de gente que eu admiro e respeito. 
se eu não acreditasse, nenhuma teria me convencido.
agora, com a novela, a necessidade de esclarecer as diferenças entre renascimento e reencarnação movimenta parte do mundo buddhista. muito pertinente este trabalho para nós, crentes. para quem não é, equivale a discutir diferentes espécies de unicórnio (para valer o símile combinemos que unicórnios não existam).
vários de nós, que gostamos de pensar, de questionar, de saber, de filosofar e que muito por conta disso rejeitamos a religião que herdamos, encontramos no buddhismo refúgio para o vazio que o pensamento materialista científico deixa no nosso peito. o buddhismo é empirista, é pragmático, é pé no chão e estas características nos alegram, nos encantam, nos confortam. uma religião plena de bom-senso e repleta de insights muito próximos daqueles que a ciência ocidental vem obtendo em sua história, tanto nas visões do mundo físico quanto do psicológico. surgem, frequentemente, novos resultados positivos da meditação, em especial os modos buddhistas de meditação, sobre a mente, o corpo e a estrutura cerebral, por exemplo.
isso pode deixar a nós, buddhistas, um pouco carregados de uma certa empáfia diante dos outros religiosos. pode ser que passemos a nos achar mais alguma coisa, alguma coisa acima do populacho crente.
mas não.
se somos buddhistas, e não Buddhas ou outra coisa mais próxima de um Buddha que de um ser comum, e se somos fiéis ao ensinamento, somos tão crentes quanto qualquer outro. cremos, por exemplo, pois não sabemos, no renascimento e na lei do kamma e, ainda que conforme expostos no buddhismo sejam mais palatáveis, são uma mera crença para nós. fora todos os casos descritos nos suttas e sutras tais como voos, teleportes, encontros com seres fantásticos... coisas que podem ser explicadas pelo recurso do simbolismo, da metáfora ou mitologia mas que estão lá como estão. claro que opções existem, stephen batchelor que nos diz, mas isso é lá com ele.
e apesar de todo nosso racionalismo escolhemos seguir caminho. por quê?
eu, porque preciso.
o mundo, tal como se me apresenta, não vale a pena. simples assim. eu não conseguiria durar muito mais se não houvesse a esperança (pois é...) de uma solução para isso tudo que está aí. esperança que o Buddha me dá. e que outros encontram em outros.
dentro dos meus limites eu posso afirmar que fé, no sentido comumente compreendido, não é o meu forte. dentro dos meus limites eu comprovo muito da prática do que o Buddha ensina para dar-lhe um voto de confiança e crer naquilo que (ainda?) não posso ver.
isso hoje eu tenho bem resolvido, mas já flertei com a turma do espiritualismo quântico. o livro que me trouxe ao buddhismo foi o tao da física... todavia, graças a mergulhar, o mais fundo que sou capaz, a cabeça no Buddhadhamma, deixei de lado esta ambição de unificar a ciência e a minha religião. não vejo problema algum em me identificar como religioso, como crente, pois é o que sou.
só ao Despertar deixarei de sê-lo.

domingo, 26 de maio de 2013

o pior cego

"O pior cego é o que quer ver."
Millôr Fernandes

"Tanto antes como agora, o sofrimento e sua cessação eu proclamo."
O Buddha

O Buddha ensinou só duas coisas. Coisas que não queremos ver. 
Uma, o sofrimento, a palavra original é dukkha. O consenso é que 'sofrimento' não é uma tradução perfeita, com o que eu concordo. Já fui quase convencido de que não é a menos ruim, mas por hora acho que é sim a menos ruim. Volto a isso num outro dia.
Evidente que não queremos ver o sofrimento, não queremos envelhecer, adoecer, morrer, perder,  sofrer.
A outra coisa que o Buddha ensinou, a cessação do sofrimento, também não queremos ver. Parece que queremos, mas acho que não. Já estive na presença de gente que 'só queria que essa dor passasse', mas aí é no fim, no extremo, quando não há mais o que fazer. Na maior parte das vezes, enquanto há o que fazer,  o que queremos é substituir dor por outra coisa. 
Pela cessação, pelo apagamento, pelo nibbāna talvez leve tempo para nos interessarmos.
Enquanto isso vamos tateando, cegos por ver demais, vendo o Dhamma do Buddha como queremos ver.

terça-feira, 21 de maio de 2013

fé no chão

A frase que me guia pelo estudo e prática do buddhismo foi proferida pelo Buddha no Anurādha Sutta como resposta final a uma série de perguntas especulativas sobre o que acontecia a um Desperto após a morte: pubbe cāhaṃ Anurādha etarahi ca dukkhañceva paññāpemi dukkhassa ca nirodhaṃ. Tanto antes como agora, Anurādha, é somente o sofrimento e a cessação do sofrimento o que eu proclamo.
Ou seja, alguém chega até o Buddha flutuando numa nuvem de especulações e idéias e Ele puxa tal pessoa pelo pé e põe de volta no chão. É um movimento comum nos discursos do cânone antigo. Inclusive no vasto uso de metáforas empregadas pelo Buddha, elas sempre são no sentido de tornar palpável coisas que parecem etéreas, é sempre um direcionar para a experiência, para a experienciação sensorial/sentimental ou, me arrisco a dizer, "sensacional", as imaginações, ideações, conceitos. Há um sutta, não me lembro qual agora, em que o Buddha diz que um Arahant sabe que livrou-se das corrupções latentes da mente da mesma forma que um homem saberia ter seus pés e mãos cortados. Isto é sensacional. Todo o caminho buddhista é no sentido de arrefecer a dicotomia mente/matéria apesar de a gente, muitas vezes, persistir no contrário.
É comum chegar ao buddhismo flutuando nas mesmas nuvens que o Anurādha. Há quem fique nisso por muito tempo, a pensar sobre estados elevados de consciência, conhecimento de vidas passadas, poderes, luzes, cores e iluminações, condicionando seu caminhar espiritual a achar um pote de ouro no fim do arco-íris. Um aspecto pernicioso desta estagnação para um buddhista é que este tipo de pensamento garante que a pessoa continue escrava do mundo com a boa desculpa de que 'ainda não tem realizações, ainda não chegou lá, então tudo bem uns escorregões aqui e ali'. Exatamente como acontece com alguns teístas cristãos. Gosto de dialogar sobre religiões em geral e sempre que dá deixo claro minha opinião sobre Jesus ser um modelo a ser seguido, não é raro ouvir um 'ah, mas Ele É O FILHO DE DEUS, né?'. Triste.
Enquanto isso, lá no Satipaṭṭhāna Sutta, o Buddha afirma que o Despertar pode ocorrer em dias se a atenção vigilante for plenamente estabelecida no defecar e urinar entre outras coisas que se faz aqui no chão. 

terça-feira, 6 de novembro de 2012

qual é a diferença?

volto constantemente à vida do Buddha. nem sempre literalmente, de pegar e ler tudo de novo (dois livros que me são especiais: velho caminho, nuvens brancas seguindo as pegadas do buda, de thich nhat hanh e buda de karen armstrong, volto mais em lembranças de passagens.
estudando o dhamma, seja ouvindo, seja lendo, um ensinamento ou outro acaba trazendo reminiscências da biografia do Tathāgata e complementando ou aprofundando o entendimento do que estudo. 
a vida do Buddha educa.
o Buddha tem se tornado cada vez mais humano. vai ficando próximo, vai virando um conhecido. mais além de um amigo que existiu e é representado hoje no altar. e passo a pensar nele vivendo por aqui, hoje, no meio de tanta poeira. no meio de tantos empoeirados. entre nós.
tenho refletido nas diferenças que manifestamos. 
há momentos em que estamos mais voltados para o caminho, e portanto mais próximos do Buddha e outros opostos. vemos alguém sofrendo, vemos algum sofrimento, e pensamos 'coitado, como sofre, como sou feliz por não ser ele' ou então 'eis o sofrimento que nos ata e dói a todos'. alguém morre e 'coitado...' ou 'sou eu logo mais'. alguém feliz! 'que sorte a dele! quando chegará a minha vez...?' ou 'que sorte a dele. que tire o melhor proveito...' 
o Buddha viu, fundamentalmente, feliz ou infelizmente, as mesmas coisas que nós vemos hoje e estas mesmas o levaram a se tornar quem foi. estaremos nós atentos a esta diferença? me parece que a resposta que damos ao que nos surge a todo instante tem o poder de nos aproximar do Buddha tanto quanto os mantras, as meditadas, as recitações, as verborragias. precisamos definir para nós as respostas e escolher quais iremos dar.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

vários dedos, diversas luas


"We happened to mention earlier that the term Tathāgata was already  current among ascetics of other sects. But it is not in the same sense that  the Buddha used this term. For those of other sects, the term Tathāgata  carried with  it  the prejudice of a soul or a self, even  if  it purported  to  represent  the  ideal of emancipation."

"Mencionamos anteriormente que o termo Tathāgata já era usado entre ascetas de outras seitas. Mas não no mesmo sentido em que o Buddha usava o termo. Para os de outras seitas, o termo Tathāgata carregava o preconceito de uma alma ou um ego, mesmo que com o significado de representar o ideal da emancipação." 

é o que diz o venerável bhante ñanananda no 21º sermão da série "nibbana - the mind stilled".
este trecho me fez refletir em que apesar de todos falarmos em tolerância, respeito à diversidade e pontos de vista, vira e mexe ainda fazemos força para igualar coisas demais e, a meu ver, de forma absolutamente desnecessária.
há muito gosto, por exemplo, pela famosa metáfora do dedo que aponta a lua. esta imagem é sempre usada quando queremos dizer que todos os caminhos levam a um só fim, que todos os grandes mestres falaram da mesma coisa, chegaremos todos ao mesmo objetivo, então, vamos dar as mãos. 
mas será que precisamos desta ideia para darmos as mãos? 
acho que não.
quando usamos a imagem desta forma, a lua é o grande mistério, aquilo que está além do além, o indizível. os dedos são as tentativas de nos direcionar para a grande incógnita. 
eu penso um pouco e chego à conclusão de que falar sobre tal conceito é falar sobre nada ou, pior, sobre qualquer coisa. e o Buddha, que nos últimos anos é, dos grandes, Aquele para o qual tenho me voltado completamente, desde que decidiu-Se por falar sobre o mistério que descobriu por Si mesmo, decisão descrita como difícil no cânone antigo, note-se bem, falou bastante, explicou, instruiu, definiu e estabeleceu a verdade que realizou da melhor forma que pode, assim como diversos dos Seus seguidores tempo afora, incluso os dias de hoje, conforme atestam o trecho que citei e muitos outros que estão indicados por este blog.
não sei como (na verdade até sei um pouco mas não o suficiente para afirmar que sei) é com os outros, mas acredito que todos os grandes definiram bem aquilo que os seus dedos apontaram. e, no limite do meu conhecimento, vejo diferentes luas.
certa vez disse isso mesmo numa lista de discussão quando surgiu a metáfora com aparente intenção ecumênica. afirmei que me parecia haver diferentes luas e não me lembro de ter havido continuidade na conversa. talvez porque eu ainda tenha muito o que evoluir ou porque as pessoas tomem isso como uma atitude antipática, radical, exclusivista e por aí... nada mais oposto à verdade (exceto a questão da evolução) no que diz respeito a mim. 
eu sinto desconforto é justamente quando vejo, por exemplo, buddhistas dialogando sobre deus com algum teísta porque, quando é alguém que se balize pelo cânone buddhista, é inevitável que a coisa, o conceito deus, vá sendo torcido, torcido, torcido até que não sobre nada do pobre criador, princípio de tudo, pai de todos, a despeito de todo respeito e sincero desejo ecumênico do buddhista em questão. e os envolvidos no tal diálogo acabam se protegendo e se aconchegando no grande mistério, ou nada, ou qualquer coisa.
acho que não precisamos disso.
porque já temos o suficiente de pontos em comum: todos queremos o bom para nós. 
claro, simples e ponto. 
e para isso há a regra de ouro escrita por todos os dedos de bom senso: aja com os outros como quer que ajam contigo. simples. nada mais a dizer.
mas ainda podemos conversar sobre as luas e os mistérios. 
mas me parece uma atitude muito mais sábia, compassiva, e sinceramente ecumênica eu continuar amando a quem tem plena convicção de que meu destino final é o quinto dos infernos ou algo que o valha. e da mesma forma eu continuar a ser amado por ele mesmo que eu afirme, sem medo, que não há a menor possibilidade de eu aceitar qualquer concepção de deus que tenha sido pensada até hoje. nós precisamos nos amar sem tentativas sempre vãs de nos equalizar desprezando o que realmente tem valor: que o efeito, tanto da minha busca pelo fim do mundo quanto a de uma busca pela vida eterna, por exemplo, seja uma existência cada vez menos ruim, aqui e agora, para mim, para você e para quem não tem qualquer interesse pelo que acabei de escrever.
se o grande mistério for realmente o mesmo, se no final nos encontrarmos numa mesma lua, façamos lá uma grande festa, oras bolas!

***

lembrei de uma passagem daquele que considero um de meus professores adjuntos de dhamma, o josé saramago. no livro "o evangelho segundo jesus cristo" ocorre, em certa altura, de estarem jesus e o diabo num barco, em mar aberto, e deus no céu. os três entretendo um colóquio meio profundo quando, num dado momento, uma poderosa voz manifesta-se acima deles. 
os três tremem.
mas, afinal, dão de ombros e a estória segue.

domingo, 22 de julho de 2012

23.4

muito antes de buddhista eu já era ateu.
encontrei bem cedo razões para não crer em um criador, princípio de tudo, pai de todos, todo bondade e outros atributos consensuais nas tradições teístas. e no buddhismo aprofundei e confirmei minhas razões.
vez ou outra me dizem que não há ateus num avião caindo. eu penso que a falha de quem diz é esperar estar num avião para tomar consciência da queda. eu busco esta consciência todo o tempo e com isso torno-me ciente também da necessidade de proteção.
é grande.
pensei nisso por uns dias por conta de conversas com bons amigos evangélicos. nestas conversas às vezes surge certa comoção e tristeza pela minha eventual condenação no dia do juízo.
infelizmente não há o que eu possa fazer.
até lá, vamos nos ouvindo. 
o que inspirou este texto foi uma instrução que recebi para manter a bíblia, eu preciso adquiri-la primeiro, aberta no salmo 23 e comprovar a proteção que vou obter.
o salmo é bem conhecido, na verdade. ouvia de minha mãe. 
está assim na rede a parte que me foi recomendada:

"ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal nenhum, porque tu estás comigo: a tua vara e o teu cajado me consolam."

uma poderosa afirmação de proteção.
como eu disse, muito cedo eu manifestei meu ateísmo, lá pelos 10, 11 anos. um protoateísmo na verdade é a palavra que preciso inventar.
o curioso é que não criei aversão por religião ou religiosidade. embora as primeiras aulas de darwin tenham me arrebatado, eu continuei capaz de orar ainda que com a sensação de estar falando sozinho.
até hoje me pego falando sozinho e às vezes sinto como se estivesse orando...
talvez isso ajude a explicar o fato de eu manter bons relacionamentos com religiosos em geral e de estes serem, quase sempre, meus bate-papos preferidos. estes bate-papos muitas vezes abrem janelas pelas quais olho para dentro e para fora do mundo... fico matutando sobre o que ouço e que significado aquilo pode ter para mim...
e desse jeito mantive o salmo na cabeça procurando pela minha própria proteção. porque eu não posso ficar desprotegido. eu estou sempre no vale, é onde eu vivo, sempre sob a sombra da morte.
o vale é povoado de egos insurgentes e conflituosos, sempre nascendo e morrendo e até se matando uns aos outros, sempre... e eu atento, sob a sombra da morte tentando não nascer...
tentando aceitar o mal inevitável e compreender o que posso evitar, tomo a vara e o cajado para mim. a vara me alerta para a dor que vem de me acomodar no descuido e no deleite nascendo sob a sombra.
a vara me lembra que a sombra é da morte.
o cajado me ajuda a descobrir a terra fofa e movediça da preguiça, as pedras das opiniões inamovíveis, os buracos do egotismo, os espinhos da fala imprópria.
é o cajado que mais uso pois o que mais faço é caminhar.
e caminhando pelo vale vou descobrindo o que os bons amigos me querem dizer, ou talvez lhes mostrando o que ouço quando falam.
tomara que importe tanto para eles quanto é importante para mim.



quarta-feira, 9 de maio de 2012

sem alfa nem ômega

veja, o buddhismo vai por em dúvida a realidade daquilo que você mais ama: o seu ego. vai, de fato, oferecer métodos para que você investigue acuradamente esta noção que você tem do seu ego. vai afirmar, inclusive, que tal noção é a causa verdadeira de todos os seus problemas. 
pense bem.
o buddhismo não vai te revelar nenhuma energia, força, essência, princípio, entidade, demiurgo a quem você possa orar, pedir ajuda, proteção. nenhum deus, nem igual nem diferente do que você conhece que seja mais poderoso do que você pode ser. nenhum paraíso, nenhum salvador que possa fazer mais do que o Buddha fez, e Ele já fez tudo o que podia por nós. 
agora é conosco.
olha, o buddhismo não garante que a fé remove montanhas. a fé no buddhismo é só um componente entre outros que precisam ser cultivados em conjunto para resultarem na libertação que o Buddha afirma possível. e, na verdade, a fé algumas vezes pode até ser um obstáculo, criar montanhas, veja você.
e, veja também que, em última instância, a libertação do buddhismo vai se mostrando na medida em que vai te aproximando de uma visão em que não há coisa alguma para você se segurar, se manter de pé sobre, sustentar qualquer solidez que possa ter te tranquilizado num momento em que você esteve sem chão. o buddhismo vai, efetivamente, é te tirar o chão, te ensinar a sorrir em queda livre, parar na escuridão, encarando o medo. e encarando muitas outras coisas das quais você possa querer se livrar.
talvez você deva levar isso em conta antes de se afirmar buddhista. 
com certeza você não deve concordar com o que eu disse aqui. mas talvez deva considerar a possibilidade de eu ter razão e investigar o assunto em boas fontes, por si mesmo.
pense bem.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

o problema da identidade

o problema da identidade é que mesmo quando tendo mais cabelo, menos rugas, olheiras e gordura eu consegui sair tão mal naquela foto, imagina hoje!
na verdade este é o problema do documento de identidade. 
o da identidade é ainda mais sem graça.
identificar-se como qualquer coisa é realmente como amontoar bolhas de sabão sobre a superfície da água. o negócio se espalha, estoura, dissolve-se enquanto continuamos absorvidos na inútil tarefa.
mas basta pararmos para olhar com atenção, vermos a dinâmica da coisa para desistirmos, ao menos até a próxima descuidada, de continuarmos com aquilo.
qualquer identidade que nos atribuímos traz problemas.
minha fonte de néctar neste aspecto é Ajahn Buddhadasa.
como ele ensina, qualquer coisa com a qual nos identificarmos trará problemas: um bom, um mau, um legal, um triste, um chato, um alegre, um festivo, um problemático, um sábio, um vencedor, um perdedor... qualquer identidade é uma tentativa frustrante de conter a correnteza do existir.
deixemos que os outros pensem algo de nós, mas não façamos o mesmo. vamos nos manter observando o processo.
até o fim.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Je Tsongkhapa

 abaixo, o texto que mais estudei, em sua versão extensa chamado Lam Rim, durante o tempo em que estive sob orientação de professores ligados à tradição tibetana de Je Tsongkhapa
embora envolvido com o buddhismo desde 1995, só passei a me considerar buddhista quando ingressei no estudo e prática por meio desta tradição, em 1999. este texto fundamentou o entendimento do dhamma que sustento até hoje.
a versão é do livro "Bondade, Amor e Compaixão" de Sua Santidade o Dalai Lama, editora Pensamento.




Os Três Principais Aspectos Do Caminho

Homenagem aos principais lamas sagrados

Explicarei o melhor que puder
O significado essencial de todas as escrituras do Conquistador,
O caminho louvado pelas eminentes Crianças Conquistadoras,
Porto para os afortunados que desejam a libertação.


Aqueles desapegados dos prazeres mundanos, a lutar
Para que lazer e fortuna signifiquem dignidade, inclinados
Que são para a senda que deleita ao Buda Conquistador,
esses afortunados devem ouvir com mente límpida.


Sem a profunda convicção de abandonar a existência cíclica
Impossível deixar de perseguir os frutos do prazer no oceano da vida,
E mais: o anseio pela existência cíclica agrilhoa por completo o encarnado.
Que se busque, pois, de início, a determinação de abandoná-la.


Lazer e fortuna são difíceis de encontrar
E a vida se esvai: esse conhecimento
Converterá em seu oposto a importância dada
Às exterioridades da existência.


Se pensarmos sempre e sempre nas ações,
Em seus efeitos, que são inevitáveis,
E nos sofrimentos da existência cíclica
Converter-se-á em seu oposto a importância dada
Às circunstâncias exteriores das vidas futuras.


Se tendo assim meditado, não geramos, por um instante sequer,
Admiração pelo florescimento da existência cíclica, mas se, dia e noite,
Se faz presente a atitude de busca da libertação,
O pensamento de abandonar para sempre essa existência foi gerado.


E mais, se o pensamento de abandonar de vez a existência cíclica
Não estiver enlaçado à geração da total aspiração pela iluminação suprema,
Não será ele a causa da bênção esplêndida da iluminação excelsa.
Sim: que os inteligentes gerem a tão alta e altruísta intenção de se converter em iluminados.


[Todos os seres comuns] são arrastados pelo continuum de quatro torrentes poderosas
E atados pelos liames de ações muito duras de combater.
Na jaula de ferro da autopercepção [existência inerente], lá estão eles,
Aturdidos pela densa escuridão da ignorância.


Vezes sem conta já nasceram, e cada nascimento
Traz a tortura incessante dos três sofrimentos.
Ao pensar nas mães que caíram nessa rede,
Geram eles então a intenção altruística de converter-se em iluminados.


Sem a sabedoria que compreende o modo de ser das coisas,
Mesmo que tenham sido desenvolvidos, tanto
O pensamento de abandonar para sempre a existência cíclica
Como a intenção altruísta,
A raiz da existência cíclica não poderá ser exteirpada.
Pratica, pois, os métodos que te farão entender a manifestação dependente.


Aquele que, percebendo serem inquestionáveis
Causa e efeito de todos os fenômenos
Da existência cíclica e do nirvana,
E destruir, inteiro, o modo de percepção equivocado
Dos objetos [tidos como de existência inerente],
Terá, assim, ingressado num caminho que apraz ao Buda.

Enquanto se afigurem como separadas as duas compreensões
Da indubitabilidade da manifestação dependente
E do vazio - a não-afirmação [da existência inerente] - 
Não será compreendido o pensamento do Buda Shakyamuni.


Quando [ambas as percepções ocorrem], simultâneas, sem alternância,
E quando, apenas por ver a manifestação dependente como indubitável
O conhecimento preciso destrói por completo o modo de percepção [da concepção de existência inerente], 
Está completa a análise da apreensão [da realidade].


E mais: exclui-se o extremo da existência [inerente]
[Conhecendo-se a natureza] das circunstâncias externas
[Que existem apenas como designações nominais].
E, ao extremo da [total] não-existência, elimina-se
[Conhecendo-se a natureza] do vazio
[Como ausência de existência inerente e
Não como ausência de existência nominal].
Se for por ti sabida, dentro do vazio, a presença da causa e do efeito,
Não serás aprisinado pelas percepções extremas.


Ao teres compreendido com exatidão, do caminho
Os três aspectos principais, no que tem de essencial,
Procura a solidão e gera o poder do esforço.
Que logo chegues à meta final, meu filho!




terça-feira, 11 de outubro de 2011

eu acredito - 2

o diálogo foi mais ou menos assim:
como assim? você não crê em deus!?
não.
mas, e tudo a sua volta!? quem fez tudo isso??
é complicado... mas dá para dizer que foi ninguém.
ah, tá! tudo veio do nada...!
não é assim. eu disse que pode ser complicado...
tá bão, tá bão... mas você não tem medo da morte?
ainda tenho. mas mais de noite do que de dia...
haha. mas e daí? morreu, acabou?
pode ser complicado... mas dá para dizer que eu não sei.
não sabe? e você não se importa? não quer saber?
quero, claro que quero. mas prefiro não saber do que acreditar que sei.

E foi o que me trouxe a tentar escrever a continuação do título.
O "2".
Uma continuação do "1".
E a menção a um 'sentido' foi que me pôs a pensar.
A necessidade de um sentido para isso tudo aqui. Um propósito, um plano, como boa parte das religiões põe a acreditar. É um impulso muito forte este. E a minha compreensão do buddhadhamma, até aqui, me faz confiar intensamente no Buddha por que entendo que ele afirmou muito claramente que não há sentido algum! As coisas surgem e cessam muito veloz e ininterruptamente sem qualquer propósito a não ser surgir e cessar e ponto final.
Ou não.
Ponto final, não. Há dukkha. A dor de querer existir numa realidade que é puro movimento. E, talvez, a dor de buscar um sentido no que é pura manifestação. Dois quereres intrinsecamente atados.
E a mim, o Buddha diz que precisamos fazer as pazes com a falta. Cair. Nos manter conscientes da queda sem sentido que é como as coisas são.
Será que dá para vislumbrar um sentido nisso? O sentido da vida é o Despertar para a falta de sentido?
Não sei.
Mas sei que é preciso um Buddha, um Desperto que nos aponte a realidade e nos mostre como conhecê-la.  De outra forma o surgir é só surgir, o cessar é só cessar e não nos damos conta disso. Permanecer neste processo não dá qualquer sentido.
Duro de aceitar.
Dukkha de aceitar.
Aceitar pode não ser o sentido. Mas liberta.

sábado, 13 de agosto de 2011

eu acredito - 1

quando um ser nasce, eu acredito que sua mente (ou parte dela, não sei bem) não surgiu com aquele corpo. acredito que mente é mente e matéria é matéria. duas naturezas distintas. e acredito nisso porque o Buddha assim ensinou, ao que parece. é algo em que confio. porque o Buddha, e isso é uma coisa que eu sei, foi muito preciso e acertou em muitas coisas, Suas instruções dão resultado, Sua teoria é extremamente coerente, Seu Caminho não me decepciona. quanto mais eu me aprofundo e pratico, mais desejo me aprofundar e praticar. então, minha experiência pessoal me garante este ato de fé sem problema. 
porém, eu mantenho esta crença num compartimento separado. ela não é o que define e nem sustenta minha prática. 
quando acreditamos que a mente segue num processo de condicionamento de um novo ser após a morte física, isto implica na aceitação da doutrina do kamma como definidor de alguns aspectos da vida daquele novo ser: méritos definem coisas boas, deméritos coisas ruins. doutrina que o Buddha declarou estar além da compreensão intelectual. e esta, sendo uma crença, não imediatamente verificável por experiência, tem um caráter dúbio. por exemplo: um buddhista como eu crê que está praticando o dhamma libertador do Buddha porque assim seu kamma o conduziu, ou seja, as ações passadas condicionadas pelas intenções deste mesmo contínuo mental frutificaram agora para que tal contato com o Buddhadhamma ocorresse, ou se repetisse, acontecimento digno de regozijo e alegria, um fator motivador. mas o mesmo raciocínio pode, em momentos em que outros fatores desta vida condicionam um estado mental menos animado, circunstâncias que, sabemos, não são raras, levar a pensar que os méritos não foram tantos assim, pois veja quão difícil é a prática, quão desprezível eu sou, ou o quanto minha vida é impulsionada por necessidades e tão pouco por escolhas...!  e, num movimento vicioso, deixar claro para nossa mente obscurecida como será difícil acumular os méritos necessários para um bom nascimento ou despertar futuro! por essas, mantenho a crença no seu devido lugar.
e é no próprio Buddhadhamma que baseio este meu caminhar.
Ajahn Buddhadasa ensina que há três tipos de nascimento elucidados pelo Buddha: o convencional, aquele que todos conhecemos, o nascimento através dos órgãos dos sentidos que ocorre a cada contato estabelecido entre olhos, ouvidos, pele, etc. e seus respectivos objetos e o nascimento mental que ocorre a cada vez que a idéia de eu e meu surge na mente. e é a compreensão destes dois últimos nascimentos que é relevante para obter o resultado da prática do Caminho, a saber, o cessar de dukkha, pois nada mais que dukkha e o fim de dukkha foi o que o Buddha ensinou.
a compreensão destes dois já é bastante a se fazer, mas é a compreensão do que está aqui, ocorrendo agora, é só uma questão de vir e ver. 
posso, assim, deixar a minha crença lá, nem pensar muito nela.
o nascimento que me interessa é este que ocorre agora.
a continuar, um dia...

sexta-feira, 20 de maio de 2011

vídeo e mensagens



Após assistirem ao vídeo, dois amigos de dhamma trocam mensagens e chegam mais ou menos no que segue...

"onde estão as pessoas que faleceram? existem? estão bem? e as que
sofrem imenso e sem qualquer possibilidade de mudança? para que serve
todo esse sofrimento?"

"há respostas, e várias, para estas questões! um problema é que todas elas dependem de crença. nada mais nos é exigido a não ser que nos calemos e aceitemos a resposta dada.'
concordo com o que você assinala sobre o vazio que nos toma o coração, mas não que seja a análise do monge a sua causa. eu acho que o vazio se deve, num nível mais profundo, a nossa prória forma precária de experienciar a existência.'
o que o buddhismo nos propõe, me parece, é que enquanto abordarmos tais questões profundas com uma mente que opera enjaulada num nível tão superficial não há chance de sairmo-nos bem! e nos mantemos presas da crença, da frágil crença.'
o monge faz uma introdução (o buddhismo em 15 minutos!!!) brevíssima, mas espetacular, na minha opinião. um resumo de algo que precisamos compreender se quisermos caminhar na senda do Buddha. tal compreensão se dá em primeira mão, conhecermos a nós, nesta forma, é conhecermos o 'todo', o mundo. e este conhecimento estendemos ao outro. acho que só a partir daí começaremos a ter respostas satisfatórias para estas suas questões que não dependam de um calar-se e aceitar...'
grandíssimo abraço!"

A fonte do vídeo é o seguinte site:
http://an-news.blogspot.com/2010/12/psicologia-budista.html?utm_source=feedburner&utm_medium=feed&utm_campaign=Feed%3A+an-news+%28AN-News%29&utm_content=Google+International

sexta-feira, 18 de março de 2011

morte

Tenho estado com a morte há alguns dias.
O início se deu com a narrativa saramaguiana das fabulosas intermitências. Nos entremeios, surgiram um texto do professor Ricardo Sasaki (dhammacharya dhanapala) sobre a concepção buddhista do pós morte e um longo diálogo sobre buddhismo e renascimento com uns materialistas. Isso me manteve no tête-à-tête com a morte por estes dias, com a morte na cabeça... E aí veio o tsunami, num desgraçante arremate a escancarar-me como é que, para a vida e a morte, dois nomes que, bem pode ser, inventamos para um mesmo mistério, não somos em nada diferentes das formigas. Apesar de todos os valores e importâncias que projetamos no mundo, nossos reality shows, minhas HQs, os celulares, os iQualquercoisa, desejos e encomendas que não chegam, nossos relacionamentos e momentos, nada disso nos resolve. Dificilmente vão além do que fazemos ir em conformidade com a nossa reconfortante estupidez: formas de mantermos os olhos fechados para o fato de estarmos morrendo.
Estar de papos com a morte na verdade significa meramente  tentar fazer-se ciente dela que sempre está conosco. 
Como ensinou o Buddha, nestas temporadas é quando mais sinto que dou passos no Caminho. Tomar consciência da presença da morte ocupa a mente com a certeza e coloca a dúvida a meu favor. Aonde eu estou é onde eu devo estar e é onde se dá minha prática. Tudo tem que ser percebido como sempre é, dhamma, se eu habito na consciência do que é inevitável e certo. Meu caminhar passa a ser constante e reto com a meta a minha frente, imediata, pois não sei se há tempo para 'chegar lá'. Minha única incerteza é com respeito a quando o fato se cumprirá. Estar com a morte me mantém atento para a importância de respirar e notar os movimentos do corpo e da mente. Pois qualquer que seja, o fim do movimento é um só. Estar com a morte me mantém atento para a minha igualdade com as formigas, minha desimportância e meu poder.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

(o que dá para fazer)

De vez em quando alguém pergunta se nosso destino como praticantes laicos não seria só fazer o melhor possível para que numa próxima vida nasçamos como monges e, aí sim, podermos praticar e chegar lá! Lá no nibbana!
Pois eu poderia citar alguns trechos dos suttas em pali em que laicos chegaram lá! Mas aí poderiam dizer que são casos muito especiais de pessoas que tiveram vidas anteriores extraordinárias e tal e eu não poderia discutir porque me falta um monte de coisa. Dentre elas, competência. Mas digo sem medo que esse negócio de justificar aquilo com base em vidas anteriores é uma questão de fé e que, sendo assim, é possível ter fé na 'extraordinariedade' da vida anterior de qualquer um! Na minha, inclusive!! 
Pois bem, deixando de lado questões de fé, posso falar do que dá para fazer como laico:
- É possível ter consigo textos e mais textos de dhamma sempre que houver aquele tempinho entre uma inutilidade samsarica e outra. Se não em livros, há aparelhos diversos, com preços diversos que possibilitam carregar textos diversos, de suttas a tratados, em volume que qualquer ser humano leva tempo para ler (e mais tempo ainda para estudar!) além da conta. E que ajudam a ver o dhamma onde e quando parece não haver dhamma.
- É possível carregar, nos mesmos aparelhinhos, sons do dhamma: palestras, cânticos, aulas, e vídeos, para aqueles momentos em que a leitura cansar.
- É possível (talvez menos para alguns, preciso reconhecer) ir a um lugar isolado e silencioso (como o Buddha recomenda nos anapanasati e satipatthana suttas)  periodicamente e cultivar a mente/coração.
- É possível (com grau de esforço maior para alguns, mas sempre decrescente na medida em que se treina) manter a disciplina dos Cinco Preceitos, e até de maior número deles, por períodos consideráveis de tempo. Cada vez maiores na medida em que se treina.
- É possível entrar em retiro com relativa periodicidade e facilidade. Desde que se aceite que o lugar de retiro não precisa ser SEMPRE aquele templo ou centro que fica lá longe e custa caro e falta tempo e minha família resmunga prá caramba... O lugar de retiro, essencialmente, é aquele em que a gente se encara e com absoluta franqueza sabe que está fazendo o melhor para honrar o nome que gosta de se dar de "discípulo do Senhor Buddha".
- É possível ser atento e lembrar do dhamma naqueles momentos em que parece que o dhamma é outra coisa que não o aqui e agora (os BONS textos são extrementes eficazes em ajudar nisso!)
- É possível ter contato com professores de dhamma. Bom, pelo menos para quem estiver lendo este blog, o que significa que tem algum acesso à rede.
- É possível fazer alguma coisa pelo dhamma do Buddha dialogando, perguntando, incentivando, doando (não nece$$ariamente) tempo ou dom (traduções de textos são uma demanda constante!), participando e assim, quem sabe, acumular aquilo que muitos gostam de acumular que são os méritos kammicos!
- É possível ser uma pessoa boa.
-É possível, e imprescindível para a saúde psíquica (e a saúde psíquica é imprescindível para a boa prática do dhamma), ser corajosamente sincero consigo próprio.

Se eu lembrar coloco mais coisas. E sugestões são muitíssimo bem vindas!
Mas posso garantir, pois ouvi de fonte que eu respeito e não só eu, que muito monge não faz um tanto do que escrevi acima! 
E aí, se você for um dos que pensa que a vida atual de laico é, na melhor das hipóteses, passagem para uma futura de monge, e quer continuar acreditando nisso, tudo bem. Se não, tente praticar o que eu escrevi (ou alguma coisa, ao menos ou a mais) junto comigo, e se a sua vida não ganhar uma dimensão de qualidade que o satisfaça e que o encha de entusiasmo e convicção na possibilidade da paz efetiva aqui e agora, pode ser que deva partir para outra com as minhas bençãos (que não valem absolutamente nada mesmo!).

terça-feira, 12 de outubro de 2010

no meio do caminho

Eu vi algo assim: "Não concordo com tudo, mas..." E achei bem  esquisito. Sempre achei. Como sempre achei que do mundo precisa haver alguma saída. Não conseguiria viver numa prisão sabendo ser para sempre. E, claro, sempre intuí que aquela possibilidade só podia estar na espiritualidade.
Minha busca começou cedo. Lá pelos nove, dez anos me declarei ateu. O que parece ter sido o primeiro grito por ajuda, um pedido de socorro. Que só foi atendido quando me tornei capaz de me socorrer.
E passei por escolas, pensamentos, tradições e diferentes religiões. Cheguei no buddhismo registrado no Cânone Pali onde só não concordo com o que não conheço. E estou longe de conhecer tudo. Mas, talvez paradoxalmente, não sinto muita necessidade de conhecer mais. Posso dizer que concordo com tudo.
Por isso acho estranho quando encontro afirmações como a lá do início com respeito à religião.
Uma religião, desde que seja encarada como uma saída ou solução definitiva, não deveria suportar coisas assim. Ou a pessoa sente-se plena com sua opção ou busca outra coisa. No caminho espiritual penso não ser saudável contornar as pedras. Elas devem ser levantadas, investigadas e destruídas. De outra forma, embora possamos nos esforçar para crer no contrário, elas nunca sairão do caminho.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Rhalah Rikota ou sabedoria ishperrta

Não sou de plagiar muito (não conscientemente, ao menos!), mas vi este numa visita a um blog amigo e não resisti a por aqui também!!
Eis a letra para quem quiser acompanhar! Mas as imagens já dão um recado!
Para quem não entender o título da postagem, digita no Google. É um dos meus preferidos.

Speech by ReadSpeaker