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domingo, 29 de março de 2015

eu também vou transcender

ser bom, ser ético, ser digno do que é dito ser humano não é simples nem fácil. quem tenta de verdade, sabe. embora a vida fique clara e leve quando se tem sucesso, o sucesso não vem sem alguma dor. pensemos que o comportamento ético dificilmente traz os ganhos que nos ensinam a valorizar e, geralmente, implica nalguma perda imediata e até posterior. poucos são os que se permitem perder.
mas essa dificuldade, esse passo gigantesco e árduo que é o exercício de ser bom, parece não ser suficiente para alguns...
não é raro, em palestras dadas por professores buddhistas, surgir aquela modorrenta questão: "mas não é verdade que todas as religiões podem levar à iluminação, professor?" 
não basta os caminhos todos estressarem a importância fundamental de ser bom, ser bom mesmo. os caminhos religiosos falam de ser bom como quase ninguém no mundo conhecido é. famosa a passagem do Buddha alertando aos seus seguidores que se aquele que, tendo seus membros serrados, nutrir raiva por quem os serra, não pode se considerar Seu discípulo. 
eis o tamanho do imbróglio. mas basta isso? que nada! o que preocupa as pessoas é igualar, de qualquer jeito, nibbāna, fusão com o universo, unidade com deus e por aí adentro no emaranhado de concepções sobre aquilo que ninguém sabe se é...
que me importa a iluminação a que você chegou ou quer chegar? absolutamente nada. me basta que você não tome meu lugar numerado, não estacione em fila dupla, não cante a minha mulher. funda-se com seu deus a vontade se você me deixar em paz na minha busca pela cessação. conte, inclusive, com a minha ajuda no que me for possível.
e não me venha querer dizer que o objetivo do buddhismo é o mesmo que o seu, que nós vamos para o mesmo lugar e tal. eu não quero ir com você. simples assim.
até onde eu cheguei na minha compreensão do Buddhadhamma, o Buddha ensina o nibbāna como sendo a solução. e nibbāna é apagamento, extinção. 
ponto. 
extinção do quê? de compor coisas ignorando que são compostas. é nesse aqui que estou. e aqui, me parece claro, só o Buddha ensinou isso, talvez para tristeza de alguns.
é possível que alguém mais tenha chegado, ou venha a chegar, no mesmo que o Buddha sem a ajuda do Buddha? quem sou eu para saber isso e que importância tem saber isso diante da tarefa árdua que é fazer o básico que certamente este alguém teve ou terá que fazer para chegar lá?
eu acho que é bom a gente pensar nisso um pouco e parar com essa mania de importunar os outros com o que só importa a cada um individualmente.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

fundamento

Dia desses me perguntaram: "o que você diz quando te perguntam quais são os fundamentos do theravada?" Eu respondi: "ninguém me pergunta isso!" 
Verdade. O mais profundo de que me lembro foi o "no que o buddhismo acredita?" 
Muito melhor a pergunta sobre o theravada. Porque mais difícil de responder. Por isso mesmo vou escrever o que eu responderia.
Há, penso, algumas respostas.
Aqui cabe um trecho do livro meanings que diz: ...a religião buddhismo, um fenômeno social e histórico relacionado, mas distinto dos ensinamentos do Buddha, surgiu e cresceu, transformando-se e proliferando-se (pág. 10 da edição digital, 2º parágrafo).
Citado isso, me obrigo a começar por esclarecer o que entendo ser o theravada, eu diria que é o grupo buddhista que toma o cânone pali como autoridade final. Significando que qualquer que seja o buddhismo ensinado, tal ensinamento precisa ser rastreado até o cânone pali, em letra e/ou em significado para ser aceito como buddhismo por este grupo. Ponto.
E fiel a esse ponto, eu, que me considero parte desse grupo, seguiria em diante dizendo que o fundamento deste theravada que eu concebo são as palavras do Buddha registradas nos suttas pali e reproduzidas ao aqui ao lado no blog; uma frase que é o que alimenta minha prática pessoal e deve me levar até o nibbāna se eu, um dia, a realizar completamente - disse o Buddha, mais ou menos assim: eu ensino só duas coisas, dukkha e o fim de dukkha. No lugar de dukkha, cabe tudo que não queiramos, assim como muito que, por ignorância, queremos. Para simplificar, traduzimos dukkha por sofrimento. Então, o Buddha ensinou o sofrimento e seu fim.
Aí cabe outra frase do livro citado acima: a fim de conhecer o sofrimento não é suficiente apenas sofrer (3ºparágrafo do primeiro ensaio, Feelings Are Suffering).
Não, o sofrimento não é o que pensamos. Nem conhecê-lo é.
Em Clearing The Path, escreve Ñāṇavīra TheraO leitor,(leitor ideal daquela obra, que comenta os suttas pali) presume-se subjetivamente envolvido num problema angustiante, o problema da sua existência, que é também o problema do seu sofrimento (prefácio, 1º parágrafo).
Voltando, só estas duas coisas é uma resposta possível. Duas coisas que pensamos conhecer bem, principalmente quando não pensamos sobre elas. 
Talvez, pudesse até elaborar um pouco mais e dizer que o theravada se fundamenta em nos despertar a atenção àqueles momentos que provocam a busca ideal de que fala Ñāavīra Thera. 
Há momentos em que nalgum lugar fagulha a impressão de que dukkha, a primeira coisa ensinada pelo Buddha, não é só a dor de barriga, mas também a feijoada; dukkha não é só o divórcio, mas também o apaixonar-se; dukkha é a morte, mas também o nascimento. 
E aí mesmo a segunda coisa: esta fagulha, se alimentada corretamente até tornar-se chama de sabedoria realizada, consome-se e apaga, sem deixar vestígio.
Fim da resposta e, eu sendo bem sucedido, fundamento para muitas perguntas mais.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

the book is on the table. and i will translate it.

um amigo de dhamma me disse que poderia ser útil para alguns falar um pouco do meu hobby de tradutor de textos buddhistas. all right.
para todo aquele que deseja traduzir, me parece óbvio que a leitura é fundamental. seja do idioma a ser traduzido, seja do para o qual vai traduzir. quando cheguei ao theravada já estava praticando e estudando buddhismo e meditação no que havia disponível próximo de mim: um centro mahayana, buddhismo tibetano. mas minha natureza de buscador me impulsionava a cavucar as raízes daquilo. a cada menção que lia a respeito de hinayana e, menos vezes, de theravada, atiçava meus interesses, eu levantava as orelhas e abanava o rabinho.
aí me surgiu a internet. me embrenhei na mata e vi que a maior parte do material que havia sobre o theravada está em inglês. há um pouco em espanhol também. o que fazer? eu tinha estudado inglês havia um tempo, mas o impulso veio quando, tendo feito contato com o professor ricardo sasaki, do centro de estudos buddhistas nalanda, ele me perguntou se não gostaria de traduzir um pequeno texto para publicar na rede. topei. havia um programa tradutor no pc, então vamos ver no que dá.
os primeiros resultados foram fraquinhos, mas tive mais facilidade do que esperava. entregando o primeiro pedi mais um e depois outro e outro e não parei mais.
vou ficando menos ruim com o tempo e hoje leio muito mais em inglês do que em português. claro, com a ajuda da tecnologia atual. então, passando efetivamente para o que realmente pode ajudar, vou compartilhar as minhas ferramentas e modo de trabalho.
leio principalmente num tablet android com os seguintes apps: https://play.google.com/store/apps/details?id=tool.ebook.pdf.reader https://play.google.com/store/apps/details?id=org.pdf.and.djvu.reader  https://play.google.com/store/apps/details?id=org.ebookdroid
estes apps me permitem muitos recursos tais como marcar trechos, comentar, fazer anotações...
e o melhor dicionário gratuito que encontrei me ajuda com palavras e expressões que meu ínglich não alcança: https://play.google.com/store/apps/details?id=com.akdevelopment.dict.enportug2.free
quando um texto me é enviado para tradução, ou eu escolho um para traduzir, eu uso o https://support.google.com/translate/toolkit/answer/147809?hl=pt-BR uma paltaforma de tradução disponível para todos que tenham conta no google. acho excelente, é cheia de recursos dos quais não utilizo nem um terço. somo a ele um plug in do navegador firefox chamado im translator, muito bom também e com um bom dicionário.
para ajuda com o português eu uso http://aulete.uol.com.br/ tanto na versão on line quanto a instalada no pc fora outros incontáveis dicionários e tradutores on line que abundam na rede quando algum destes que citei não me convence.
então é isso.
se alguém deseja contribuir para a difusão do dhamma no brasil e ainda não sabia como, aí está minha humilde dica. de quebra ainda faz um improvement no english.
the book is in the tablet.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

arredondadores da roda

recebi link para uma matéria e uma entrevista com um novo sábio. quem me enviou queria saber se eu conhecia. fui lá. e concluí que o novo sábio é mais um daqueles que eu costumo chamar de arrendondadores da roda. porque nada vejo surgir de novo das palavras que ajuntam. o arredondador em questão, pelo que li sobre, escreveu já mais de mil páginas conectando vários ramos do saber humano rumo a uma holística integração de tudo. e do resumo das suas ideias nada me iludiu.
as obras dos arrendondadores me causam a sensação de legos. você passa um tempo montando e resulta um carrinho, uma nave ou outra coisa já sabida de antemão e, por si mesma, sem graça e precária. o prazer esteve em encaixar as peças. o valor do resultado final depende é da imaginação. 
é assim com os arrendondadores: o prazer está em montar o palavrório e levitar nos loopings filosóficos. e só. o resultado final é algo já sabido. mas queremos que seja novo.
os arrendondadores tem admiradores. 
nossa tendência, conforme explana o bhante katukurunde ñāṇananda e como já publiquei por aqui recentemente citando o erudito david kalupahana, é nos encantar pelo complexo e nos cegar para o simples. por mais, e quanto mais, evidente seja, mais buscamos pelo oposto. considerando isso, vislumbramos amplitude e profundidade até então talvez não aparentes na afirmação do Buddha de que seu ensino ia contra a corrente do mundo. uma afirmação simples e clara como sempre.
atualmente penso eu que, para nós, macacos pelados, a compreensão de anicca, dukkha e anatta (impermanência, sofrimento e não-eu) é o que basta para uma vida, seja como tarefa, seja como solução. nada mais eu vejo como necessário. mas a contemplação destas três características implica em confrontar, além daquela paixão pelo complicado, uma outra que nos alimenta essa antipatia pelo simples: a de querermos ser divinos. a mesma inteligência que nos faz símios capazes de saber a evidente miséria, vanidade e instabilidade do existir, nos torce o olhar para o alto, para a criação das mais variadas opções de redenção e divindade e fuga do óbvio. 
enquanto sob os pés o chão continua a ruir, os corpos a contrariar, as mentes a criar do nada coisas cujo único propósito é continuar surgindo e perecendo.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

don't worry, be happy

 ...àquelas pessoas que se preocupam com o fato de o Buddha ter equalizado vida a sofrimento é possível argumentar o seguinte: é dito que, se nos mantivermos diligentes no caminho, quando despertarmos, quando chegarmos a ser verdadeiramente despertos, a vida se tornará incomparavelmente mais suportável e, somado a isso, conheceremos a insuperável alegria de saber, com plena certeza, que nunca mais vieveremos de novo...

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

reencarnação? deixe isso para depois da morte

a gente encarna neste assunto desde os tempos do Buddha e antes: o que eu fui? o que eu serei? eu fui ou não fui? serei ou não serei?
no que o Buddha replica: você sabe o que você é?
o Buddha nos diz que nossa visão da realidade é distorcida, equivocada, doente, iludida. e é com base nesta visão, é desta perspectiva presente, que nos pomos a questionar o que virá.
aconteceu, algumas vezes, ter de responder se eu acredito em reencarnação. como é que vai se explicar isso? vem aquela história de que não é bem reencarnação pois tudo muda e tal... mas no fim das contas fica a sensação de que não há muita diferença na diferença que um buddhista, com algum conhecimento de anatta, vê e aquilo sobre o que pergunta o curioso.
o fato é que pensamos num tipo ou outro de continuidade tão impossível de provar quanto a existência ou não de deus. e, na minha opinião, tão fútil quanto.
na última vez em que fui questionado respondi que sim, acredito em um tipo de continuidade, mas que sei que acredito e não acredito que sei.
seria muito mais produtivo tentar apresentar para a pessoa a natureza distorcida de nossa visão de mundo, falar que nestas bases em que nos sustentamos a pergunta é desinteressante e inútil, que antes de nos preocuparmos com este assunto há outros mais pertinentes para nos ocuparmos e buscar corrigir e compreender... mas não chegamos perto disso e já correram ou mudaram de assunto. o que interessa somente é saber se partilhamos em algum aspecto da estupidez da maioria. aí, no fim das contas, em nome de alguma coisa que fica entre o enfado e a convivência amigável a resposta acaba sendo sim, acredito, me passa aí um pedaço de bolo...

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

a morte do ego

...essa coisa de matar o ego...! isso é impossível! ninguém mata ou anula o ego! 

tá. olha só, você está repetindo uma coisa que ouviu, leu ou recebeu por email. não tem conhecimento sobre, mas por direito pode falar a respeito. vou te dar um exemplo que, estando mais adequado ao seu campo de interesses, pode ajudar você a ter uma noção melhor do que está falando. 

ah... por favor! 

o isaac newton compreendeu porque as coisas caem e porque os astros giram em torno uns dos outros. elaborou equações pelas quais o mundo progrediu e tal. aí surgiu o einstein e boa parte do que disse o newton teve que ser reinterpretado ou mesmo abandonado em condições mais extremas, certo? 

certo. a relatividade ultrapassa a mecânica clássica em termos de precisão e derruba os conceitos de espaço e tempo absolutos. 

obrigado. pois bem, o mundo funcionou e, na maior parte dos casos, funciona muito bem sob as regras da mecânica clássica do newton. só na medida em que mais precisão é requerida é que entram as descobertas do einstein. 

tá, obrigado por me ensinar o que eu já sei. o que isso tem a ver? 

tem a ver que até certo ponto funciona e parece, incontestavelmente, real. é correto dizer que o einstein "matou" ou "anulou" a mecânica clássica ou a força da gravidade? 

não, ele só "ajustou" as coisas. 

é correto dizer que ele NÃO matou a gravidade clássica por que esta nunca existiu? 

... sim... é correto, sim...

então, o Buddha e ninguém depois dele, "mata" ou "anula" o ego porque o ego, conforme entendemos, nunca existiu. funciona, como a gravidade da mecânica clássica, mas a medida que nossa sagacidade mental se desenvolve começamos a perceber sua imprecisão e o castelo vai ruindo. essa "falta de precisão" que percebemos é, basicamente, o motivo da precariedade da felicidade ordinária do "ego clássico", falando nos termos da nossa analogia. 

... 

percebe agora? do ponto de vista buddhista não há que matar ou anular nada, só compreender um equívoco. quando uma pessoa acha que precisa de níveis mais "precisos" de felicidade ou realização, há o Buddha e sua disciplina para que ela teste. assim como para que o gps funcione é preciso que a troca de informações entre os satélites e os receptores seja calibrada levando em conta as distorções do espaço-tempo.

...

só isso.

...

eu vou escrever e te mando.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

deixa chover

...não consigo compreender esta coisa do refúgio...

é. é uma noção meio estranha, entendo sua dificuldade... mas talvez te ajude o seguinte: imagine que você é pego por uma chuva, uma chuva daquelas, a pé, sem capa nem guarda-chuva. aí você encontra uma marquise, uma ponte, um abrigo qualquer. imagine esta cena ou melhor, relembre a sensação, acho que é uma experiência bastante comum, e talvez ajude a você entender o refúgio.

sim... mas e a chuva! que chuva é essa!?

basicamente é tudo que não temos controle na vida: velhice, doença, morte, perdas... como a chuva, vão continuar caindo em nós, mas temos um refúgio agora... mais que uma marquise, encontramos uma casa de impermeabilização! o Buddha é o proprietário, aquele que descobriu o método de impermeabilização mental; o método é o dhamma; a sangha são os que nos conduzem no processo, saem na chuva e voltam impermeáveis para nos mostrar...

sábado, 14 de julho de 2012

diṭṭhevadhamme

os buddhistas acreditam que reencarnamos como animais?
o que você quer dizer com reencarnar?
ah, morre mas não acaba... volta, nasce de novo...
é, sim, acho que dá para dizer que sim, cremos nisso, ou algo próximo disso...
por isso então que não se deve matar nada?
sim... mas também não...
...
olha, você vai achar isso dito em algum lugar, e há este ponto de vista que não está errado, o pernilongo foi minha mãe e tal. mas há também o ponto de vista que eu prefiro adotar que é o seguinte: tudo no buddhismo precisa ser visto como um treinamento que dê resultados nesta vida, here and now. uma galinha pode ter sido minha mãe, posso crer nisso e é positivo e produtivo em muitos aspectos. mas eu vejo o ideal como sendo eu evitar fazer mal à galinha porque eu treino a minha mente para eliminar o que chamamos de venenos mentais. e maltratar outro ser sempre nutre o veneno da raiva, aversão, agressividade, um dos três venenos principais. compreende?
sim, sim...
o foco, no meu ponto de vista, nunca deve fugir desta vida aqui. porque crença é útil mas tem suas limitações. e para a galinha não faz a menor diferença...
hahaha. para você, faz...
é, faz! me parece mais hábil e em acordo com aquilo que se registrou do Buddha nos ensinamentos antigos. independentemente de eu crer que o animal foi minha mãe eu mantenho meu treinamento e ficamos todos bem, eu e as galinhas...



quarta-feira, 29 de junho de 2011

responder não ofende

O que é o buddhismo, afinal?
É o nome dado pelo Ocidente ao que foi registrado como sendo as palavras daquele conhecido como o Buddha. A palavra Buddha significa desperto, é um título, e foi dado a um príncipe hindu também chamado Sakyamuni, ou "sábio dos Sakyas", clã ao qual pertencia, após Ele ter proclamado o Seu Despertar. O Despertar do estado de existir ignorando a realidade.
O príncipe parece ter sido de mentalidade inquieta. Mesmo em sua juventude, sem ter sido tocado diretamente por ele, incomodou-se com o sofrimento da existência e num dado momento decidiu que mais importante que uma vida convencional era encontrar a solução para aquele incômodo. Depois de alguns anos de busca acreditou ter alcançado o fim que buscava, o fim do sofrimento, que foi a a sua profunda compreensão intuitiva da realidade, tornou-se o Desperto e passou a compartilhar seu despertar com todos que estivessem dispostos a ouvir. A Índia daquela época era fértil de gente disposta.
Pelos próximos quarenta anos ele seguiu ensinando o Seu Caminho que era cuidadosamente aprendido e praticado pelos muitos discípulos que conquistava. Algum tempo depois de Sua morte seus ensinamentos foram escritos e chegaram até nossa época e esta é a fonte daquilo que o Ocidente veio a chamar de buddhismo.
O que ficou registrado das palavras do Buddha, em resumo, foi que o sofrimento existe e deve ser meticulosamente investigado e conhecido; o sofrimento tem uma causa que deve ser abandonada; o sofrimento tem um fim, que deve ser realizado; há um método, um Caminho, uma disciplina que promove este fim, e deve ser praticada. Estas quatro afirmações são as Quatro Nobres Verdades. Nobres por que penetrá-las torna nobre o indivíduo que o faz. A visão de realidade realizada e proclamada pelo Buddha, aquela para a qual Ele despertou e que é o fundamento da funcionalidade do Seu método é a Condicionalidade. Esta visão postula que existir é um processo causalmente condicionado até os mais sutis aspectos. Assim, o despertar, o mesmo que o fim do sofrimento, é o fruto da interrelação de uma estabilidade de percepção que permita o aprofundamento da consciência desta realidade e da ação em conformidade com ela.
A pergunta feita acima surge de alguma dificuldade que existe em se classificar a disciplina do Buddha em alguma categoria do conhecimento humano. Comumente as pessoas dizem ora que o buddhismo é uma filosofia, outras que é uma religião, outras que é um modo de vida e, mais recentemente, tem surgido a idéia de que é uma ciência da mente!
Nenhuma destas classificações me parece errada mas todas, se tomadas isoladamente, são insuficientes. O Buddhismo é tudo isto e mais alguma coisa que surgir, talvez. E eu creio ser impróprio alguém se afirmar buddhista se não há cada uma destas categorias implicadas na concepção daquele que se afirma.
Quem sabe uma outra hora eu exponha o porquê de meu entendimento ser desta forma. Por enquanto acho que respondi a pergunta sem ofender ninguém.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

palavras

Lutar com palavras é a luta mais vã.
Fiz este copy/paste do Drummond porque foi do que eu lembrei enquanto refletia na dificuldade de expor o dhamma. 
Nenhuma novidade. 
É uma coisa repetida desde Lao-Tzu "o tao que pode ser proferido não é o tao eterno". Mas, nenhuma novidade também, nos emaranhamos repetidamente nas palavras, quer seja tentando compreender, quer seja tentando explicar. E se ficarmos satisfeitos com a explicação que recebemos ou damos pode ser sinal de que não entendemos, ou tínhamos entendido, realmente.
Queremos saber, por exemplo, o que é a mente. E lá vão e vem palavras e mais palavras, construções, raciocínios e o embolo só aumenta. 
Não é que as palavras sejam dispensáveis. Se o fossem o Buddha não teria passado mais de 40 anos pregando. Mas empacamos no meio do caminho entre as placas sinalizadoras que são as palavras e o caminhar efetivo que conduz ao entendimento. Voltamos as costas à trilha e ficamos a decifrar os sinais, suando os miolos.
Catamos palavras como se com conchas colhêssemos porções do oceano na tentativa de entendê-lo. Palavras são pedaços da imagem que compomos da realidade. Engrenagens e ferramentas que mantem o mundo do jeito que nos aparenta ser. Enquanto que o mundo que o Buddha vê e revela é um fluxo contínuo de manifestações experienciáveis das quais, viciosamente, insistimos em nos por a parte. Se Ele fez um recorte, se tentou uma palavra, é só porque não havia outro jeito a não ser render-se  à nossa limitação. 
Precisamos das palavras. Precisamos ler, estudar, debater, dialogar mas sem nos emaranhar. Sem confundir. Sem a esperança de que vamos entender alguma coisa do que o Buddha falou antes de ter experienciado lá onde as palavras não chegam. Lá onde não há lutas vãs. Na paz de uma mente incompreensivelmente pacífica e lúcida. E de uma forma que não consigamos expressar.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

uma palavra por dia

Dia desses achei este livro na rede, no www.buddhanet.net.
A proposta é fomentar o uso do pali para o estudo do Buddhadhamma. Compreender o significado das palavras no original é muito melhor do que nos basear em traduções se queremos gerar a experiência direta do que o Buddha ensinou.
Gostei tanto do livro que acho que vou publicar minha tradução do texto aqui juntamente com minhas impressões das palavras apresentadas.
Espero que gere o mesmo interesse em quem passe por estas bandas!

11/10/2011
Este trabalho foi assumido pelo Grupo De Tradutores do Centro de Estudos Buddhistas Nalanda e em breve eu publico o link do trabalho completo por aqui! 

24/10/2011
o Link para o trabalho completo:
http://nalanda.org.br/uma-palavra-pali-por-dia

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

cinco agregados

Os nomes são forminhas nas quais congelamos os fenômenos no tempo e no espaço. 
Como fazemos com os Cinco Agregados. 
O Buddha nos diz que somos meramente um conjunto de cinco: corpo, sensações/sentimentos, formações mentais/pensamentos, percepções e consciência. Não é forte o entendimento de que então, oras, podemos ser divididos nessas cinco 'coisas'? Nos imaginamos como um constructo de onde podem ser tirados, um a um, estes componentes.
Mas acho que não é bem assim.
A mente agarra qualquer fenômeno do qual se conscientize. E nomeia, congela e separa: isto, aquilo, aquele, aquela lá... Assim é como faz com os agregados que o Buddha listou. A qualquer cousa que surja para a mente e que possamos identificar como 'meu/eu/meu eu', eis um agregado embalado em upadana. Por exemplo: me 'identifíxo' com(o) meu corpo, meu sentimento/sensação, meus pensamentos, minha percepção, minha consciência. A cada vez que um (ou mais) surge, congelamos e compomos um eu com base nisso. E se há tal objeto precisa haver um eu possuidor/observador. É assim. Eis eu.
Eu acho que o que o Buddha quis dizer foi que estes fenômenos transitórios e compostos, como quase todo o resto, que ele chamou agregados, são por onde nos vemos como seres. Não é que sejam pedaços do ser. São sim eventos que a mente pontua e discerne no processo de existir. Cenas da peça que encenamos e que chamamos minha vida.
O Buddha declara cinco agregados. Eu não consigo ver mais nenhum. Se alguém encontrar, tudo bem. Certamente será mais um objeto "eusificado/eusificante".
Então, o caminho do despertar não é o de separar estes agregados mais do que o de perceber como a mente interpreta estas diversas formas de engendramento do eu, do mundo. É perceber como se dá a construção de um personagem com base nestes fenômenos distintos e identificáveis no contínuo do existir. É deixar a mente fazer o trabalho dela, que é conhecer. Este é o objetivo da meditação. Porque existe a ignorância que impede a mente de experienciar os agregados tal como são. Porque encapsulamos as coisas, congelamos e separamos. É um ciclo, mesmo. Repetitivo. Não é só o meu texto que é tosco. É avijja que é assim! Seguimos congelando repetidamente e nos mantendo cegos para o fato de que tudo é um ir vertiginosamente dinâmico e sem identifixidade.
E por conta disso, talvez a pergunta surja: mas quem medita?
Estritamente falando, ninguém. Mas não gosto de acabar com declarações pseudoprofundas e repetitivas.
Não há um que medite.
Começa lá atrás, com uma tomada de consciência de que algo não está bem. Achamos que há um eu que sente, tudo bem. Aí conhecemos o ensinamento do Desperto, do Buddha. Começamos a meditar. Achamos que "eu" meditamos. Tudo bem. Estudamos, entre outras coisas, os Cinco Agregados. Achamos que há um eu composto pelos Cinco. Tudo bem. Se continuamos a meditar e estudar, poderemos experienciar, vez ou outra e definitivamente todo o descrito até aqui livre de uma falsa terceira pessoa, que para nós sempre foi primeira: o eu. E revelarse-a, então, só o acontecendo: inspira, expira; tomada de consciência; inspira, expira. Sem primeira pessoa, nem segunda, nem terceira. A experiência acontecendo e absolutamente impossível de ser capturada e posta na forminha.
Tudo bem.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

(o que dá para fazer)

De vez em quando alguém pergunta se nosso destino como praticantes laicos não seria só fazer o melhor possível para que numa próxima vida nasçamos como monges e, aí sim, podermos praticar e chegar lá! Lá no nibbana!
Pois eu poderia citar alguns trechos dos suttas em pali em que laicos chegaram lá! Mas aí poderiam dizer que são casos muito especiais de pessoas que tiveram vidas anteriores extraordinárias e tal e eu não poderia discutir porque me falta um monte de coisa. Dentre elas, competência. Mas digo sem medo que esse negócio de justificar aquilo com base em vidas anteriores é uma questão de fé e que, sendo assim, é possível ter fé na 'extraordinariedade' da vida anterior de qualquer um! Na minha, inclusive!! 
Pois bem, deixando de lado questões de fé, posso falar do que dá para fazer como laico:
- É possível ter consigo textos e mais textos de dhamma sempre que houver aquele tempinho entre uma inutilidade samsarica e outra. Se não em livros, há aparelhos diversos, com preços diversos que possibilitam carregar textos diversos, de suttas a tratados, em volume que qualquer ser humano leva tempo para ler (e mais tempo ainda para estudar!) além da conta. E que ajudam a ver o dhamma onde e quando parece não haver dhamma.
- É possível carregar, nos mesmos aparelhinhos, sons do dhamma: palestras, cânticos, aulas, e vídeos, para aqueles momentos em que a leitura cansar.
- É possível (talvez menos para alguns, preciso reconhecer) ir a um lugar isolado e silencioso (como o Buddha recomenda nos anapanasati e satipatthana suttas)  periodicamente e cultivar a mente/coração.
- É possível (com grau de esforço maior para alguns, mas sempre decrescente na medida em que se treina) manter a disciplina dos Cinco Preceitos, e até de maior número deles, por períodos consideráveis de tempo. Cada vez maiores na medida em que se treina.
- É possível entrar em retiro com relativa periodicidade e facilidade. Desde que se aceite que o lugar de retiro não precisa ser SEMPRE aquele templo ou centro que fica lá longe e custa caro e falta tempo e minha família resmunga prá caramba... O lugar de retiro, essencialmente, é aquele em que a gente se encara e com absoluta franqueza sabe que está fazendo o melhor para honrar o nome que gosta de se dar de "discípulo do Senhor Buddha".
- É possível ser atento e lembrar do dhamma naqueles momentos em que parece que o dhamma é outra coisa que não o aqui e agora (os BONS textos são extrementes eficazes em ajudar nisso!)
- É possível ter contato com professores de dhamma. Bom, pelo menos para quem estiver lendo este blog, o que significa que tem algum acesso à rede.
- É possível fazer alguma coisa pelo dhamma do Buddha dialogando, perguntando, incentivando, doando (não nece$$ariamente) tempo ou dom (traduções de textos são uma demanda constante!), participando e assim, quem sabe, acumular aquilo que muitos gostam de acumular que são os méritos kammicos!
- É possível ser uma pessoa boa.
-É possível, e imprescindível para a saúde psíquica (e a saúde psíquica é imprescindível para a boa prática do dhamma), ser corajosamente sincero consigo próprio.

Se eu lembrar coloco mais coisas. E sugestões são muitíssimo bem vindas!
Mas posso garantir, pois ouvi de fonte que eu respeito e não só eu, que muito monge não faz um tanto do que escrevi acima! 
E aí, se você for um dos que pensa que a vida atual de laico é, na melhor das hipóteses, passagem para uma futura de monge, e quer continuar acreditando nisso, tudo bem. Se não, tente praticar o que eu escrevi (ou alguma coisa, ao menos ou a mais) junto comigo, e se a sua vida não ganhar uma dimensão de qualidade que o satisfaça e que o encha de entusiasmo e convicção na possibilidade da paz efetiva aqui e agora, pode ser que deva partir para outra com as minhas bençãos (que não valem absolutamente nada mesmo!).

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

daqui de baixo


As minhas incursões pela superfície, por vezes rendem trapalhadas. Há muita côr, aparências, luzes, brilhos e reflexos. Por aqui, nas profundezas, é tudo mais claro. Nas sombras as cores esmorecem, as aparências transparecem, as superficialidades não tem sustentação. Mas o barulho por vezes é tão perturbador aí em cima que me atiça a natureza e acabo me arriscando.
Mas então me confundo. Fico realmente por fora.
É assim.
De tanta balbúrdia política, empolgado dei meus tropeços pelos caminhos enviezados e rumos emaranhados que, penso saber, não chegam a lugar algum. Não revelam nada. Nada além do que apreendo aqui embaixo.
Por mais que me capturem os olhos, pois minha queda é escrutinar, os encantamentos das variedades e nuances aí de cima, meu pensamento insiste, certamente por acostumado que está, em buscar o que a forma oculta, o que a casca encobre, o que a luz esconde. E me dano em apontar para as coisas que não interessam a ninguém daí, embora haja quem venha me bater à entrada da gruta! Quando me vejo, pois  o tempo que perco não olhando pra dentro logo me causa  falta, estou já todo enrolado! Aí sei que a hora é de me desembaraçar, desistir, esquecer, abandonar... Deixar que seja o que as coisas são, que vão como possam ir, e voltar para onde ando em paz, para onde respiro sem esquecer. Onde, quieto, aprendo das sombras.

***

Si surge algo desagradable, decimos: ‘¡Huye!’ Si alguien se cruza en nuestro camino, decimos: ‘¡Mátalo!’ Esta tendencia es a menudo evidente en cómo actúan nuestros gobiernos... Aterrador, ¿verdad?, cuando piensas en la clase de gente que gobierna nuestros países -porque todavía son muy ignorantes y no están iluminados. Pero así es como es. 

Se surge algo desagradável, dizemos, "Fuja!" Se alguém atravessa nosso caminho,  dizemos: "Matem-no!" Esta tendência é evidente na forma como agem os nossos governos... Aterrador, não é verdade, quando se pensa sobre o tipo de pessoas que governam os nossos países? Porque, em todo caso, eles são muito ignorantes e não  estão Despertos. Mas é assim que as coisas são. 

Do livro "Las Cuatro Verdades Nobles" de Ajahn Sumedho.
Publicado aqui em espanhol.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

padrinho mágico


Ele veio me perguntar sobre o seu casamento, que está próximo, naquele tom de brincadeira que usamos quando gostaríamos de falar sério: "Todo mundo me enchendo o saco... Enchendo minha cabeça contra o casamento...Você vai dar o veredicto! É sua a palavra final..."
Eu, num dia inspirado, imerso em filosofâncias  e psicologismos além da média dos últimos trinta e alguns anos, dei-lhe uma resposta que foi mais ou menos assim:
Casamento é coisa para gente grande e parece que cada vez menos queremos crescer. Temos incontáveis brinquedos e brincadeiras, agora. Conseguimos fazer do mundo o nosso parquinho. Todos querem brincar pelo infinito a fora. Mas, apesar de todo silicone, botox e suplemento alimentar, apesar de toda velocidade de conexão e ausência de fios que conquistamos, apesar de conseguirmos fazer parte da maior Turma do Bairro de todos os tempos via orkuts e facebooks, continuamos a envelhecer e morrer.  No mesmo ritmo de sempre. Apesar da variedade de brincadeiras, todas enjoam. Todos os brinquedos, se não quebram, envelhecem ou entediam. Todos os nossos mimos de crianças ricas estragam, droga!
O casamento é um momento complicado porque parece ser o chamado da mãe (ou do pai!) para entrarmos. É o início da noite mas estávamos na melhor parte da brincadeira. Começamos a ver o sol se por e sentimos aquele pavor: "está acabando..." Temos a opção, que cada vez mais parecemos fazer, de fingir que não ouvimos  a mãe natureza e continuarmos brincando pela noite. Mas é perigoso! E esta noite nunca mais amanhece. Só há luzes artificiais até o fim.
Temer os fatos da vida e encobri-los, não ver o envelhecer principalmente, é a nossa vida hoje (mais do que nunca?). E acabamos negando quase tudo o que envolve o processo, especialmente o amadurecimento. (Lembrei agora, enquanto escrevo, do episódio Miri, acho que era esse o nome, de um Jornada Nas Estrelas...)
Alguém diz: "E você acha que ele está pronto para isso?" E eu: "Quem tem que saber disso é ele. O que posso dizer é que ele precisa de muita maturidade para lidar com o moleque imortal se não quiser uma vida de brinquedo daqui para frente..."

domingo, 8 de agosto de 2010

presente


"...aí, o tio da van (perua escolar), pai, falou que tem umas bebidas que são docinhas..."
"Mas esse Tio Zé, hein meu?!"
"Mas eu disse prá ele que eu nunca vou beber, pai!!"
"É, filho, tem muita água pela frente ainda! Vamos ver, né?"
"...A Aninha disse que o pai dela bebe..."
"É, filho, não é o fim do mundo... Cê sabe, né? O Vô, por exemplo, toma lá as cervejinhas dele... Não é porque o pai não bebe que você deve achar que quem bebe é bandido, viu filho?! Beber é um costume, até certo ponto, normal na nossa sociedade. O exagero e a irresponsabilidade é que são problemas..."
"Tipo beber e dirigir, né pai?"
"Isso! Isso mesmo! Você sabe por que o pai não bebe?"
"Hmmm... Cê não gosta...?"'
"É, nunca achei muito gostoso não... Mas o motivo mesmo é outro. O lance é o seguinte: você sabe que o pai medita, né? E para que o pai medita?"
"Para ficar mais calmo...?"
"He, he... E para ficar mais lúcido, sabe? Ver as coisas com mais clareza na mente... Ter uma visão mais clara do mundo... E o que a bebida faz?"
"Deixa bêbado!"
"E um bêbado não vê as coisas com muita clareza, né?"
"He, he..."
"Então, como que eu vou fazer uma coisa e mais outra que é o oposto daquela?"
"Que nem fazer um muro num dia e derrubar no outro..."
"Isso! Isso mesmo! Entendeu, né?"
"Entendi... Sabe pai, por isso que eu gosto de conversar com você! Você explica bem as coisas... Fala de uma coisa aí põe outra no meio que explica a outra coisa... Fica melhor de entender!"
"Que bom, filho! Eu também gosto muito de conversar com você! O pai gosta de explicar porque gosta de entender. A gente precisa ser assim: aprofundar-se nas coisas, esclarecer... Quem fica na superfície é bolha."
"He, he, he... É pai! É isso mesmo!"


Desafio a um eventual pai que ler este texto a dizer que ganhou presente melhor!!

terça-feira, 8 de junho de 2010

relatividade, baladas e sementes

Trabalho com uma rapaziada bem legal. 
Tem uns corôas de mim para cima também, mas a maioria ainda não chegou nos trinta.
E a gente conversa.
Dia desses chegaram do refeitório me intimando: "Jorjão (que é a versão deles de mim) o que que cê andou falando na cabeça do fulano (um dos moleques)?" E eu: "Eu!? Por quê?!" E eles: "O cara tá lá com uns papos loucos de que o Schumacher (o piloto) está envelhecendo mais devagar que a mulher dele!!" E eu demorei um pouco para atinar. Fiquei com a boca aberta um tempo, com uma cara de idiota bem minha  até lembrar de um papo que tive com o tal carinha sobre relatividade!
Ciência é um assunto  do qual eu gosto e a gente teve lá um  papo, um dia, e conversamos sobre os efeitos da velocidade sobre o tempo e tal de acordo com as idéias do Einstein (E = m.c²). Pois acho que ele gostou de saber que, embora infinitesimalmente irrisório, o tempo passa mais devagar para o Schumacher quando ele está lá nos seus treinos e corridas a centenas de quilômetros por hora.
Bom, tendo lembrado, eu expliquei a tal conversa para os inquisidores e eles ficaram intrigados também! Os meninos, na maior parte das vezes, me dão ouvidos, principalmente nesses assuntos menos populares (acho que me tem como uma espécie de Tio Google), mas teve lá um dos coroáveis como eu que saiu com um "É, essas coisas são interessantes mas não para nós, né? Isso é útil para os inventores, cientistas... Para piões como a gente não faz diferença essas teorias..."
Pois bem, a molecada de hoje abusa. Bebe demais, baladeia demais, se arrisca demais... E eu estava conversando com um em outro dia sobre como as coisas são e como elas parecem ser. Sobre como parece que a gente precisa de diversão, distração, prazeres o tempo inteiro e todo o tempo mas que, na verdade, pode não ser assim. E foi com um dos inquisidores de então!
Eu fiz o link óbvio naquele momento: "Lembra aquele dia em que conversávamos sobre o modo como as coisas são e como parecem ser?" E ele: "Ã-hã." E eu: "Então.  Saber da teoria da relatividade nos mostra como que,  se mesmo em questões tão concretas como essa do tempo e espaço nosso senso comum nos engana tão grandiosamente, imagina para aquelas mais sutis da mente, comportamento humano e coisa e tal..." E o menino ficou lá uns três segundos pensando naquilo.
Nenhum conhecimento é impróprio viu, ô corôa!? O que precisamos, às vezes, é buscar uma aplicação prática para ele.
Sendo buddhista, que esta aplicação seja para a cessação de dukkha é o ideal.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

estamos vendo

Estamos vendo coisas terríveis acontecendo.
E tem gente ganhando dinheiro para dizer que a culpa é nossa, e tem gente ganhando dinheiro para dizer que a culpa não é nossa! O fato é que, com um pouco de bom senso e informação, podemos ver que há lixo demais, poluição demais, gente demais, consumo demais. O que fazer diante disso depende, como sempre, de cada um. Se tem solução eu , como muitos, não sei, mas faço o que acho que devo com base nas minhas próprias impressões da desgraça que se avoluma e que me cerca.
Meu estado natal, onde fica a cidade sede das olimpíadas de 2016 sofre, exatamente agora, os resultados que sempre vem de causas e condições. 
O emaranhado é tão grande! As condições são tantas: irresponsabilidade, ganância, corrupção, ignorância, sobrevivência, descaso, negligência... E, estas, podem ser atribuídas a todos os envolvidos, em diferentes graus.  Inegável é o fato de que aqueles que tem o poder devem se fazer mais senhores das condições. Deveriam exercer sua vontade para minimizar o  descomunal sofrimento que surge de tais eventos e, num mundo sensato, evitar aqueles que for possível.
Não consigo abandonar o pensamento que ricocheteia na minha cabeça sem parar: com morros desabando, chuva caindo e não tendo mais para onde escorrer, a cidade afogada pelo caos, não houve uma pessoa capaz de imaginar que num local em que há casas construídas sobre um lixão haveria uma tragédia logo, logo? Houve, claro que houve!  Há gente paga para isso! Mas a tragédia aconteceu. O Morro do Bumba, em Niterói, desabou sobre as pessoas que moravam nele.
As pessoas constroem suas vidas sobre o lixo, sobre tobogãs de barro, em beira de precipício, umas sobre as outras. São causas de sofrimento quando estas construções são meramente metafóricas! Nós, Buddhistas deveríamos entender bem disso. O que dizer quando não são? Todos entendem. Todos veem. Todos sabem. Todos permitem.
Nós estamos vendo coisas terríveis acontecendo e vendo que coisas terríveis vão acontecer. Por que tem sido sempre assim. Nessas situações, sempre aparecem pessoas que falam em começar tudo de novo... Eu sempre torço para que não recomecem do mesmo jeito.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

conversando

- ...mas, sendo buddhista, você acredita em reencarnação...?!
- sim, digamos que sim. embora o termo "técnico" não seja reencarnação, eu acredito que a vida não termina naquilo que chamamos morte...
- então! é uma crença!
- sim! o lance é que eu (nós, buddhistas) não baseamos a nossa prática religiosa nesta crença. a nossa base é que aquilo que o Buddha ensinou, o Caminho de prática que o Buddha ensinou, dá frutos no aqui e agora, a qualquer momento. quer acreditemos em "reencarnação" ou não. 
aliás, a menção ao resultado no presente da prática do Caminho é feita pelo próprio Buddha nos textos do cânone páli. embora eu tenha já visto, e você possa vir a ver, que isto é coisa de um "ensino mais elevado", os monges da tradição Theravada, a mais antiga, recitam isto diariamente... e mais aliás, a leitura dos suttas pode revelar e esclarecer muita coisa! há passagens, princípios, ensinamentos que são atribuídos a diversas fontes, mas que estão lá, nos primeiros suttas, desde há muito preservados pela tradição antiga...

                                                    ***
Por que manter um blog sobre Buddhismo?
Por que eu gosto!
Gosto de escrever e gosto do Buddhadhamma! Considero-me um privilegiado por ter um imenso prazer em tratar com o Buddhadhamma. Seja estudando, lendo, conversando, escrevendo ou praticando! 
E não é assim que as coisas parecem ser hoje em dia? Partilhamos daquilo de que gostamos?

Speech by ReadSpeaker