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segunda-feira, 27 de outubro de 2014

como uma ilha

"A noção que temos do espaço como uma estrutura contínua é apenas uma aproximação; se pudéssemos ampliá-lo com um super microscópio imaginário, veríamos um caos difuso, como bolhas de sabão amontoadas umas sobre as outras, vibrando, colidindo. Nessas distâncias minúsculas, muito menores do que o tamanho de um núcleo atômico, a própria noção de movimento como um processo contínuo deixa de fazer sentido; todo movimento é descontínuo, consistindo em saltos."
Ao buddhista estudioso e/ou praticante, este trecho do novo livro do físico brasileiro Marcelo Gleiser - A Ilha do Conhecimento - pode bem ser a descrição de estados avançados na prática da meditação vipassana.
O seguinte poderia ser um trecho de uma palestra sobre paticcasamuppada: "...o universo não 'existe lá fora', independentemente dos atos de observação. Pelo contrário, de forma ainda misteriosa, o universo é participatório." Mas é uma citação do físico teórico John Wheeler, feita no livro, para ilustrar o impacto que as observações e medições oriundas das pesquisas em física quântica tem na nossa concepção da realidade.
Já passei da fase de buscar validação científica para o buddhismo, mas continuo interessado em ciências e impressionado pelas convergências, geralmente nos pontos mais profundos, entre as duas abordagens. A ciência, em seu caminho de objetivação, medição, análise e replicação da realidade reafirma muitas das coisas do caminho buddhista da investigação introspectiva e vivência pessoal intensa. 
Neste livro, uma continuação do anterior - Criação Imperfeita - do qual já falei aqui, o autor desenvolve o questionamento das nossas limitações no que se refere a uma compreensão final e definitiva da realidade e o quanto o aprofundamento desta mesma compreensão corrobora a adoção de uma postura humilde e pragmática diante do mistério que nos envolve, tanto quanto daquilo que conseguimos saber, tornando-nos ilhas.
Na passagem ocorrida no bosque de sinsapa o Buddha deixou claro a razão de sua vida e de seu ensinamento. De toda compreensão que se possa ter da realidade, desde que ela sirva ao propósito declarado pelo Buddha, não há importância no tanto que se conhece e menos no tanto que permaneça desconhecido. O propósito é o fundamental para o buddhista. É saber porque sentar-se, porque manter a vigilância, porque esforçar-se, porque manter os preceitos que dirige a busca pelo conhecimento, e do conhecimento pessoal e direto o Buddha afirma a libertação, tornando-nos, justamente, ilhas de conhecimento no oceano do saṃsāra. Se o conhecimento final e absoluto, cada ilha saberá por si. 

Se clicar nos links nem precisa ler o texto!!

segunda-feira, 24 de março de 2014

a roda da vida gira para a direita

Se rejeitarmos o ātman* (ego, self), aquele que, imputando-se o nome e forma, performa o processo cognitivo, a divisão da consciência em nome e forma tem apenas o valor negativo de um ato que impede a cognição. Como tal, isto se encaixa muito bem no pratītyasamutpāda* entendido como uma cadeia de eventos que mergulha o ser humano na ignorância cada vez mais profunda de si mesmo.

*Grafia em sânscrito. Em pali seriam, respectivamente, atta e paticcasamuppada

Citação de Joanna Jurewics feita pelo acadêmico Richard Gombrich no seu livro What The Buddha Tought. Páginas 136/37.

If we reject the ātman, who,  giving himself name and form, performs the cognitive process, the division of consciousness into name and form has only the negative value of an act which hinders cognition. As such, it fits very well into the pratītyasamutpāda understood as a chain of events which drive a human being into deeper and 
deeper ignorance about himself." 



sábado, 14 de setembro de 2013

filosofia buddhista sem mistério

Abaixo a minha tradução para a conclusão do quarto capítulo (pág. 59) de "History of Buddhist Philosophie - Continuities and Descontinuities" de Davi J. Kalupahana.
Decidi publicar aqui, primeiramente porque é um daqueles trechos cujo fascínio me surge pelo poder que tem de dizer tanto com tamanha concisão. Merece ser lido e relido e servirá como guia para aprofundamento no Buddhadhamma naquilo que é fundamental.
Em segundo lugar pela satisfação que me causou ao perceber que, dentro dos meus limites, tenho escrito aqui sobre algumas ideias presentes neste trecho e naquele livro.

O princípio do surgimento dependente é concebido como uma alternativa à noção Brahmanica de um eu eterno (ātman) bem como ao conceito de natureza (svabhāva) apresentado por algumas escolas heterodoxas (contemporâneas do buddhismo e oposicionistas ao brahmanismo). Como uma alternativa, não só evita o mistério mas também explica os fenômenos como em um estado de surgimento e cessação contínuos. O Buddha realizou que, embora tal princípio seja verificável (ehipassika), não é facilmente percebido (duddasa) pelos seres humanos ordinários, que são absortos pela e deleitados na adesão (ālaya) tanto à coisas quanto às visões. Tais inclinações podem cegá-los em tamanha extensão que eles ignoram até os fatos mais evidentes. Assim a dificuldade em perceber e compreender a dependência é devida não a qualquer mistério quanto ao princípio em si, mas sim ao amor das pessoas pelo mistério. A busca pelo mistério, pelo algo oculto (kiñci), é considerada como causa fundamental de ansiedade e frustração (dukkha). Por isso diz-se que aquele que não procura nenhum mistério (akiñcana) e que percebe as coisas “como elas vem a ser” (yathābbhūta), desfruta da paz mental, a qual eleva tanto intelectualmente quanto moralmente. Isto explica a classificação do surgimento dependente como pacífico (santa) e sublime (panīta).

The principle of dependent arising is intended as an alternative to the Brahmanical notion of an eternal self (ātman) as well as to the conception of nature (svabhāva) presented by some of the hetorodoxy schools. As an alternative, it not only avoids mystery but also explains phenomena as being in a state of constant arising and ceasing. The Buddha realized taht even though such a principle is verifiable (ehipassika), it is not easily perceived (duddasa) by ordinary human beings, who are engrossed and delighted in attachment (ālaya) to things as well as views. Such leanings can blind them to such an a extent that they ignore even the most evident facts. Thus the difficulty in perceiving and understanding dependence is due to not any mystery regarding the principle itself but to people´s love of mystery. The search for mystery, the hidden something (kiñci), is looked upon as major cause of anxiety and frustration (dukkha). Therefore the one who does not look for any mystery (akiñcana), and who perceives things “as they have come to be” (yathābbhūta), is said to enjoy peace of mind that elevates him intellectually as well as morally. This expçain the caracterization of dependent arising as peaceful (santa) and lofty (panīta).

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Imasmiṃ sati idaṃ hoti, imassuppādā idam uppajjati, imasmiṃ asati idaṃ na hoti, imassa nirodhā idaṃ nirujjhati.

nada sei é um extremo.
onisciência é outro.

mas há um justo. um possível. que requer esforço:

isto sendo, este vem a ser
com o surgimento disto, este surge
isto não sendo, este não vem a ser
com a cessação disto, este cessa *

*Bahudhatuka Sutta


quinta-feira, 13 de junho de 2013

à revelia

No buddhismo tibetano, estudando e praticando sob a abordagem do Lam Rim, eu meditava e contemplava o renascimento nos infernos. Haveriam diversos infernos frios e quentes ao extremo e a instrução é para que sejamos o mais detalhistas possível com respeito a visualizar os tremendos sofrimentos que lá se passa.
Eu tinha grande dificuldade com esta meditação.
O objetivo da prática, até onde me lembro, era gerar o medo de cometer ações que levassem a tais renascimentos tanto quanto servir de ilustração para o que é o saṃsāra e ajudar a fomentar o sentimento de renúncia.
Uma vez que creio em renascimento, ou pelo menos considero tal possibilidade, pensar no inferno tem lá seus momentos de eficácia. Mas com respeito à ir gerando alguma renúncia, quase sempre me basta olhar por dentro e em volta do que ocorre aqui mesmo.
Existo à revelia não é de hoje. E sendo assim, não há outra vida que me seduza após esta aqui, podem vir com o paraíso que for que dispenso sem hesitação, podem me prometer ser um deus qualquer, tô fora! Então, porque cargas d'água ainda não despertei do pesadelo do saṃsāra? Porque não basta não querer renascer em outra vida. Isto, aliás, eu acho que é até comum, o ó do borogodó é desistir de renascer nesta aqui!

domingo, 28 de abril de 2013

brevis

não há problema em dizer 'eu'. 
'eu vou', 'eu sou', 'eu quero'.
o problema é que sentimos que há tal entidade. culpa da ignorância, o escuro que impede a percepção do que surge e cessa incessantemente.
a escuridão da ignorância é a condição para tudo que existe no mundo. avijja paccaya sankhara.
só isso já é tarefa para alguns dias: olhar para o entorno e tomar consciência da escuridão.



visite +Bhante Katukurunde Ñanananda 






sábado, 20 de abril de 2013

a coprofagia da cadelinha, o filho, o pai, a biologia e o dhammā

"...eu falei com a (...)inha e ela deu rizada! disse que é legal ter um cachorro que come cocô, a gente economiza ração!"
"é, hehehe. seria legal se ela comesse cocô e soltasse ração, né filho!? era só arrumar um cachorro normal e a gente tava feito!"
"é mesmo! seria perfeito"
"mas tem um problema nessa lógica louca nossa, filho: ia sempre faltar um pouquinho mais de alimento a cada vez..."
"hmmm, como assim?"
"ué! eles iam crescer como? de onde sai o corpo novo que eles vão tendo que por no lugar do que vai morrendo?"
"é mesmo...!"
"ela é feita de ração! nós todos somos feitos daquilo que comemos."
"somos feitos de comida! hehehe!"
"nosso corpo vai pegando uma coisa e transformando em outra. juntando os tijolinhos que faz de comida."
...
"e aí surge uma pergunta filho: se nosso corpo é feito de comida, do que é feito o nosso eu?"
"ih, pai! lá vem você com as suas filosofias...!"
"hahahahahaha."






sexta-feira, 5 de abril de 2013

descordar

a metáfora que vou apresentar a seguir nas minhas palavras aparece no oitavo sermão da série 'nibbāna - the mind stilled' do nunca suficientemente venerado venerável bhante katukurunde ñanananda. elaborada, rica e luminosa como é o todo de seus preciosíssimos textos, penso que a contemplação cuidadosa desta analogia pode fazer surgir um entendimento profundo. passemos a ela.
imagine longos cabos ou cordões. ao redor e ao longo de um os outros serão enrolados para formar uma corda. duas pessoas se põe, uma em cada extremo, para realizar a tarefa. para que surja a corda, cada um deve enrolar no sentido contrário do outro, note bem este detalhe. um terceiro elemento, digamos eu, se posiciona no meio entre os extremos sem ser notado (faça um esforço para aceitar isso) e segura os tais cordões num ponto de modo a impedir o enrolamento naquele ponto.
nos dois extremos os enroladores começam a sua tarefa. porém, eles começam e permanecem enrolando no mesmo sentido, para o mesmo lado, note bem também este detalhe. com o ponto intermediário preso por mim, mesmo com os extremos sendo enrolados na mesma direção uma corda começa a surgir e a se tornar cada vez mais corda, mais rígida, mais tensa conforme o trabalho prossegue.
então eu, num dado momento, quando uma bela corda é aparente, resolvo soltar aquele ponto. o que ocorre com a corda? ela imediatamente se desfaz. pela própria tensão acumulada, uma vez que o enrolamento foi feito na mesma direção nos dois extremos, o desenrolamento espontâneo revela que nenhuma corda foi construída, ela só existiu na dependência do ponto em que eu estava agarrado.

pense nisso.

uma corda só poderia ser feita se houvesse a discórdia entre os dois extremos, um teria que girar para o lado oposto do outro, se os dois lados estiverem em acordo, nenhuma corda poderá surgir. 
e eles sempre estiveram em acordo, ambos giravam para o mesmo lado, mas o eu agarrado no meio criava uma aparente discordância e uma aparência de corda surgiu.
assim é com nossa mente e os seus objetos. ambos giram para o mesmo lado da impermanência (anicca), do sofrimento (dukkha) e da ausência de ego (anattā), mas uma aparência de permanência, de felicidade e de eu se mantém agarrada no meio nos fazendo construir (sakhāra) um mundo em completa discordância com a realidade, trançando cordas que nos prendem ao sasāra. a qualquer momento em que este apego ao meio se desfaça, a corda se descorda, entramos em acordo com o mundo e começamos acordar.
estas últimas linhas um tributo a humberto gessinger.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

tu és só isso

mente e matéria. 
nada mais. 
uma condicionando a outra. 
só isso.
não é uma descrição agradável quando contemplada cuidadosamente. implica em que no visto há só o processo de ver, no degustado só o processo de degustar, no ouvido só o ouvir, no sentido só o sentir, no pensado só o pensar. tudo começando só para acabar, começando a acabar já no começo. nenhuma testemunha para curtir ou dar um plus. onde não há ninguém, ninguém há para haver, apesar das aparências. esta mesma aparência que faz de tudo tão sofridamente frustrante. 
segundo a segundo; hora a hora; dia a dia; semana a semana; mês a mês; ano a ano; só isso.
aparência até o fim.


segunda-feira, 3 de setembro de 2012

dual

a vida é feita de experiências boas e ruins.
isto é uma dualidade.
a vida é experiências que começam boas e terminam ruins ou começam ruins e terminam piores.
isto é começar a compreender a não dualidade.
dualidade é resultado da conceituação, da concepção de entidades, coisas,  saṅkhāras.
não ficamos na experiência sensorial até o seu fim. nos primeiros sinais de desconforto, mudamos para outra coisa e aquilo que surgia como bom fica sendo "bom". fica saṅkhārizado como bom. se ficássemos até o fim, veríamos sua mudança e saberíamos que as coisas são surgimento, aparência e cessação
do contato entre sentido e objeto surge o saṅkhāra . deste a proliferação de conceitos duais: isto, aquilo; bom, ruim; prazer, dor; felicidade, sofrimento; tudo, nada.
este o fundamento do mundo. este o motor da existência.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Je Tsongkhapa

 abaixo, o texto que mais estudei, em sua versão extensa chamado Lam Rim, durante o tempo em que estive sob orientação de professores ligados à tradição tibetana de Je Tsongkhapa
embora envolvido com o buddhismo desde 1995, só passei a me considerar buddhista quando ingressei no estudo e prática por meio desta tradição, em 1999. este texto fundamentou o entendimento do dhamma que sustento até hoje.
a versão é do livro "Bondade, Amor e Compaixão" de Sua Santidade o Dalai Lama, editora Pensamento.




Os Três Principais Aspectos Do Caminho

Homenagem aos principais lamas sagrados

Explicarei o melhor que puder
O significado essencial de todas as escrituras do Conquistador,
O caminho louvado pelas eminentes Crianças Conquistadoras,
Porto para os afortunados que desejam a libertação.


Aqueles desapegados dos prazeres mundanos, a lutar
Para que lazer e fortuna signifiquem dignidade, inclinados
Que são para a senda que deleita ao Buda Conquistador,
esses afortunados devem ouvir com mente límpida.


Sem a profunda convicção de abandonar a existência cíclica
Impossível deixar de perseguir os frutos do prazer no oceano da vida,
E mais: o anseio pela existência cíclica agrilhoa por completo o encarnado.
Que se busque, pois, de início, a determinação de abandoná-la.


Lazer e fortuna são difíceis de encontrar
E a vida se esvai: esse conhecimento
Converterá em seu oposto a importância dada
Às exterioridades da existência.


Se pensarmos sempre e sempre nas ações,
Em seus efeitos, que são inevitáveis,
E nos sofrimentos da existência cíclica
Converter-se-á em seu oposto a importância dada
Às circunstâncias exteriores das vidas futuras.


Se tendo assim meditado, não geramos, por um instante sequer,
Admiração pelo florescimento da existência cíclica, mas se, dia e noite,
Se faz presente a atitude de busca da libertação,
O pensamento de abandonar para sempre essa existência foi gerado.


E mais, se o pensamento de abandonar de vez a existência cíclica
Não estiver enlaçado à geração da total aspiração pela iluminação suprema,
Não será ele a causa da bênção esplêndida da iluminação excelsa.
Sim: que os inteligentes gerem a tão alta e altruísta intenção de se converter em iluminados.


[Todos os seres comuns] são arrastados pelo continuum de quatro torrentes poderosas
E atados pelos liames de ações muito duras de combater.
Na jaula de ferro da autopercepção [existência inerente], lá estão eles,
Aturdidos pela densa escuridão da ignorância.


Vezes sem conta já nasceram, e cada nascimento
Traz a tortura incessante dos três sofrimentos.
Ao pensar nas mães que caíram nessa rede,
Geram eles então a intenção altruística de converter-se em iluminados.


Sem a sabedoria que compreende o modo de ser das coisas,
Mesmo que tenham sido desenvolvidos, tanto
O pensamento de abandonar para sempre a existência cíclica
Como a intenção altruísta,
A raiz da existência cíclica não poderá ser exteirpada.
Pratica, pois, os métodos que te farão entender a manifestação dependente.


Aquele que, percebendo serem inquestionáveis
Causa e efeito de todos os fenômenos
Da existência cíclica e do nirvana,
E destruir, inteiro, o modo de percepção equivocado
Dos objetos [tidos como de existência inerente],
Terá, assim, ingressado num caminho que apraz ao Buda.

Enquanto se afigurem como separadas as duas compreensões
Da indubitabilidade da manifestação dependente
E do vazio - a não-afirmação [da existência inerente] - 
Não será compreendido o pensamento do Buda Shakyamuni.


Quando [ambas as percepções ocorrem], simultâneas, sem alternância,
E quando, apenas por ver a manifestação dependente como indubitável
O conhecimento preciso destrói por completo o modo de percepção [da concepção de existência inerente], 
Está completa a análise da apreensão [da realidade].


E mais: exclui-se o extremo da existência [inerente]
[Conhecendo-se a natureza] das circunstâncias externas
[Que existem apenas como designações nominais].
E, ao extremo da [total] não-existência, elimina-se
[Conhecendo-se a natureza] do vazio
[Como ausência de existência inerente e
Não como ausência de existência nominal].
Se for por ti sabida, dentro do vazio, a presença da causa e do efeito,
Não serás aprisinado pelas percepções extremas.


Ao teres compreendido com exatidão, do caminho
Os três aspectos principais, no que tem de essencial,
Procura a solidão e gera o poder do esforço.
Que logo chegues à meta final, meu filho!




sábado, 13 de agosto de 2011

eu acredito - 1

quando um ser nasce, eu acredito que sua mente (ou parte dela, não sei bem) não surgiu com aquele corpo. acredito que mente é mente e matéria é matéria. duas naturezas distintas. e acredito nisso porque o Buddha assim ensinou, ao que parece. é algo em que confio. porque o Buddha, e isso é uma coisa que eu sei, foi muito preciso e acertou em muitas coisas, Suas instruções dão resultado, Sua teoria é extremamente coerente, Seu Caminho não me decepciona. quanto mais eu me aprofundo e pratico, mais desejo me aprofundar e praticar. então, minha experiência pessoal me garante este ato de fé sem problema. 
porém, eu mantenho esta crença num compartimento separado. ela não é o que define e nem sustenta minha prática. 
quando acreditamos que a mente segue num processo de condicionamento de um novo ser após a morte física, isto implica na aceitação da doutrina do kamma como definidor de alguns aspectos da vida daquele novo ser: méritos definem coisas boas, deméritos coisas ruins. doutrina que o Buddha declarou estar além da compreensão intelectual. e esta, sendo uma crença, não imediatamente verificável por experiência, tem um caráter dúbio. por exemplo: um buddhista como eu crê que está praticando o dhamma libertador do Buddha porque assim seu kamma o conduziu, ou seja, as ações passadas condicionadas pelas intenções deste mesmo contínuo mental frutificaram agora para que tal contato com o Buddhadhamma ocorresse, ou se repetisse, acontecimento digno de regozijo e alegria, um fator motivador. mas o mesmo raciocínio pode, em momentos em que outros fatores desta vida condicionam um estado mental menos animado, circunstâncias que, sabemos, não são raras, levar a pensar que os méritos não foram tantos assim, pois veja quão difícil é a prática, quão desprezível eu sou, ou o quanto minha vida é impulsionada por necessidades e tão pouco por escolhas...!  e, num movimento vicioso, deixar claro para nossa mente obscurecida como será difícil acumular os méritos necessários para um bom nascimento ou despertar futuro! por essas, mantenho a crença no seu devido lugar.
e é no próprio Buddhadhamma que baseio este meu caminhar.
Ajahn Buddhadasa ensina que há três tipos de nascimento elucidados pelo Buddha: o convencional, aquele que todos conhecemos, o nascimento através dos órgãos dos sentidos que ocorre a cada contato estabelecido entre olhos, ouvidos, pele, etc. e seus respectivos objetos e o nascimento mental que ocorre a cada vez que a idéia de eu e meu surge na mente. e é a compreensão destes dois últimos nascimentos que é relevante para obter o resultado da prática do Caminho, a saber, o cessar de dukkha, pois nada mais que dukkha e o fim de dukkha foi o que o Buddha ensinou.
a compreensão destes dois já é bastante a se fazer, mas é a compreensão do que está aqui, ocorrendo agora, é só uma questão de vir e ver. 
posso, assim, deixar a minha crença lá, nem pensar muito nela.
o nascimento que me interessa é este que ocorre agora.
a continuar, um dia...

quinta-feira, 21 de abril de 2011

palavras

Lutar com palavras é a luta mais vã.
Fiz este copy/paste do Drummond porque foi do que eu lembrei enquanto refletia na dificuldade de expor o dhamma. 
Nenhuma novidade. 
É uma coisa repetida desde Lao-Tzu "o tao que pode ser proferido não é o tao eterno". Mas, nenhuma novidade também, nos emaranhamos repetidamente nas palavras, quer seja tentando compreender, quer seja tentando explicar. E se ficarmos satisfeitos com a explicação que recebemos ou damos pode ser sinal de que não entendemos, ou tínhamos entendido, realmente.
Queremos saber, por exemplo, o que é a mente. E lá vão e vem palavras e mais palavras, construções, raciocínios e o embolo só aumenta. 
Não é que as palavras sejam dispensáveis. Se o fossem o Buddha não teria passado mais de 40 anos pregando. Mas empacamos no meio do caminho entre as placas sinalizadoras que são as palavras e o caminhar efetivo que conduz ao entendimento. Voltamos as costas à trilha e ficamos a decifrar os sinais, suando os miolos.
Catamos palavras como se com conchas colhêssemos porções do oceano na tentativa de entendê-lo. Palavras são pedaços da imagem que compomos da realidade. Engrenagens e ferramentas que mantem o mundo do jeito que nos aparenta ser. Enquanto que o mundo que o Buddha vê e revela é um fluxo contínuo de manifestações experienciáveis das quais, viciosamente, insistimos em nos por a parte. Se Ele fez um recorte, se tentou uma palavra, é só porque não havia outro jeito a não ser render-se  à nossa limitação. 
Precisamos das palavras. Precisamos ler, estudar, debater, dialogar mas sem nos emaranhar. Sem confundir. Sem a esperança de que vamos entender alguma coisa do que o Buddha falou antes de ter experienciado lá onde as palavras não chegam. Lá onde não há lutas vãs. Na paz de uma mente incompreensivelmente pacífica e lúcida. E de uma forma que não consigamos expressar.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Nascimentos e (re) Nascimentos

Uma das tarefas propostas no mais recente curso on-line do Centro de Estudos Buddhistas Nalanda foi a criação de uma estória que exemplificasse os nascimentos que experimentamos pelos vários reinos da existência em acordo com a concepção buddhista da realidade.
O que segue é uma das estórias apresentadas.

O DEVA está de folga. Que delícia não ter correria, compromisso, horário e ter uma caixa da temporada de uma de suas séries preferidas para assistir!
Deitado na cama, DVD ligado, após alguns momentos de deleite o ANIMAL dorme.
Quando acorda, terminou já o quarto episódio do disco.
A Deva superior chega do trabalho. Tá na hora da minha novela, ela diz. Vai assistir na sala, grunhe o ANIMAL. Você sabe que a TV da sala não pega direito, ela diz. Mas essa aqui é única que suporta o DVD, ele resmunga. Problema seu, você teve o dia inteiro para assistir esta porcaria. Aposto que dormiu que nem um porco!
Ô INFERNO de vida, ele pensa enquanto cheio de raiva levanta da cama.
Preciso comprar uma TV nova, pensa o PETA. Entra sofregamente na internet procurando preços de TV’s. O ASURA lembra-se, então, que outro dia viu, pela janela, a TV de plasma do vizinho e pensa: como é que um Zé Mané desses comprou aquela TV? Deve estar devendo até a alma!! Como é que pode ele ter uma TV, uma casa e um carro daqueles e eu não consigo nem uma bicicleta sem fazer dívida!?
Mas, apesar de tudo, o besta é um ser HUMANO e, finalmente, pensa: bom, vai ver o cara estudou, não passou o segundo grau na mesa do fundão com a cabeça nas nuvens e com nuvens... Fez uma faculdade, sabe lidar com o dinheiro...
É, ele pensa, até que eu tenho mais do que pareço merecer... Preciso é aproveitar as oportunidades que me restam...






terça-feira, 16 de junho de 2009

Quase Elegia

Caixão devidamente parafusado e sepultado, nos nossos veículos tomamos a estrada sentido dukkha/sukkha e seguimos viagem.
Antes disso, o bate-papo que gira sempre em torno de vida e morte. Como precisamos viver bem porque a vida é curta e não somos nada nesse mundo, olha lá: eis oJustificar nosso futuro!...
E foi assim no velório de minha muito querida tia... Coroona carioca cheia de marra! Um coração em forma de pessoa! E o coração enorme, desgraçadamente não mais concorde em permanecer só metáfora, foi um dos fatores que nos levou até ali na semana passada.
Siga em paz e que as suas boas ações frutifiquem!
E o que seria aquele viver bem?
A vida infecta o mundo.
Entra e sai pelos nossos orifícios, está acima das nossas cabeças, sobre a nossa pele, sob nossos pés e dentro de nós! E, segundo o Buddha ensinou, além da nossa atmosfera, universo afora, e da nossa percepção convencional, há vida aos borbotões! Todas no mesmo rumo de fugir do sofrimento e buscar a felicidade. Numa absoluta confusão para a maioria. Confusão que transparece nas conversas de velório onde sempre relacionamos essa busca com obter, curtir, aproveitar, deleitar... Eis a nossa noção do valor da vida!
Se pudéssemos enxergar o movimento de nascimento e morte que existe neste nosso condicionado modo de viver!
Talvez seja a morte mais importante que o Buddha nos tenha ensinado a contemplar: a que acontece a todo momento. A cada vez que temos saciado um anseio, a cada vez que experimentamos uma sensação, a cada vez que nascemos da ignorância da concepção de um ego possuidor nós, em seguida, morremos.
A visão clara e direta desta morte para a qual somos tão cegos me parece ser o que nos tirará da confusão de antes, durante e de depois dos velórios.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Um Problema de Todo Mundo 2


Não há qualquer entidade, ego ou alma que passe de um momento a outro no nosso processo de existir, mas nós achamos que há. E é nos momentos de experiência mais intensa que esta ilusão torna-se mais evidente. Quando desejamos, experimentamos ou sentimos algo fortemente o 'eu' torna-se mais saliente, perceptível, destacado... Nestes momentos, podemos dizer, o eu nasce com imenso estardalhaço!
Mas toda experiência nada mais é que um surgir e cessar constante (sabbe sankhara anicca) e o ego assim nascido, em razão de um fenômeno passageiro, incerto, momentâneo fica à deriva quando o que motivou sua existência cessa. O nosso eu ilusório 'sobrevive' à realidade que passa e então 'sofre, envelhece, adoece e morre'! Como não podemos aceitar tal destino, imediatamente saímos à caça de novas experiências, sensações e quereres que nos dêem a 'alegria de nascer de novo' e a vã esperança de permanecer! E o samsara continua... A roda gira.
Passamos a vida toda querendo ser, querendo existir verdadeiramente.
Verdadeiramente lutando contra a realidade.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Um Problema de Todo Mundo


O buddhismo ensina que 'por trás' de nossas experiências/ações não há uma 'entidade' tal como alma ou ego. Algo que seja o 'observador/experimentador' daquilo que nos ocorre e separável das experiências em si. É a doutrina de anatta: o não-eu.
De acordo com esta doutrina quando, por exemplo, caminhamos, e pensamos que 'eu estou caminhando', este 'eu' que caminha é a ilusão, a criação da mente, pois não há nada no ato de caminhar além do caminhar. Não há o ego que seja levado pelo corpo/mente que caminha. Cada passo, cada movimento, cada impressão/sensação é um fenômeno que surge e cessa em dependência de condições/causas.
Mas nós não sentimos assim.
Há o andante, o caminhante que perdura a cada passo. Se deixarmos o exemplo do caminhar, há o fazedor/experimentador de toda e qualquer coisa. O ego criado pela mente 'passa' de um fenômeno para outro sempre e sempre. Segundo o Buddha, este é o problema de todo mundo.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Causas e Condições II


Pensando em termos de condicionalidade, diante dos gostos e desejos passamos a nos comportar como a criança que puxa a barba do Papai Noel.
As condições do que é tão único, tão nosso, tão nós, se insinuam. O momento influencia, nossa disposição mental, nossa condição física, o tempo, o lugar... Enfim, são tantos os fatores que compõem os nossos quereres que eles e, em inevitável consequência, aquele que quer, assumem a aparência de uma projeção, um jogo, (de) sombras e cores, uma mistura e, não mais, um.
Os gostos e desejos podem não ser o que sempre pareceram ser, e dessa desconfiança o próprio status do eu fica abalado...

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Causas e Condições


Pensar em termos de condicionalidade, "havendo isto, há aquilo; não havendo isto, não há aquilo", é um exercício libertador.
Em certas ocasiões sentimos e reagimos de uma forma. Depois, ao se repertir situação semelhante, nossos sentimentos e reações são diferentes. Esta diferença deve-se ao emaranhado de condições que se associam à nossa mente o tempo todo. Pensando em termos de condicionalidade podemos ir constatando, cada vez mais claramente, como somos uma combinação de fatores, uma soma de eventos. Vamos observando e conhecendo o fato de que encontrar um ponto central com qual nos identificar vai se tornando uma tarefa mais ingrata... Condições que surgem e passam, condições que influenciam nosso humor, percepções, reações... Condições, em boa parte das vezes, fora do nosso controle...
Eventos que estão de acordo com nossos desejos... Eventos que não estão... E nós, constantemente, colando um 'proprietário' nesse turbilhão!

Speech by ReadSpeaker