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domingo, 22 de julho de 2012

23.4

muito antes de buddhista eu já era ateu.
encontrei bem cedo razões para não crer em um criador, princípio de tudo, pai de todos, todo bondade e outros atributos consensuais nas tradições teístas. e no buddhismo aprofundei e confirmei minhas razões.
vez ou outra me dizem que não há ateus num avião caindo. eu penso que a falha de quem diz é esperar estar num avião para tomar consciência da queda. eu busco esta consciência todo o tempo e com isso torno-me ciente também da necessidade de proteção.
é grande.
pensei nisso por uns dias por conta de conversas com bons amigos evangélicos. nestas conversas às vezes surge certa comoção e tristeza pela minha eventual condenação no dia do juízo.
infelizmente não há o que eu possa fazer.
até lá, vamos nos ouvindo. 
o que inspirou este texto foi uma instrução que recebi para manter a bíblia, eu preciso adquiri-la primeiro, aberta no salmo 23 e comprovar a proteção que vou obter.
o salmo é bem conhecido, na verdade. ouvia de minha mãe. 
está assim na rede a parte que me foi recomendada:

"ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal nenhum, porque tu estás comigo: a tua vara e o teu cajado me consolam."

uma poderosa afirmação de proteção.
como eu disse, muito cedo eu manifestei meu ateísmo, lá pelos 10, 11 anos. um protoateísmo na verdade é a palavra que preciso inventar.
o curioso é que não criei aversão por religião ou religiosidade. embora as primeiras aulas de darwin tenham me arrebatado, eu continuei capaz de orar ainda que com a sensação de estar falando sozinho.
até hoje me pego falando sozinho e às vezes sinto como se estivesse orando...
talvez isso ajude a explicar o fato de eu manter bons relacionamentos com religiosos em geral e de estes serem, quase sempre, meus bate-papos preferidos. estes bate-papos muitas vezes abrem janelas pelas quais olho para dentro e para fora do mundo... fico matutando sobre o que ouço e que significado aquilo pode ter para mim...
e desse jeito mantive o salmo na cabeça procurando pela minha própria proteção. porque eu não posso ficar desprotegido. eu estou sempre no vale, é onde eu vivo, sempre sob a sombra da morte.
o vale é povoado de egos insurgentes e conflituosos, sempre nascendo e morrendo e até se matando uns aos outros, sempre... e eu atento, sob a sombra da morte tentando não nascer...
tentando aceitar o mal inevitável e compreender o que posso evitar, tomo a vara e o cajado para mim. a vara me alerta para a dor que vem de me acomodar no descuido e no deleite nascendo sob a sombra.
a vara me lembra que a sombra é da morte.
o cajado me ajuda a descobrir a terra fofa e movediça da preguiça, as pedras das opiniões inamovíveis, os buracos do egotismo, os espinhos da fala imprópria.
é o cajado que mais uso pois o que mais faço é caminhar.
e caminhando pelo vale vou descobrindo o que os bons amigos me querem dizer, ou talvez lhes mostrando o que ouço quando falam.
tomara que importe tanto para eles quanto é importante para mim.



sexta-feira, 15 de outubro de 2010

(o que dá para fazer)

De vez em quando alguém pergunta se nosso destino como praticantes laicos não seria só fazer o melhor possível para que numa próxima vida nasçamos como monges e, aí sim, podermos praticar e chegar lá! Lá no nibbana!
Pois eu poderia citar alguns trechos dos suttas em pali em que laicos chegaram lá! Mas aí poderiam dizer que são casos muito especiais de pessoas que tiveram vidas anteriores extraordinárias e tal e eu não poderia discutir porque me falta um monte de coisa. Dentre elas, competência. Mas digo sem medo que esse negócio de justificar aquilo com base em vidas anteriores é uma questão de fé e que, sendo assim, é possível ter fé na 'extraordinariedade' da vida anterior de qualquer um! Na minha, inclusive!! 
Pois bem, deixando de lado questões de fé, posso falar do que dá para fazer como laico:
- É possível ter consigo textos e mais textos de dhamma sempre que houver aquele tempinho entre uma inutilidade samsarica e outra. Se não em livros, há aparelhos diversos, com preços diversos que possibilitam carregar textos diversos, de suttas a tratados, em volume que qualquer ser humano leva tempo para ler (e mais tempo ainda para estudar!) além da conta. E que ajudam a ver o dhamma onde e quando parece não haver dhamma.
- É possível carregar, nos mesmos aparelhinhos, sons do dhamma: palestras, cânticos, aulas, e vídeos, para aqueles momentos em que a leitura cansar.
- É possível (talvez menos para alguns, preciso reconhecer) ir a um lugar isolado e silencioso (como o Buddha recomenda nos anapanasati e satipatthana suttas)  periodicamente e cultivar a mente/coração.
- É possível (com grau de esforço maior para alguns, mas sempre decrescente na medida em que se treina) manter a disciplina dos Cinco Preceitos, e até de maior número deles, por períodos consideráveis de tempo. Cada vez maiores na medida em que se treina.
- É possível entrar em retiro com relativa periodicidade e facilidade. Desde que se aceite que o lugar de retiro não precisa ser SEMPRE aquele templo ou centro que fica lá longe e custa caro e falta tempo e minha família resmunga prá caramba... O lugar de retiro, essencialmente, é aquele em que a gente se encara e com absoluta franqueza sabe que está fazendo o melhor para honrar o nome que gosta de se dar de "discípulo do Senhor Buddha".
- É possível ser atento e lembrar do dhamma naqueles momentos em que parece que o dhamma é outra coisa que não o aqui e agora (os BONS textos são extrementes eficazes em ajudar nisso!)
- É possível ter contato com professores de dhamma. Bom, pelo menos para quem estiver lendo este blog, o que significa que tem algum acesso à rede.
- É possível fazer alguma coisa pelo dhamma do Buddha dialogando, perguntando, incentivando, doando (não nece$$ariamente) tempo ou dom (traduções de textos são uma demanda constante!), participando e assim, quem sabe, acumular aquilo que muitos gostam de acumular que são os méritos kammicos!
- É possível ser uma pessoa boa.
-É possível, e imprescindível para a saúde psíquica (e a saúde psíquica é imprescindível para a boa prática do dhamma), ser corajosamente sincero consigo próprio.

Se eu lembrar coloco mais coisas. E sugestões são muitíssimo bem vindas!
Mas posso garantir, pois ouvi de fonte que eu respeito e não só eu, que muito monge não faz um tanto do que escrevi acima! 
E aí, se você for um dos que pensa que a vida atual de laico é, na melhor das hipóteses, passagem para uma futura de monge, e quer continuar acreditando nisso, tudo bem. Se não, tente praticar o que eu escrevi (ou alguma coisa, ao menos ou a mais) junto comigo, e se a sua vida não ganhar uma dimensão de qualidade que o satisfaça e que o encha de entusiasmo e convicção na possibilidade da paz efetiva aqui e agora, pode ser que deva partir para outra com as minhas bençãos (que não valem absolutamente nada mesmo!).

domingo, 8 de agosto de 2010

presente


"...aí, o tio da van (perua escolar), pai, falou que tem umas bebidas que são docinhas..."
"Mas esse Tio Zé, hein meu?!"
"Mas eu disse prá ele que eu nunca vou beber, pai!!"
"É, filho, tem muita água pela frente ainda! Vamos ver, né?"
"...A Aninha disse que o pai dela bebe..."
"É, filho, não é o fim do mundo... Cê sabe, né? O Vô, por exemplo, toma lá as cervejinhas dele... Não é porque o pai não bebe que você deve achar que quem bebe é bandido, viu filho?! Beber é um costume, até certo ponto, normal na nossa sociedade. O exagero e a irresponsabilidade é que são problemas..."
"Tipo beber e dirigir, né pai?"
"Isso! Isso mesmo! Você sabe por que o pai não bebe?"
"Hmmm... Cê não gosta...?"'
"É, nunca achei muito gostoso não... Mas o motivo mesmo é outro. O lance é o seguinte: você sabe que o pai medita, né? E para que o pai medita?"
"Para ficar mais calmo...?"
"He, he... E para ficar mais lúcido, sabe? Ver as coisas com mais clareza na mente... Ter uma visão mais clara do mundo... E o que a bebida faz?"
"Deixa bêbado!"
"E um bêbado não vê as coisas com muita clareza, né?"
"He, he..."
"Então, como que eu vou fazer uma coisa e mais outra que é o oposto daquela?"
"Que nem fazer um muro num dia e derrubar no outro..."
"Isso! Isso mesmo! Entendeu, né?"
"Entendi... Sabe pai, por isso que eu gosto de conversar com você! Você explica bem as coisas... Fala de uma coisa aí põe outra no meio que explica a outra coisa... Fica melhor de entender!"
"Que bom, filho! Eu também gosto muito de conversar com você! O pai gosta de explicar porque gosta de entender. A gente precisa ser assim: aprofundar-se nas coisas, esclarecer... Quem fica na superfície é bolha."
"He, he, he... É pai! É isso mesmo!"


Desafio a um eventual pai que ler este texto a dizer que ganhou presente melhor!!

segunda-feira, 19 de julho de 2010

ainda sobre o s

Às vezes alguém comenta que embora medite já a algum tempo, ainda é vítima de estados mentais venenosos, tais como raiva, aversão, anseio, etc.
Quando a pessoa diz "eu medito", ela geralmente quer dizer "eu sento e pratico a técnica".
Isso remete àquele imbróglio aludido no s do samadhi
A técnica do sentar é só um terço do Caminho, o cultivo da mente/coração ensinado pelo Buddha.
O ensinamento do Buddha conduz a um coração cada vez mais liberto de estados mentais venenosos, mas para isso é preciso que todo ele seja trilhado. É um mal-entendimento que nos leva a pensar que a técnica do sentar é um ritual mágico capaz de resolver todos os problemas para nós.
Se não nos mantemos ardentes na prática após nos levantarmos da meditação, não estamos praticando o que o Buddha ensinou. A mente que sai da meditação precisa manter as experiências e percepções o melhor que puder. Disciplina ética e o exercício de reflexão sábia (yoniso-manasikara), a reflexão que tem por parâmetro aquilo que apreendemos intelectualmente pelo estudo do buddhadhamma ou dos insights que obtemos, alimentam a chama ardente que transforma a mente. Um esforço consciente e consistente é necessário o tempo todo para que a meditação, o sentar e praticar a técnica de tranquilização e enfoque da mente, surta o efeito.
E uma coisa alimenta a outra.
No ciclo do samsara não há um começo discernível. Mas há pontos de oportunidade por todo ele. Precisamos atacar todos estes pontos se quisermos cessar este ciclo. Eu acho que foi isso o que o Buddha ensinou.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

mentira, mentira, mentira

Desde que comecei a ler este texto do bikkhu Bodhi, ponderá-lo e mantê-lo como referência em comparações e estudos, minha compreensão sobre os preceitos buddhistas, sobre sila, vem se transformando, ganhando clareza e fortificando minha convicção no Caminho.
E, especialmente o trecho em que ele disserta sobre o abster-se de mentir, abster-se do uso da comunicação como recurso para o engano, me gerou uma percepção que,  talvez de tão  aparentemente simples depois de surgida, me enche de uma energética alegria a cada vez que o contemplo:

It is said that in the course of his long training for enlightenment over many lives, a bodhisatta can break all the moral precepts except the pledge to speak the truth. The reason for this is very profound, and reveals that the commitment to truth has a significance transcending the domain of ethics and even mental purification, taking us to the domains of knowledge and being. Truthful speech provides, in the sphere of interpersonal communication, a parallel to wisdom in the sphere of private understanding. The two are respectively the outward and inward modalities of the same commitment to what is real. Wisdom consists in the realization of truth, and truth (sacca) is not just a verbal proposition but the nature of things as they are. To realize truth our whole being has to be brought into accord with actuality, with things as they are, which requires that in communications with others we respect things as they are by speaking the truth. Truthful speech establishes a correspondence between our own inner being and the real nature of phenomena, allowing wisdom to rise up and fathom their real nature. Thus, much more than an ethical principle, devotion to truthful speech is a matter of taking our stand on reality rather than illusion, on the truth grasped by wisdom rather than the fantasies woven by desire.

Traduzindo pode ficar assim:

É dito que no curso de sua prática rumo ao despertar ao longo de muitas vidas, um Boddhisatta pode quebrar todos os preceitos morais exceto o compromisso de falar a verdade. A razão para isso é muito profunda e revela que o compromisso com a verdade tem um significado que transcende o domínio da ética e até mesmo da purificação da mente, levando-nos ao domínio do conhecimento e da existência. A fala verdadeira provê, na esfera da comunicação interpessoal, um paralelo com a sabedoria na esfera da compreensão individual. As duas são, respectivamente, as modalidades externa e interna do mesmo compromisso com o que é real. Sabedoria consiste na realização da verdade, e por verdade (sacca) não se entende apenas uma afirmação verbal, mas sim a natureza das coisas como elas realmente são. Para realizar a verdade, nosso ser inteiro deve ser conduzido em conformidade com a realidade, com as coisas como elas são, o que requer que, na comunicação com os outros, nós respeitemos as coisas como elas são, falando a verdade. A fala verdadeira estabelece uma correspondência entre o nosso ser interno e a real natureza dos fenômenos, permitindo que a sabedoria desperte e investigue a sua real natureza. Assim, muito mais que um princípio ético, a devoção para com a fala verdadeira é uma questão de tomar posição em favor da realidade ao invés da ilusão, da verdade apreendida pela sabedoria ao invés das fantasias tecidas pelo desejo. 

E observando o mundo comprovo a onipresença da mentira.
Como gostamos de estórias.
Gostamos de todos os tipos de mentiras: desde aquelas inofensivas, contadas por aquele mentiroso compulsivo que há em quase todo grupo de amigos, aquela pessoa que sempre tem um fato engraçado, pitoresco ou interessante para contar de uma vez que aconteceu com ela, até as dos terríveis mentirosos que nos prometem tanto tantas vezes. Que aparecem a cada ciclo eleitoral com soluções arrojadíssimas para inúmeros problemas que a mera honestidade solucionaria.
Adoramos a beleza dos fotoshops, dos efeitos especiais, das maquiagens e roupas.  Adoramos os aromas dos perfumes. Nos deleitamos com os sabores da existência. O progresso nos oferta, cada vez mais, infindáveis opções de fantasias e proteções.
Dentro destas armaduras a realidade segue.
É uma opção que é feita cada vez mais às cegas. Tudo é mantido e engendrado de tal forma  a nos fazer ignorar que há algo que não se pode deter por baixo da cobertura. E é por que todos gostamos! É da natureza de avijja, o mal de que todos padecemos, gostar disso. Não é  'por mal' que mentem para nós. E porque mentimos. Num sentido mais fundamental, parece que nos enganamos porque só sabemos viver assim.
Até que alguém desperte!
Não é fácil aceitar que mentimos. Aceitar que construímos a vida, mesmo coisas das quais gostamos tanto, sobre algum(s) tipo(s) de mentira. E que até mesmo o gostar pode ser mentira! Aquele mentiroso do nosso grupo não é boa companhia? Alegre, divertido, descontrai! Faz a gente rir! Sempre está acompanhado. Quem não tem o dom de contar estórias não é tão popular. Sua vida comum e sem aventura não interessa a ninguém! Nem a ele mesmo!
Não sabemos o valor da realidade.
Nossa ignorância nos assegura que pensar em morte, envelhecimento, doença e introspecção e auto-conhecimento é uma coisa desagradável. Parece que temos que optar pela beleza da rosa ou pela matéria podre que lhe possibilita a vivacidade!
Será que precisamos escolher entre esta dualidade? Ou existe uma possibilidade de ver a inadequação que existe em ambas as aparências?
A atenção diligente nos permitirá ir além. Tanto das mentiras que nos contamos quanto da realidade que nos amedronta. Se vencermos o medo inicial e persistirmos com confiança, o Buddha nos oferece a paz de não precisar escolher. Nos diz que a visão da realidade nos liberta da dependência dos gostos e desgostos para nos sentirmos vivos. Nos livra do apreço pelas construções, pelos engendramentos que parecem dar graça às nossas vidas.
Talvez eu continue...

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

gato

Um gato é, também, quando, tendo um circuito elétrico sido interrompido pegamos um pedaço de material condutivo e refazemos tal circuito religando as partes antes separadas. Normalmente "pulamos" o ponto de ruptura, daí o nome mais chique: jump. Aquele ponto é, na pior das vezes, um fusível que cumpriu o seu papel de proteger algo de uma sobrecarga de energia.
Pois bem. Existe o gato espiritual.
A prática buddhista é dividida em três campos: o comportamento disciplinado pelos treinamentos éticos (sila), o cultivo da tranquilização mental (samadhi) e o cultivo da percepção adequada da natureza dos fenômenos (pañña).
Nós, muitas vezes, pulamos sila.
Sila que tem a função de, justamente, proteger a integridade de nossa prática espiritual.
As coisas funcionam com o gato. Mas o risco de prejuízos é grande. Perde-se até a vida devido a gatos! E o mesmo pode ocorrer com relação ao gato espiritual. Dependendo da forma como entendermos vida.
Sila nos protege das sobrecargas de energia que vem dos hábitos, mentais e físicos, que confrontam o Dhamma e estão profundamente arraigados na nossa mente. O consumo de fusíveis espirituais é imenso para a maioria de nós! Mas é bem melhor substituí-los que fazer o gato (ou mesmo o mais cool, jump!). Sila protege nossa integridade mental, nossos pequenos insights, a pouca (ou não pouca) paz que conseguimos, de serem incendiados por picos de negatividade.
Por isso, não despreze sila! Mantenhamos sempre cheias as nossas caixas de fusíveis espirituais!

domingo, 5 de abril de 2009

Fé em Sila 6

"...tem gente que bebe para esquecer e, depois que esquece, bebe pra lembrar!..." Era o que dizia, se bem me lembro, um verso de uma música do grupo Exporta Samba, se bem me lembro, num dos LP's do meu pai que cresci ouvindo como filho carioca do tempo em que pagode se chamava 'Samba de Partido Alto'!
É uma divertida percepção de um dos efeitos que os intoxicantes induzem na mente. Há também o efeito de desinibir, 'soltar', relaxar, aproximar as pessoas... Todos eles resultantes, me parece, em grande parte, de embotar uma das principais qualidades mentais a ser cultivada pelo buddhista: o discernimento.
A prática do Buddhadhamma é toda voltada para o cultivo e desenvolvimento do discernimento. Porque é da nossa natureza não tê-lo bem desenvolvido, segundo o Buddha, é que nós permanecemos subjugados por dukkha. Então, uma pergunta óbvia: para quê deixar ainda mais precária uma coisa que, para a nossa infelicidade, já não funciona bem?
Abster-se de tomar intoxicantes, antes de qualquer coisa, diz respeito a, na minha opinião, tomar consciência da importância do cultivo da introspecção e do discernimento. Nós precisamos aguçar cada vez mais estas características, talvez até a ponto de descobrir outros 'intoxicantes' mais sutis. Podemos nos perguntar por quê e como vemos TV?

sábado, 4 de abril de 2009

Fé em Sila 5






Deixar-se dominar pela esfera sensorial é o problema. Manter-se escravo dos sentidos é o resultado da desatenção às experiências sensoriais. O que frequentemente leva à dukkha.
O Buddha ensinava que nós continuamos presos ao ciclo de dukkha por vermos como permanentes as coisas impermanentes, satisfatórias as insatisfatórias e como possuidoras de uma entidade essencial indivisível aquilo que não a possui (esta última é mais evidente como uma ignorância da natureza dependente das coisas).
A má conduta sensorial tem como seu fundamento especificamente a ideia da satisfatoriedade. Enquanto não refletimos sobre as três características com relação aos objetos sensoriais, em especial a insatisfatoriedade (dukkha), continuamos presos. A sensação é, pelo próprio poder que exerce sobre a nossa mente, um momento da nossa experiência ao qual devemos dar grande atenção. A ponderação e investigação constantes sobre a forma como nos relacionamos sensorialmente com o mundo é um treinamento de compreensão e libertação em si mesmo, de acordo com o Buddha. Manter-se cego e, em consequencia, sujeito a esse poder, deixando-se guiar por desejos em série sem nenhuma consciência do que acontece, meramente 'desfrutando' daquilo que a vida tem para nos oferecer, é o comportamento que deve ser transformado com a ajuda do Quarto Preceito.
Penso que, abordado dessa forma, ou seja, indo além da mera 'restrição' e compreendendo-o como um treinamento fundamentado na natureza da realidade, a característica da fé como confiança torna-se mais evidente fortalecendo a própria fé.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Fé em Sila 4


Mentir é criar uma ilusão. Ou manter uma ilusão.
A prática do Buddhadhamma conduz ao Despertar, ao fim de todo sofrimento, ao fim de dukkha. Esse Despertar é o resultado de ver a realidade tal como ela é, segundo o Buddha. Ou seja, nada é mais anti-dhamma que a mentira! Isso é fácil de ver.
O ato e o hábito de mentir e enganar mantém a mente em permanente contato com a própria essência do que é a natureza do samsara: a ilusão! Daí o treinar a mente por meio do preceito de não mentir significa ir nos desacostumando de sermos tolerantes com a ilusão, enxergando a sua perniciosidade. Que é, talvez, pior quando o engano é auto dirigido. A sinceridade e honestidade deve começar para com nós próprios.
Sem entrar em detalhes complexos como motivação e resultados da mentira, eu acho que para um buddhista o que importa é ter a consciência do fato de que a mentira é a própria natureza do samsara.

Fé em Sila 3


Tomar posse de forma ilícita significa que estamos plenos de vários sentimentos e visões equivocados da realidade segundo o Buddha. O desrespeito pelo bem estar alheio, a crença na ilusão de possuir coisas, o enganar-se na possibilidade de satisfação pela materialidade, o completo domínio permitido ao desejo saltam mesmo a um pequeno esforço de percepção.
Quando nos permitimos gerar a sensação de posse de forma ilícita estamos fomentando uma das mais prejudiciais e toscas formas de ignorância apontadas pelo Buddha: o senso de meu. Aceitar o "meu" de forma irrefletida e comum é fechar os olhos para a principal porta de saída do samsara, é jogar fora o vidro do mais poderoso remédio para dukkha: a realização de anatta, a ausência de um ego.
Não basta nos apegarmos àquilo que temos o direito de possuir honestamente, precisamos nos tornar ainda mais tolos e iludidos criando a fantasia de que o que é de um outro, ou ao que não temos direito, é nosso!

Fé em Sila 2


De imediato é possível perceber que todos os cinco preceitos nos conduzem a uma contenção do nosso sentimento exacerbado de ego. Ferir, roubar, enganar, usufruir dos outros ou nos abandonar aos gozos ou nos embriagar significa que acreditamos que somos mais importantes, em alguma medida, que os outros seres.
Mas tem mais.
Causar dano é o caso mais óbvio. Com o ego inflado, dando-nos o direito de ferir outros seres, negamos a capacidade que temos de sentir compaixão, de nos pôr no lugar dos outros, de tentar enxergar as coisas a partir de um outro ponto de vista. É virtualmente impossível existir sem, de alguma forma, ferir outros seres. Mas fazer disso uma justificativa para agir de forma irrefletida e desreipeitosa para com o sofrimento alheio, cegos e indiferentes é o que me parece ser o grande problema a ser evitado e corrigido pela visão da realidade. Não ferir e proteger os seres está baseado na realidade da interpendência de todos os fenômenos, na igualdade da nossa natureza sofredora e no fato de que todos tem os mesmos direito e desejo de não sofrer. E exercitar este duvidar da própria importância diante do universo, faz com que nos aproximemos da visão da irrealidade do nosso ego.
Assim, abster-se de causar dano e agir ativamente pelo bem estar dos seres fundamentado nesta visão, constitui-se num treinamento que, por estar de acordo com a natureza da realidade, nos capacita a vivê-la cada vez mais profundamente.

Fé em Sila 1


Sila, ou a disciplina moral buddhista significa, fundamentalmente, não ser causa de sofrimento a seres aptos a sofrer. Nós mesmos, inclusive. Tomar os Cinco Preceitos são a forma mais básica de um buddhista se comprometer com sila.
A forma como tenho gostado de pensar neles é: Não matar (causar danos), não roubar (tomar posse de forma ilícita), não mentir (enganar), não se comportar de forma prejudicial no campo da sensualidade e não consumir intoxicantes.
Além da abstenção destes comportamentos inadequados, o exercício daqueles comportamentos que atuam como opostos também fazem parte do compromisso. Assim, não causar dano é melhor se acompanhado de uma atitude de proteção e fomento ao bem estar dos seres; não roubar e respeitar e proteger as posses dos outros; não enganar e ser verdadeiro, sincero e transparente em palavras e atos; não ter comportamentos sensuais inadequados e não fomentá-los nos outros; não consumir intoxicantes e exercitar o discernimento.
O manter dos preceitos depende, em grande medida, da fé. Existe a fé no kamma. Manter os preceitos tanto nos protege do mau kamma quanto nos favorece a acumular o bom kamma. Porém, o kamma é uma coisa que para a imensa maioria dos buddhistas está mais ligado à crença. Acho que uma forma mais fiel ao entendimento de fé como sendo confiança, é a compreensão de que sila implica no comportamento que está de acordo com a natureza da realidade conforme o Buddha a ensinou, sendo assim um treinamento que habilita a mente a cada vez mais estar em sintonia com esta visão da realidade. E quanto mais compreendermos a visão de realidade ensinada pelo Buddha, maior será a nossa fé em sila.

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