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quarta-feira, 25 de novembro de 2015

O Descaminho Do Bodhichátova

É um tipo numeroso. Você provavelmente conhece um. Quer ele se denomine bodhisattva, cristão piedoso, rotariano, espírita caridoso ou o que for. 
Ele ou ela se orgulha da própria bondade, humildade, modéstia e generosidade. Um nobre, enfim. 
O bem que faz continua sendo ótimo para aquele que recebe, mas vá conviver com o tipo. Uma benção para os distantes, um tormento para os próximos.
Não raro uma pessoa autoritária, dona da verdade, aquela que sabe. A que nos contempla do topo do monte, de onde nos prega, guia e salva.
No início do meu buddhismo, essa coisa do bodhisattva sempre me incomodava. Não engolia essa obrigação de iluminar o universo. Com o tempo e o estudo, compreendi melhor a coisa e convivo bem com a ideia hoje. Ao meu modo.
É que pensar nos outros é funcional para o Despertar. 
Simples assim. 
Uma vez que o Despertar é ou se revela fundamentalmente ao desfazer a ilusão de que existe o ego, pensar nos outros é um modo prático de ir esmerilhando a ideia do eu.
E não é só isso.
A bondade é funcional. O bom humor, o otimismo, a alegria também são. 
É a arte de fazer limonadas.
Contemplar o vazio de um refrescante copo de limonada é muito mais fácil que de um azedo limão.
Saber da desgraça que é a vida é básico. Identificar e valorizar o que há de tolerável e bom na vida é funcional para acabar com esta mesma desgraça.
Para meditar, preciso de uma mente contente. Parece que há mesmo raízes biológicas no sentir-se bem ao fazer o bem, já li isso em algum lugar. Logo...
Aquele tipo do qual comecei falando é um dos imbróglios do querer ser bodhisattva, que nos deixam ressabiados com essa coisa de abnegação. Porque é a distorção em pessoa a nos expor à perigosa falácia do desprendimento. Nós todos, no íntimo, sabemos do quase absurdo que é a ideia de fazer o bem sem esperar algo em troca. Queremos sempre algo em troca. Fazemos o bem para sentirmo-nos bem, no mínimo. Ao menos aqueles de nós que são sinceros e não altamente realizados. 
Ao eu, que imaginamos ser, alimentamos com a ideia da santidade.
Muito melhor, me parece, é fazer o bem porque é bom para mim: medito melhor. 
Se estou em paz na vida, se me permito a alegria de dar água ao beija-flor, que é um bichinho feroz e violento, medito melhor; se me permito a alegria de contemplar a beleza da flor, este estágio que prenuncia sua morte e apodrecimento, medito melhor.
E vamos vivendo, fazendo o bem. Reconhecendo e aceitando nossa realidade, tudo fica mais pacificado.
Estou numa fase de grande interesse pelo dzogchen, em grande parte porque do que vou elucubrando das preleções do Bhikkhu Kaṭukurunde Ñāṇananda, acho que o dzogchen está lá, nos suttas antigos. Lendo bastante sobre o assunto, passei pelo seguinte trecho do ótimo livro de um dos vários mestres do buddhismo chamado mahayana que transitam por essa prática:

"Muitas vezes, em nome do amor, acabamos desenvolvendo um ego enorme, quando o queríamos pequeno. A motivação é o nosso bem-estar, não o de nossos semelhantes. Ajudar os semelhantes, sem dúvida, nos deixa felizes por nossos atos, mas, como o ovo e a galinha, a questão é o que vem primeiro, qual é a nossa intenção original. Portanto, não se apresse a doar cegamente todos os seus bens materiais. Aos poucos, descobrirá o que realmente quer entregar ao mundo e aos outros. Faça o que tem a fazer sem deixar nada para trás e sem se forçar de maneira alguma. Vá devagar, avaliando bem suas ações."

por Gyalwang Drukpa
Editora Pensamento

Todos apreciam e gostariam de ser salvadores do universo. Eis o sucesso dos filmes dos Vingadores a demonstrar.
Mas é essencial voltarmos nosso olhar equânime e compassivo para a nossa própria necessidade de salvação.

terça-feira, 30 de junho de 2015

O Discípulo Laico*

Este é o discípulo do Buddha, vivendo em seu lar. Ele tem confiança no despertar do Buddha. Ele treina a si mesmo para purificar suas ações e sua fala. Ele cultiva a generosidade, aprende a ceder e a deixar ir. E esta é a sua prática: ele aproveita as oportunidades para ouvir o Dhamma - a palavra do Buddha - de monjas e monges despertos. Mas isso não é tudo. Ele sustenta a lembrança do Dhamma que ouviu. Ele tenta memorizá-lo, mantê-lo em sua mente. Porque ele sabe que, assim, vai refletir sobre ele, observar, investigar, compreender profundamente. Então, por tal prática, ele sabe, sendo esta uma lei natural, sua vida vai seguir o processo, inevitavelmente.
Lenta mas seguramente, toda a sua vida é tocada e transformada pela mágica que é o milagre do Dhamma: em seu trabalho ele é aplicado, trabalhador e diligente. Em suas finanças ele é generoso, evitando dívidas, consciente dos benefícios de poupar e nunca se esquecendo de avivar o espírito de sua família e amigos. Ele cuida bem de seus pais, a quem deve sua formação e orientação na vida, e instrui e apoia seus filhos e companheiros sempre buscando se associar com pessoas boas e nobres. Assim, sua vida mundana está num equilíbrio que lhe permite dedicar mais tempo e clareza à vida espiritual.
Pelo menos uma vez por semana, vestido de branco, símbolo da pureza, ele desfruta de um dia de silêncio e contemplação. Ele determina sua mente a aplicar-se neste nobre treinamento de corpo, fala e mente. Ele sabe, cada dia passado a seguir os passos dos Arahants será, na soma final de seus dias terrenos, mais valioso do que qualquer fortuna em sua conta bancária. Neste dia, ele lembra-se do Dhamma que aprendeu, pode também jejuar, mantendo-se leve e simples, refletindo sobre as palavras do Buddha. Ele pode contemplar as qualidades do Buddha, aquilo que caracteriza um Desperto, ele pode contemplar Dhamma e Sangha. Ele pode lembrar das qualidades dos Devas sabendo que sua vida, se purificada desta forma, irá conduzi-lo a tal estado mental e nenhum outro.
Começa todos os seus dias com as cinco contemplações saudáveis pela manhã. Todas as manhãs ele reafirma a sua confiança no mestre, o contemplativo Gotama, na sua explicação do Dhamma e no grupo de discípulos que seguem esse caminho com sinceridade. Todas as manhãs, ele reflete sobre as virtudes que está determinado a pôr em sua vida e reflete sobre como pode praticar generosidade naquele dia. Todos os dias, ele se exercita, para fortalecer sua lembrança dos ensinamentos do Buddha, recitando as palavras do Desperto de memória. Todos os dias pode-se encontrá-lo calmamente refletindo sobre o significado do Dhamma que ele aprendeu. Outros chamam de meditação, ele chama de sammā samādhi e bhāvanā, ou desenvolvimento, pois ele sabe que isto é como uma planta, precisa de atenção constante e manuseio cuidadoso para que cresça forte a dê frutos.
Ele sabe que da confiança vem serenidade, e da serenidade alegria. Tal alegria interior vai levá-lo mais do que frequentemente à permanência tranquila dos quatro jhānas. Ele sabe como utilizar a perfeita calma e equanimidade do quarto jhāna para lembrar suas vidas passadas, sim, ele pode dominar habilidades como essa, mas acima de tudo, ele não conhece maior alegria do que refletir sobre a impermanência dos seis sentidos, observando seu borbulhante surgir e cessar conforme sua sabedoria cresce, não conhece maior alegria do que observar os cinco agregados surgindo e se dissolvendo, contemplando a origem dependente que conduz a um profundo insight e sabedoria purificadora.
Conforme seus dias periódicos de meditação (Uposatha) se desenvolvem em profundidade, guiado e alinhado pelas palavras do Buddha que ele preza como um antigo tesouro, sua habilidade em aprofundar seu despertar através da aplicação das meditações como descritas pelo Buddha torna-se formidável. Ele, vestindo branco, ainda vivendo entre esposa e filhos, mantém a sua mente firmemente empenhada na atenção plena ao corpo, ou às quatro satipatthanas, ou à meditação pela respiração, conducentes a profundos insight e sabedoria e aos frutos de entrar na correnteza, de só mais uma vez retornar e de não-retorno. Este ele sabe ser o caminho para Nibbāna conforme apontado pelo Desperto.

Com base nos seguintes suttas:
•                       Mahanama Sutta,   AN.8.25
•                       Vyagghapajja Sutta,   AN 8,54
•                       Singalovada Sutta,   DN 31
•                       Sakka Sutta,   AN 10,46
•                       Muluposatha Sutta,   AN 3,60
•                       Uposatha Sutta,   AN 8,41
•                       Nandamata Sutta,   UMA 7.6
•                       Cittasamyutta,   SN 41
•                       Gihi Sutta,   AN 5,179
•                       Anana Sutta,   AN 4,62
•                       Nakula Sutta,   AN 6,16
•                       Velama Sutta,   AN 9,20
•                       Brahma Sutta,   ITIV. 106
•                       Cinco reflexões diárias: Abhiṇha Paccavekkhitabbaṭhāna Suttaṃ,   AN 5.6.7   e   Aqui




*texto traduzido e publicado sob autorização do autor.
original aqui.

domingo, 29 de março de 2015

eu também vou transcender

ser bom, ser ético, ser digno do que é dito ser humano não é simples nem fácil. quem tenta de verdade, sabe. embora a vida fique clara e leve quando se tem sucesso, o sucesso não vem sem alguma dor. pensemos que o comportamento ético dificilmente traz os ganhos que nos ensinam a valorizar e, geralmente, implica nalguma perda imediata e até posterior. poucos são os que se permitem perder.
mas essa dificuldade, esse passo gigantesco e árduo que é o exercício de ser bom, parece não ser suficiente para alguns...
não é raro, em palestras dadas por professores buddhistas, surgir aquela modorrenta questão: "mas não é verdade que todas as religiões podem levar à iluminação, professor?" 
não basta os caminhos todos estressarem a importância fundamental de ser bom, ser bom mesmo. os caminhos religiosos falam de ser bom como quase ninguém no mundo conhecido é. famosa a passagem do Buddha alertando aos seus seguidores que se aquele que, tendo seus membros serrados, nutrir raiva por quem os serra, não pode se considerar Seu discípulo. 
eis o tamanho do imbróglio. mas basta isso? que nada! o que preocupa as pessoas é igualar, de qualquer jeito, nibbāna, fusão com o universo, unidade com deus e por aí adentro no emaranhado de concepções sobre aquilo que ninguém sabe se é...
que me importa a iluminação a que você chegou ou quer chegar? absolutamente nada. me basta que você não tome meu lugar numerado, não estacione em fila dupla, não cante a minha mulher. funda-se com seu deus a vontade se você me deixar em paz na minha busca pela cessação. conte, inclusive, com a minha ajuda no que me for possível.
e não me venha querer dizer que o objetivo do buddhismo é o mesmo que o seu, que nós vamos para o mesmo lugar e tal. eu não quero ir com você. simples assim.
até onde eu cheguei na minha compreensão do Buddhadhamma, o Buddha ensina o nibbāna como sendo a solução. e nibbāna é apagamento, extinção. 
ponto. 
extinção do quê? de compor coisas ignorando que são compostas. é nesse aqui que estou. e aqui, me parece claro, só o Buddha ensinou isso, talvez para tristeza de alguns.
é possível que alguém mais tenha chegado, ou venha a chegar, no mesmo que o Buddha sem a ajuda do Buddha? quem sou eu para saber isso e que importância tem saber isso diante da tarefa árdua que é fazer o básico que certamente este alguém teve ou terá que fazer para chegar lá?
eu acho que é bom a gente pensar nisso um pouco e parar com essa mania de importunar os outros com o que só importa a cada um individualmente.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

don't worry, be happy

 ...àquelas pessoas que se preocupam com o fato de o Buddha ter equalizado vida a sofrimento é possível argumentar o seguinte: é dito que, se nos mantivermos diligentes no caminho, quando despertarmos, quando chegarmos a ser verdadeiramente despertos, a vida se tornará incomparavelmente mais suportável e, somado a isso, conheceremos a insuperável alegria de saber, com plena certeza, que nunca mais vieveremos de novo...

quinta-feira, 20 de junho de 2013

estamos fazendo bonito

coisa de um mês atrás eu dizia no café que acredito no poder da rede, no poder do conhecimento. dizia que acredito que mudanças ocorreriam, ainda que lentamente, movidas principalmente pelo acesso irrestrito à informação que a rede oferece. o assunto era os preços do brasil, de coisas como carros, por exemplo, custarem tão insanamente mais caro aqui. numa conversão simples, um carro pelo qual se paga setenta, oitenta mil reais aqui, lá nos eua pagariam o equivalente a quarenta ou trinta, me diziam. numa conversão mais elaborada, talvez vinte... o que vale para carro valendo para outros bens de consumo. aí eu disse que o fato mesmo de estarmos ali conversando e dividindo conhecimento era sinal de alguma lenta mudança ocorrendo. 
eu me creio exemplo. 
antes da rede, me contentava com o buddhismo que chegava a mim, eu com poucos recursos e morando em cidades pequenas, sempre um pouco descontente. com a rede eu fui ao dhamma que escolhi e nele mergulhei. minha qualidade de vida deu um salto como nunca antes na história deste país. embora a rede não substitua o valor de um contato pessoal com mestres, a quantidade de material disponível pode compensar na dependência decisiva do empenho do aluno.
assim, então, afirmava eu, contra alguma descrença geral, que acreditava, ao menos naquilo que diz respeito a consumo, que mudanças viriam: teríamos bens cada vez melhores e mais baratos, aos poucos deixaríamos de subsidiar, pela nossa estupidez, a bonança alheia.
mas eis que somos todos pegos de surpresa por esta maravilhosa onda de protestos pelo brasil afora! inteligentemente organizados num momento preciso e perfeito via rede! eu não estava sendo otimista, então! fui modesto. 
quem imaginou que a pátria fosse tirar as chuteiras e por os pés no chão, no nosso chão tão sujo? 
surpresa para mim e para todos, está acontecendo: a beleza exibida pelo talento inquestionável do menino neymar não será mais do que é: diversão, uma bobagem que queremos apreciar sim, mas do conforto de uma vida digna, sob o governo de gente decente. parece que estamos meio indiferentes a um placar de goleada somado a uma bela exibição em campo. para tristeza do pelé. parece que o rei ficou nu.
a qualidade de vida que o dhamma me proporciona se faz, entre muito mais, pela aniquilação impiedosa da minha ingenuidade. não esperar um mundo melhor mas reconhecer a necessidade funcional de um mundo menos ruim é a sabedoria que vou adquirindo. é claro que neste movimento todo há bandidos, há vontades escusas que vão se imiscuir. há interesses políticos sendo plantados e colhidos. vão querer transformar isso em dinheiro como sempre. a grande mídia, tomada de pânico por sairmos na rua para o mundo ver, (deu no nyt!) já, ainda que meio atabalhoada, tenta capitalizar a ameaça de descapitalização, os governos rapidamente cedem no que foi fácil na esperança de que se esqueça o difícil, a saber, que governem. haverá gente mais inteligente e tão cheia de dinheiro quanto o ronaldo pedindo para que nos concentremos em apoiar a nossa seleção, que pensemos na copa e nas olimpíadas, tentando nos convencer de que estádios e sinalizações em inglês são tão importantes quanto hospitais e escolas, tentando nos convencer de que somos um povo alegre e festivo, que o mundo quer de nós a nossa hospitalidade indígena, nosso gingado africano... mas parece que, num oferecimento de mustela putorius furus, vão furar,  parece que a nossa preguiça - goodbye, macunaíma... - nos enjoou, estamos levantando, não estamos mais engolindo, hein, zagalo?...

peraí... meu alarme anti-polyana berra a pergunta: será? não sei, vamos ver no que dá. mas, prá começar, acho que estamos fazendo bonito

terça-feira, 21 de maio de 2013

fé no chão

A frase que me guia pelo estudo e prática do buddhismo foi proferida pelo Buddha no Anurādha Sutta como resposta final a uma série de perguntas especulativas sobre o que acontecia a um Desperto após a morte: pubbe cāhaṃ Anurādha etarahi ca dukkhañceva paññāpemi dukkhassa ca nirodhaṃ. Tanto antes como agora, Anurādha, é somente o sofrimento e a cessação do sofrimento o que eu proclamo.
Ou seja, alguém chega até o Buddha flutuando numa nuvem de especulações e idéias e Ele puxa tal pessoa pelo pé e põe de volta no chão. É um movimento comum nos discursos do cânone antigo. Inclusive no vasto uso de metáforas empregadas pelo Buddha, elas sempre são no sentido de tornar palpável coisas que parecem etéreas, é sempre um direcionar para a experiência, para a experienciação sensorial/sentimental ou, me arrisco a dizer, "sensacional", as imaginações, ideações, conceitos. Há um sutta, não me lembro qual agora, em que o Buddha diz que um Arahant sabe que livrou-se das corrupções latentes da mente da mesma forma que um homem saberia ter seus pés e mãos cortados. Isto é sensacional. Todo o caminho buddhista é no sentido de arrefecer a dicotomia mente/matéria apesar de a gente, muitas vezes, persistir no contrário.
É comum chegar ao buddhismo flutuando nas mesmas nuvens que o Anurādha. Há quem fique nisso por muito tempo, a pensar sobre estados elevados de consciência, conhecimento de vidas passadas, poderes, luzes, cores e iluminações, condicionando seu caminhar espiritual a achar um pote de ouro no fim do arco-íris. Um aspecto pernicioso desta estagnação para um buddhista é que este tipo de pensamento garante que a pessoa continue escrava do mundo com a boa desculpa de que 'ainda não tem realizações, ainda não chegou lá, então tudo bem uns escorregões aqui e ali'. Exatamente como acontece com alguns teístas cristãos. Gosto de dialogar sobre religiões em geral e sempre que dá deixo claro minha opinião sobre Jesus ser um modelo a ser seguido, não é raro ouvir um 'ah, mas Ele É O FILHO DE DEUS, né?'. Triste.
Enquanto isso, lá no Satipaṭṭhāna Sutta, o Buddha afirma que o Despertar pode ocorrer em dias se a atenção vigilante for plenamente estabelecida no defecar e urinar entre outras coisas que se faz aqui no chão. 

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

tu és só isso

mente e matéria. 
nada mais. 
uma condicionando a outra. 
só isso.
não é uma descrição agradável quando contemplada cuidadosamente. implica em que no visto há só o processo de ver, no degustado só o processo de degustar, no ouvido só o ouvir, no sentido só o sentir, no pensado só o pensar. tudo começando só para acabar, começando a acabar já no começo. nenhuma testemunha para curtir ou dar um plus. onde não há ninguém, ninguém há para haver, apesar das aparências. esta mesma aparência que faz de tudo tão sofridamente frustrante. 
segundo a segundo; hora a hora; dia a dia; semana a semana; mês a mês; ano a ano; só isso.
aparência até o fim.


quinta-feira, 29 de novembro de 2012

é fogo

é fogo! "o mundo está em chamas". se nos debruçássemos sobre esta rica, riquíssima imagem... só nesta frase do Buddha há tanto ensinamento...!
está aqui a impermanência, o apego, o sofrimento, a condicionalidade... tudo no fogo. haverá ainda coisas que não vejo.
depois de um certo ponto de entendimento e esforço, bastam poucas palavras para tomar um dia de reflexão. 
depois que se é tomado pelo movimento da roda do dhamma, pode-se desacelerar num momento ou noutro, mais ou menos como corpos que se chocam e se afastam dos braços de um redemoinho, mas logo volta-se, atraído pelos laços que nosso próprio entendimento e empenho construíram. 
uma vez iniciado o processo de retroalimentação entre compreensão e confiança no dhamma, penso que dificilmente haverá escape. não haverá sequer o menor desejo de escapar. e este processo inicia-se, penso eu, justamente do foco mantido na primeira nobre verdade: dukkha existe. não enxergo outra porta mais segura para o dhamma do Buddha. se por esta se entra por escolha sabiamente ponderada, provavelmente não haverá como sair. por isso, ouso pensar, o Buddha começa por aí. 
pelo oposto disso, penso sem necessidade de ousadia, vê-se tanto pseudodhamma por aí. 
esta porta é segura porque nos permite almejar a transcendência sem nos perdermos em elucubrações irreias. é uma verdade sempre clara, aguda e a disposição, sempre presente como a respiração, que vai de aspectos grosseiros a sutis. ainda mais evidente que a impermanência, outra verdade sempre à vista, dukkha, por nos aparecer primordialmente pela via das sensações, nos mantém, se assim nos comprometermos, sempre atentos ao todo do dhamma.
ver o mundo em chamas torna-se um hábito, aos poucos. e ascende. 
o fogo desperta e ilumina. 
ou aconchega e adormece.
depende daquilo que cada um escolha fazer com o conhecimento do fogo.
você desperta e vê. 
ou dorme e morre queimado.

***

"Aquele que vê o perigo do saṁsāra é aquele que vê as falhas, o problema deste mundo. Neste mundo, há tantos perigos, mas a maioria das pessoas não os vê, elas veem os prazeres e a felicidade do mundo. Agora, o Buddha diz que um bhikkhu é aquele que vê o perigo do saṁsāra. O que é o saṁsāra? O sofrimento do saṁsāra é esmagador, é intolerável. A felicidade também é saṁsāra. O Buddha nos ensinou a não se apegar a eles. Se não vemos o perigo do saṁsāra, então, quando há felicidade, nós nos apegamos a ela e nos esquecemos do sofrimento. Nós somos ignorantes em relação a ele, como uma criança que não conhece o fogo". - Ajahn Chah (trecho de um texto a ser publicado pelo nalanda)

sexta-feira, 22 de junho de 2012

por que que a gente é assim?

não sou um grande leitor de suttas. 
na maior parte das vezes que vou a um sutta é porque ele foi, todo ou em parte, comentado em algum texto que eu esteja lendo. e aí eu fico maravilhado pela perspicácia do Buddha, pela beleza e profundidade da metáfora e, quase sempre, por eu já ter passado por ali e não ter apreendido toda a nuance do agora tão completo ensinamento.
por eu conhecer pouco os suttas eu não deveria expressar a ideia que vou mesmo assim.
ainda não vi o Buddha dizer que o mundo é perfeito.
ainda não vi o Buddha dizer que a natureza das coisas é bela. que tudo é maravilhoso em si. ainda não vi o Buddha dizer para nos fazermos abertos à mágica da vida.
o que sempre encontro é o Buddha falando da necessidade do desapego, do desencanto, da temeridade do surgir e cessar dos compostos, da vanidade da beleza, da doença, do envelhecimento, da morte e da absoluta necessidade do escape disso tudo.
mas não é raro eu ver textos de dhamma falando as coisas que eu ainda não vi o Buddha falar.
mas, se eu não estiver escrevendo (mais) uma grande besteira, por que o Buddha não falava, então?
porque Ele sabia como a gente é.
é porque Ele sabia que daríamos um jeito de elucubrar formas absurdas para despertar e continuar dormindo. Ele sabia da nossa incomensurável preguiça e sono. Ele sabia que a mais tênue sujestão de concessão ao samsara iria prevalecer sobre qualquer milhar de conselhos que desse para abandoná-lo. 
então, mesmo que o Buddha não tenha feito tal concessão, como eu disse, não sou qualificado para afirmar isso, ela foi achada e nós nos aconchegamos nela sempre que podemos ou descuidamos.
e a noite nunca tem fim. 
preferimos tais abordagens e nos encantamos na sua profundidade. aquelas vindas de mentes que superaram a dualidade. que afirmam a maravilha do surgir e cessar, a mágica do existir, o fulgor, a intensa beleza e possibilidades que a vida nos oferece. isto sim é a sabedoria que combina com o modo como sabemos ser. nos é agradavelmente enlevante. aí não é a vida que é imperfeita, nós é que não sabemos enxergar sua perfeição, afinal podemos escapar da prisão e continuar nela, como um pasarinho capaz de voar carregando a gaiola consigo.
eu vou continuar buscando pela condescendência do Buddha.
enquanto não a encontro, prefiro me manter empenhado em um dia compreender "sabbe sankhara dukkha".
e pedindo para que, por favor, me ajudem a corrigir meu possível erro.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

it's the end of the world as we know it (and i feel fine)

O "Propósito" da Vida


Num emprego abusado, a palavra 'desculpa' seria uma melhor opção, porque não há propósito algum que, em si, não pressuponha alguma forma de vida. Todos os chamados 'propósitos' impingidos à vida pelos seres não despertos para torná-la mais alegre são apenas meras "desculpas". O buddhismo enfrenta diretamente o vazio absoluto da vida quando a iguala a "Dukkha" - a verdade amarga (do sofrimento). Segundo sua análise, se pode-se falar do propósito da vida, este é nada menos que o esforço para levar à cessação da existência samsárica - o círculo vicioso. Esta sendo a única desculpa justificável.


e com este trecho cheguei ao fim da 1ª leitura do livreto "Towards Calm And Insight" do Venerável (Venerabilíssimo e cada vez mais essencial na minha prática espiritual) Bhante Katukurunde Ñanananda. 
muitas questões nascem de uma passagem tão "radical":
será possível para um não monge realmente ser buddhista?
que implicações, em termos de qualidade de vida, gera uma ideia como essa?
é possível viver a vida sendo sincero consigo mesmo e ao mesmo tempo concordar em absoluto com o autor?
onde tal pensamento irá me (nos?) levar?
...
and i feel fine...
e cada vez mais disposto e entusiasmado na busca de respostas para todas estas perguntas!!!

vai que alguém queira me processar, e a vida já é dukkha, por si só um processo, o título deste post é homônimo de uma música da banda americana r.e.m. 
eis o link para letra e som:
pode ter algo a ver... ou não... mas o título é muito bom!

abaixo o original do Venerável em inglês e o link para o livreto:

The 'Purpose' of Life

A misuse of the word 'Excuse' would be a better substitute, because there is no purpose that does not itself presuppose some form of life. All so-called 'purposes' foisted on life by the worldling to brighten it up, are but mere 'excuses'. Buddhism faces squarely the utter hollowness of life when it equates it with 'Dukkha'  -  the bitter truth (of suffering). According to its analysis,  if one can speak of the purpose of life,  it is none other than the endeavour to bring about the cessation of samsaric existence  -  the vicious circle. This is the only excuse that is justifiable.

terça-feira, 20 de março de 2012

sistema imunológico

"Bastou a um príncipe indiano ver um velho, um inválido e um morto para compreender tudo; nós que também os vemos não compreendemos nada, pois nada muda em nossa vida. Não podemos renunciar a coisa alguma; no entanto as evidências da vaidade estão ao nosso alcance. Doentes de esperança, esperamos sempre; e a vida não é mais do que a esperança hipostasiada."

diz emil cioran no ensaio imunidade contra a renúncia do livro breviário de decomposição, editora rocco.

em um diálogo onde surgiu o assunto nibbana, conversamos que este está além de toda comparação, compreensão, conceituação.
parece correto.
mas penso que é preciso ter o cuidado de observar que aceitar esta noção de o nibbana ser assim tão indizível de uma forma muito empolgada pode ser mais uma estratégia do nosso sistema imunológico anti-renúncia.
porquê nos falta, em princípio, um parâmetro para comparar, passamos, sutilmente, a relacionar a alegria da prática buddhista àquilo que unicamente conhecemos como alegria, que são as sensações próprias do nosso modo de existir: basicamente a satisfação de um desejo. é natural que comecemos a tentar, por mais que nos informem do contrário, encaixar o nibbana naquilo que é o problema a ser sanado por sua realização, e passamos a reforçar nosso natural instinto de afirmação da única forma de existência que conhecemos: aquela baseada no eu existo.
uma vez que do nibbana não se possa dizer que é existência nem não-existência, para qual lado nossos imuno-soldadinhos vão sorrateiramente pender?
as palavras entram pelos ouvidos e olhos e saem da boca mas no meio deste trajeto, entre a entrada e a saída, são contaminadas pelos anticorpos anti-renúncia.
há sempre uma reticência, há sempre uma tentativa de enxergar na vida, condicionada como ela é e, sendo condicionada, uma causa de insatisfação e decepção segundo o Buddha, um valor, um algo que nos justifique manter nosso ponto de vista inato de que não é dukkha. ou, se é, dukkha não é tão ruim assim, sussurramos para nós mesmos.
renúncia, em termos buddhistas, não é uma coisa fácil.
não é, certamente não é, uma coisa simples experimentar o sofrimento que existe na satisfação da fome ou que a verdadeira paz é fruto de não ter mais fome. abrir mão da fome, de taṇhā, não é coisa simples, talvez trabalho para uma vida ou mais, mas de forma alguma ajuda se permitir debater com aquilo que o Buddha disse tão claramente e que uma observação e contemplação sinceras, mesmo que a mente ainda seja desprovida de elevadas aquisições meditativas, é capaz de nos mostrar, nas minhas palavras: a vida é a manifestação de um problema que só o nibbana pode resolver.
existe alguma tristeza nesta última afirmação? 
a resposta mais precisa é a vida do próprio Buddha. 
após seu despertar, viveu por muitos anos em alegria e energicamente ensinando só isso, a insatisfação e seu fim. 
meu esforço como Seu seguidor não é outro além do de descobrir como ser verdadeiramente feliz enquanto resultante partícipe deste turbilhão de enganos. 
mas sem tentar mudar Suas palavras. sem sonhar com outra vida. sem me revoltar contra o óbvio.
sem piorar as coisas. 

terça-feira, 11 de outubro de 2011

eu acredito - 2

o diálogo foi mais ou menos assim:
como assim? você não crê em deus!?
não.
mas, e tudo a sua volta!? quem fez tudo isso??
é complicado... mas dá para dizer que foi ninguém.
ah, tá! tudo veio do nada...!
não é assim. eu disse que pode ser complicado...
tá bão, tá bão... mas você não tem medo da morte?
ainda tenho. mas mais de noite do que de dia...
haha. mas e daí? morreu, acabou?
pode ser complicado... mas dá para dizer que eu não sei.
não sabe? e você não se importa? não quer saber?
quero, claro que quero. mas prefiro não saber do que acreditar que sei.

E foi o que me trouxe a tentar escrever a continuação do título.
O "2".
Uma continuação do "1".
E a menção a um 'sentido' foi que me pôs a pensar.
A necessidade de um sentido para isso tudo aqui. Um propósito, um plano, como boa parte das religiões põe a acreditar. É um impulso muito forte este. E a minha compreensão do buddhadhamma, até aqui, me faz confiar intensamente no Buddha por que entendo que ele afirmou muito claramente que não há sentido algum! As coisas surgem e cessam muito veloz e ininterruptamente sem qualquer propósito a não ser surgir e cessar e ponto final.
Ou não.
Ponto final, não. Há dukkha. A dor de querer existir numa realidade que é puro movimento. E, talvez, a dor de buscar um sentido no que é pura manifestação. Dois quereres intrinsecamente atados.
E a mim, o Buddha diz que precisamos fazer as pazes com a falta. Cair. Nos manter conscientes da queda sem sentido que é como as coisas são.
Será que dá para vislumbrar um sentido nisso? O sentido da vida é o Despertar para a falta de sentido?
Não sei.
Mas sei que é preciso um Buddha, um Desperto que nos aponte a realidade e nos mostre como conhecê-la.  De outra forma o surgir é só surgir, o cessar é só cessar e não nos damos conta disso. Permanecer neste processo não dá qualquer sentido.
Duro de aceitar.
Dukkha de aceitar.
Aceitar pode não ser o sentido. Mas liberta.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

vídeo e mensagens



Após assistirem ao vídeo, dois amigos de dhamma trocam mensagens e chegam mais ou menos no que segue...

"onde estão as pessoas que faleceram? existem? estão bem? e as que
sofrem imenso e sem qualquer possibilidade de mudança? para que serve
todo esse sofrimento?"

"há respostas, e várias, para estas questões! um problema é que todas elas dependem de crença. nada mais nos é exigido a não ser que nos calemos e aceitemos a resposta dada.'
concordo com o que você assinala sobre o vazio que nos toma o coração, mas não que seja a análise do monge a sua causa. eu acho que o vazio se deve, num nível mais profundo, a nossa prória forma precária de experienciar a existência.'
o que o buddhismo nos propõe, me parece, é que enquanto abordarmos tais questões profundas com uma mente que opera enjaulada num nível tão superficial não há chance de sairmo-nos bem! e nos mantemos presas da crença, da frágil crença.'
o monge faz uma introdução (o buddhismo em 15 minutos!!!) brevíssima, mas espetacular, na minha opinião. um resumo de algo que precisamos compreender se quisermos caminhar na senda do Buddha. tal compreensão se dá em primeira mão, conhecermos a nós, nesta forma, é conhecermos o 'todo', o mundo. e este conhecimento estendemos ao outro. acho que só a partir daí começaremos a ter respostas satisfatórias para estas suas questões que não dependam de um calar-se e aceitar...'
grandíssimo abraço!"

A fonte do vídeo é o seguinte site:
http://an-news.blogspot.com/2010/12/psicologia-budista.html?utm_source=feedburner&utm_medium=feed&utm_campaign=Feed%3A+an-news+%28AN-News%29&utm_content=Google+International

quarta-feira, 30 de março de 2011

espiral

Como disse o Chico:

Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu...

A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega o destino prá lá ...

Verdade.
E eu comecei o dia assim.
Meio de saco-cheio de existir.
Saí a cumprir minhas obrigações samsaricas de sempre e alguma coisa diferente: quebrar um galho de um amigo procurando por uma revista que ele não conseguia achar... Achei!
E um outro havia perdido todos os seus documentos na minha cidade dia desses  (madrugada dessas, precisamente falando...) e eu havia prometido ajudá-lo na tentativa de recuperar, já que ele não mora aqui. Me lembrei da promessa.
Resolvi, então, dar uma passada nos Correios, para onde já havíamos telefonado uns dias antes para saber dos documentos sem sucesso, mais por desencargo de consciência por ter prometido e me empenhado aquém do que deveria, e ver se os documentos apareceram por lá... E não é que lá estavam! Quem quer que os tenha encontrado devolveu até que bem arrumados! Logo telefonei para o moleque e deixei ele feliz! Mas o interessante (ou não muito, mais...) é que aquela nuvenzinha preta que sombreava minha calva permitiu a passagem de uns raios de sol bem luminozinhos. Fazer o bem me fez bem, nenhuma novidade nisso. O cara estava bastante chateado, havia perdido todos os documentos, aquela mão de obra para tirar tudo de novo! E eu, muito felizmente, pude começar o dia dele com uma boa notícia! E dar continuidade ao meu condicionando uma melhora de humor considerável. E como a vida, me esforço nisso sempre, é o Buddhadhamma, logo me pus atento ao fato, já observado por aqui em algum post, de eu ser, meramente, este complexo de condições que se movimenta e pensa e age carregando a ilusão de um eu! Surge uma nova condição, cessa outra, e é o que basta para que a ilusão ganhe nova aparência: o eu de saco cheio vira o eu alegrinho e vice-versa! A vida em seus loucos encantos, para ser breve.
E a prática do dhamma, me parece, segue como uma caminhada numa espiral em cujo centro se encontra o Despertar. É para lá que precisamos manter a cabeça voltada enquanto caminhamos... Se assim fazemos, nos mantemos atentos aos marcos que estão no caminho para o centro, e várias vezes os discernimos... Parece que vamos revendo-os a cada vez mais de perto... Não é como viver uma mera repetição de situações, como no caso da roda viva! Ou como caminhar pela espiral do Buddhadhamma com a cabeça voltada para o lado de fora, desatentos ou desinteressados de saber para onde vamos ou o que estamos fazendo. E, até, saltando para um braço mais externo da espiral vez ou outra...
Fazer o bem é bom para quem faz.
O Buddha nos ensina a ir além e transformar o bem alcançado em algo superior: estar bem é uma condição muito preciosa para ser desperdiçada no mero desfrute. Quase tão ruim quanto começar o dia ouvindo e cantando Roda Viva.

***

Eis que anatta é atualização do "Uma Palavra Por Dia - A Pali Word A Day"

sexta-feira, 12 de março de 2010

desculpas

Ah, mas Jesus era O FILHO DE DEUS!!!
Esta frase eu já ouvi algumas vezes. Algumas, de minha mãe, uma fervorosa cristã.
Ela serve para justificar nossos erros, nossas incapacidades. Principalmente quando somos confrontados com aquilo que, supostamente, deveríamos fazer. Ou não fazer. Serve para nos colocar em nosso lugar. Delimita a fronteira e nos tranquiliza: "Tudo bem, eu sou só humano! Piso na bola..."
O Buddha nunca se proclamou nada mais que humano. Um humano Desperto, apenas. Mas, ainda assim, damos um jeito de fazer um raciocínio semelhante.
Falar no Despertar, em nibbana, em atingir a meta final do Caminho pode causar certo constrangimento, às vezes, para quem fala. Existe a idéia de Eles, os Iluminados. "Eles acumularam méritos por incontáveis eras incomensuráveis!"
E nos deleitamos em nossa mediocridade. "Sou um reles laico, oras bolas!!"
Não questiono o fato do acúmulo de méritos.
Mas questiono a postura de nos escondermos atrás de uma idéia para justificar a preguiça, a auto-indulgência, o medo.
O Caminho foi exposto pelo sammasambuddha. Existe para ser trilhado. Há uma meta. Um início e um fim. Honrar o Buddha envolve reconhecer nossa plena capacidade de alcançar a meta final. Não for para isso, para que o Caminho? 
Se achamos que não dá, tudo bem! Mas sem desculpas!

sábado, 23 de janeiro de 2010

ānāpānasati


inspirando. expirando. inspirando. expirando.
a vida, enquanto isso.
desatento ao tudo que a respiração revela
a vida passa...

"tudo é impermanente! sinta!" é o que, insistente, ela nos fala
inspirando, expirando... "não percebe que se esvai?"
inspirando, expirando... "o que resta nas tuas mãos de sêde sem fim?"
o veloz movimento, o seguir dos fenômenos,
serenamente me ensina, a pacífica respiração
inspirando, expirando...
segue

"impossível de reter!"
tão clara esta segunda mensagem!
o mundo, e eu em volta dele

revolve em seu ritmo o mundo, caudaloso turbilhão de aparências,
corredeira irrepresável de causas e condições
com total descaso arrasta o displicente
inspirando, expirando
se tranquila, a mente não afunda
nem a leva a correnteza
se atenta inspira e expira
acomoda-se, em paz, na sábia e poderosa rendição
se desperta, aprende, a não sonhar, acordada, o sonhador

se despertando inspira e expira
vê que a morte leva tudo que teima em resistir
se despertando inspira e expira
vê que no fim é onde amarga a ânsia de um princípio
e a dor é o que sobra da posse do prazer
se contente inspira e expira
permanece suave e satisfeita
no conhecimento pleno da insatisfação
do inspirar expirar sem fim
do universo que o corpo abarca

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Criança

Adulto: "Bom dia! Dormiu bem?"
Criança: "Ãhã! Tive uns sonhos muito malucos! Umas maluquices! De sonho, sabe?"
A: "Ãhã! Mas foi pesadelo, ou não?"
C: "Não. Só maluquices mesmo!"
A: "Então tá bom. Ruim é quando a gente tem pesadelo e não consegue acordar!"
C: "É. Mas eu consigo acordar quando eu quero..."
A: "Ah, é!? E como é que você faz?"
C: "Eu pulo que nem um sapo, daí eu acordo!"
A: "Como assim!? No sonho?..."
C: "Claro, né!? Se eu tô tendo um pesadelo, eu abaixo e pulo que nem um sapo. Daí eu acordo! Mas tem vezes que eu não lembro..."
A: "E como você inventou isso?"
C: "Não sei!... Eu fiz uma vez e pronto..."
A: "Mas você sabe que está sonhando!?"
C: "É. Às vezes. É... Muitas vezes!"
A: "Que legal!! Tenta voar! Uma vez eu soube que estava sonhando e tentei voar. Não deu muito certo... Eu tentava e tentava mas só conseguia uns pulões assim..."
C: "É assim mesmo! Quanto mais força você faz, mais difícil fica!!"
A: " :D "

quinta-feira, 26 de março de 2009

Um Despertar


Um dia, a excitação que o presente sempre causa, o deleite das guloseimas, a alegria e o entusiasmo não são mais suficientes para encobrir aquela incômoda sensação que já vinha comichando na cabeça há algum tempo... E as perguntas começam a embaraçar os pais, avós, tios e mais velhos em geral.
E por mais divertido que seja ficar na madrugada fazendo pegadinhas de coelho pela casa ou escondendo ovos e presentes, ver uma criança descobrindo a verdade supera em muito aquela diversão! As expressões de "mas...!", "ué...?!", "aah...!", são maravilhas de se ver!
Dizem que as fantasias são saudáveis e tem um papel na formação do indivíduo e tal... E eu aceito o conselho dos profissionais sem problema. Mas cumprido o papel, ver os pequenos felizes da vida por descobrirem a verdade (não sei se todos ficam felizes...) é uma experiência na qual todo buddhista que tenha tal oportunidade não deveria deixar de participar!
Como observador e aluno!

Speech by ReadSpeaker