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terça-feira, 30 de junho de 2015

O Discípulo Laico*

Este é o discípulo do Buddha, vivendo em seu lar. Ele tem confiança no despertar do Buddha. Ele treina a si mesmo para purificar suas ações e sua fala. Ele cultiva a generosidade, aprende a ceder e a deixar ir. E esta é a sua prática: ele aproveita as oportunidades para ouvir o Dhamma - a palavra do Buddha - de monjas e monges despertos. Mas isso não é tudo. Ele sustenta a lembrança do Dhamma que ouviu. Ele tenta memorizá-lo, mantê-lo em sua mente. Porque ele sabe que, assim, vai refletir sobre ele, observar, investigar, compreender profundamente. Então, por tal prática, ele sabe, sendo esta uma lei natural, sua vida vai seguir o processo, inevitavelmente.
Lenta mas seguramente, toda a sua vida é tocada e transformada pela mágica que é o milagre do Dhamma: em seu trabalho ele é aplicado, trabalhador e diligente. Em suas finanças ele é generoso, evitando dívidas, consciente dos benefícios de poupar e nunca se esquecendo de avivar o espírito de sua família e amigos. Ele cuida bem de seus pais, a quem deve sua formação e orientação na vida, e instrui e apoia seus filhos e companheiros sempre buscando se associar com pessoas boas e nobres. Assim, sua vida mundana está num equilíbrio que lhe permite dedicar mais tempo e clareza à vida espiritual.
Pelo menos uma vez por semana, vestido de branco, símbolo da pureza, ele desfruta de um dia de silêncio e contemplação. Ele determina sua mente a aplicar-se neste nobre treinamento de corpo, fala e mente. Ele sabe, cada dia passado a seguir os passos dos Arahants será, na soma final de seus dias terrenos, mais valioso do que qualquer fortuna em sua conta bancária. Neste dia, ele lembra-se do Dhamma que aprendeu, pode também jejuar, mantendo-se leve e simples, refletindo sobre as palavras do Buddha. Ele pode contemplar as qualidades do Buddha, aquilo que caracteriza um Desperto, ele pode contemplar Dhamma e Sangha. Ele pode lembrar das qualidades dos Devas sabendo que sua vida, se purificada desta forma, irá conduzi-lo a tal estado mental e nenhum outro.
Começa todos os seus dias com as cinco contemplações saudáveis pela manhã. Todas as manhãs ele reafirma a sua confiança no mestre, o contemplativo Gotama, na sua explicação do Dhamma e no grupo de discípulos que seguem esse caminho com sinceridade. Todas as manhãs, ele reflete sobre as virtudes que está determinado a pôr em sua vida e reflete sobre como pode praticar generosidade naquele dia. Todos os dias, ele se exercita, para fortalecer sua lembrança dos ensinamentos do Buddha, recitando as palavras do Desperto de memória. Todos os dias pode-se encontrá-lo calmamente refletindo sobre o significado do Dhamma que ele aprendeu. Outros chamam de meditação, ele chama de sammā samādhi e bhāvanā, ou desenvolvimento, pois ele sabe que isto é como uma planta, precisa de atenção constante e manuseio cuidadoso para que cresça forte a dê frutos.
Ele sabe que da confiança vem serenidade, e da serenidade alegria. Tal alegria interior vai levá-lo mais do que frequentemente à permanência tranquila dos quatro jhānas. Ele sabe como utilizar a perfeita calma e equanimidade do quarto jhāna para lembrar suas vidas passadas, sim, ele pode dominar habilidades como essa, mas acima de tudo, ele não conhece maior alegria do que refletir sobre a impermanência dos seis sentidos, observando seu borbulhante surgir e cessar conforme sua sabedoria cresce, não conhece maior alegria do que observar os cinco agregados surgindo e se dissolvendo, contemplando a origem dependente que conduz a um profundo insight e sabedoria purificadora.
Conforme seus dias periódicos de meditação (Uposatha) se desenvolvem em profundidade, guiado e alinhado pelas palavras do Buddha que ele preza como um antigo tesouro, sua habilidade em aprofundar seu despertar através da aplicação das meditações como descritas pelo Buddha torna-se formidável. Ele, vestindo branco, ainda vivendo entre esposa e filhos, mantém a sua mente firmemente empenhada na atenção plena ao corpo, ou às quatro satipatthanas, ou à meditação pela respiração, conducentes a profundos insight e sabedoria e aos frutos de entrar na correnteza, de só mais uma vez retornar e de não-retorno. Este ele sabe ser o caminho para Nibbāna conforme apontado pelo Desperto.

Com base nos seguintes suttas:
•                       Mahanama Sutta,   AN.8.25
•                       Vyagghapajja Sutta,   AN 8,54
•                       Singalovada Sutta,   DN 31
•                       Sakka Sutta,   AN 10,46
•                       Muluposatha Sutta,   AN 3,60
•                       Uposatha Sutta,   AN 8,41
•                       Nandamata Sutta,   UMA 7.6
•                       Cittasamyutta,   SN 41
•                       Gihi Sutta,   AN 5,179
•                       Anana Sutta,   AN 4,62
•                       Nakula Sutta,   AN 6,16
•                       Velama Sutta,   AN 9,20
•                       Brahma Sutta,   ITIV. 106
•                       Cinco reflexões diárias: Abhiṇha Paccavekkhitabbaṭhāna Suttaṃ,   AN 5.6.7   e   Aqui




*texto traduzido e publicado sob autorização do autor.
original aqui.

terça-feira, 11 de março de 2014

parei de meditar

parei de meditar.
o caminho é cheio de sutilezas, isso é coisa que se vai aprendendo. 
ajahn chah, numa palestra, fala que alguém o questionou sobre o motivo de aparentes contradições que via nas orientações que ele dava a diferentes alunos. ele explicou que diferentes pessoas tem diferentes caminhadas e se desorientam por desvios diversos, daí a necessidade de puxar alguns para um lado, empurrar outros para outro, segurar estes e largar aqueles... leio tantas coisas de ajahn chah que não sei qual palestra é, mas está por aí pela rede (ou em livros). você vai acabar achando, se for como eu. graças ao pouco mérito que creio ter acumulado, meu diálogo com os mestres se dá por esta mão. plantei limões, e com eles vou fazendo minhas limonadas. dependendo da sede chupo alguns in natura.
então, parei de meditar.
num tempo a meditação foi ficando uma coisa de outro mundo, por assim dizer. muita expectativa por alguma coisa especial demais, alguma revelação talvez, algum estado, alguma super visão... e isso atrapalha e muito desanima, porque você senta e levanta o mesmo, aparentemente. daí você para.
mas não abandonei a meditação. 
tomei distância para refletir e contemplar e estudar. dei um tempo.
quando quebrei a rotina do sentar forçosamente na busca pelo momento especial, a rotina nada especial da vida se destacou como fonte de prática e insight. porque sem o dhamma não consigo ficar, meus limões são de boa qualidade e fartos, descobri. só tudo isso.
e o momento de sentar de novo se impôs.
é aí que redescubro o valor da meditação. aquilo, que as expectativas e intenções passaram a ocultar, recupera o frescor. as rotinas se integram novamente. breves momentos de paz, modestas visões, diminutos insights com sua grandeza visíveis de novo, deixando marcas na mente e transpassando o ordinário de cada dia.
cada um é um. cada um com sua passada, seus tropeços, suas paradas. para mim, vai sendo assim. na impossibilidade de dizer algo, digo uma só coisa: se entrar nessa senda, nunca pare de meditar.

domingo, 19 de janeiro de 2014

change

das muitas perguntas da música uma é especialmente boa: se você soubesse que é capaz de descobrir uma verdade que trará uma dor que não pode ser aliviada você mudaria? canta tracy chapman em 'change'.
muito pertinente para um buddhista, uma poética versão da questão das pílulas de matrix. 
para quem leva a sério o Buddha Sasana o caminho passa longe da turma que dança pelada sob a luz do luar... 


antes da liberdade, uma vistoria meticulosa na prisão da vida.
antes da felicidade um escrutínio corajoso pelos mecanismos e origens da dor.
antes da verdade iluminadora um mergulho na escuridão uterina da mãe ilusão.
antes da plenitude um pavor diante do vazio abissal.

um trincar os dentes até que o medo passe. 
nem fugir, nem lutar.
um ficar de olhos bem abertos e fixos resistindo a dormir ou a ver tv...

um caminho para qualquer um. nada especial.

domingo, 22 de setembro de 2013

i want to believe

já vi algumas argumentações em favor da veracidade do renascimento, de gente que eu admiro e respeito. 
se eu não acreditasse, nenhuma teria me convencido.
agora, com a novela, a necessidade de esclarecer as diferenças entre renascimento e reencarnação movimenta parte do mundo buddhista. muito pertinente este trabalho para nós, crentes. para quem não é, equivale a discutir diferentes espécies de unicórnio (para valer o símile combinemos que unicórnios não existam).
vários de nós, que gostamos de pensar, de questionar, de saber, de filosofar e que muito por conta disso rejeitamos a religião que herdamos, encontramos no buddhismo refúgio para o vazio que o pensamento materialista científico deixa no nosso peito. o buddhismo é empirista, é pragmático, é pé no chão e estas características nos alegram, nos encantam, nos confortam. uma religião plena de bom-senso e repleta de insights muito próximos daqueles que a ciência ocidental vem obtendo em sua história, tanto nas visões do mundo físico quanto do psicológico. surgem, frequentemente, novos resultados positivos da meditação, em especial os modos buddhistas de meditação, sobre a mente, o corpo e a estrutura cerebral, por exemplo.
isso pode deixar a nós, buddhistas, um pouco carregados de uma certa empáfia diante dos outros religiosos. pode ser que passemos a nos achar mais alguma coisa, alguma coisa acima do populacho crente.
mas não.
se somos buddhistas, e não Buddhas ou outra coisa mais próxima de um Buddha que de um ser comum, e se somos fiéis ao ensinamento, somos tão crentes quanto qualquer outro. cremos, por exemplo, pois não sabemos, no renascimento e na lei do kamma e, ainda que conforme expostos no buddhismo sejam mais palatáveis, são uma mera crença para nós. fora todos os casos descritos nos suttas e sutras tais como voos, teleportes, encontros com seres fantásticos... coisas que podem ser explicadas pelo recurso do simbolismo, da metáfora ou mitologia mas que estão lá como estão. claro que opções existem, stephen batchelor que nos diz, mas isso é lá com ele.
e apesar de todo nosso racionalismo escolhemos seguir caminho. por quê?
eu, porque preciso.
o mundo, tal como se me apresenta, não vale a pena. simples assim. eu não conseguiria durar muito mais se não houvesse a esperança (pois é...) de uma solução para isso tudo que está aí. esperança que o Buddha me dá. e que outros encontram em outros.
dentro dos meus limites eu posso afirmar que fé, no sentido comumente compreendido, não é o meu forte. dentro dos meus limites eu comprovo muito da prática do que o Buddha ensina para dar-lhe um voto de confiança e crer naquilo que (ainda?) não posso ver.
isso hoje eu tenho bem resolvido, mas já flertei com a turma do espiritualismo quântico. o livro que me trouxe ao buddhismo foi o tao da física... todavia, graças a mergulhar, o mais fundo que sou capaz, a cabeça no Buddhadhamma, deixei de lado esta ambição de unificar a ciência e a minha religião. não vejo problema algum em me identificar como religioso, como crente, pois é o que sou.
só ao Despertar deixarei de sê-lo.

sábado, 14 de setembro de 2013

filosofia buddhista sem mistério

Abaixo a minha tradução para a conclusão do quarto capítulo (pág. 59) de "History of Buddhist Philosophie - Continuities and Descontinuities" de Davi J. Kalupahana.
Decidi publicar aqui, primeiramente porque é um daqueles trechos cujo fascínio me surge pelo poder que tem de dizer tanto com tamanha concisão. Merece ser lido e relido e servirá como guia para aprofundamento no Buddhadhamma naquilo que é fundamental.
Em segundo lugar pela satisfação que me causou ao perceber que, dentro dos meus limites, tenho escrito aqui sobre algumas ideias presentes neste trecho e naquele livro.

O princípio do surgimento dependente é concebido como uma alternativa à noção Brahmanica de um eu eterno (ātman) bem como ao conceito de natureza (svabhāva) apresentado por algumas escolas heterodoxas (contemporâneas do buddhismo e oposicionistas ao brahmanismo). Como uma alternativa, não só evita o mistério mas também explica os fenômenos como em um estado de surgimento e cessação contínuos. O Buddha realizou que, embora tal princípio seja verificável (ehipassika), não é facilmente percebido (duddasa) pelos seres humanos ordinários, que são absortos pela e deleitados na adesão (ālaya) tanto à coisas quanto às visões. Tais inclinações podem cegá-los em tamanha extensão que eles ignoram até os fatos mais evidentes. Assim a dificuldade em perceber e compreender a dependência é devida não a qualquer mistério quanto ao princípio em si, mas sim ao amor das pessoas pelo mistério. A busca pelo mistério, pelo algo oculto (kiñci), é considerada como causa fundamental de ansiedade e frustração (dukkha). Por isso diz-se que aquele que não procura nenhum mistério (akiñcana) e que percebe as coisas “como elas vem a ser” (yathābbhūta), desfruta da paz mental, a qual eleva tanto intelectualmente quanto moralmente. Isto explica a classificação do surgimento dependente como pacífico (santa) e sublime (panīta).

The principle of dependent arising is intended as an alternative to the Brahmanical notion of an eternal self (ātman) as well as to the conception of nature (svabhāva) presented by some of the hetorodoxy schools. As an alternative, it not only avoids mystery but also explains phenomena as being in a state of constant arising and ceasing. The Buddha realized taht even though such a principle is verifiable (ehipassika), it is not easily perceived (duddasa) by ordinary human beings, who are engrossed and delighted in attachment (ālaya) to things as well as views. Such leanings can blind them to such an a extent that they ignore even the most evident facts. Thus the difficulty in perceiving and understanding dependence is due to not any mystery regarding the principle itself but to people´s love of mystery. The search for mystery, the hidden something (kiñci), is looked upon as major cause of anxiety and frustration (dukkha). Therefore the one who does not look for any mystery (akiñcana), and who perceives things “as they have come to be” (yathābbhūta), is said to enjoy peace of mind that elevates him intellectually as well as morally. This expçain the caracterization of dependent arising as peaceful (santa) and lofty (panīta).

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Imasmiṃ sati idaṃ hoti, imassuppādā idam uppajjati, imasmiṃ asati idaṃ na hoti, imassa nirodhā idaṃ nirujjhati.

nada sei é um extremo.
onisciência é outro.

mas há um justo. um possível. que requer esforço:

isto sendo, este vem a ser
com o surgimento disto, este surge
isto não sendo, este não vem a ser
com a cessação disto, este cessa *

*Bahudhatuka Sutta


sexta-feira, 5 de abril de 2013

descordar

a metáfora que vou apresentar a seguir nas minhas palavras aparece no oitavo sermão da série 'nibbāna - the mind stilled' do nunca suficientemente venerado venerável bhante katukurunde ñanananda. elaborada, rica e luminosa como é o todo de seus preciosíssimos textos, penso que a contemplação cuidadosa desta analogia pode fazer surgir um entendimento profundo. passemos a ela.
imagine longos cabos ou cordões. ao redor e ao longo de um os outros serão enrolados para formar uma corda. duas pessoas se põe, uma em cada extremo, para realizar a tarefa. para que surja a corda, cada um deve enrolar no sentido contrário do outro, note bem este detalhe. um terceiro elemento, digamos eu, se posiciona no meio entre os extremos sem ser notado (faça um esforço para aceitar isso) e segura os tais cordões num ponto de modo a impedir o enrolamento naquele ponto.
nos dois extremos os enroladores começam a sua tarefa. porém, eles começam e permanecem enrolando no mesmo sentido, para o mesmo lado, note bem também este detalhe. com o ponto intermediário preso por mim, mesmo com os extremos sendo enrolados na mesma direção uma corda começa a surgir e a se tornar cada vez mais corda, mais rígida, mais tensa conforme o trabalho prossegue.
então eu, num dado momento, quando uma bela corda é aparente, resolvo soltar aquele ponto. o que ocorre com a corda? ela imediatamente se desfaz. pela própria tensão acumulada, uma vez que o enrolamento foi feito na mesma direção nos dois extremos, o desenrolamento espontâneo revela que nenhuma corda foi construída, ela só existiu na dependência do ponto em que eu estava agarrado.

pense nisso.

uma corda só poderia ser feita se houvesse a discórdia entre os dois extremos, um teria que girar para o lado oposto do outro, se os dois lados estiverem em acordo, nenhuma corda poderá surgir. 
e eles sempre estiveram em acordo, ambos giravam para o mesmo lado, mas o eu agarrado no meio criava uma aparente discordância e uma aparência de corda surgiu.
assim é com nossa mente e os seus objetos. ambos giram para o mesmo lado da impermanência (anicca), do sofrimento (dukkha) e da ausência de ego (anattā), mas uma aparência de permanência, de felicidade e de eu se mantém agarrada no meio nos fazendo construir (sakhāra) um mundo em completa discordância com a realidade, trançando cordas que nos prendem ao sasāra. a qualquer momento em que este apego ao meio se desfaça, a corda se descorda, entramos em acordo com o mundo e começamos acordar.
estas últimas linhas um tributo a humberto gessinger.

sábado, 2 de março de 2013

nem prá lá, nem prá cá, nem no meio

pensar cansa, eu disse, mas não pensar entorpece.  
a disciplina do Buddha é o não-extremismo extremo. 
às vezes o descanso de sentar em concentração. às vezes o caminhar da investigação. um alimenta o outro até que sejam uma coisa só. 
mas como temos a natureza do extremismo como disse o Buddha, em um sutta do qual não lembro agora, mais ou menos assim: 'este mundo só conhece o isso ou o aquilo', nós estamos sempre sob o risco de nos agarrar a alguma coisa como sendo a importante, a verdadeira, a real, ainda que isso contrarie a mais óbvia experiência que temos de que tudo cansa.
tudo o que é composto é capenga e, sendo capenga, carrega em si o potencial de nos doer quando não consideramos essa capenguice. é assim com a concentração, é assim com a reflexão. mas, dizem, não é assim com a experiência direta que surge da fusão equilibrada das duas coisas e que não pode ser verbalizada.
esta questão do verbo: o venerável bhante katukurunde ñanananda (visite +Bhante Katukurunde Ñanananda) tem domínio, joga sagazmente com as palavras transformando, compondo e criando ricos e didáticos significados em seus vários sermões, mas alerta para nos mantermos atentos à precariedade e à natureza perpetuadora da ignorância fundamental que as palavras possuem, principalmente os substantivos. mas não são dispensáveis. precisamos das palavras, dos conceitos até que não precisemos mais. dizem que saberemos quando isso acontecer. assim como com todo o resto da precária vida que pretendemos abandonar para jamais voltar. um descanso, precisamos; um refresco; uma alegria.
sem extremos.
não pensar também cansa, pensar pode entorpecer.

sexta-feira, 9 de março de 2012

meu mantra

somos todos uns pobres diabos.
adoro esta frase.
muito por tê-la lido do saramago. mais por ecoar o que tenho apreendido do Buddhadhamma. ela me é como um mantra.
o girar da vida a minha volta e dentro de mim é quase sempre no sentido oposto ao Dhamma do Buddha. um sinal deste giro contrário é a forma como nos vamos apegando aos saberes que acumulamos. cada novo saber é um tijolo, uma pá de concreto na estátua do ego. "Eu sei isso agora!" comemoramos, e está posto mais um peso sobre esta carroça de rodas quadradas que puxamos para todo lado.
sempre que me pego carregando a minha eu recito: somos todos uns pobres diabos. 
não sei muita coisa que efetivamente me alivie o peso. e não quero mais peso sobre a garupa. aquilo que vou descobrindo, que seja mais um retirar de ignorância do que um acrescentar de saber.
é difícil reconhecer que sou filho de avijja. mas a única forma de sair de baixo das enormes asas de mamãe é aceitando-a e compreendendo-a.
somos todos uns pobres diabos.
o que efetivamente sabemos que nos tire o amargo da boca quando comemos muito chocolate? 
qual o conhecimento que nos tranquiliza quando na insônia nos vem a lembrança de nosso destino certo: uma doença horrível, uma perda, a tumba...? 
o que eu sei que não possa ser dito ou pensado ou conceituado mas apenas organicamente sentido como paz no corpo e mente?
quanta tralha eu ainda preciso tirar da carroça antes de efetivamente abandonar a própria com suas rodas quadradas?

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Je Tsongkhapa

 abaixo, o texto que mais estudei, em sua versão extensa chamado Lam Rim, durante o tempo em que estive sob orientação de professores ligados à tradição tibetana de Je Tsongkhapa
embora envolvido com o buddhismo desde 1995, só passei a me considerar buddhista quando ingressei no estudo e prática por meio desta tradição, em 1999. este texto fundamentou o entendimento do dhamma que sustento até hoje.
a versão é do livro "Bondade, Amor e Compaixão" de Sua Santidade o Dalai Lama, editora Pensamento.




Os Três Principais Aspectos Do Caminho

Homenagem aos principais lamas sagrados

Explicarei o melhor que puder
O significado essencial de todas as escrituras do Conquistador,
O caminho louvado pelas eminentes Crianças Conquistadoras,
Porto para os afortunados que desejam a libertação.


Aqueles desapegados dos prazeres mundanos, a lutar
Para que lazer e fortuna signifiquem dignidade, inclinados
Que são para a senda que deleita ao Buda Conquistador,
esses afortunados devem ouvir com mente límpida.


Sem a profunda convicção de abandonar a existência cíclica
Impossível deixar de perseguir os frutos do prazer no oceano da vida,
E mais: o anseio pela existência cíclica agrilhoa por completo o encarnado.
Que se busque, pois, de início, a determinação de abandoná-la.


Lazer e fortuna são difíceis de encontrar
E a vida se esvai: esse conhecimento
Converterá em seu oposto a importância dada
Às exterioridades da existência.


Se pensarmos sempre e sempre nas ações,
Em seus efeitos, que são inevitáveis,
E nos sofrimentos da existência cíclica
Converter-se-á em seu oposto a importância dada
Às circunstâncias exteriores das vidas futuras.


Se tendo assim meditado, não geramos, por um instante sequer,
Admiração pelo florescimento da existência cíclica, mas se, dia e noite,
Se faz presente a atitude de busca da libertação,
O pensamento de abandonar para sempre essa existência foi gerado.


E mais, se o pensamento de abandonar de vez a existência cíclica
Não estiver enlaçado à geração da total aspiração pela iluminação suprema,
Não será ele a causa da bênção esplêndida da iluminação excelsa.
Sim: que os inteligentes gerem a tão alta e altruísta intenção de se converter em iluminados.


[Todos os seres comuns] são arrastados pelo continuum de quatro torrentes poderosas
E atados pelos liames de ações muito duras de combater.
Na jaula de ferro da autopercepção [existência inerente], lá estão eles,
Aturdidos pela densa escuridão da ignorância.


Vezes sem conta já nasceram, e cada nascimento
Traz a tortura incessante dos três sofrimentos.
Ao pensar nas mães que caíram nessa rede,
Geram eles então a intenção altruística de converter-se em iluminados.


Sem a sabedoria que compreende o modo de ser das coisas,
Mesmo que tenham sido desenvolvidos, tanto
O pensamento de abandonar para sempre a existência cíclica
Como a intenção altruísta,
A raiz da existência cíclica não poderá ser exteirpada.
Pratica, pois, os métodos que te farão entender a manifestação dependente.


Aquele que, percebendo serem inquestionáveis
Causa e efeito de todos os fenômenos
Da existência cíclica e do nirvana,
E destruir, inteiro, o modo de percepção equivocado
Dos objetos [tidos como de existência inerente],
Terá, assim, ingressado num caminho que apraz ao Buda.

Enquanto se afigurem como separadas as duas compreensões
Da indubitabilidade da manifestação dependente
E do vazio - a não-afirmação [da existência inerente] - 
Não será compreendido o pensamento do Buda Shakyamuni.


Quando [ambas as percepções ocorrem], simultâneas, sem alternância,
E quando, apenas por ver a manifestação dependente como indubitável
O conhecimento preciso destrói por completo o modo de percepção [da concepção de existência inerente], 
Está completa a análise da apreensão [da realidade].


E mais: exclui-se o extremo da existência [inerente]
[Conhecendo-se a natureza] das circunstâncias externas
[Que existem apenas como designações nominais].
E, ao extremo da [total] não-existência, elimina-se
[Conhecendo-se a natureza] do vazio
[Como ausência de existência inerente e
Não como ausência de existência nominal].
Se for por ti sabida, dentro do vazio, a presença da causa e do efeito,
Não serás aprisinado pelas percepções extremas.


Ao teres compreendido com exatidão, do caminho
Os três aspectos principais, no que tem de essencial,
Procura a solidão e gera o poder do esforço.
Que logo chegues à meta final, meu filho!




sábado, 13 de agosto de 2011

eu acredito - 1

quando um ser nasce, eu acredito que sua mente (ou parte dela, não sei bem) não surgiu com aquele corpo. acredito que mente é mente e matéria é matéria. duas naturezas distintas. e acredito nisso porque o Buddha assim ensinou, ao que parece. é algo em que confio. porque o Buddha, e isso é uma coisa que eu sei, foi muito preciso e acertou em muitas coisas, Suas instruções dão resultado, Sua teoria é extremamente coerente, Seu Caminho não me decepciona. quanto mais eu me aprofundo e pratico, mais desejo me aprofundar e praticar. então, minha experiência pessoal me garante este ato de fé sem problema. 
porém, eu mantenho esta crença num compartimento separado. ela não é o que define e nem sustenta minha prática. 
quando acreditamos que a mente segue num processo de condicionamento de um novo ser após a morte física, isto implica na aceitação da doutrina do kamma como definidor de alguns aspectos da vida daquele novo ser: méritos definem coisas boas, deméritos coisas ruins. doutrina que o Buddha declarou estar além da compreensão intelectual. e esta, sendo uma crença, não imediatamente verificável por experiência, tem um caráter dúbio. por exemplo: um buddhista como eu crê que está praticando o dhamma libertador do Buddha porque assim seu kamma o conduziu, ou seja, as ações passadas condicionadas pelas intenções deste mesmo contínuo mental frutificaram agora para que tal contato com o Buddhadhamma ocorresse, ou se repetisse, acontecimento digno de regozijo e alegria, um fator motivador. mas o mesmo raciocínio pode, em momentos em que outros fatores desta vida condicionam um estado mental menos animado, circunstâncias que, sabemos, não são raras, levar a pensar que os méritos não foram tantos assim, pois veja quão difícil é a prática, quão desprezível eu sou, ou o quanto minha vida é impulsionada por necessidades e tão pouco por escolhas...!  e, num movimento vicioso, deixar claro para nossa mente obscurecida como será difícil acumular os méritos necessários para um bom nascimento ou despertar futuro! por essas, mantenho a crença no seu devido lugar.
e é no próprio Buddhadhamma que baseio este meu caminhar.
Ajahn Buddhadasa ensina que há três tipos de nascimento elucidados pelo Buddha: o convencional, aquele que todos conhecemos, o nascimento através dos órgãos dos sentidos que ocorre a cada contato estabelecido entre olhos, ouvidos, pele, etc. e seus respectivos objetos e o nascimento mental que ocorre a cada vez que a idéia de eu e meu surge na mente. e é a compreensão destes dois últimos nascimentos que é relevante para obter o resultado da prática do Caminho, a saber, o cessar de dukkha, pois nada mais que dukkha e o fim de dukkha foi o que o Buddha ensinou.
a compreensão destes dois já é bastante a se fazer, mas é a compreensão do que está aqui, ocorrendo agora, é só uma questão de vir e ver. 
posso, assim, deixar a minha crença lá, nem pensar muito nela.
o nascimento que me interessa é este que ocorre agora.
a continuar, um dia...

quarta-feira, 30 de março de 2011

espiral

Como disse o Chico:

Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu...

A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega o destino prá lá ...

Verdade.
E eu comecei o dia assim.
Meio de saco-cheio de existir.
Saí a cumprir minhas obrigações samsaricas de sempre e alguma coisa diferente: quebrar um galho de um amigo procurando por uma revista que ele não conseguia achar... Achei!
E um outro havia perdido todos os seus documentos na minha cidade dia desses  (madrugada dessas, precisamente falando...) e eu havia prometido ajudá-lo na tentativa de recuperar, já que ele não mora aqui. Me lembrei da promessa.
Resolvi, então, dar uma passada nos Correios, para onde já havíamos telefonado uns dias antes para saber dos documentos sem sucesso, mais por desencargo de consciência por ter prometido e me empenhado aquém do que deveria, e ver se os documentos apareceram por lá... E não é que lá estavam! Quem quer que os tenha encontrado devolveu até que bem arrumados! Logo telefonei para o moleque e deixei ele feliz! Mas o interessante (ou não muito, mais...) é que aquela nuvenzinha preta que sombreava minha calva permitiu a passagem de uns raios de sol bem luminozinhos. Fazer o bem me fez bem, nenhuma novidade nisso. O cara estava bastante chateado, havia perdido todos os documentos, aquela mão de obra para tirar tudo de novo! E eu, muito felizmente, pude começar o dia dele com uma boa notícia! E dar continuidade ao meu condicionando uma melhora de humor considerável. E como a vida, me esforço nisso sempre, é o Buddhadhamma, logo me pus atento ao fato, já observado por aqui em algum post, de eu ser, meramente, este complexo de condições que se movimenta e pensa e age carregando a ilusão de um eu! Surge uma nova condição, cessa outra, e é o que basta para que a ilusão ganhe nova aparência: o eu de saco cheio vira o eu alegrinho e vice-versa! A vida em seus loucos encantos, para ser breve.
E a prática do dhamma, me parece, segue como uma caminhada numa espiral em cujo centro se encontra o Despertar. É para lá que precisamos manter a cabeça voltada enquanto caminhamos... Se assim fazemos, nos mantemos atentos aos marcos que estão no caminho para o centro, e várias vezes os discernimos... Parece que vamos revendo-os a cada vez mais de perto... Não é como viver uma mera repetição de situações, como no caso da roda viva! Ou como caminhar pela espiral do Buddhadhamma com a cabeça voltada para o lado de fora, desatentos ou desinteressados de saber para onde vamos ou o que estamos fazendo. E, até, saltando para um braço mais externo da espiral vez ou outra...
Fazer o bem é bom para quem faz.
O Buddha nos ensina a ir além e transformar o bem alcançado em algo superior: estar bem é uma condição muito preciosa para ser desperdiçada no mero desfrute. Quase tão ruim quanto começar o dia ouvindo e cantando Roda Viva.

***

Eis que anatta é atualização do "Uma Palavra Por Dia - A Pali Word A Day"

sexta-feira, 18 de março de 2011

morte

Tenho estado com a morte há alguns dias.
O início se deu com a narrativa saramaguiana das fabulosas intermitências. Nos entremeios, surgiram um texto do professor Ricardo Sasaki (dhammacharya dhanapala) sobre a concepção buddhista do pós morte e um longo diálogo sobre buddhismo e renascimento com uns materialistas. Isso me manteve no tête-à-tête com a morte por estes dias, com a morte na cabeça... E aí veio o tsunami, num desgraçante arremate a escancarar-me como é que, para a vida e a morte, dois nomes que, bem pode ser, inventamos para um mesmo mistério, não somos em nada diferentes das formigas. Apesar de todos os valores e importâncias que projetamos no mundo, nossos reality shows, minhas HQs, os celulares, os iQualquercoisa, desejos e encomendas que não chegam, nossos relacionamentos e momentos, nada disso nos resolve. Dificilmente vão além do que fazemos ir em conformidade com a nossa reconfortante estupidez: formas de mantermos os olhos fechados para o fato de estarmos morrendo.
Estar de papos com a morte na verdade significa meramente  tentar fazer-se ciente dela que sempre está conosco. 
Como ensinou o Buddha, nestas temporadas é quando mais sinto que dou passos no Caminho. Tomar consciência da presença da morte ocupa a mente com a certeza e coloca a dúvida a meu favor. Aonde eu estou é onde eu devo estar e é onde se dá minha prática. Tudo tem que ser percebido como sempre é, dhamma, se eu habito na consciência do que é inevitável e certo. Meu caminhar passa a ser constante e reto com a meta a minha frente, imediata, pois não sei se há tempo para 'chegar lá'. Minha única incerteza é com respeito a quando o fato se cumprirá. Estar com a morte me mantém atento para a importância de respirar e notar os movimentos do corpo e da mente. Pois qualquer que seja, o fim do movimento é um só. Estar com a morte me mantém atento para a minha igualdade com as formigas, minha desimportância e meu poder.

domingo, 7 de novembro de 2010

house X a mente quieta, a espinha ereta e o coração

Acho que é do funcionamento da mente esta aversão pela passividade. A qualquer estímulo a mente reage querendo algo mais do que aquilo que há.
Começar a entender que o fruto do cultivo da mente ensinado pelo Buddha é resultado de observar as coisas serem como são é algo que, paradoxo talvez, exige uma dose cavalar de esforço e boa vontade. Queremos, lá no íntimo, que a observação resolva para nós! Mesmo no estado de observação subsiste a natureza de querer que algo aconteça. Mas o Buddha ensina que nada vai acontecer antes que suas condições estejam presentes. Muitas fora de nosso controle. E uma delas a passividade. Mas aceitar isso chega a doer. E essa dor é mais uma coisa a observar. Assim como o é o desejo de que a dor passe.
O primeiro episódio da sexta temporada de House MD, chama-se Derrotado, é a ilustração de um aspecto disso. Permanecer na derrota até que se aprenda algo ao invés da busca frenética pela compensação da vitória. O poder da desistência. Porque não é hábil vencer o tempo todo. Além de não ser possível.
Ouvi de quem entende do assunto que ninguém subjuga um cavalo. Não ao menos quem aprecia ter um cavalo ao invés de um animal destruído. É preciso o entendimento. Um diálogo humilde deve ser estabelecido entre montador e montaria para que ambos se reconheçam e se aceitem. Só aí o cavalgar surge.
Temos que, humildemente, nos entender com as condições que nos mantém aqui. Compreender pela mera observação depende de verdadeiramente acolher àquilo que é tal como é. Parece que não há como ser de outra forma, não de um modo real, ao menos.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

mentira (de novo! fazer o quê?...)

Terminei de ler o livro "O  Que Nos Faz Felizes" do psicólogo americano Daniel Gilbert (Editora Campus/Elsevier). Resumindo, o livro fala sobre como nos iludimos na busca pela felicidade devido às falhas de percepção que temos.
Lê-se na página 149:

Se tivéssemos a experiência do mundo exatamente como ele é, cairíamos numa depressão tão grande que não conseguiríamos levantar da cama pela manhã, ficaríamos tão desiludidos que seria difícil achar nossos chinelos. É possível que tenhamos uma visão cor-de-rosa do mundo, mas essa visão nem é opaca nem é muito clara. Não é opaca porque precisamos ver o mundo para participar dele, para pilotar helicópteros, fazer a colheita do milho, trocar as fraldas dos bebês e todas as outras coisas que os mamíferos precisam fazer na luta pela sobrevivência. Mas também não pode ser muito clara, pois precisamos de um pouco de rosa para projetar os helicópteros ("Tenho certeza de que esse negócio vai voar"), plantar o milho ("A safra deste ano será ótima") e ter os bebês ("Que coisinha mais linda!"). Não podemos abrir mão da realidade, mas também não podemos abrir mão da ilusão. Cada uma tem seu propósito, e cada uma impõe um limite ao domínio do outra. Assim, nossa experiência do mundo resulta do compromisso fechado entre essas duas fortes concorrentes.

A ideia é desenvolvida em todo o livro mas na página 154 há o seguinte:


No final das contas, o cérebro e o olho talvez tenham uma relação contratual na qual o cérebro concorda em acreditar no que os olhos vêem, mas, por sua vez, o olho concorda em ver aquilo que o cérebro quer.


Quem tem passado por aqui deve imaginar que estes foram meus trechos preferidos do livro. Está certo. Foram. Acho legal que as disciplinas que estudam a mente acabem sempre esbarrando nalgumas verdades buddhistas.

Mas o autor para por aí.
Terminei o livro com a sensação de que sua proposta é que cheguemos a uma resignação com esta nossa, segundo ele, imutável condição de simbiose com a ilusão. Temos que aceitar que entrar em acordo com a ilusão é a forma de ser feliz e, todas as vezes que nos desiludirmos em função desta inescapável necessidade, podemos extrair algum consolo do prazer de saber que é assim que as coisas são. Ou seja, estou perdido, mas pelo menos eu sei que estou perdido e este saber é fantástico!
E há quem considere o buddhismo uma visão pessimista da vida!
Entendo o buddhismo como sendo, fundamentalmente, uma doutrina de transformação pela percepção/conhecimento. Afiamos a mente tanto em termos perceptivos quanto cognitivos através do cultivo da atenção reflexiva/vigilante.
Assim, onde para o autor, começa o Buddha.
A felicidade de saber que não há felicidade no mundo  não surge de saber que  não há felicidade! 
Há o nibbana.
O nibbana declarado pelo Buddha é um objeto da mente. E segundo o Venerável Ajahn Buddhadasa, muito mais acessível do que séculos de elucubrações metafísicas acabaram ocultando! O Buddha, quando nos diz que ao continuarmos buscando a felicidade da forma que buscamos só vamos ter problemas, afirma como 'opção' a felicidade real . Saber que não há felicidade no mundo é apenas a primeira parada rumo a felicidade. 
Deste ponto deveríamos levantar a cabeça e mirar os olhos na direção que o dhamma aponta!
Eis o ato que requer um esforço colossal da maioria dos humanos: considerar a possibilidade de um tipo de felicidade que não seja nos moldes do 'mundo'. Um tipo de felicidade que não dependa de ganhos parece até assustador para nós! Mesmo quando nos 'espiritualizamos' continuamos a conceber a felicidade da forma que sabemos: paraísos, sensações, lugares maravilhosos! Nossa versão de felicidade espiritual não consegue ser mais do que uma hipermundanidade. Continuando a nossa busca por felicidade nos mesmos moldes de sempre, a prática buddhista que para mim é uma espécie de desaprender os caminhos do mundo, em especial aqueles para a felicidade, é corrompida e rebaixada a um paliativo para a tristeza que resurge, para a frustração que resiste, para a insatisfatoriedade que permanece oculta da mente e ativa, como sempre foi, no coração. 
Um buddhismo para uso tópico.
Eu acho que temos que fazer uma escolha: ou ficamos na nossa versão do caminho do meio que é um vagar bobo e assustado entre aquilo que o dhamma revela e a nossa zona de conforto que sabemos ilusória ou damos o passo no Caminho do Meio do Buddha que requer alguma coragem para, ao menos, procurar por uma felicidade que não dependa de resignação com a natureza irremediavelmente ilusória do mundo.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

mentira, mentira, mentira

Desde que comecei a ler este texto do bikkhu Bodhi, ponderá-lo e mantê-lo como referência em comparações e estudos, minha compreensão sobre os preceitos buddhistas, sobre sila, vem se transformando, ganhando clareza e fortificando minha convicção no Caminho.
E, especialmente o trecho em que ele disserta sobre o abster-se de mentir, abster-se do uso da comunicação como recurso para o engano, me gerou uma percepção que,  talvez de tão  aparentemente simples depois de surgida, me enche de uma energética alegria a cada vez que o contemplo:

It is said that in the course of his long training for enlightenment over many lives, a bodhisatta can break all the moral precepts except the pledge to speak the truth. The reason for this is very profound, and reveals that the commitment to truth has a significance transcending the domain of ethics and even mental purification, taking us to the domains of knowledge and being. Truthful speech provides, in the sphere of interpersonal communication, a parallel to wisdom in the sphere of private understanding. The two are respectively the outward and inward modalities of the same commitment to what is real. Wisdom consists in the realization of truth, and truth (sacca) is not just a verbal proposition but the nature of things as they are. To realize truth our whole being has to be brought into accord with actuality, with things as they are, which requires that in communications with others we respect things as they are by speaking the truth. Truthful speech establishes a correspondence between our own inner being and the real nature of phenomena, allowing wisdom to rise up and fathom their real nature. Thus, much more than an ethical principle, devotion to truthful speech is a matter of taking our stand on reality rather than illusion, on the truth grasped by wisdom rather than the fantasies woven by desire.

Traduzindo pode ficar assim:

É dito que no curso de sua prática rumo ao despertar ao longo de muitas vidas, um Boddhisatta pode quebrar todos os preceitos morais exceto o compromisso de falar a verdade. A razão para isso é muito profunda e revela que o compromisso com a verdade tem um significado que transcende o domínio da ética e até mesmo da purificação da mente, levando-nos ao domínio do conhecimento e da existência. A fala verdadeira provê, na esfera da comunicação interpessoal, um paralelo com a sabedoria na esfera da compreensão individual. As duas são, respectivamente, as modalidades externa e interna do mesmo compromisso com o que é real. Sabedoria consiste na realização da verdade, e por verdade (sacca) não se entende apenas uma afirmação verbal, mas sim a natureza das coisas como elas realmente são. Para realizar a verdade, nosso ser inteiro deve ser conduzido em conformidade com a realidade, com as coisas como elas são, o que requer que, na comunicação com os outros, nós respeitemos as coisas como elas são, falando a verdade. A fala verdadeira estabelece uma correspondência entre o nosso ser interno e a real natureza dos fenômenos, permitindo que a sabedoria desperte e investigue a sua real natureza. Assim, muito mais que um princípio ético, a devoção para com a fala verdadeira é uma questão de tomar posição em favor da realidade ao invés da ilusão, da verdade apreendida pela sabedoria ao invés das fantasias tecidas pelo desejo. 

E observando o mundo comprovo a onipresença da mentira.
Como gostamos de estórias.
Gostamos de todos os tipos de mentiras: desde aquelas inofensivas, contadas por aquele mentiroso compulsivo que há em quase todo grupo de amigos, aquela pessoa que sempre tem um fato engraçado, pitoresco ou interessante para contar de uma vez que aconteceu com ela, até as dos terríveis mentirosos que nos prometem tanto tantas vezes. Que aparecem a cada ciclo eleitoral com soluções arrojadíssimas para inúmeros problemas que a mera honestidade solucionaria.
Adoramos a beleza dos fotoshops, dos efeitos especiais, das maquiagens e roupas.  Adoramos os aromas dos perfumes. Nos deleitamos com os sabores da existência. O progresso nos oferta, cada vez mais, infindáveis opções de fantasias e proteções.
Dentro destas armaduras a realidade segue.
É uma opção que é feita cada vez mais às cegas. Tudo é mantido e engendrado de tal forma  a nos fazer ignorar que há algo que não se pode deter por baixo da cobertura. E é por que todos gostamos! É da natureza de avijja, o mal de que todos padecemos, gostar disso. Não é  'por mal' que mentem para nós. E porque mentimos. Num sentido mais fundamental, parece que nos enganamos porque só sabemos viver assim.
Até que alguém desperte!
Não é fácil aceitar que mentimos. Aceitar que construímos a vida, mesmo coisas das quais gostamos tanto, sobre algum(s) tipo(s) de mentira. E que até mesmo o gostar pode ser mentira! Aquele mentiroso do nosso grupo não é boa companhia? Alegre, divertido, descontrai! Faz a gente rir! Sempre está acompanhado. Quem não tem o dom de contar estórias não é tão popular. Sua vida comum e sem aventura não interessa a ninguém! Nem a ele mesmo!
Não sabemos o valor da realidade.
Nossa ignorância nos assegura que pensar em morte, envelhecimento, doença e introspecção e auto-conhecimento é uma coisa desagradável. Parece que temos que optar pela beleza da rosa ou pela matéria podre que lhe possibilita a vivacidade!
Será que precisamos escolher entre esta dualidade? Ou existe uma possibilidade de ver a inadequação que existe em ambas as aparências?
A atenção diligente nos permitirá ir além. Tanto das mentiras que nos contamos quanto da realidade que nos amedronta. Se vencermos o medo inicial e persistirmos com confiança, o Buddha nos oferece a paz de não precisar escolher. Nos diz que a visão da realidade nos liberta da dependência dos gostos e desgostos para nos sentirmos vivos. Nos livra do apreço pelas construções, pelos engendramentos que parecem dar graça às nossas vidas.
Talvez eu continue...

sexta-feira, 25 de junho de 2010

o s do samadhi

Foi só um exemplo, tentativa de metaforizar a forma como eu venho aprendendo a meditação, o cultivo da mente/coração. Mas um kalyanamitta gostou e sugeriu que eu escrevesse mais sobre o assunto.
Vamos lá!
No início da minha prática, meditação era uma coisa! Era um evento assim, um momento especial. Sentava ali com aquela missão: meditar. Um compromisso. Como estudar para uma prova... Ou ir para a escola. Ou qualquer outra das coisas pelas quais "momentificamos" os nossos dias. Fotografamos, pintamos as cenas da nossa realidade e entramos numa. Depois pulamos para outra e assim seguimos pelos fotogramas compondo nossas existências. Unindo um ao outro só com o ilusionista poder do "Eu estava lá, agora eu estou aqui. Eu fiz isso, depois eu farei aquilo..."
Mas o buddhadhamma vai revelando.
Caminhando pelo Nobre Caminho é que a gente vai juntando as imagens. As fronteiras vão se tornando mais e mais estorvantes. A luz do samadhi se fortalece pouco a pouco e vai iluminando a inteireza da vida que as sombras do ego encobrem. A disciplina  e a vigilância nos impedem de cochilar entre um quadro e outro, a resolução das imagens que captamos são ampliadas e abandonamos pouco a pouco o modo de viver entre intervalos. Até o dia em que não houver mais o que juntar!
Mas a metáfora foi outra!
Foi o seguinte:
Achei que o Ayrton Senna, que eu fui conhecer melhor só depois da tragédia, que antes era só o cara que tinha a mania de carregar aquela bandeirinha quase todo domingo, tem algo a ensinar sobre meditação.
É triste essa coisa de não atentar aos vivos.
Ainda bem que sempre bradei aos ouvidos interessados minha intensa reverência intelectual pelo Saramago!
Depois da morte do campeão eu fui levado pela enxorrada de fatos e relatos e o que mais me chamava a atenção era a idéia que eu apreendia da forma pela qual ele vivia o esporte que escolheu. Uma imagem forte que eu compus foi a do cara  que se dedicava e amava tanto o que fazia que não via diferença entre treinos e corridas, era só o pilotar! Todo o tempo, sentou no cockpit, é pilotar!  O mesmo fascínio e prazer, fosse competindo, fosse reconhecendo pista, fosse testando carro! Enxergo tanta paixão na maneira como ele construia sua carreira, trabalhava e até pensava sua arte que minha admiração cresceu e ficou. Me encantei muito mais com esta versão, com este espírito, do que com o dominical portador da bandeira nacional e grande vencedor. E sempre que penso no Senna, é isso que em mim evoca: dedicação, esforço, diligência. Que extrapolam para além do exercício, do aparente objeto. Que tomam conta da vida. Sem diferir.
E foi esta, literalmente, a metáfora que usei para descrever tudo o que disse antes.
E, claro, fica aqui uma lembrança e mesmo homenagem de um blog buddhista ao grande campeão que, além de tudo, inspira algo em  minha vida espiritual.
Pã-pã-pããã...  Pã-pã-pããã... 

sábado, 27 de março de 2010

o sentido

O Buddha diz que se não houvesse o prazer no mundo, os seres não engendrariam a adesão ao mundo. 
O modo de funcionar dos sentidos é este: prazer e dor. E neutralidade. Esperar que chocolate um dia pareça jiló é ilusão! Chocolate é bom, para mim e para o Arahant (que goste de chocolate!). 
Não é confiando nos sentidos que a Renúncia será experimentada. A função deles é manter a Roda girando. 
Já a observação sábia dos sentidos, por outro lado, garante um conhecimento crescente de seu funcionamento e o do mundo. E é desse conhecimento que, até que se prove o contrário, surge o desgosto, o afastamento e a Renúncia.
O Buddha não ensina a transformação do mundo. Ensina, meramente, sua compreensão.

segunda-feira, 8 de março de 2010

refresco

Uma pergunta útil a um praticante buddhista: isto me aproxima do nibbana?
Diante do mundo e seus apelos de ação, reação, escolhas, decisões, eu acho que a pergunta acima precisa ser feita por aquele que acredita ter alguma compreensão e/ou fé com respeito ao que o Buddha ensinou sobre este mundo. 
Nem tudo (? - cada um precisa saber o tamanho do ponto de interrogação) que fazemos, por vontade ou necessidade, ainda mais visto que as duas se misturam para a maioria de nós, nos aproxima do nibbana. Mas, uma vez que respondamos a esta questão a cada lembrança que dela  conseguirmos ter, podemos levar uma vida mais consciente e assentada na realidade. Com  menos arrependimentos, ganhamos uma mente mais leve, mais apta ao cultivo. 
Se fomentamos nossa prática por aquela busca expressa nos textos antigos do cânon pali, o permanente auto-questionamento é um meio hábil e salutar de manter os pés no caminho ainda que nas nossas frequentes paradas para um refresco.


quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

resoluções

Sejamos todos bons discípulos, diligentes e disciplinados.
Honremos o Buddha, o Dhamma e o Sangha perante os nossos. Que nosso refúgio seja nossa vigilância e atenção conforme ensinado pelo Buddha. Que nos esforcemos para viver o Dhamma do Buddha a cada respiração. Que através da prática conheçamos a serenidade em meio à vida. Que possamos reagir de forma saudável e conducente à paz tanto às alegrias quanto às tristezas que virão. Que nos façamos aptos ao deleite que vem do conhecer o surgir e cessar dos fenômenos. Que não temamos a impermanência. Que possamos aceitar, sabiamente, a natureza insatisfatória da existência. Que possamos viver plenamente a realidade em seu completo vazio.
Que busquemos a paz que está além de qualquer início ou fim.

Speech by ReadSpeaker