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domingo, 29 de março de 2015

eu também vou transcender

ser bom, ser ético, ser digno do que é dito ser humano não é simples nem fácil. quem tenta de verdade, sabe. embora a vida fique clara e leve quando se tem sucesso, o sucesso não vem sem alguma dor. pensemos que o comportamento ético dificilmente traz os ganhos que nos ensinam a valorizar e, geralmente, implica nalguma perda imediata e até posterior. poucos são os que se permitem perder.
mas essa dificuldade, esse passo gigantesco e árduo que é o exercício de ser bom, parece não ser suficiente para alguns...
não é raro, em palestras dadas por professores buddhistas, surgir aquela modorrenta questão: "mas não é verdade que todas as religiões podem levar à iluminação, professor?" 
não basta os caminhos todos estressarem a importância fundamental de ser bom, ser bom mesmo. os caminhos religiosos falam de ser bom como quase ninguém no mundo conhecido é. famosa a passagem do Buddha alertando aos seus seguidores que se aquele que, tendo seus membros serrados, nutrir raiva por quem os serra, não pode se considerar Seu discípulo. 
eis o tamanho do imbróglio. mas basta isso? que nada! o que preocupa as pessoas é igualar, de qualquer jeito, nibbāna, fusão com o universo, unidade com deus e por aí adentro no emaranhado de concepções sobre aquilo que ninguém sabe se é...
que me importa a iluminação a que você chegou ou quer chegar? absolutamente nada. me basta que você não tome meu lugar numerado, não estacione em fila dupla, não cante a minha mulher. funda-se com seu deus a vontade se você me deixar em paz na minha busca pela cessação. conte, inclusive, com a minha ajuda no que me for possível.
e não me venha querer dizer que o objetivo do buddhismo é o mesmo que o seu, que nós vamos para o mesmo lugar e tal. eu não quero ir com você. simples assim.
até onde eu cheguei na minha compreensão do Buddhadhamma, o Buddha ensina o nibbāna como sendo a solução. e nibbāna é apagamento, extinção. 
ponto. 
extinção do quê? de compor coisas ignorando que são compostas. é nesse aqui que estou. e aqui, me parece claro, só o Buddha ensinou isso, talvez para tristeza de alguns.
é possível que alguém mais tenha chegado, ou venha a chegar, no mesmo que o Buddha sem a ajuda do Buddha? quem sou eu para saber isso e que importância tem saber isso diante da tarefa árdua que é fazer o básico que certamente este alguém teve ou terá que fazer para chegar lá?
eu acho que é bom a gente pensar nisso um pouco e parar com essa mania de importunar os outros com o que só importa a cada um individualmente.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

don't worry, be happy

 ...àquelas pessoas que se preocupam com o fato de o Buddha ter equalizado vida a sofrimento é possível argumentar o seguinte: é dito que, se nos mantivermos diligentes no caminho, quando despertarmos, quando chegarmos a ser verdadeiramente despertos, a vida se tornará incomparavelmente mais suportável e, somado a isso, conheceremos a insuperável alegria de saber, com plena certeza, que nunca mais vieveremos de novo...

domingo, 26 de maio de 2013

o pior cego

"O pior cego é o que quer ver."
Millôr Fernandes

"Tanto antes como agora, o sofrimento e sua cessação eu proclamo."
O Buddha

O Buddha ensinou só duas coisas. Coisas que não queremos ver. 
Uma, o sofrimento, a palavra original é dukkha. O consenso é que 'sofrimento' não é uma tradução perfeita, com o que eu concordo. Já fui quase convencido de que não é a menos ruim, mas por hora acho que é sim a menos ruim. Volto a isso num outro dia.
Evidente que não queremos ver o sofrimento, não queremos envelhecer, adoecer, morrer, perder,  sofrer.
A outra coisa que o Buddha ensinou, a cessação do sofrimento, também não queremos ver. Parece que queremos, mas acho que não. Já estive na presença de gente que 'só queria que essa dor passasse', mas aí é no fim, no extremo, quando não há mais o que fazer. Na maior parte das vezes, enquanto há o que fazer,  o que queremos é substituir dor por outra coisa. 
Pela cessação, pelo apagamento, pelo nibbāna talvez leve tempo para nos interessarmos.
Enquanto isso vamos tateando, cegos por ver demais, vendo o Dhamma do Buddha como queremos ver.

terça-feira, 21 de maio de 2013

fé no chão

A frase que me guia pelo estudo e prática do buddhismo foi proferida pelo Buddha no Anurādha Sutta como resposta final a uma série de perguntas especulativas sobre o que acontecia a um Desperto após a morte: pubbe cāhaṃ Anurādha etarahi ca dukkhañceva paññāpemi dukkhassa ca nirodhaṃ. Tanto antes como agora, Anurādha, é somente o sofrimento e a cessação do sofrimento o que eu proclamo.
Ou seja, alguém chega até o Buddha flutuando numa nuvem de especulações e idéias e Ele puxa tal pessoa pelo pé e põe de volta no chão. É um movimento comum nos discursos do cânone antigo. Inclusive no vasto uso de metáforas empregadas pelo Buddha, elas sempre são no sentido de tornar palpável coisas que parecem etéreas, é sempre um direcionar para a experiência, para a experienciação sensorial/sentimental ou, me arrisco a dizer, "sensacional", as imaginações, ideações, conceitos. Há um sutta, não me lembro qual agora, em que o Buddha diz que um Arahant sabe que livrou-se das corrupções latentes da mente da mesma forma que um homem saberia ter seus pés e mãos cortados. Isto é sensacional. Todo o caminho buddhista é no sentido de arrefecer a dicotomia mente/matéria apesar de a gente, muitas vezes, persistir no contrário.
É comum chegar ao buddhismo flutuando nas mesmas nuvens que o Anurādha. Há quem fique nisso por muito tempo, a pensar sobre estados elevados de consciência, conhecimento de vidas passadas, poderes, luzes, cores e iluminações, condicionando seu caminhar espiritual a achar um pote de ouro no fim do arco-íris. Um aspecto pernicioso desta estagnação para um buddhista é que este tipo de pensamento garante que a pessoa continue escrava do mundo com a boa desculpa de que 'ainda não tem realizações, ainda não chegou lá, então tudo bem uns escorregões aqui e ali'. Exatamente como acontece com alguns teístas cristãos. Gosto de dialogar sobre religiões em geral e sempre que dá deixo claro minha opinião sobre Jesus ser um modelo a ser seguido, não é raro ouvir um 'ah, mas Ele É O FILHO DE DEUS, né?'. Triste.
Enquanto isso, lá no Satipaṭṭhāna Sutta, o Buddha afirma que o Despertar pode ocorrer em dias se a atenção vigilante for plenamente estabelecida no defecar e urinar entre outras coisas que se faz aqui no chão. 

sábado, 11 de maio de 2013

ecos


poucos dias atrás, no trabalho, alguém me diz: "cara, a beleza da vida são os altos e baixos, alegrias e tristezas, os revezes e oportunidades". quem passa por aqui imagina o que eu disse. 
mas vai que imagine errado, vou dizer o que eu disse: "é". só isso. 
eu só disse "é".
porque é assim que as coisas são. a pessoa só segue o giro reagindo e ecoando o que vem do mundo. 

e, para nossa alegria, entre buddhistas há também este ecoar.
gostamos de encontrar o sentido da vida numa margarida. 'a vida é bela! contemple a beleza de uma margarida! celebre a existência da margarida!'. 
mas na verdade, o próprio fato de precisarmos de uma margarida para 'sentir' é o problema. ao menos falando como buddhista até onde eu entendo o Buddhadhamma. 
no aryiaparyiesana sutta o Buddha conta que fez a si mesmo, antes do despertar, a seguinte pergunta: por que estando eu sujeito ao envelhecimento, doença e morte (sujeito à impermanência e dukkha) busco por aquilo que também está sujeito como eu? o Buddha é sempre simples e direto, extrapola na sinceridade que evitamos. 
o alívio que vem da visão da margarida é só isso mesmo, um alívio pífio, pode ser saudável e funcional, mas nada mais. precisamos deste alívio para seguir na busca que o Buddha ensina como sendo nobre, a saber, estar em paz com ou sem margaridas, céu azul, briza fresca e etc. paz que vem da penetração franca e corajosa, e aí está aquilo que torna o Buddhadhamma o mais fantástico dos caminhos para a felicidade, na natureza capenga da margarida, na futilidade e completa inutilidade da existência de uma margarida. mergulhar destemidamente na investigação de dukkha sem se deixar enganar pelas flores do caminho. esforçarmo-nos em não permitir que qualquer alegria condicionada nos faça esquecer que 'é só dukkha que surge e cessa'. um sorrisinho aqui, um suspirosinho ali mas o que interessa é a felicidade de se compreender a si mesmo, cada vez mais claramente, como suportando algo difícil de suportar em nome de se fazer capaz da busca nobre. como diz o venerável  +Bhante Katukurunde Ñanananda no segundo sermão da série Nibbāna - The Mind Stilled com respeito à natureza da existência:  

All that is there, is a bearing up with difficulty. And this in fact is the meaning of the word dukkha. Duḥ stands for 'difficulty' and kha for 'bearing up'. Even with difficulty one bears it up, and though one bears it up, it is difficult.

Tudo o que há é um sustentar/suportar com dificuldade. E isto de fato é a significação da palavra dukkha. Duḥ significa 'dificuldade' e kha 'suportar'. Mesmo com dificuldade suporta-se e, embora suporte-se, é difícil."




quarta-feira, 1 de maio de 2013

pra você, eu e todo mundo cantar junto

um bom amigo tem se interessado por buddhismo e meditação, variando a ordem dos interesses. tem lido e pesquisado na rede e diz inclusive que descobriu este blog googlando em busca de dhamma  por aí. gostei! 
ele está, como a maioria de nós, entre o nosso lar e a vida sem lar. 
caminha.
numa conversa recente me dizia que "assunto espinhoso este de anattā! esta coisa no buddhismo é que é difícil, hein?". percebo que o rapaz tem bons olhos, já vi e vejo de gente mais adiante na senda afirmar que 'é só desapegar, é só não ter apego...' 
só, olha só. 
o venerável bhante katukurunde ñanananda diz em algum dos sermões sobre nibbāna que realizar anattā é, em si mesmo, o nibbāna.
que bom que seja fácil para alguns. que bom que haja alguns capazes de ver e reconhecer os espinhos. anattā, anicca e dukkha não são visões ou crenças a se adotar, são experiências a se ter. primeiro estudamos, lemos e compreendemos; comparamos esta compreensão com o mundo que conhecemos em seus aspectos interno e externo e decidimos se vale a pena continuar aprofundando as percepções que surgirem. 
se somos sinceros, talvez este estudo comece a vir de encontro ao rumo que naturalmente temos mantido na vida, me parece que é neste momento que devemos abrir bem os olhos para sinceramente ver que não é fácil ou se está sendo fácil demais.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

descordar

a metáfora que vou apresentar a seguir nas minhas palavras aparece no oitavo sermão da série 'nibbāna - the mind stilled' do nunca suficientemente venerado venerável bhante katukurunde ñanananda. elaborada, rica e luminosa como é o todo de seus preciosíssimos textos, penso que a contemplação cuidadosa desta analogia pode fazer surgir um entendimento profundo. passemos a ela.
imagine longos cabos ou cordões. ao redor e ao longo de um os outros serão enrolados para formar uma corda. duas pessoas se põe, uma em cada extremo, para realizar a tarefa. para que surja a corda, cada um deve enrolar no sentido contrário do outro, note bem este detalhe. um terceiro elemento, digamos eu, se posiciona no meio entre os extremos sem ser notado (faça um esforço para aceitar isso) e segura os tais cordões num ponto de modo a impedir o enrolamento naquele ponto.
nos dois extremos os enroladores começam a sua tarefa. porém, eles começam e permanecem enrolando no mesmo sentido, para o mesmo lado, note bem também este detalhe. com o ponto intermediário preso por mim, mesmo com os extremos sendo enrolados na mesma direção uma corda começa a surgir e a se tornar cada vez mais corda, mais rígida, mais tensa conforme o trabalho prossegue.
então eu, num dado momento, quando uma bela corda é aparente, resolvo soltar aquele ponto. o que ocorre com a corda? ela imediatamente se desfaz. pela própria tensão acumulada, uma vez que o enrolamento foi feito na mesma direção nos dois extremos, o desenrolamento espontâneo revela que nenhuma corda foi construída, ela só existiu na dependência do ponto em que eu estava agarrado.

pense nisso.

uma corda só poderia ser feita se houvesse a discórdia entre os dois extremos, um teria que girar para o lado oposto do outro, se os dois lados estiverem em acordo, nenhuma corda poderá surgir. 
e eles sempre estiveram em acordo, ambos giravam para o mesmo lado, mas o eu agarrado no meio criava uma aparente discordância e uma aparência de corda surgiu.
assim é com nossa mente e os seus objetos. ambos giram para o mesmo lado da impermanência (anicca), do sofrimento (dukkha) e da ausência de ego (anattā), mas uma aparência de permanência, de felicidade e de eu se mantém agarrada no meio nos fazendo construir (sakhāra) um mundo em completa discordância com a realidade, trançando cordas que nos prendem ao sasāra. a qualquer momento em que este apego ao meio se desfaça, a corda se descorda, entramos em acordo com o mundo e começamos acordar.
estas últimas linhas um tributo a humberto gessinger.

terça-feira, 26 de março de 2013

deus me livre

"em vez de buscar deus - objetivo dos brâmanes -, Gautama sugeriu voltarmos a atenção justamente para o que, de Deus, está mais distante: o sofrimento e a angústia da vida na terra" está na página 202 do livro confissões de um ateu budista (stephen batchelor - editora pensamento).

a ciência foi destruindo nossas ilusões: éramos seres especiais sob o céu, ocupando o centro do universo; fomos perdendo a majestade. no momento somos animais entre animais, adaptados andando numa bolinha de água e rocha na perifieria de uma galáxia que é como poeira num espaço vasto e desconhecido.
o Buddha fez o mesmo com a religião já há mais de dois mil e quinhentos anos.
religiosamente nos cremos divinos, desde os brâmanes e antes e até hoje, precisamos dessa divindade, temos a fé de que somos obra ou imagem ou manifestação de algo maior, mais belo, mais mágico e com um propósito sublime.
o Buddha, me parece, deixou claro que não. somos só isso mesmo que se manifesta aqui: nascimento, envelhecimento, lamentação, dor, doença e morte. apesar de que, pelo tempo e espaço desde o advento do Buddha a Sua disciplina não tenha se mantido livre desta nossa ânsia pela divinização, qualquer um disposto a ver verá, se procurar nos textos e refletir na vida.
mas é preciso estar disposto mesmo.
o venerável +Bhante Katukurunde Ñanananda, na sua série de sermões sobre o nibbāna, mostra que o nibbāna não escapou de ser transformado em uma espécie de paraíso.
praticar o dhamma, em última instância, me parece ser o oposto de buscar um sentido ou uma salvação, é sim um limpar os olhos e olhar cada vez mais profundamente para o que há aqui e agora, por pior que seja e por pior que vá ficando, até aceitar que a cessação é o único jeito, até vencer toda a esperança, todo o instinto que nos torce o pescoço para o céu e nos obriga a sonhar um mundo.

Não é fácil encontrar o caminho para fora da loucura do saṁsāra. Fazer isso significa que devemos estar frequentemente preparados para ir contra a corrente, para ir na contramão desse mundo. Se é para seguir esse caminho até o seu fim apropriado, então se deve verdadeiramente ser maduro, resoluto e sério.
A realização total do Dhamma, acompanhada da libertação completa e desapego total do coração, conforme descrito nos suttas antigos é, sem dúvida, muito, muito rara, de fato. Mas ainda existe. Até hoje uma estrofe de um dos raros Sayadaws reverbera profunda em minha mente: “Quando você olhar mesmo as esferas sublimes mais altas da existência, as formas de inteligência radiante e jubilosa como uma cuspideira, então você está pronto para o Nibbāna”.
  
Ven. Ottama Sayadaw


quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

nós nos amamos muito

temos uma danosa dificuldade de nos enojar de nós próprios. 
conhecer nossa doença, passo fundamental para o processo de cura, é coisa que dificilmente passa pelas nossas cabeças sempre ocupadas com a avidez de viver. nem mesmo reconhecer os incontáveis e óbvios sintomas que abundam em pensamentos, palavras e ações, principalmente ações. 
fugimos em manada. seguimos nos atropelando a cabeçadas. 
não falo de odiar-se, ou cultivar baixa auto-estima, não é isso. tais coisas me parecem ser uma outra face da moeda do egotismo. quem tem este tipo de problema parece não se enxergar merecedor da imensa paixão que sente por si próprio.
acredito que precisamos cultivar, como buddhistas, a capacidade de nos enojar de nossas condutas inábeis, aquelas que não nos aproximam da meta, do nibbana, do apagamento da chama, ou seja, nos enojar de muita coisa.
mas nosso amor não permite. 
os sinais podem ser vários que damos um jeito de 'não... não é tão grave', 'ele (ou ela) mereceu', 'me provocou', 'todo mundo faz', 'preciso viver!'... e por aí seguem as infinitas estratégias da paixão.
apontar o outro é sempre mais fácil, então eu, tirando proveito desta facilidade, vejo sempre isso, essa dificuldade das pessoas em dar ouvidos, olhos e atenção para si mesmas e para os efeitos que causam sobre o ambiente e os outros ao seu redor. nenhuma disposição para enxergar que mancamos, andamos meio tortos num mundo, por si, meio torto.
caso você tenha chegado até aqui vou dizer o porquê dessa nova mesma coisa de sempre neste repetitivo blog: estava lendo, numa comunidade de divulgação buddhista, sobre o problema das 'novidades' no buddhismo. discutiam sobre o pitoresco e os perigos das 'novas abordagens' que surgem cada vez mais, conforme o buddhismo vai se acomodando no ocidente.
as novas denominações religiosas sempre ganham a minha atenção, na minha região surgem inúmeras, qualquer dia eu conto, só na minha cidade, quantas diferentes existem e publico em algum lugar. e isso é um fenômeno desde que uma religião começou, o buddhismo não está livre hoje como nunca esteve ao longo de sua milenar história.
mas o que isso tem a ver é que aquilo que insisto sempre ser a abordagem do Buddha com respeito à vida é um poderoso sistema de defesa contra tais novos profetas. estivéssemos dispostos a abordar a vida como uma doença e a investigar sob tal abordagem, talvez fôssemos melhor blindados contra as propostas de melhoria que nos apresentam. uma vez que 'todo fenômeno composto é sofrimento' me aproximo de qualquer pessoa atento aos defeitos, às falhas, aos sintomas da doença de viver que ela apresenta. isso não é arrogância ou preconceito, de forma alguma, porque eu próprio, obviamente, me vejo desta exata forma. você pode dizer que é uma forma meio negativa de viver, aí eu respondo: é, pode ser...
confiando na fonte de referência que escolhi para conduzir minha existência, a palavra do Buddha conforme o cânone pali, tudo e todos me aparecem como capengas, em primeiro lugar. a partir daí as coisas pioram ou ficam menos ruins.
por outro lado, a abordagem da afirmação da vida, esta que nos é instintiva e, por consequência, cultural e religiosamente imposta é plenamente favorável ao surgimento de todo tipo de engodo uma vez que a própria postura afirmativa é o engodo máximo.
e eis um dos aspectos danosos da nossa incapacidade de nos enojar de nós próprios. sem a coragem de perceber e nos aprofundar em nossa própria doença, nos fazemos cegos para a doença do outro. se não nos convercermos da incompatibilidade óbvia entre a postura afirmativa da vida e o pensamento fundamental do Buddha vamos continuar a criticar, rir e apontar os problemas do borbulhar de novas novidades no mundo buddhista sem aprender o que, penso, isso tem a nos ensinar. muitas vezes inclusive, sendo bons e positivamente sábios buddhistas vítimas inconscientes do nosso amor pela vida e de algum dos seus profetas.
e podemos fazer algo com respeito aos novos iluminados e seus empolgados seguidores? não, claro que não. só podemos, como sempre, fazer algo a respeito de nós mesmos.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

it's the end of the world as we know it (and i feel fine)

O "Propósito" da Vida


Num emprego abusado, a palavra 'desculpa' seria uma melhor opção, porque não há propósito algum que, em si, não pressuponha alguma forma de vida. Todos os chamados 'propósitos' impingidos à vida pelos seres não despertos para torná-la mais alegre são apenas meras "desculpas". O buddhismo enfrenta diretamente o vazio absoluto da vida quando a iguala a "Dukkha" - a verdade amarga (do sofrimento). Segundo sua análise, se pode-se falar do propósito da vida, este é nada menos que o esforço para levar à cessação da existência samsárica - o círculo vicioso. Esta sendo a única desculpa justificável.


e com este trecho cheguei ao fim da 1ª leitura do livreto "Towards Calm And Insight" do Venerável (Venerabilíssimo e cada vez mais essencial na minha prática espiritual) Bhante Katukurunde Ñanananda. 
muitas questões nascem de uma passagem tão "radical":
será possível para um não monge realmente ser buddhista?
que implicações, em termos de qualidade de vida, gera uma ideia como essa?
é possível viver a vida sendo sincero consigo mesmo e ao mesmo tempo concordar em absoluto com o autor?
onde tal pensamento irá me (nos?) levar?
...
and i feel fine...
e cada vez mais disposto e entusiasmado na busca de respostas para todas estas perguntas!!!

vai que alguém queira me processar, e a vida já é dukkha, por si só um processo, o título deste post é homônimo de uma música da banda americana r.e.m. 
eis o link para letra e som:
pode ter algo a ver... ou não... mas o título é muito bom!

abaixo o original do Venerável em inglês e o link para o livreto:

The 'Purpose' of Life

A misuse of the word 'Excuse' would be a better substitute, because there is no purpose that does not itself presuppose some form of life. All so-called 'purposes' foisted on life by the worldling to brighten it up, are but mere 'excuses'. Buddhism faces squarely the utter hollowness of life when it equates it with 'Dukkha'  -  the bitter truth (of suffering). According to its analysis,  if one can speak of the purpose of life,  it is none other than the endeavour to bring about the cessation of samsaric existence  -  the vicious circle. This is the only excuse that is justifiable.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

sem alfa nem ômega

veja, o buddhismo vai por em dúvida a realidade daquilo que você mais ama: o seu ego. vai, de fato, oferecer métodos para que você investigue acuradamente esta noção que você tem do seu ego. vai afirmar, inclusive, que tal noção é a causa verdadeira de todos os seus problemas. 
pense bem.
o buddhismo não vai te revelar nenhuma energia, força, essência, princípio, entidade, demiurgo a quem você possa orar, pedir ajuda, proteção. nenhum deus, nem igual nem diferente do que você conhece que seja mais poderoso do que você pode ser. nenhum paraíso, nenhum salvador que possa fazer mais do que o Buddha fez, e Ele já fez tudo o que podia por nós. 
agora é conosco.
olha, o buddhismo não garante que a fé remove montanhas. a fé no buddhismo é só um componente entre outros que precisam ser cultivados em conjunto para resultarem na libertação que o Buddha afirma possível. e, na verdade, a fé algumas vezes pode até ser um obstáculo, criar montanhas, veja você.
e, veja também que, em última instância, a libertação do buddhismo vai se mostrando na medida em que vai te aproximando de uma visão em que não há coisa alguma para você se segurar, se manter de pé sobre, sustentar qualquer solidez que possa ter te tranquilizado num momento em que você esteve sem chão. o buddhismo vai, efetivamente, é te tirar o chão, te ensinar a sorrir em queda livre, parar na escuridão, encarando o medo. e encarando muitas outras coisas das quais você possa querer se livrar.
talvez você deva levar isso em conta antes de se afirmar buddhista. 
com certeza você não deve concordar com o que eu disse aqui. mas talvez deva considerar a possibilidade de eu ter razão e investigar o assunto em boas fontes, por si mesmo.
pense bem.

terça-feira, 20 de março de 2012

sistema imunológico

"Bastou a um príncipe indiano ver um velho, um inválido e um morto para compreender tudo; nós que também os vemos não compreendemos nada, pois nada muda em nossa vida. Não podemos renunciar a coisa alguma; no entanto as evidências da vaidade estão ao nosso alcance. Doentes de esperança, esperamos sempre; e a vida não é mais do que a esperança hipostasiada."

diz emil cioran no ensaio imunidade contra a renúncia do livro breviário de decomposição, editora rocco.

em um diálogo onde surgiu o assunto nibbana, conversamos que este está além de toda comparação, compreensão, conceituação.
parece correto.
mas penso que é preciso ter o cuidado de observar que aceitar esta noção de o nibbana ser assim tão indizível de uma forma muito empolgada pode ser mais uma estratégia do nosso sistema imunológico anti-renúncia.
porquê nos falta, em princípio, um parâmetro para comparar, passamos, sutilmente, a relacionar a alegria da prática buddhista àquilo que unicamente conhecemos como alegria, que são as sensações próprias do nosso modo de existir: basicamente a satisfação de um desejo. é natural que comecemos a tentar, por mais que nos informem do contrário, encaixar o nibbana naquilo que é o problema a ser sanado por sua realização, e passamos a reforçar nosso natural instinto de afirmação da única forma de existência que conhecemos: aquela baseada no eu existo.
uma vez que do nibbana não se possa dizer que é existência nem não-existência, para qual lado nossos imuno-soldadinhos vão sorrateiramente pender?
as palavras entram pelos ouvidos e olhos e saem da boca mas no meio deste trajeto, entre a entrada e a saída, são contaminadas pelos anticorpos anti-renúncia.
há sempre uma reticência, há sempre uma tentativa de enxergar na vida, condicionada como ela é e, sendo condicionada, uma causa de insatisfação e decepção segundo o Buddha, um valor, um algo que nos justifique manter nosso ponto de vista inato de que não é dukkha. ou, se é, dukkha não é tão ruim assim, sussurramos para nós mesmos.
renúncia, em termos buddhistas, não é uma coisa fácil.
não é, certamente não é, uma coisa simples experimentar o sofrimento que existe na satisfação da fome ou que a verdadeira paz é fruto de não ter mais fome. abrir mão da fome, de taṇhā, não é coisa simples, talvez trabalho para uma vida ou mais, mas de forma alguma ajuda se permitir debater com aquilo que o Buddha disse tão claramente e que uma observação e contemplação sinceras, mesmo que a mente ainda seja desprovida de elevadas aquisições meditativas, é capaz de nos mostrar, nas minhas palavras: a vida é a manifestação de um problema que só o nibbana pode resolver.
existe alguma tristeza nesta última afirmação? 
a resposta mais precisa é a vida do próprio Buddha. 
após seu despertar, viveu por muitos anos em alegria e energicamente ensinando só isso, a insatisfação e seu fim. 
meu esforço como Seu seguidor não é outro além do de descobrir como ser verdadeiramente feliz enquanto resultante partícipe deste turbilhão de enganos. 
mas sem tentar mudar Suas palavras. sem sonhar com outra vida. sem me revoltar contra o óbvio.
sem piorar as coisas. 

terça-feira, 29 de novembro de 2011

medo

em verdade temos medo.
pego mais esta emprestada do drummond para falar que nós, buddhistas, temos medos. e vou falar de um aqui, ou dois, se as idéias fluirem bem.
tenho percebido que nós, buddhistas, temos medo de parecer pessimistas. temos medo de que as pessoas saibam, porque até nós mesmos temos medo de saber, que o Buddha afirmou que a natureza da vida é o sofrimento.
bom, o Buddha não falava português, então Ele não usou a palavra 'sofrimento', mas sim 'dukkha', que pode ser traduzida por sofrimento ou outras palavras que estão mais ou menos ligadas a sofrimento, mas nunca a uma coisa boa ou desejável.
e sem dúvida que isso parece pessimismo.
me falaram que o papa paulo ll fez algumas observações neste sentido, de que o buddhismo seria pessimista. dado o respeito que temos pela instituição católica e seus representantes, isso só faz aumentar o nosso medo. eu, caso ele realmente tenha afirmado algo assim, concordo com o papa. do ponto de vista dele, e da maior parte do mundo, nós somos pessimistas. eles acreditam que a realidade foi obra de uma entidade plena de amor e bondade, com um propósito bem definido, logo, a vida, fundamentalmente, não pode ser associada ao sofrimento. bem simples assim. uma visão que, de fato, está de acordo com nosso natural apego à vida, se não for fruto deste.
temivelmente para eles e para nós, buddhistas, as coisas não são assim.
o Buddha ensina que a existência é fruto de um processo contínuo de condicionalidade, sem começo, sem propósito. despertou para este fato e declarou taxativamente, como registram as escrituras antigas, que 'todos os fenômenos condicionados são dukkha'. por mais que possamos nos retorcer e nos esconder nas sombras de nossas próprias visões, raciocínios e amedrontadas elucubrações e esperanças, não conseguimos escapar completamente da intensa luz que emana daquela sucinta frase do Buddha: todos os fenômenos condicionados são dukkha.
e, em verdade, temos medo.
justificável pelo nosso instinto, nossa cultura, nossas impurezas mentais. mas não aceitável.
um fator que penso ser responsável, e do qual parece que poucos suspeitam, é que nós não confiamos no Buddha. nós recitamos cânticos, fazemos prostrações, até meditamos e tomamos preceitos, mas tudo fica alí pelo neocórtex. porque se confiássemos no Buddha não sucumbiríamos ao medo. o Buddha não parou na constatação do problema, o Buddha não disse que a existência é dukkha e ponto final, Ele afirmou que o fim de dukkha é possível e definitivo e que há um caminho ao alcance de todos para este fim. há o Nibbana, o fim completo de todo sofrimento.
mas quem de nós está interessado no Nibbana? e aí pode estar um outro fator que nos mantem nas mantas do medo: o Nibbana, pelo tempo afora, foi-se tornando esquecido. tornou-se, convenientemente para nossa ignorância, um mito. quanto menos se fala do Nibbana, mais o nosso medo se sustenta. e, em verdade, acabamos a temer também o próprio Nibbana.
apesar de parecer que não, pois falamos do Nibbana. mas ele foi transformado para caber no nosso medo: virou um paraíso, um bem, um tesouro. e deixou de ser aquilo que o Buddha ensinou: o fim da exsitência condicionada, o fim de dukkha.
assim nosso medo se fortalece, pois não temos nada a oferecer quando nos acusam de pessimistas, só o Nibbana, só um mito, uma quimera idêntica a de todas as outras religiões, para depois da morte, depois do julgamento ou depois de qualquer outra coisa. e olha só o que o medo e a estupidez fazem com a gente: tememos e nos escondemos do rótulo de pessimistas ao mesmo tempo que nos assumimos praticantes da religião que é, em verdade, a mais otimista de todas! pois é a única (que eu conheço) que afirma o fim de dukkha em vida. pois o Nibbana, ensinado pelo Buddha, e esquecido por nós, não é uma promessa para além túmulo. é uma realidade experienciável aqui, nisto que compartilhamos como existência.
temos o mais otimista dos mestres, a mais otimista das religiões e nos mantemos tremulamente encalacrados. alimentando nossa ignorância e temendo a dos outros.
não é até engraçado?
em verdade somos engraçados.


sexta-feira, 20 de maio de 2011

vídeo e mensagens



Após assistirem ao vídeo, dois amigos de dhamma trocam mensagens e chegam mais ou menos no que segue...

"onde estão as pessoas que faleceram? existem? estão bem? e as que
sofrem imenso e sem qualquer possibilidade de mudança? para que serve
todo esse sofrimento?"

"há respostas, e várias, para estas questões! um problema é que todas elas dependem de crença. nada mais nos é exigido a não ser que nos calemos e aceitemos a resposta dada.'
concordo com o que você assinala sobre o vazio que nos toma o coração, mas não que seja a análise do monge a sua causa. eu acho que o vazio se deve, num nível mais profundo, a nossa prória forma precária de experienciar a existência.'
o que o buddhismo nos propõe, me parece, é que enquanto abordarmos tais questões profundas com uma mente que opera enjaulada num nível tão superficial não há chance de sairmo-nos bem! e nos mantemos presas da crença, da frágil crença.'
o monge faz uma introdução (o buddhismo em 15 minutos!!!) brevíssima, mas espetacular, na minha opinião. um resumo de algo que precisamos compreender se quisermos caminhar na senda do Buddha. tal compreensão se dá em primeira mão, conhecermos a nós, nesta forma, é conhecermos o 'todo', o mundo. e este conhecimento estendemos ao outro. acho que só a partir daí começaremos a ter respostas satisfatórias para estas suas questões que não dependam de um calar-se e aceitar...'
grandíssimo abraço!"

A fonte do vídeo é o seguinte site:
http://an-news.blogspot.com/2010/12/psicologia-budista.html?utm_source=feedburner&utm_medium=feed&utm_campaign=Feed%3A+an-news+%28AN-News%29&utm_content=Google+International

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

natalinas

Três ítens. Tarde de vinte e quatro de dezembro. Eu e boa parte da humanidade resolvemos comprar algumas coisinhas no mesmo supermercado. Tivemos que fazer filas, claro. Grandes filas. Se a gente presta atenção, as filas são, dos eventos da vida ordinária, um dos melhores para a contemplação. No meu caso quase dá para sentir o anseio me puxando pela cabeça, esticando o meu pescoço. O corpo plantado. A mente ansiosa, lá no futuro, querendo ir. Mas a fila, os corpos, as coisas seguem sua própria cadência, prisioneiros de seu peso.
Tem aquela senhora, lá na frente,  por exemplo que, parece, insiste em pagar cinquenta e três reais e sententa e dois centavos em dinheiro contado e recontado para se livrar das moedinhas que ela vai procurando no fundo de uma bolsa e eu acho que ela deveria usar óculos pois está espremendo os olhinhos para contar. Quantos encadeamentos de condições nos trouxeram, eu e ela, para a mesma fila, aqui e agora? E não adianta mudar de fila. Eu já tentei uma vez e o rolo de impressão acabou e eu vi a pessoa que estava atrás de mim, na outra fila, indo embora. O que realmente deve ser apreciado ou, ao menos, o esforço para que o apreço se desenvolva precisa ser feito, é esta sensação causada por querer. A mente, enquanto continuar a loucamente tentar levar o corpo para seu mundo de projeções só vai gerar dor e cansaço.
A fila não tá nem aí.

***

Um pratinho de amêndoas torradas e salgadas, um copo de suco, uma boa leitura, um cômodo fresco e eu sou a pessoa mais feliz da terra. Não há nada que eu deseje agora. E isto, num estalo, me ocupa a atenção. Nada a desejar. Isto seria a paz! Sensação maravilhosa! Nada a desejar. Pleno, completo, feliz! 
Mas logo as amêndoas começam a se revelar salgadas demais e o suco muito doce. Só me confirmando que o Caminho não é por aqui.

***

Saiu na Superinteressante, edição verde, na coluna Ciência Maluca: um estudo da universidade do Missouri, EUA, que analisou a população de quatro países concluiu que as pessoas que adotam uma postura ética ao invés da natural tolerância e/ou prática do 'jeitinho' tem um nível de satisfação maior com a vida. Tal conduta eleva tanto o nível de felicidade quanto um aumento de salário.
Legal! É quase exatamente o que o Buddha diz. A satisfação é maior do que a por um aumento.
***

Com respeito ao "Uma Palavra Por Dia", vou criar uma página aqui no blog de forma que o texto vai ficando todo em um só lugar. Vou atualizando e será só clicar no 'páginas' ali do lado esquerdo para ler.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

(o que dá para fazer)

De vez em quando alguém pergunta se nosso destino como praticantes laicos não seria só fazer o melhor possível para que numa próxima vida nasçamos como monges e, aí sim, podermos praticar e chegar lá! Lá no nibbana!
Pois eu poderia citar alguns trechos dos suttas em pali em que laicos chegaram lá! Mas aí poderiam dizer que são casos muito especiais de pessoas que tiveram vidas anteriores extraordinárias e tal e eu não poderia discutir porque me falta um monte de coisa. Dentre elas, competência. Mas digo sem medo que esse negócio de justificar aquilo com base em vidas anteriores é uma questão de fé e que, sendo assim, é possível ter fé na 'extraordinariedade' da vida anterior de qualquer um! Na minha, inclusive!! 
Pois bem, deixando de lado questões de fé, posso falar do que dá para fazer como laico:
- É possível ter consigo textos e mais textos de dhamma sempre que houver aquele tempinho entre uma inutilidade samsarica e outra. Se não em livros, há aparelhos diversos, com preços diversos que possibilitam carregar textos diversos, de suttas a tratados, em volume que qualquer ser humano leva tempo para ler (e mais tempo ainda para estudar!) além da conta. E que ajudam a ver o dhamma onde e quando parece não haver dhamma.
- É possível carregar, nos mesmos aparelhinhos, sons do dhamma: palestras, cânticos, aulas, e vídeos, para aqueles momentos em que a leitura cansar.
- É possível (talvez menos para alguns, preciso reconhecer) ir a um lugar isolado e silencioso (como o Buddha recomenda nos anapanasati e satipatthana suttas)  periodicamente e cultivar a mente/coração.
- É possível (com grau de esforço maior para alguns, mas sempre decrescente na medida em que se treina) manter a disciplina dos Cinco Preceitos, e até de maior número deles, por períodos consideráveis de tempo. Cada vez maiores na medida em que se treina.
- É possível entrar em retiro com relativa periodicidade e facilidade. Desde que se aceite que o lugar de retiro não precisa ser SEMPRE aquele templo ou centro que fica lá longe e custa caro e falta tempo e minha família resmunga prá caramba... O lugar de retiro, essencialmente, é aquele em que a gente se encara e com absoluta franqueza sabe que está fazendo o melhor para honrar o nome que gosta de se dar de "discípulo do Senhor Buddha".
- É possível ser atento e lembrar do dhamma naqueles momentos em que parece que o dhamma é outra coisa que não o aqui e agora (os BONS textos são extrementes eficazes em ajudar nisso!)
- É possível ter contato com professores de dhamma. Bom, pelo menos para quem estiver lendo este blog, o que significa que tem algum acesso à rede.
- É possível fazer alguma coisa pelo dhamma do Buddha dialogando, perguntando, incentivando, doando (não nece$$ariamente) tempo ou dom (traduções de textos são uma demanda constante!), participando e assim, quem sabe, acumular aquilo que muitos gostam de acumular que são os méritos kammicos!
- É possível ser uma pessoa boa.
-É possível, e imprescindível para a saúde psíquica (e a saúde psíquica é imprescindível para a boa prática do dhamma), ser corajosamente sincero consigo próprio.

Se eu lembrar coloco mais coisas. E sugestões são muitíssimo bem vindas!
Mas posso garantir, pois ouvi de fonte que eu respeito e não só eu, que muito monge não faz um tanto do que escrevi acima! 
E aí, se você for um dos que pensa que a vida atual de laico é, na melhor das hipóteses, passagem para uma futura de monge, e quer continuar acreditando nisso, tudo bem. Se não, tente praticar o que eu escrevi (ou alguma coisa, ao menos ou a mais) junto comigo, e se a sua vida não ganhar uma dimensão de qualidade que o satisfaça e que o encha de entusiasmo e convicção na possibilidade da paz efetiva aqui e agora, pode ser que deva partir para outra com as minhas bençãos (que não valem absolutamente nada mesmo!).

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

mentira (de novo! fazer o quê?...)

Terminei de ler o livro "O  Que Nos Faz Felizes" do psicólogo americano Daniel Gilbert (Editora Campus/Elsevier). Resumindo, o livro fala sobre como nos iludimos na busca pela felicidade devido às falhas de percepção que temos.
Lê-se na página 149:

Se tivéssemos a experiência do mundo exatamente como ele é, cairíamos numa depressão tão grande que não conseguiríamos levantar da cama pela manhã, ficaríamos tão desiludidos que seria difícil achar nossos chinelos. É possível que tenhamos uma visão cor-de-rosa do mundo, mas essa visão nem é opaca nem é muito clara. Não é opaca porque precisamos ver o mundo para participar dele, para pilotar helicópteros, fazer a colheita do milho, trocar as fraldas dos bebês e todas as outras coisas que os mamíferos precisam fazer na luta pela sobrevivência. Mas também não pode ser muito clara, pois precisamos de um pouco de rosa para projetar os helicópteros ("Tenho certeza de que esse negócio vai voar"), plantar o milho ("A safra deste ano será ótima") e ter os bebês ("Que coisinha mais linda!"). Não podemos abrir mão da realidade, mas também não podemos abrir mão da ilusão. Cada uma tem seu propósito, e cada uma impõe um limite ao domínio do outra. Assim, nossa experiência do mundo resulta do compromisso fechado entre essas duas fortes concorrentes.

A ideia é desenvolvida em todo o livro mas na página 154 há o seguinte:


No final das contas, o cérebro e o olho talvez tenham uma relação contratual na qual o cérebro concorda em acreditar no que os olhos vêem, mas, por sua vez, o olho concorda em ver aquilo que o cérebro quer.


Quem tem passado por aqui deve imaginar que estes foram meus trechos preferidos do livro. Está certo. Foram. Acho legal que as disciplinas que estudam a mente acabem sempre esbarrando nalgumas verdades buddhistas.

Mas o autor para por aí.
Terminei o livro com a sensação de que sua proposta é que cheguemos a uma resignação com esta nossa, segundo ele, imutável condição de simbiose com a ilusão. Temos que aceitar que entrar em acordo com a ilusão é a forma de ser feliz e, todas as vezes que nos desiludirmos em função desta inescapável necessidade, podemos extrair algum consolo do prazer de saber que é assim que as coisas são. Ou seja, estou perdido, mas pelo menos eu sei que estou perdido e este saber é fantástico!
E há quem considere o buddhismo uma visão pessimista da vida!
Entendo o buddhismo como sendo, fundamentalmente, uma doutrina de transformação pela percepção/conhecimento. Afiamos a mente tanto em termos perceptivos quanto cognitivos através do cultivo da atenção reflexiva/vigilante.
Assim, onde para o autor, começa o Buddha.
A felicidade de saber que não há felicidade no mundo  não surge de saber que  não há felicidade! 
Há o nibbana.
O nibbana declarado pelo Buddha é um objeto da mente. E segundo o Venerável Ajahn Buddhadasa, muito mais acessível do que séculos de elucubrações metafísicas acabaram ocultando! O Buddha, quando nos diz que ao continuarmos buscando a felicidade da forma que buscamos só vamos ter problemas, afirma como 'opção' a felicidade real . Saber que não há felicidade no mundo é apenas a primeira parada rumo a felicidade. 
Deste ponto deveríamos levantar a cabeça e mirar os olhos na direção que o dhamma aponta!
Eis o ato que requer um esforço colossal da maioria dos humanos: considerar a possibilidade de um tipo de felicidade que não seja nos moldes do 'mundo'. Um tipo de felicidade que não dependa de ganhos parece até assustador para nós! Mesmo quando nos 'espiritualizamos' continuamos a conceber a felicidade da forma que sabemos: paraísos, sensações, lugares maravilhosos! Nossa versão de felicidade espiritual não consegue ser mais do que uma hipermundanidade. Continuando a nossa busca por felicidade nos mesmos moldes de sempre, a prática buddhista que para mim é uma espécie de desaprender os caminhos do mundo, em especial aqueles para a felicidade, é corrompida e rebaixada a um paliativo para a tristeza que resurge, para a frustração que resiste, para a insatisfatoriedade que permanece oculta da mente e ativa, como sempre foi, no coração. 
Um buddhismo para uso tópico.
Eu acho que temos que fazer uma escolha: ou ficamos na nossa versão do caminho do meio que é um vagar bobo e assustado entre aquilo que o dhamma revela e a nossa zona de conforto que sabemos ilusória ou damos o passo no Caminho do Meio do Buddha que requer alguma coragem para, ao menos, procurar por uma felicidade que não dependa de resignação com a natureza irremediavelmente ilusória do mundo.

sexta-feira, 12 de março de 2010

desculpas

Ah, mas Jesus era O FILHO DE DEUS!!!
Esta frase eu já ouvi algumas vezes. Algumas, de minha mãe, uma fervorosa cristã.
Ela serve para justificar nossos erros, nossas incapacidades. Principalmente quando somos confrontados com aquilo que, supostamente, deveríamos fazer. Ou não fazer. Serve para nos colocar em nosso lugar. Delimita a fronteira e nos tranquiliza: "Tudo bem, eu sou só humano! Piso na bola..."
O Buddha nunca se proclamou nada mais que humano. Um humano Desperto, apenas. Mas, ainda assim, damos um jeito de fazer um raciocínio semelhante.
Falar no Despertar, em nibbana, em atingir a meta final do Caminho pode causar certo constrangimento, às vezes, para quem fala. Existe a idéia de Eles, os Iluminados. "Eles acumularam méritos por incontáveis eras incomensuráveis!"
E nos deleitamos em nossa mediocridade. "Sou um reles laico, oras bolas!!"
Não questiono o fato do acúmulo de méritos.
Mas questiono a postura de nos escondermos atrás de uma idéia para justificar a preguiça, a auto-indulgência, o medo.
O Caminho foi exposto pelo sammasambuddha. Existe para ser trilhado. Há uma meta. Um início e um fim. Honrar o Buddha envolve reconhecer nossa plena capacidade de alcançar a meta final. Não for para isso, para que o Caminho? 
Se achamos que não dá, tudo bem! Mas sem desculpas!

domingo, 20 de setembro de 2009

Querer a Paz

O interesse pela paz pode começar na constatação do turbilhão mental. Sentar, fechar os olhos, relaxar num local silencioso e isolado, longe de estímulos sensoriais e observar o tumulto que é a mente em sua busca insaciável por ter o que fazer pode ser uma experiência bastante significativa. Infelizmente, a maior parte de nós não lhe dá o devido valor. O que fica desta experiência é, mais uma vez, a insatisfação do "Droga! Eu não consigo meditar!!" Um engano absoluto! Este primeiro contato é justamente o que precisamos para reconhecer que algo deve ser feito! Pois este é o estado natural do nosso mundo. Só não sabíamos disso! Este frenesi impaciente, cansativo, desalentador, fútil e sem propósito é o nosso amado samsara!
Se esta foi a experiência, não devemos deixá-la passar nem interpretá-la pela nossa vista embaçada. Levemos a visão do tumulto interno para onde formos depois de abrirmos os olhos e levantarmos para nossa vida ordinária. Talvez, um leve desencanto possa surgir... Mas pelo que descobrimos e não por aquilo que nos permitiu descobrir.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Doença... Saúde... Nibbana...

Imagine alguém com uma doença crônica que entre momentos de dor e sofrimento tem alguns períodos de melhora. Durante estes períodos de melhora tal pessoa aproveita o que a vida tem de bom, faz passeios, come guloseimas, vai a festas... Mas sua mente nunca está plenamente satisfeita, pois sabe que estes momentos são breves intervalos na sua real condição de enfermo. Mesmo que tenha alguma felicidade, esta é apenas temporária e fugás, sua mente está permanentemente manchada pelo sofrimento e pela certeza da sua infeliz condição.
Para um Desperto eu imagino que a situação seja exatamente a mesma mas no completo oposto! Tendo experimentado o Nibbana, tendo sabido e visto a realidade do Nibbana, Ele, ainda que aja e viva no samsara, jamais se deixa abater pelo mundo. Sua mente permanece sempre abençoada pela influência do conhecimento da cessação de todos os fenômenos, de todas as formações e impurezas. Embora caminhe e viva no mundo, ele está estabelecido na visão do vazio dos eventos do mundo. Não é possível mais para Ele cair na tristeza ou infelicidade que o mundo provoca. Ele sabe e vê o cessar. Ele sabe e vê a Paz.

Speech by ReadSpeaker