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quarta-feira, 1 de maio de 2013

pra você, eu e todo mundo cantar junto

um bom amigo tem se interessado por buddhismo e meditação, variando a ordem dos interesses. tem lido e pesquisado na rede e diz inclusive que descobriu este blog googlando em busca de dhamma  por aí. gostei! 
ele está, como a maioria de nós, entre o nosso lar e a vida sem lar. 
caminha.
numa conversa recente me dizia que "assunto espinhoso este de anattā! esta coisa no buddhismo é que é difícil, hein?". percebo que o rapaz tem bons olhos, já vi e vejo de gente mais adiante na senda afirmar que 'é só desapegar, é só não ter apego...' 
só, olha só. 
o venerável bhante katukurunde ñanananda diz em algum dos sermões sobre nibbāna que realizar anattā é, em si mesmo, o nibbāna.
que bom que seja fácil para alguns. que bom que haja alguns capazes de ver e reconhecer os espinhos. anattā, anicca e dukkha não são visões ou crenças a se adotar, são experiências a se ter. primeiro estudamos, lemos e compreendemos; comparamos esta compreensão com o mundo que conhecemos em seus aspectos interno e externo e decidimos se vale a pena continuar aprofundando as percepções que surgirem. 
se somos sinceros, talvez este estudo comece a vir de encontro ao rumo que naturalmente temos mantido na vida, me parece que é neste momento que devemos abrir bem os olhos para sinceramente ver que não é fácil ou se está sendo fácil demais.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Je Tsongkhapa

 abaixo, o texto que mais estudei, em sua versão extensa chamado Lam Rim, durante o tempo em que estive sob orientação de professores ligados à tradição tibetana de Je Tsongkhapa
embora envolvido com o buddhismo desde 1995, só passei a me considerar buddhista quando ingressei no estudo e prática por meio desta tradição, em 1999. este texto fundamentou o entendimento do dhamma que sustento até hoje.
a versão é do livro "Bondade, Amor e Compaixão" de Sua Santidade o Dalai Lama, editora Pensamento.




Os Três Principais Aspectos Do Caminho

Homenagem aos principais lamas sagrados

Explicarei o melhor que puder
O significado essencial de todas as escrituras do Conquistador,
O caminho louvado pelas eminentes Crianças Conquistadoras,
Porto para os afortunados que desejam a libertação.


Aqueles desapegados dos prazeres mundanos, a lutar
Para que lazer e fortuna signifiquem dignidade, inclinados
Que são para a senda que deleita ao Buda Conquistador,
esses afortunados devem ouvir com mente límpida.


Sem a profunda convicção de abandonar a existência cíclica
Impossível deixar de perseguir os frutos do prazer no oceano da vida,
E mais: o anseio pela existência cíclica agrilhoa por completo o encarnado.
Que se busque, pois, de início, a determinação de abandoná-la.


Lazer e fortuna são difíceis de encontrar
E a vida se esvai: esse conhecimento
Converterá em seu oposto a importância dada
Às exterioridades da existência.


Se pensarmos sempre e sempre nas ações,
Em seus efeitos, que são inevitáveis,
E nos sofrimentos da existência cíclica
Converter-se-á em seu oposto a importância dada
Às circunstâncias exteriores das vidas futuras.


Se tendo assim meditado, não geramos, por um instante sequer,
Admiração pelo florescimento da existência cíclica, mas se, dia e noite,
Se faz presente a atitude de busca da libertação,
O pensamento de abandonar para sempre essa existência foi gerado.


E mais, se o pensamento de abandonar de vez a existência cíclica
Não estiver enlaçado à geração da total aspiração pela iluminação suprema,
Não será ele a causa da bênção esplêndida da iluminação excelsa.
Sim: que os inteligentes gerem a tão alta e altruísta intenção de se converter em iluminados.


[Todos os seres comuns] são arrastados pelo continuum de quatro torrentes poderosas
E atados pelos liames de ações muito duras de combater.
Na jaula de ferro da autopercepção [existência inerente], lá estão eles,
Aturdidos pela densa escuridão da ignorância.


Vezes sem conta já nasceram, e cada nascimento
Traz a tortura incessante dos três sofrimentos.
Ao pensar nas mães que caíram nessa rede,
Geram eles então a intenção altruística de converter-se em iluminados.


Sem a sabedoria que compreende o modo de ser das coisas,
Mesmo que tenham sido desenvolvidos, tanto
O pensamento de abandonar para sempre a existência cíclica
Como a intenção altruísta,
A raiz da existência cíclica não poderá ser exteirpada.
Pratica, pois, os métodos que te farão entender a manifestação dependente.


Aquele que, percebendo serem inquestionáveis
Causa e efeito de todos os fenômenos
Da existência cíclica e do nirvana,
E destruir, inteiro, o modo de percepção equivocado
Dos objetos [tidos como de existência inerente],
Terá, assim, ingressado num caminho que apraz ao Buda.

Enquanto se afigurem como separadas as duas compreensões
Da indubitabilidade da manifestação dependente
E do vazio - a não-afirmação [da existência inerente] - 
Não será compreendido o pensamento do Buda Shakyamuni.


Quando [ambas as percepções ocorrem], simultâneas, sem alternância,
E quando, apenas por ver a manifestação dependente como indubitável
O conhecimento preciso destrói por completo o modo de percepção [da concepção de existência inerente], 
Está completa a análise da apreensão [da realidade].


E mais: exclui-se o extremo da existência [inerente]
[Conhecendo-se a natureza] das circunstâncias externas
[Que existem apenas como designações nominais].
E, ao extremo da [total] não-existência, elimina-se
[Conhecendo-se a natureza] do vazio
[Como ausência de existência inerente e
Não como ausência de existência nominal].
Se for por ti sabida, dentro do vazio, a presença da causa e do efeito,
Não serás aprisinado pelas percepções extremas.


Ao teres compreendido com exatidão, do caminho
Os três aspectos principais, no que tem de essencial,
Procura a solidão e gera o poder do esforço.
Que logo chegues à meta final, meu filho!




quinta-feira, 15 de julho de 2010

mentira, mentira, mentira

Desde que comecei a ler este texto do bikkhu Bodhi, ponderá-lo e mantê-lo como referência em comparações e estudos, minha compreensão sobre os preceitos buddhistas, sobre sila, vem se transformando, ganhando clareza e fortificando minha convicção no Caminho.
E, especialmente o trecho em que ele disserta sobre o abster-se de mentir, abster-se do uso da comunicação como recurso para o engano, me gerou uma percepção que,  talvez de tão  aparentemente simples depois de surgida, me enche de uma energética alegria a cada vez que o contemplo:

It is said that in the course of his long training for enlightenment over many lives, a bodhisatta can break all the moral precepts except the pledge to speak the truth. The reason for this is very profound, and reveals that the commitment to truth has a significance transcending the domain of ethics and even mental purification, taking us to the domains of knowledge and being. Truthful speech provides, in the sphere of interpersonal communication, a parallel to wisdom in the sphere of private understanding. The two are respectively the outward and inward modalities of the same commitment to what is real. Wisdom consists in the realization of truth, and truth (sacca) is not just a verbal proposition but the nature of things as they are. To realize truth our whole being has to be brought into accord with actuality, with things as they are, which requires that in communications with others we respect things as they are by speaking the truth. Truthful speech establishes a correspondence between our own inner being and the real nature of phenomena, allowing wisdom to rise up and fathom their real nature. Thus, much more than an ethical principle, devotion to truthful speech is a matter of taking our stand on reality rather than illusion, on the truth grasped by wisdom rather than the fantasies woven by desire.

Traduzindo pode ficar assim:

É dito que no curso de sua prática rumo ao despertar ao longo de muitas vidas, um Boddhisatta pode quebrar todos os preceitos morais exceto o compromisso de falar a verdade. A razão para isso é muito profunda e revela que o compromisso com a verdade tem um significado que transcende o domínio da ética e até mesmo da purificação da mente, levando-nos ao domínio do conhecimento e da existência. A fala verdadeira provê, na esfera da comunicação interpessoal, um paralelo com a sabedoria na esfera da compreensão individual. As duas são, respectivamente, as modalidades externa e interna do mesmo compromisso com o que é real. Sabedoria consiste na realização da verdade, e por verdade (sacca) não se entende apenas uma afirmação verbal, mas sim a natureza das coisas como elas realmente são. Para realizar a verdade, nosso ser inteiro deve ser conduzido em conformidade com a realidade, com as coisas como elas são, o que requer que, na comunicação com os outros, nós respeitemos as coisas como elas são, falando a verdade. A fala verdadeira estabelece uma correspondência entre o nosso ser interno e a real natureza dos fenômenos, permitindo que a sabedoria desperte e investigue a sua real natureza. Assim, muito mais que um princípio ético, a devoção para com a fala verdadeira é uma questão de tomar posição em favor da realidade ao invés da ilusão, da verdade apreendida pela sabedoria ao invés das fantasias tecidas pelo desejo. 

E observando o mundo comprovo a onipresença da mentira.
Como gostamos de estórias.
Gostamos de todos os tipos de mentiras: desde aquelas inofensivas, contadas por aquele mentiroso compulsivo que há em quase todo grupo de amigos, aquela pessoa que sempre tem um fato engraçado, pitoresco ou interessante para contar de uma vez que aconteceu com ela, até as dos terríveis mentirosos que nos prometem tanto tantas vezes. Que aparecem a cada ciclo eleitoral com soluções arrojadíssimas para inúmeros problemas que a mera honestidade solucionaria.
Adoramos a beleza dos fotoshops, dos efeitos especiais, das maquiagens e roupas.  Adoramos os aromas dos perfumes. Nos deleitamos com os sabores da existência. O progresso nos oferta, cada vez mais, infindáveis opções de fantasias e proteções.
Dentro destas armaduras a realidade segue.
É uma opção que é feita cada vez mais às cegas. Tudo é mantido e engendrado de tal forma  a nos fazer ignorar que há algo que não se pode deter por baixo da cobertura. E é por que todos gostamos! É da natureza de avijja, o mal de que todos padecemos, gostar disso. Não é  'por mal' que mentem para nós. E porque mentimos. Num sentido mais fundamental, parece que nos enganamos porque só sabemos viver assim.
Até que alguém desperte!
Não é fácil aceitar que mentimos. Aceitar que construímos a vida, mesmo coisas das quais gostamos tanto, sobre algum(s) tipo(s) de mentira. E que até mesmo o gostar pode ser mentira! Aquele mentiroso do nosso grupo não é boa companhia? Alegre, divertido, descontrai! Faz a gente rir! Sempre está acompanhado. Quem não tem o dom de contar estórias não é tão popular. Sua vida comum e sem aventura não interessa a ninguém! Nem a ele mesmo!
Não sabemos o valor da realidade.
Nossa ignorância nos assegura que pensar em morte, envelhecimento, doença e introspecção e auto-conhecimento é uma coisa desagradável. Parece que temos que optar pela beleza da rosa ou pela matéria podre que lhe possibilita a vivacidade!
Será que precisamos escolher entre esta dualidade? Ou existe uma possibilidade de ver a inadequação que existe em ambas as aparências?
A atenção diligente nos permitirá ir além. Tanto das mentiras que nos contamos quanto da realidade que nos amedronta. Se vencermos o medo inicial e persistirmos com confiança, o Buddha nos oferece a paz de não precisar escolher. Nos diz que a visão da realidade nos liberta da dependência dos gostos e desgostos para nos sentirmos vivos. Nos livra do apreço pelas construções, pelos engendramentos que parecem dar graça às nossas vidas.
Talvez eu continue...

sexta-feira, 25 de junho de 2010

o s do samadhi

Foi só um exemplo, tentativa de metaforizar a forma como eu venho aprendendo a meditação, o cultivo da mente/coração. Mas um kalyanamitta gostou e sugeriu que eu escrevesse mais sobre o assunto.
Vamos lá!
No início da minha prática, meditação era uma coisa! Era um evento assim, um momento especial. Sentava ali com aquela missão: meditar. Um compromisso. Como estudar para uma prova... Ou ir para a escola. Ou qualquer outra das coisas pelas quais "momentificamos" os nossos dias. Fotografamos, pintamos as cenas da nossa realidade e entramos numa. Depois pulamos para outra e assim seguimos pelos fotogramas compondo nossas existências. Unindo um ao outro só com o ilusionista poder do "Eu estava lá, agora eu estou aqui. Eu fiz isso, depois eu farei aquilo..."
Mas o buddhadhamma vai revelando.
Caminhando pelo Nobre Caminho é que a gente vai juntando as imagens. As fronteiras vão se tornando mais e mais estorvantes. A luz do samadhi se fortalece pouco a pouco e vai iluminando a inteireza da vida que as sombras do ego encobrem. A disciplina  e a vigilância nos impedem de cochilar entre um quadro e outro, a resolução das imagens que captamos são ampliadas e abandonamos pouco a pouco o modo de viver entre intervalos. Até o dia em que não houver mais o que juntar!
Mas a metáfora foi outra!
Foi o seguinte:
Achei que o Ayrton Senna, que eu fui conhecer melhor só depois da tragédia, que antes era só o cara que tinha a mania de carregar aquela bandeirinha quase todo domingo, tem algo a ensinar sobre meditação.
É triste essa coisa de não atentar aos vivos.
Ainda bem que sempre bradei aos ouvidos interessados minha intensa reverência intelectual pelo Saramago!
Depois da morte do campeão eu fui levado pela enxorrada de fatos e relatos e o que mais me chamava a atenção era a idéia que eu apreendia da forma pela qual ele vivia o esporte que escolheu. Uma imagem forte que eu compus foi a do cara  que se dedicava e amava tanto o que fazia que não via diferença entre treinos e corridas, era só o pilotar! Todo o tempo, sentou no cockpit, é pilotar!  O mesmo fascínio e prazer, fosse competindo, fosse reconhecendo pista, fosse testando carro! Enxergo tanta paixão na maneira como ele construia sua carreira, trabalhava e até pensava sua arte que minha admiração cresceu e ficou. Me encantei muito mais com esta versão, com este espírito, do que com o dominical portador da bandeira nacional e grande vencedor. E sempre que penso no Senna, é isso que em mim evoca: dedicação, esforço, diligência. Que extrapolam para além do exercício, do aparente objeto. Que tomam conta da vida. Sem diferir.
E foi esta, literalmente, a metáfora que usei para descrever tudo o que disse antes.
E, claro, fica aqui uma lembrança e mesmo homenagem de um blog buddhista ao grande campeão que, além de tudo, inspira algo em  minha vida espiritual.
Pã-pã-pããã...  Pã-pã-pããã... 

sábado, 27 de março de 2010

o sentido

O Buddha diz que se não houvesse o prazer no mundo, os seres não engendrariam a adesão ao mundo. 
O modo de funcionar dos sentidos é este: prazer e dor. E neutralidade. Esperar que chocolate um dia pareça jiló é ilusão! Chocolate é bom, para mim e para o Arahant (que goste de chocolate!). 
Não é confiando nos sentidos que a Renúncia será experimentada. A função deles é manter a Roda girando. 
Já a observação sábia dos sentidos, por outro lado, garante um conhecimento crescente de seu funcionamento e o do mundo. E é desse conhecimento que, até que se prove o contrário, surge o desgosto, o afastamento e a Renúncia.
O Buddha não ensina a transformação do mundo. Ensina, meramente, sua compreensão.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

gato

Um gato é, também, quando, tendo um circuito elétrico sido interrompido pegamos um pedaço de material condutivo e refazemos tal circuito religando as partes antes separadas. Normalmente "pulamos" o ponto de ruptura, daí o nome mais chique: jump. Aquele ponto é, na pior das vezes, um fusível que cumpriu o seu papel de proteger algo de uma sobrecarga de energia.
Pois bem. Existe o gato espiritual.
A prática buddhista é dividida em três campos: o comportamento disciplinado pelos treinamentos éticos (sila), o cultivo da tranquilização mental (samadhi) e o cultivo da percepção adequada da natureza dos fenômenos (pañña).
Nós, muitas vezes, pulamos sila.
Sila que tem a função de, justamente, proteger a integridade de nossa prática espiritual.
As coisas funcionam com o gato. Mas o risco de prejuízos é grande. Perde-se até a vida devido a gatos! E o mesmo pode ocorrer com relação ao gato espiritual. Dependendo da forma como entendermos vida.
Sila nos protege das sobrecargas de energia que vem dos hábitos, mentais e físicos, que confrontam o Dhamma e estão profundamente arraigados na nossa mente. O consumo de fusíveis espirituais é imenso para a maioria de nós! Mas é bem melhor substituí-los que fazer o gato (ou mesmo o mais cool, jump!). Sila protege nossa integridade mental, nossos pequenos insights, a pouca (ou não pouca) paz que conseguimos, de serem incendiados por picos de negatividade.
Por isso, não despreze sila! Mantenhamos sempre cheias as nossas caixas de fusíveis espirituais!

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Causas e Condições


Pensar em termos de condicionalidade, "havendo isto, há aquilo; não havendo isto, não há aquilo", é um exercício libertador.
Em certas ocasiões sentimos e reagimos de uma forma. Depois, ao se repertir situação semelhante, nossos sentimentos e reações são diferentes. Esta diferença deve-se ao emaranhado de condições que se associam à nossa mente o tempo todo. Pensando em termos de condicionalidade podemos ir constatando, cada vez mais claramente, como somos uma combinação de fatores, uma soma de eventos. Vamos observando e conhecendo o fato de que encontrar um ponto central com qual nos identificar vai se tornando uma tarefa mais ingrata... Condições que surgem e passam, condições que influenciam nosso humor, percepções, reações... Condições, em boa parte das vezes, fora do nosso controle...
Eventos que estão de acordo com nossos desejos... Eventos que não estão... E nós, constantemente, colando um 'proprietário' nesse turbilhão!

domingo, 28 de dezembro de 2008

Queremos Já! E Queremos Quentinho!


Nós queremos tudo fast.
E delivery.
E o Buddha não oferece isso.
O Buddha nos instrui a questionar, pensar, refletir, construir a sabedoria insight a insight. Não há, no Buddhadhamma, o ensinamento do Buddha, o conhecimento pronto... Bom, até há! Existem lá uns suttas em que o Buddha fala de renascer em paraísos ou infernos ou de lembrar de vidas passadas e outras coisas mais estranhas... Mas isso, comparado ao grosso do ensinamento, é tão pouco falado! E por ser tão pouco podemos deduzir a importância que o Buddha dava a tais assuntos! E não só por isso. O Buddha falou de forma clara e direta, inúmeras vezes, que metafísica não fazia parte do Caminho que ele ensinava por razões bem simples: não conduz ao fim de dukkha!
Assumir, de uma hora para outra, uma crença buddhista não significa muita coisa!
E, como eu comecei o texto, parece algumas vezes que a nossa preferência por coisas rápidas e prontas e entregues em casa influencia a nossa 'busca espiritual'... Parece que estamos em busca de algo que nos torne mais sábios, mais felizes, mais isso ou aquilo e, de preferência, sem sairmos de casa, ou falando de forma mais profunda (he, he), sem sairmos do conforto de nossas auto imagens, sem abrir mão de nossos 'pontos de vista', opiniões e por aí vai, ou melhor, por aí fica!
E ficamos nessa, empacados no Caminho! Pois que o Buddha ensinou um Caminho! Precisamos sair, abandonar, ter curiosidade, assumir o risco, conhecer e reconhecer, investigar e, principalmente, ter disposição de mudar de rumo quando algo nos mostrar que é o melhor a fazer.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

N C O - IV


Compreender o Buddhadhamma é compreender a interdependência. O que não é nada fácil! Que o diga o ven. Ananda!
O Nobre Caminho Óctuplo, sendo a prática do Caminho por definição é, então, uma cadeia de fatores interdependentes que se alimentam e sustentam mutuamente.
É como se fosse um veículo com oito motores. Talvez não seja possível ligar os oito de uma vez. É preciso que um dê a partida, mas uma vez dada, os oito devem funcionar para que o veículo ande. Não é possível que haja movimento sem que todo o conjunto funcione...
No Caminho, me parece que, com alguma compreensão de um dos fatores, se esta for verdadeira, uma compreensão equivalente dos restantes deve ocorrer. É preciso sentir o conjunto clareando na mente e vivenciar a natureza de cada um dos fatores na prática, seja ela de que nível for.

domingo, 24 de agosto de 2008

N C O - III - Dukkha

Acho que é necessário falar de dukkha da forma como entendo.
O idioma Pali foi preservado nas escrituras do Buddhismo Theravada chamadas suttas. Os suttas são considerados como as palavras do Buddha e de seus principais discípulos. É o idioma mais próximo daquele falado pelo próprio Buddha.
Dukkha é uma palavra Pali cujo significado transmitido para nós pelos mestres é: "difícil de suportar". Dukkha é tudo que é difícil de suportar. Dor de cabeça, depressão, excesso de trabalho, desemprego, envelhecimento, doença, morte são associações imediatas a dukkha.
Mas isso é ainda um nível grosseiro. O entendimento pode e deve ir além disso. Pode-se dar passos importantes neste sentido a partir da reflexão sobre a característica inerente dos fenômenos psicofísicos de fluírem sempre rumo à insuportabilidade.
Estando sentado, é preciso levantar à medida que a postura vai se tornando difícil de suportar... E uma vez de pé, a evolução do processo é a mesma! E será a mesma para quaisquer processos físicos e/ou mentais que ocorram.
Sendo assim, começa a ficar claro porque "sofrimento" não é uma tradução plenamente satisfatória para dukkha.
Quantos níveis de dukkha pode-se perceber ao tomar uma taça de sorvete numa ensolarada tarde de fins de janeiro?!

N C O - II

A palavra "correto (a)" que compõe cada fator do Nobre Caminho Óctuplo, é carregada de conotações que podem nublar o entendimento, dificultando e retardando a compreensão precisa tão necessária ao desenvolvimento do Caminho. (eu constatei isso pessoalmente, pelo menos!)
Penso, então, que "correto (a)" deve ser entendido, principalmente, em relação ao objetivo final do Caminho, ou seja, à erradicação de dukkha.
De acordo com esse raciocínio, então, no Buddhadhamma e, especificamente, no Nobre Caminho Óctuplo, correto é aquilo que atua para a diminuição e erradicação de dukkha e, o seu oposto, aquilo que contribui para a manifestação e continuidade de dukkha.
Parece-me que, colocada nestes termos simples, esta definição ajuda a estabelecer bases firmes e seguras para todo processo de compreensão e prática que, deste ponto, tende naturalmente ao aprofundamento.

sábado, 23 de agosto de 2008

O Nobre Caminho Óctuplo

O Nobre Caminho Óctuplo é a completa expressão da prática Buddhista. Seu estudo resulta na compreensão integral da visão de mundo do Buddha e sua prática conduz à meta que é o propósito único atingido e apontado pelo Buddha: a erradicação de dukkha, traduzido de forma aceitável até certo ponto mas impreciso e incompleto, como sofrimento.
Todo o ensinamento converge sempre para o conhecimento e erradicação completos de dukkha e, logo, para o Nobre Caminho Óctuplo. Não há em todo o corpo da doutrina uma linha sequer que escape ao esquema do Nobre Caminho Óctuplo, tudo o que o Buddha ensinou, pode ser classificado num de seus oito fatores:
Visão Correta, Intenção Correta, Linguagem Correta, Ação Correta, Modo de Vida Correto, Esforço Correto, Atenção ou Vigilância Correta e Concentração Correta.
Sobre estes fatores farei algumas colocações de acordo com o meu entendimento oriundo de leitura, reflexão e alguma prática.

Speech by ReadSpeaker