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sábado, 7 de fevereiro de 2015

pazes

a história é aquela: o herói sai em busca do que ignora carregar no bolso por toda a jornada cheia de aventuras.
voltando ao ponto de partida, alguma coisa o faz olhar dentro do bolso.
a biografia do Buddha conta que num momento crucial de sua busca Ele se lembra de um dia em que, ainda infante, experimentou algo oriundo de um momento de quietude interior no quintal de seu palácio, na companhia de seu pai. e resolveu seguir aquela pista. 
deu no que deu.
esses toques parecem dizer que, em tese, é possível despertar até assistindo ao big brother. 
talvez fosse mais fácil se tomássemos o caminho mais difícil de dedicação integral ao cultivo da mente, à reformatação da percepção e concepção do mundo. mas como a vida não é nossa, e aceitar isso parece ser já uma gota de sabedoria, a melhor opção é fazer as pazes com nossa própria jornada.
lavar louça, varrer a casa, limpar o banheiro pode ser uma viagem.
acordar bem cedo para trabalhar. trabalhar à noite... quanta coisa acontece, quanto material vazio, impermanente, difícil de suportar surge por todos os lados!
a vassoura quase esmaga uma aranhinha que sai em atabalhoada fuga. o varredor pode bem parar um momento e questionar-se em que ponto a sua limpeza vale mais que a vida da aranha... respirar, aquietar e varrer a mente. um pouquinho.
e de pouquinho em pouquinho vai-se tomando o caminho de dedicação integral ao cultivo da mente. quem sabe quando o mais difícil deixará de ser?


domingo, 19 de janeiro de 2014

change

das muitas perguntas da música uma é especialmente boa: se você soubesse que é capaz de descobrir uma verdade que trará uma dor que não pode ser aliviada você mudaria? canta tracy chapman em 'change'.
muito pertinente para um buddhista, uma poética versão da questão das pílulas de matrix. 
para quem leva a sério o Buddha Sasana o caminho passa longe da turma que dança pelada sob a luz do luar... 


antes da liberdade, uma vistoria meticulosa na prisão da vida.
antes da felicidade um escrutínio corajoso pelos mecanismos e origens da dor.
antes da verdade iluminadora um mergulho na escuridão uterina da mãe ilusão.
antes da plenitude um pavor diante do vazio abissal.

um trincar os dentes até que o medo passe. 
nem fugir, nem lutar.
um ficar de olhos bem abertos e fixos resistindo a dormir ou a ver tv...

um caminho para qualquer um. nada especial.

sábado, 19 de outubro de 2013

saṃsāra

que caos!
barulho
tumulto
stress

gente correndo
comigo e contra mim
vozes, gritos, cores, calor, frio
carros, obrigações, gente, gente, gente

CHEGA!

e se eu meditasse?

sento
concentro
relaxo
chego
fico
paz

ah
a paz
deleite que é o centro
fico
a paz
aqui
relaxo
a paz

ah
a paz
legal
a paz
fico

ah
a paz
ah

a paz

mas...
não

ah
a paz
ah
 a paz

...

rapaz...
e se eu ligasse a tv?


terça-feira, 3 de setembro de 2013

algum tempo de jóia rara no ar...

- vocês acreditam em reencarnação?
- não!
- não?!
- não.
- mas na novela...
- esquece a novela...
- mas disse que podemos reencarnar como animais...
- já somos.
- mas o que acontece depois da morte, então?
- enterra, crema ou faz ração. de preferência antes de começar o mal cheiro...
- animal!
 
 para uma abordagem séria:
http://rarajoia.blogspot.com.br/

sábado, 31 de agosto de 2013

reinos

conversava outro dia com um colega evangélico. ele me chegou com uma dica de vídeo de um pastor de quem gosta e a conversa foi até onde eu passei a tocar num assunto que me incomoda: o silêncio, ao menos aparente para mim, da sincera, correta e séria comunidade evangélica e seus líderes com respeito àquilo que tem contribuído para um conceito se avultar no imaginário de uma parcela da população, a saber, numa forma educada: os evangélicos, quando não são ingênuos, são desonestos. 
a mesma provocação eu fazia vez em quando a um senhor que comigo trabalhou e é pastor, fundador de uma denominação, inclusive. um senhor honesto, trabalhador, cumpridor. apesar de aposentado, sempre cioso da necessidade de conciliar seus compromissos religiosos com os do trabalho. e ele travava quando eu tocava no assunto dos casos notórios de enriquecimento absurdo de líderes evangélicos, por exemplo. era perceptível o incômodo mas ele tergiversava e dizia que cada um conduz a obra ao seu estilo... eu lamentava. e elucubrava a respeito da raiz da dificuldade.
e o meu interlocutor de então também patinava no mesmo ponto. hesitava em fazer críticas ou reconhecer mesmo o óbvio ululante. e eu insistia em que há a necessidade de uma resposta ativa a fatos evidentemente absurdos do seu mundo religioso.
coincidentemente, na manhã seguinte, em minha caminhada pelas veredas virtuais me deparo com isso: 
 que me explica um pouco mais do complexo e grave imbróglio em que vejo estar o protestantismo. 
este pastor, na minha opinião uma das figuras mais lamentáveis do cenário religioso nacional, se as informações constantes no site supralinkado forem verdadeiras, continua em sua cruzada de aversão baseada em ofensas toscas, impropérios afetados e exploração, via teatral destempero emocional, dos que são vítimas de sua presença canastrona. este senhor, pelo que se lê, tenta me ofender enquanto ateu e consegue me entristecer enquanto religioso. enquanto ateu são claras as tentativas de ofensa e me incomodam até o ponto em que concluo que ser ofendido por ele é quase um elogio. me entristece enquanto religioso porque trabalha, estúpida e ferozmente, pela destruição da religião, de todas as religiões, pois que o seu discurso distorce o próprio sentido do que é religião, seu discurso agride o exato espírito da religião quando sua filosofia desvia a atenção de seus ouvintes e fiéis para o exterior, inventando um mundo inimigo. aquela luta religiosa que é essencialmente travada no interior do crente é ignorada e transferida para fora, o mal passa a ser o outro. e só o outro. e aí entendo porque nesta visão de mundo as recompensas que buscam só podem ser da mesma ordem. é a superficialidade de pensamento que me parece característica do fanatismo. o fanático sendo incapaz de encontrar no seu interior aquilo que busca, precisa ser no mundo o que não encontra e o faz pela força da sua própria frustração. o fanático é vítima da inépcia introspectiva e torna-se o tirano quando alimenta e explora esta mesma incapacidade no outro. é o poder da teologia da prosperidade material.
é da natureza da matéria não satisfazer ao espírito. o reino do espírito não é deste modo. este é um reino fundado na carência e constituído de mentira, um reino frágil. uma fragilidade que precisa ser reconhecida mas que, até agora, me parece, estranhamente, ser só temida.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

tudo igual

quando a gente diz que é buddhista, a maior parte das vezes somos associados com um modo de ser que convencionou-se chamar de zen. somos então pessoas da paz, que apreciam chá e incenso, que meditam ou alguma outra coisa meio yoga, que repetem mantras, auuuummmmm e por aí.
eu não sou zen, não gosto de chá nem de incenso, meditação formal é uma parcela da minha prática, sem mantras e sempre me esforço pela paz, em muitos sentidos.
dito isso, falemos sobre a capa ao lado. 
se for  para ver algo de bom nessa capa, e eu como buddhista aprendo que tudo tem um lado bom, eu vejo que é mostrar que somos todos iguais. 
os não buddhistas, os curiosos e os não amistosos vão questionar, atacar e, talvez até, querer entender o assunto. os buddhistas que gostam de se apresentar assim como quem exibe uma etiqueta significando "eu sou gente boa" vão sentir a fantasia meio amarrotada. 
não conheço mianmar além do Dhamma do Buddha que vem de lá, e mesmo disso conheço pouco, mas sei que é um dos países onde o Buddhamdhamma tem raízes profundas e floresce na sabedoria de vários grandes mestres assim como na cultura do país, em monumentos e templos belíssimos, inclusive. pois apesar disso, absurdos estão ocorrendo. realmente não sei se há monges incitando violência, mas que está havendo violência em "nome do dhamma", entre aspas, negrito, itálico e sublinhado porque é impossível violência em nome do Dhamma, isso está. 
violência é sempre em nome do ódio, da ignorância e outras qualidades humanas. e em mianmar, o que há são seres humanos, antes de buddhistas, como aqui, como no tibete ou na china. seres humanos que precisam ter em mente que buddhismo, ou qualquer religião, não é roupa nova, etiqueta ou atestado de bons antecedentes, é labuta momento a momento contra a corrente do mundo, que é muito mais forte do lado de dentro de nós. quando o nome 'buddhismo' começa a ter muita importância na vida, a ponto de a gente esquecer de estar vigilante mesmo ao atender aos chamados da natureza, a saber, defecar e urinar, conforme ensinou o Buddha, surge o perigo de distorções como estas e outras mais menos manchetáveis mas tão tristes quanto. conforme ensinou o Buddha.
então, perdeu, playboy. a casa caiu. tá na capa da time a frase: 'a face do terror buddhista'. somos todos iguais. e a despeito do sensacionalismo natural, da provável imprecisão das informações e algo mais que nosso 'ódio à mídia' puder imputar, o fato é que pisaram na bola por lá, pois onde há fumaça, ao menos uma brasinha tem. e como o Buddha ensinou: pisou na bola, cai. 

quinta-feira, 20 de junho de 2013

estamos fazendo bonito

coisa de um mês atrás eu dizia no café que acredito no poder da rede, no poder do conhecimento. dizia que acredito que mudanças ocorreriam, ainda que lentamente, movidas principalmente pelo acesso irrestrito à informação que a rede oferece. o assunto era os preços do brasil, de coisas como carros, por exemplo, custarem tão insanamente mais caro aqui. numa conversão simples, um carro pelo qual se paga setenta, oitenta mil reais aqui, lá nos eua pagariam o equivalente a quarenta ou trinta, me diziam. numa conversão mais elaborada, talvez vinte... o que vale para carro valendo para outros bens de consumo. aí eu disse que o fato mesmo de estarmos ali conversando e dividindo conhecimento era sinal de alguma lenta mudança ocorrendo. 
eu me creio exemplo. 
antes da rede, me contentava com o buddhismo que chegava a mim, eu com poucos recursos e morando em cidades pequenas, sempre um pouco descontente. com a rede eu fui ao dhamma que escolhi e nele mergulhei. minha qualidade de vida deu um salto como nunca antes na história deste país. embora a rede não substitua o valor de um contato pessoal com mestres, a quantidade de material disponível pode compensar na dependência decisiva do empenho do aluno.
assim, então, afirmava eu, contra alguma descrença geral, que acreditava, ao menos naquilo que diz respeito a consumo, que mudanças viriam: teríamos bens cada vez melhores e mais baratos, aos poucos deixaríamos de subsidiar, pela nossa estupidez, a bonança alheia.
mas eis que somos todos pegos de surpresa por esta maravilhosa onda de protestos pelo brasil afora! inteligentemente organizados num momento preciso e perfeito via rede! eu não estava sendo otimista, então! fui modesto. 
quem imaginou que a pátria fosse tirar as chuteiras e por os pés no chão, no nosso chão tão sujo? 
surpresa para mim e para todos, está acontecendo: a beleza exibida pelo talento inquestionável do menino neymar não será mais do que é: diversão, uma bobagem que queremos apreciar sim, mas do conforto de uma vida digna, sob o governo de gente decente. parece que estamos meio indiferentes a um placar de goleada somado a uma bela exibição em campo. para tristeza do pelé. parece que o rei ficou nu.
a qualidade de vida que o dhamma me proporciona se faz, entre muito mais, pela aniquilação impiedosa da minha ingenuidade. não esperar um mundo melhor mas reconhecer a necessidade funcional de um mundo menos ruim é a sabedoria que vou adquirindo. é claro que neste movimento todo há bandidos, há vontades escusas que vão se imiscuir. há interesses políticos sendo plantados e colhidos. vão querer transformar isso em dinheiro como sempre. a grande mídia, tomada de pânico por sairmos na rua para o mundo ver, (deu no nyt!) já, ainda que meio atabalhoada, tenta capitalizar a ameaça de descapitalização, os governos rapidamente cedem no que foi fácil na esperança de que se esqueça o difícil, a saber, que governem. haverá gente mais inteligente e tão cheia de dinheiro quanto o ronaldo pedindo para que nos concentremos em apoiar a nossa seleção, que pensemos na copa e nas olimpíadas, tentando nos convencer de que estádios e sinalizações em inglês são tão importantes quanto hospitais e escolas, tentando nos convencer de que somos um povo alegre e festivo, que o mundo quer de nós a nossa hospitalidade indígena, nosso gingado africano... mas parece que, num oferecimento de mustela putorius furus, vão furar,  parece que a nossa preguiça - goodbye, macunaíma... - nos enjoou, estamos levantando, não estamos mais engolindo, hein, zagalo?...

peraí... meu alarme anti-polyana berra a pergunta: será? não sei, vamos ver no que dá. mas, prá começar, acho que estamos fazendo bonito

terça-feira, 16 de abril de 2013

é água, moço?

estou recebendo treinamento de combate a incêndios e de primeiros socorros. 
numa parte do treinamento foi exibida uma reportagem do fantástico sobre a condição precária dos bombeiros pelo brasil a dentro. 
num dado momento, a coisa exibe um nível de surrealidade que só aqui neste quinto dos infernos é capaz de chegar, levando em consideração que somos sede das próximas copa e olimpíadas. numa cidade de não sei onde nestas terras, um caminhão destinado a limpeza de fossas é solicitado a descarregar o conteúdo de seu tanque nas chamas de um incêndio por ser o recurso mais eficaz disponível para a situação, e a primeira vez não fora esta diante das câmeras. desgraça absoluta ganhou alguma graça, pois que nisso somos um povo campeão, quando o operador, com seu belíssimo sotaque nordestino, narra sua desventura: "...aí me perguntaram: é água moço? e digo: não, é fezes!".
claro, gargalhei como bom brasileiro.
como buddhista radical, a metáfora explodiu na minha cara: mas não é mais ou menos isso que estamos a fazer constantemente com as chamas do mundo? não é com recursos parecidos que nos lançamos ao combate do incêndio onipresente que nos anima?

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

da ordem das coisas

na primeira página do jornal folha de são paulo de hoje, 1º de fevereiro de 2013: "polícia diz que espuma causou tragédia na kiss".
seguindo, com pouco esforço, a mesma linha eu posso afirmar que "o oxigênio causou a tragédia na kiss". todos sabemos: não houvesse oxigênio, nenhuma chama seria possível. e isso não digo com qualquer intenção de humor ou ironia, pois tudo tem limite, há que se ter respeito diante de um tão hediondo acontecimento. a única coisa que me leva a desabafar por aqui em raciocínio tão pitoresco é que sendo este o meu veículo de, tantas vezes, compartilhar um desabafo com aqueles que por aqui passam, senti que deveria expressar o pensamento que me incomodou de imediato ao ler a chamada: a verdadeira causa da tragédia, me subiu à garganta, é nossa mediocridade. como somos medíocres. 
logo abaixo, no pequeno texto que introduz e indica a matéria completa, é dito que o governador do meu estado e o prefeito de sua capital anunciaram que as autoridades competentes, bombeiros e fiscais, "irão fiscalizar em conjunto todas as casas noturnas, clubes, teatros, cinemas e auditórios da cidade de hoje até o início do carnaval".
que bom. já que, infelizmente, como prova inequívoca da tragédia de sermos medíocres como somos, não há autoridade, não há poder público capaz de afirmar que, naquilo que está sob sua responsabilidade, há garantia de que tamanha catástrofe não irá ocorrer.
não pode porque somos uma sociedade fermentada na transgressão, no desrespeito, no descaso. ética, para nós, é só um termo filosófico. não, na verdade nem isso sabemos. sabemos da ética pela tv que usa e abusa do termo quando explora eventos isolados como os últimos julgamentos de políticos envolvidos naquilo que, apesar de ser a práxis, foi vendido como excessão. e nós compramos. como compramos 24 horas de transmissão ao vivo de um reality show.
compramos isso enquanto mantemos comportamentos e pensamentos toscos, enquanto nos conformamos incapazes de questionar a capacidade que espumas tem de causar tragédias. 
somos medíocres conformados.
e a lista de culpados ainda inclui: a banda, a pirotecnia da banda, os coitados dos seguranças, os donos da boate, a boate. estão eles isentos ou não? isso é para advogados. eu falo somente daquilo que vejo: o desprezo onipresente por qualquer tipo de regra, norma, disciplina. o descaso, a irresponsabilidade desta gente bronzeada que se dá tão pouco valor. 
penso nesta mania boba, este orgulho espúrio de parecer alegre enquanto mantemos soterrada sob, de novo, tanta mediocridade a nossa humana possibilidade de sermos menos infelizes.

terça-feira, 22 de maio de 2012

indignação

I see no error made which I could not have made Myself *  
(i.e. given the same amount of delusion).
 
* An "antiseptic" for rash itchings and irritations that may
come up while handling the suffering, erring, humanity.
 

Symptoms: nausea, c-a-r-ping (not coughing), "holier than
thou" feeling, stiffness, righteous indignation.
 

Contra-indications: Discontinue treatment if "self-pity" sets
in. Directions for use: Just rub it in.

este é um dos muitos maravilhosos trechos do Venerável Bhante Katukurunde Ñanananda. maravilhoso pela brevidade sagaz que provoca alegre contemplação e, acho, pode penetrar fundo na mente e coração de quem, além de dar alguma risada, se dedicar à ruminar esta prescrição medicinal. 
para quem precisar, dou a minha tradução no fim do post. mas recomendo que cada um faça a sua.
é a cada ser humano que se dirige esta prescrição, mas ela reverbera mais alto entre minhas orelhas neste momento político do meu país diante da cachoeira de indignação que brota da mesma nascente de onde borbulha a água podre que nos respinga.
passenado pelos vídeos da rede e das tvs, lendo comentários e crônicas por aí, eu me assusto com tanta gente honrada que habita esta terra tão fustigada pela corrupção e desonestidade! como há gente boa e proba nesta terra e nós, ainda assim, sufocados por tanto mal cheiro! 
por que será?
os clamores dessa gente digna vai mais ou menos assim: "por que este governo...!" "por que esta pessoa...! "por que tal partido...!" "por que aquele presidente...!" 
ninguém, mas nem unzinho só, diz "nós".
e é como se todo o mal que ora vemos surgisse na última manchete, na última bomba, no último governo. como se fossem inocentes vítimas de seres sabe-se lá de que natureza maligna que apareceram para macular a ilibada realidade até então reinante. 
e toda aquela indignação, e todo aquele clamor, e toda aquela revolta vai me embrulhando o estômago porque fede a demagogia, a oportunismo, a uma desonestidade ainda pior que aquela contra a qual parece que se revolta, simplesmente porque mente por cima da mentira, porque detecta, com seus aguçados sentidos de hiena, aquilo de que as hienas se nutrem e se mantém fortes e saudáveis. 
indignar-se, então, é algo ruim e impróprio para este que aqui escreve? mas de forma alguma! indignar-se é necessário, é vital, inclusive.  o que nauseia é fazermos que não sabemos o que somos. que somos de um tipo que, se acaso recusa-se a ter o conserto do fogão passado à frente dos outros por ser amigo do dono da oficina, causa espanto e até chacota! "lá vai o sr. certinho, kkk..." (ou rsrsrs, de acordo com o dialeto de internet que você use...). e se somos deste tipo na pequenez, por que nos esforçar para esquecermos  que lá onde as coisas são grandes há seres exatamente como nós? produtos do mesmo adubo? mas eles tem que dar o exemplo, oras! e nós, não!? é fingindo que não sabemos ser este tipo de ser carnavalescamente dado a tirar vantagem de todo o jeito que vamos conseguir ter a  dignidade que gostamos de bradar?
sei que não.
enquanto não houver gente disposta a efetivamente enfiar o dedo na nossa ferida, nos dizer o que efetivamente somos, que temos o que merecemos, que a mudança é lenta, que a realidade, e nós somos a realidade, está se decompondo em podridão, se ao invés disso continuamos a aplaudir, vibrar e endossar o discurso 'indignado' contra aquele governo, partido, senhor ou senhora fulanos de tais, enquanto nós insistirmos em nos fazermos de bobos, a nos fingir ignorantes da real dimensão de nosso cotidiano descaso anônimo pela ética, enquanto nos deixarmos contaminar pela sedutora indignação das hienas que vociferam enquanto cobiçam as nossas carcaças, aí será assim como está há muito tempo. 
e aí eu, sinceramente, tenho esperança de que, ao menos para mim, isso tudo acabe.


a minha tradução:


"Não vejo qualquer erro cometido que eu mesmo não pudesse tê-lo feito.*
(Isto é, dada a mesma quantidade de ilusão).

* Um"anti-séptico" para coceiras, erupções cutâneas e irritações que possam
surgir ao lidar com o sofrimento, a erraticidade, a humanidade.
 
Sintomas Associados: náuseas, chiadeira (sem tosse), sentimento de "sou mais santo",
rigidez, honra indignada.
 
Contra-indicações: interromper o tratamento se a "auto-piedade" se instalar.
Modo de uso: basta aplicar por dentro.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

durban

e a conferência termina mais ou menos como estava antes de começar.
sabemos agora, como sabíamos antes, que temos um problema.
sabemos agora, como sabíamos antes, que algo precisa ser feito.
e fim.
agora, o que efetivamente sabemos mas tememos reconhecer é que sempre precisamos de muito mais do que saber para mudarmos o rumo: precisamos chegar na beira do abismo, sempre, se não efetivamente começar a cair nele.
quando a desgraça cansar de bater na porta, arrombá-la, estirar-se no sofá da sala e tomar conta da tv, aí talvez façamos algo realmente.
eu, por aqui, vou observando. sempre fui de observar. mais ou menos como aquela coruja da piada que foi pintada de verde e vendida como sendo um papagaio: "aprender a falar ainda não aprendeu, mas presta uma atenção!!". sigo observando que as tanajuras, ou içás, 'caem' cada vez mais tarde! na minha infância brincava muito com elas. começavam a cair lá pelo mês de setembro. mas a cada ano tenho visto que demoram mais. só ontem eu fui achar uma no chão, andando meio desiludida, coitada.
quem sabe não é sinal de alguma coisa...

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

baldrian, o coelho

desde quando, já faz tempo, assisti a este desenho da TV Cultura de SP tenho procurado por ele. eis que agora encontrei.
é uma fábula bastante impressionante, justamente por ser destinada a crianças bem pequenas, eu acho.
valem os minutos para qualquer idade.


segunda-feira, 4 de julho de 2011

sem graça

Acharam que eu não fosse mais escrever por aqui. Eu também achei. Há estes momentos na vida: a graça some de onde havia. Depois volta. Este último ainda não é o caso.
E, para mim, tem havido fases de uma sensação de imersão tão acentuada no dhamma que a realidade ocupa o espaço todo. Não sobra muito tempo para pensar na vida.
Mas numa das subidas em que esqueço de lembrar que respiro, eis que conversava sobre esta, para mim, curiosa onda de alegria que assola o nosso avijja ambient: tem muita gente engraçada por aqui. E eu digo na mídia, especialmente TV. Muitos programas de humor, muita entrevista engraçada, muita novela engraçada, jornal engraçado, reportagem engraçada, concursos de piadas, graça para todo lado! É só uma impressão, pois eu fico sabendo que estão assistindo TV muito mais do que eu mesmo assisto. E ouço os comentários dos momentos hilários que são transmitidos e vejo as pessoas rindo. Não acho que rir seja algo sempre ruim, óbvio, nem me incomodo com a alegria alheia mas, no meu mundo, a Terra da Alegria está no mesmo continente do País da Estupidez.
Comentava o assunto com alguém que disse que "é por que a vida é triste..." Será? Não sei. Se for por isso ela deve estar mais triste do que sempre foi?... O que eu sei é que me enjoa. Rir demais cansa. Preciso de um pouco de tristeza vez em quando. E olha que enquanto pensava sobre o assunto, que interessante, me apareceu este texto que joga uma luz sobre uns pontos a que minha lanterninha não alcança. E, cereja do bolo, finalmente assisti ao Tropa de Elite 2 que é uma aula, do meu ponto de vista, dentre outras coisas, de auto-engano e boas intenções gerando maus efeitos, além de um balde de água fervente na alegria que se possa estar sentindo, menos aquela, talvez, de contemplar o fato de que não há felicidade no mundo.
Dito isso, a que conclusão posso chegar? A nenhuma! Desculpe a quem tenha insistido até aqui. Mas eu avisei, lá no começo, que as coisas estavam meio sem graça por estas bandas...

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

dois sucos e uma 'fritas' grande

- ...e quando eu vi aquele monte de gente correndo, pensei: lá vão os pobres coitados acordados aos tiros de seu sonho de poder...
- é... mesmo que a gente saiba, né? de tudo o que eles são capazes, das crueldades e tal...
- quem de nós não é, né?
- o bezerra cantou: "somos vítimas de uma sociedade, famigerada e cheia de malícia"...
- não concordo muito com o lance da vitimização... mas até um ponto é considerável.
- lá ia aquele bando de infelizes, subindo morro semi nus porque há agora interesses maiores do que os que permitiam que eles continuassem em cena.
- não é tão simples assim.
- não é.
- mas é um resumo possível...
- o que me impressiona é o modo de virtualidade em que vivemos, em que nossa mente opera...
- ouvi gente dizendo: eu com uma metralhadora ali... não sobrava um...
- é triste! o grau de fantasia em que estamos operando. estamos num vídeo game.
- é uma loucura isso! na minha cabeça as coisas vão como que se encadeando em elucubrações...
- é. é uma coisa meio matrix! hahaha... tosco dizer isso, mas é!
- meio até além de matrix! a forma como a realidade vai sendo composta! de repente faz-se uma coisa que sempre foi possível fazer, na verdade, completamente evitável de se ter a necessidade de fazer! e tudo é recebido como algo extraordinário, heróico e tal! o que que é isso!?
- e toma tiro mas é tudo um vídeo game! as conexões são claras mas ninguém se importa..
- reality! esta obsessão por reality! o que vem a ser isso, afinal? será que é de uma sede inconsciente por realidade que estamos sofrendo?
- será que uma parte de nós sinaliza que estamos saturados de mentira, é?
- hahaha... piração! dá uma viagem boa isso!
- não, tudo bem,vamos viajar talvez... hahaha... mas olha só: faz todo sentido isso. vivemos num mundo dominado por tecnologia, fruto do racional...
- total. mente domina natureza!
- isso, isso, isso! compomos tudo! na linguagem buddhista, sankharizamos de maneira plena e absoluta. o mundo é o que nós fazemos!
- total sentido. o que a mente faz? cria, compõe... a realidade nós é que fazemos.
- e aí, num nível tudo funciona normalmente. mas alguma coisa em nós pede terra. alguma coisa precisa ser tocada de verdade. mas está atrofiada, esquecida...
- isso remete a...
- exato! desvios de comportamento de todos os tipos no que diz respeito ao que é tátil.
- vivência obsessiva/distorcida do sexo.
- fast touch!
- hahaha... boa! fast touch. com a cabeça no sonho e o corpo no fast touch...
- por favor! mais dois sucos, beleza? obrigado.


e a coisa continuou...

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

uma dose de Bukowski e muito dhamma

paro
não importa o quanto corram, eu vou devagar
e paro

ouço
não importa o quanto chamem, eu ouço

não importa quantos sabores criem
quantos modelos
quantos recursos
quantos aplicativos
de quantas necessidades precisem

não importa quantas festas
quantos shows
quantos bares
quantos assuntos
quanto barulho
quanta tv

eu não ligo
eu não vou
me basta o bastante

não importa quanta realidade inventem
quantos jogos
quantos programas
quanta disputa
quanto celebrem
quanta celebridade
eu ignoro

não importa quanto tocam
quanto compoem
quanto vibram
quanto pulam
quanto gritam
quanto cantem
eu silencio

e eu recuso os panetones de setembro
os ovos de páscoa de fevereiro
as canjicas de abril
e as micaretas todas

os amistosos
os preparativos
eu recuso

eu me enraízo
e abdico da razão
eu não penso enquanto caminho
eu sinto meus pés no chão

meditação, meditação...
quase ninguém percebe que
O Buddha
ao despertar
tocou a terra

terça-feira, 20 de julho de 2010

paccayata

Só dia desses é que comecei a ler atentamente a tradução de um texto que foi feita e enviada por um amigo de dhamma já há um bom tempo e a me lamentar por não ter começado antes.
O texto é sobre metta.
Logo no início há as condições que devemos buscar para uma prática efetiva de metta, a prática do amor tal como ensinado pelo Buddha, tanto em meditação formal quanto no que sobra daquilo que vivemos. Fala que contentamento é uma destas condições, uma das principais.
Uma mente que não sente contentamento, que acredita ser impossível comer um só, não está preparada para uma efetiva prática de metta. Por mais que o amor esteja no ar, entrando por nossos olhos e ouvidos o tempo todo, ele não mexe com a nossa cabeça de modo verdadeiramente benéfico. Acho que nunca antes na história dessa humanidade fomos tão bombardeados pelo amor e ainda assim tão necessitados dele. Ao menos daquele amor ensinado pelo Buddha.
O que estalou de imediato na minha cabeça foi a afirmação do Venerável Buddharakkhita que uma forma de auferir a sanidade de uma sociedade é saber o quanto de contentamento há nela. E todos devemos saber que contentamento seja talvez aquilo que o nosso modelo de civilização mais abomina.
Para que continuemos temos que querer sempre mais.
Um buddhista, ou qualquer pessoa que se interesse, precisa refletir sobre a relação que há entre este pavor do contentamento e matar pessoas e servir os pedaços para os cães.

domingo, 4 de julho de 2010

o sonho não acabou

Nem bem acabou o jogo e todo mundo já falava que 2014 tá logo aí! Vamos trabalhar muito até lá!
Parece-me um tremendo pâncio da realidade.
O sonho não pode acabar. E agora um sonho cheio de mais maravilhas!
O sonho de que copas são boas para os países sedes. O sonho da geração de emprego. Dos benefícios econômicos. O sonho da vitória. Este, sempre o carro chefe! O sonho de que, além da festa, teremos felicidade.
Quem se interessa pela realidade com tanto sonho bom pra sonhar? E se há o risco de algum barulho acordar alguém, abafe-se este barulho!
Dias antes eu dizia, num bate-papo, que se num passe de mágica acabássemos com a mentira e a esperança o mundo pararia. Frase que eu tirei de algum lugar do qual não lembro.
Taí. Pode ser que o moleque lembre dela.
Não podemos parar.
Precisamos manter acesa a chama.
Como o Buddha disse no Sutta do Fogo.
Continuarei a falar sobre mentira.
Tenho sido perseguido, de verdade, por essa idéia...

terça-feira, 8 de junho de 2010

relatividade, baladas e sementes

Trabalho com uma rapaziada bem legal. 
Tem uns corôas de mim para cima também, mas a maioria ainda não chegou nos trinta.
E a gente conversa.
Dia desses chegaram do refeitório me intimando: "Jorjão (que é a versão deles de mim) o que que cê andou falando na cabeça do fulano (um dos moleques)?" E eu: "Eu!? Por quê?!" E eles: "O cara tá lá com uns papos loucos de que o Schumacher (o piloto) está envelhecendo mais devagar que a mulher dele!!" E eu demorei um pouco para atinar. Fiquei com a boca aberta um tempo, com uma cara de idiota bem minha  até lembrar de um papo que tive com o tal carinha sobre relatividade!
Ciência é um assunto  do qual eu gosto e a gente teve lá um  papo, um dia, e conversamos sobre os efeitos da velocidade sobre o tempo e tal de acordo com as idéias do Einstein (E = m.c²). Pois acho que ele gostou de saber que, embora infinitesimalmente irrisório, o tempo passa mais devagar para o Schumacher quando ele está lá nos seus treinos e corridas a centenas de quilômetros por hora.
Bom, tendo lembrado, eu expliquei a tal conversa para os inquisidores e eles ficaram intrigados também! Os meninos, na maior parte das vezes, me dão ouvidos, principalmente nesses assuntos menos populares (acho que me tem como uma espécie de Tio Google), mas teve lá um dos coroáveis como eu que saiu com um "É, essas coisas são interessantes mas não para nós, né? Isso é útil para os inventores, cientistas... Para piões como a gente não faz diferença essas teorias..."
Pois bem, a molecada de hoje abusa. Bebe demais, baladeia demais, se arrisca demais... E eu estava conversando com um em outro dia sobre como as coisas são e como elas parecem ser. Sobre como parece que a gente precisa de diversão, distração, prazeres o tempo inteiro e todo o tempo mas que, na verdade, pode não ser assim. E foi com um dos inquisidores de então!
Eu fiz o link óbvio naquele momento: "Lembra aquele dia em que conversávamos sobre o modo como as coisas são e como parecem ser?" E ele: "Ã-hã." E eu: "Então.  Saber da teoria da relatividade nos mostra como que,  se mesmo em questões tão concretas como essa do tempo e espaço nosso senso comum nos engana tão grandiosamente, imagina para aquelas mais sutis da mente, comportamento humano e coisa e tal..." E o menino ficou lá uns três segundos pensando naquilo.
Nenhum conhecimento é impróprio viu, ô corôa!? O que precisamos, às vezes, é buscar uma aplicação prática para ele.
Sendo buddhista, que esta aplicação seja para a cessação de dukkha é o ideal.

segunda-feira, 15 de março de 2010

all day, all day... domino dancing

Quando eu era criança houve a onda do dominó. Uma série de reportagens no Fantástico sobre pessoas que montavam aquelas longas e belas imagens de dominós que caíam durante hipnotizantes minutos. 
O Fantástico era fantástico!
Aquele negócio de outro mundo ficava na minha cabeça pela semana e as tardes depois da aula  eram animadas pelas minhas próprias elaboradas sequências. Conseguir mais caixinhas de dominó era uma necessidade tremenda.
Mas, em momentos mais contemplativos, que não eram raros na minha infância, estas imagens serviram para que eu construisse uma visão da realidade que me cativa até hoje: o mundo é como uma sequência de dominós! Uma queda sem fim (nem começo)! Passei bons momentos "vendo" tudo a minha volta desse jeito...
Lembrei disso agora ao acabar de ler este texto do Marcelo Gleiser. 
Não sei exatamente porque lembrei... Talvez o fato de ele defender a importância da assimentria tenha me remetido ao desequilíbrio que é o imperativo para a queda dos dominós...

sábado, 16 de janeiro de 2010

boca cheia de moscas

Já escrevi por aqui que atroz é avijja e falei sobre nossa miséria comum. Pois, desgraçadamente, houve o triste fato ilustrando um aspecto tão efetivo do que eu disse!
Espera-se de uma pessoa na posição de cônsul, uma aptidão mental e, por extensão, um discernimento emocional acima da média dos de um cidadão comum. Pois o que nos revela o senhor cônsul do Haiti no Brasil, a respeito dele próprio, ao menos, é quão enganados somos nas nossas ideações e nossos julgamentos a respeito dos seres. Nossa capacidade para asnidades, estupidezas, para pensar e proferir absurdos hediondos, está farta e igualitariamente distribuída pelo samsara afora. Coisa que, em verdade, sabemos bem, embora não gostemos de lembrar.
Felizmente temos este senhor como cônsul!
O que teria ganho a humanidade caso ele, do lado do mal, desenvolvesse estas suas convicções e idéias em ações!
Enquanto milhares de pessoas como eu e ele, estão feridas, incapacitadas, sem saber se suas mães, pais, filhos e filhas, irmãos e outros queridos e amados estão vivos ou mortos sob escombros ou se já foram enterrados em valas comuns, enquanto milhares de corpos como o meu e o dele estão apodrecendo sob o céu, impondo mais sofrimento e risco aos que ainda respiram, o digno senhor sussura tão insanas palavras...
O link, abaixo.

Speech by ReadSpeaker