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sábado, 7 de fevereiro de 2015

pazes

a história é aquela: o herói sai em busca do que ignora carregar no bolso por toda a jornada cheia de aventuras.
voltando ao ponto de partida, alguma coisa o faz olhar dentro do bolso.
a biografia do Buddha conta que num momento crucial de sua busca Ele se lembra de um dia em que, ainda infante, experimentou algo oriundo de um momento de quietude interior no quintal de seu palácio, na companhia de seu pai. e resolveu seguir aquela pista. 
deu no que deu.
esses toques parecem dizer que, em tese, é possível despertar até assistindo ao big brother. 
talvez fosse mais fácil se tomássemos o caminho mais difícil de dedicação integral ao cultivo da mente, à reformatação da percepção e concepção do mundo. mas como a vida não é nossa, e aceitar isso parece ser já uma gota de sabedoria, a melhor opção é fazer as pazes com nossa própria jornada.
lavar louça, varrer a casa, limpar o banheiro pode ser uma viagem.
acordar bem cedo para trabalhar. trabalhar à noite... quanta coisa acontece, quanto material vazio, impermanente, difícil de suportar surge por todos os lados!
a vassoura quase esmaga uma aranhinha que sai em atabalhoada fuga. o varredor pode bem parar um momento e questionar-se em que ponto a sua limpeza vale mais que a vida da aranha... respirar, aquietar e varrer a mente. um pouquinho.
e de pouquinho em pouquinho vai-se tomando o caminho de dedicação integral ao cultivo da mente. quem sabe quando o mais difícil deixará de ser?


quarta-feira, 26 de março de 2014

"Ai, meu deus!! Lá vou eu criar outra regra!!!"

Quem passa por aqui percebe que eu tenho um problema com autoridade. Se não percebe eu afirmo: tenho. 
Muito cedo, como digo em textos atrás, por volta dos dez, onze, comecei a notar a falta de sentido de deus, autoridade mor, simbólica de outras com as quais já me indispunha, mas reais e difícil de peitar.
Na minha lembrança, da que dizem ser caraterístico o falsear coisas, me incomodava tanta empáfia e onipotência para nenhuma presença, nenhum sinal, nadica de nada. É como lembro, podendo até ser isso mesmo.
Aí, já menos criança, surgiu o Buddha na minha vida. Um ser humano comum, embora não tão comum, então, mas aceitável. Um tanto divinizado pelas fontes que mo apresentavam, resultante de vir sendo moldado pelas necessidades humanas ao longo do tempo e do espaço, penso eu, mas ao menos não criara o universo! O que passou a ser minha via foi a busca pelo homem que despertou, e fui por ali, sempre atraído pelo Buddha que morreu com diarreia. Àquele outro, todo iluminado, deixando por onde encontrava.
E o Buddha histórico, com quanto mais dele me encontro, mais é fascinante e inspirador como nenhum ser divino consegue ser!
Estou terminando o livro What The Buddha Thought do acadêmico Richard Gombrich. Numa primeira leitura fica muito que só outras tornarão claro, mas neste final de livro, o capítulo sobre a construção do vinaya é especialmente agradável. Devo dizer que o livro me conquista logo no início ao descrever o Buddha como transformador da ironia em instrumento do despertar, claro que isso soa lindo para mim! O autor sustenta suas afirmações abordando o Buddha e seus sermões como resultados do seu ambiente sociocultural. Os ensinamentos, o pensamento do Buddha, conforme a proposta do livro, são esclarecidos como algo produzido sob um contexto e, contrariando o que uma consideração ligeira desta abordagem possa sugerir, de plena originalidade. E dirigindo às pessoas comuns de sua época, é um Buddha astuto, bem humorado, contestador e de ácida habilidade verbal.
Como eu dizia, do vinaya, o código de ética buddhista para a ordem monástica, é iluminador saber que o Buddha o foi construindo com base na tentativa e erro, nas palavras do autor. O Buddha ia elaborando as regras na medida em que seus discípulos iam fazendo cagad... cometendo deslizes que implicavam em problemas, conflitos internos ou má reputação perante as comunidades. Muito interessante que o Buddha, inclusive, não hesitava em voltar atrás em alguma regra dependendo do que fosse necessário. Num dos exemplos narrados no livro: em dada situação que virara problema, o Buddha proibiu que bikkhus instrutores tivessem sob sua guarda mais de um noviço. Num outro momento ele admite que para bikkhus competentes tal regra não valia. É ou não um mestre sem igual, este Buddha? Não é o tipo de mestre cujo argumento mais forte é o manto que usa ou a luz que emite, aquela mesma que só seres especiais podem ver... e acaba invariavelmente causando mais problema que solução.
Esse Buddha que vai pela minha cabeça, eu o vejo, diante de um imbróglio ou outro causado por alunos demasiadamente humanos, menear a cabeça, arquear sobrancelhas, coçar a testa e sussurrar levemente desencantado: "Ai meu deus! Lá vou eu criar outra regra!!!"
Apreciar o Buddha humano requer estudo, não creio que muito mais que isso. O Buddha divino requer outras qualidades, para mim mais difíceis de cultivar.
A virtude da fé é das minhas faltas mais evidentes. Mas quando alguém me convence por meio de exemplo, de coerência na conduta, ganha minha religiosa confiança, minha atenção e meu interesse crescentes. E o que me chega da vida e pensamento do homem que nasceu, despertou, ensinou e morreu aqui nesta terra impura me deixa cada vez mais carola.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

esses humanos

minha mãe é uma cristã fervorosa e nossos bate-papos vez ou outra giram em torno de religião. ficamos sempre por ali, nas semelhanças que conseguimos enxergar nos nossos caminhos. foi na minha última visita que ela fez uma citação dos evangelhos que muito me agradou. parece que ela sabe o que me agrada. disse ela que jesus certa vez desabafou: "até quando vos suportarei?!" se dirigindo a alguém que pedia mais um milagre. eu não tenho bíblia, mas fiz uma pesquisa e me pareceu um trecho muito interessante que vale ler e refletir. mais uma que passo a gostar além daquela clássica em que ele desce o sarrafo nos vendilhões e algumas dos apócrifos.
acho muito salutares estas passagens mais humanas dos mestres. são antídotos importantes contra a nossa tendência à divinização, além de motivadores à reflexão no nosso real campo de trabalho: a vida nossa de cada dia. nos ajuda a ir removendo a casca de mediocridade que a encobre.
e é divertido, tanto quanto pedagógico, visualisar os mestres olhando o balde a meditar: o balde é vazio... o chute é vazio... a vontade é vazia...
um momento desses, em que, segundo o +Bhante Katukurunde Ñanananda, o Buddha confidencia certo desânimo ao venerável Sāriputta, eu traduzi aqui. há também a conhecida passagem em que Ele hesita, logo após o Despertar, se ensina ou não o Dhamma que realizou. aliás, a vida do Buddha é um relato tremendamente humano embora, prova de força de nossas tendências, Ele não tenha escapado do endeusamento através do tempo e espaço.
um indicativo de que insistimos em procurar a 'salvação' no lugar errado?
é neste corpo e mente com suas precariedades que está o início e o fim do mundo, o início e o fim do sofrimento. está lá, disponível como nunca antes para todos nós, nas palavras daquele mestre insuperável de humanos e deuses que morreu com problemas abdominais e diarreia para nunca mais renascer.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

qual é a diferença?

volto constantemente à vida do Buddha. nem sempre literalmente, de pegar e ler tudo de novo (dois livros que me são especiais: velho caminho, nuvens brancas seguindo as pegadas do buda, de thich nhat hanh e buda de karen armstrong, volto mais em lembranças de passagens.
estudando o dhamma, seja ouvindo, seja lendo, um ensinamento ou outro acaba trazendo reminiscências da biografia do Tathāgata e complementando ou aprofundando o entendimento do que estudo. 
a vida do Buddha educa.
o Buddha tem se tornado cada vez mais humano. vai ficando próximo, vai virando um conhecido. mais além de um amigo que existiu e é representado hoje no altar. e passo a pensar nele vivendo por aqui, hoje, no meio de tanta poeira. no meio de tantos empoeirados. entre nós.
tenho refletido nas diferenças que manifestamos. 
há momentos em que estamos mais voltados para o caminho, e portanto mais próximos do Buddha e outros opostos. vemos alguém sofrendo, vemos algum sofrimento, e pensamos 'coitado, como sofre, como sou feliz por não ser ele' ou então 'eis o sofrimento que nos ata e dói a todos'. alguém morre e 'coitado...' ou 'sou eu logo mais'. alguém feliz! 'que sorte a dele! quando chegará a minha vez...?' ou 'que sorte a dele. que tire o melhor proveito...' 
o Buddha viu, fundamentalmente, feliz ou infelizmente, as mesmas coisas que nós vemos hoje e estas mesmas o levaram a se tornar quem foi. estaremos nós atentos a esta diferença? me parece que a resposta que damos ao que nos surge a todo instante tem o poder de nos aproximar do Buddha tanto quanto os mantras, as meditadas, as recitações, as verborragias. precisamos definir para nós as respostas e escolher quais iremos dar.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

vários dedos, diversas luas


"We happened to mention earlier that the term Tathāgata was already  current among ascetics of other sects. But it is not in the same sense that  the Buddha used this term. For those of other sects, the term Tathāgata  carried with  it  the prejudice of a soul or a self, even  if  it purported  to  represent  the  ideal of emancipation."

"Mencionamos anteriormente que o termo Tathāgata já era usado entre ascetas de outras seitas. Mas não no mesmo sentido em que o Buddha usava o termo. Para os de outras seitas, o termo Tathāgata carregava o preconceito de uma alma ou um ego, mesmo que com o significado de representar o ideal da emancipação." 

é o que diz o venerável bhante ñanananda no 21º sermão da série "nibbana - the mind stilled".
este trecho me fez refletir em que apesar de todos falarmos em tolerância, respeito à diversidade e pontos de vista, vira e mexe ainda fazemos força para igualar coisas demais e, a meu ver, de forma absolutamente desnecessária.
há muito gosto, por exemplo, pela famosa metáfora do dedo que aponta a lua. esta imagem é sempre usada quando queremos dizer que todos os caminhos levam a um só fim, que todos os grandes mestres falaram da mesma coisa, chegaremos todos ao mesmo objetivo, então, vamos dar as mãos. 
mas será que precisamos desta ideia para darmos as mãos? 
acho que não.
quando usamos a imagem desta forma, a lua é o grande mistério, aquilo que está além do além, o indizível. os dedos são as tentativas de nos direcionar para a grande incógnita. 
eu penso um pouco e chego à conclusão de que falar sobre tal conceito é falar sobre nada ou, pior, sobre qualquer coisa. e o Buddha, que nos últimos anos é, dos grandes, Aquele para o qual tenho me voltado completamente, desde que decidiu-Se por falar sobre o mistério que descobriu por Si mesmo, decisão descrita como difícil no cânone antigo, note-se bem, falou bastante, explicou, instruiu, definiu e estabeleceu a verdade que realizou da melhor forma que pode, assim como diversos dos Seus seguidores tempo afora, incluso os dias de hoje, conforme atestam o trecho que citei e muitos outros que estão indicados por este blog.
não sei como (na verdade até sei um pouco mas não o suficiente para afirmar que sei) é com os outros, mas acredito que todos os grandes definiram bem aquilo que os seus dedos apontaram. e, no limite do meu conhecimento, vejo diferentes luas.
certa vez disse isso mesmo numa lista de discussão quando surgiu a metáfora com aparente intenção ecumênica. afirmei que me parecia haver diferentes luas e não me lembro de ter havido continuidade na conversa. talvez porque eu ainda tenha muito o que evoluir ou porque as pessoas tomem isso como uma atitude antipática, radical, exclusivista e por aí... nada mais oposto à verdade (exceto a questão da evolução) no que diz respeito a mim. 
eu sinto desconforto é justamente quando vejo, por exemplo, buddhistas dialogando sobre deus com algum teísta porque, quando é alguém que se balize pelo cânone buddhista, é inevitável que a coisa, o conceito deus, vá sendo torcido, torcido, torcido até que não sobre nada do pobre criador, princípio de tudo, pai de todos, a despeito de todo respeito e sincero desejo ecumênico do buddhista em questão. e os envolvidos no tal diálogo acabam se protegendo e se aconchegando no grande mistério, ou nada, ou qualquer coisa.
acho que não precisamos disso.
porque já temos o suficiente de pontos em comum: todos queremos o bom para nós. 
claro, simples e ponto. 
e para isso há a regra de ouro escrita por todos os dedos de bom senso: aja com os outros como quer que ajam contigo. simples. nada mais a dizer.
mas ainda podemos conversar sobre as luas e os mistérios. 
mas me parece uma atitude muito mais sábia, compassiva, e sinceramente ecumênica eu continuar amando a quem tem plena convicção de que meu destino final é o quinto dos infernos ou algo que o valha. e da mesma forma eu continuar a ser amado por ele mesmo que eu afirme, sem medo, que não há a menor possibilidade de eu aceitar qualquer concepção de deus que tenha sido pensada até hoje. nós precisamos nos amar sem tentativas sempre vãs de nos equalizar desprezando o que realmente tem valor: que o efeito, tanto da minha busca pelo fim do mundo quanto a de uma busca pela vida eterna, por exemplo, seja uma existência cada vez menos ruim, aqui e agora, para mim, para você e para quem não tem qualquer interesse pelo que acabei de escrever.
se o grande mistério for realmente o mesmo, se no final nos encontrarmos numa mesma lua, façamos lá uma grande festa, oras bolas!

***

lembrei de uma passagem daquele que considero um de meus professores adjuntos de dhamma, o josé saramago. no livro "o evangelho segundo jesus cristo" ocorre, em certa altura, de estarem jesus e o diabo num barco, em mar aberto, e deus no céu. os três entretendo um colóquio meio profundo quando, num dado momento, uma poderosa voz manifesta-se acima deles. 
os três tremem.
mas, afinal, dão de ombros e a estória segue.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Felicidade = Facilidade

O Buddha, antes de ser o Buddha, era um príncipe de um poderoso clã hindu. Como tal, prazeres sensuais eram uma constante em sua vida. E também acesso a atendimento médico da melhor qualidade, boa e farta comida, cultura, enfim, uma vida de príncipe. E o que ele fez foi deixar tudo isso para trás e sair pelo mundo pedindo esmola.
E meditando e estudando, é claro, em busca de algo que fosse satisfatório, que fosse final, que fosse a paz.
A visão da insatisfatoriedade dos objetos dos sentidos não é uma coisa simples e fácil de se conquistar, mas isso não significa que podemos, como buddhistas, abdicar dela. Uma parte significativa desta busca é reconhecer o papel da 'felicidade' em nossas vidas de buddhistas.
Boa parte daquilo que entendemos como felicidade é o acesso que temos aos bens materiais. Prazeres sensuais, acesso a bons médicos, boa e farta comida, cultura, enfim, uma vida... como todo ser humano deveria ter. E qual é o papel desta 'felicidade'? Penso que boas condições devem ser vistas como fatores que facilitam a busca pela transcendência e só. É mais fácil meditar sem fome e com o corpo são. O próprio Buddha veio a constatar após um período de ascetismo extremo!
Por mais triste e revoltante que seja, a realidade é que uma vida de encanto e deleite com a felicidade mundana, isso para não falar em uma busca sedenta por ela, é incompatível e inconciliável com o ideal buddhista. Uma vida feliz, nos moldes em que prega o mundo, se não for vista como apenas uma facilidade com a qual podemos contar para trilhar o caminho, torna-se um forte empecilho.
Eu acho.
Nenhum de nós precisa sair por aí pedindo esmola de uma hora para outra, mas devemos tirar um ensinamento do exemplo extremo do Buddha. Um claro, óbvio e inquestionável ensinamento sobre o papel da 'felicidade' em nossas vidas.

Speech by ReadSpeaker