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segunda-feira, 24 de abril de 2017

me editar








fora isso 

que senta e pensa 
que pensa e passa
que passa e volta
que volta e sente
que sente e sofre
que sofre e surta
que surta e levanta
que levanta e pensa
que pensa e passa
que passa e volta
que volta e senta
que senta e sofre
que sofre e sente
que sente e pensa
que pensa e surta

fora isso

não encontrei mais nada

quarta-feira, 29 de março de 2017

imagens

Forma é como uma massa de espuma;
sensação uma bolha de água;
percepção uma miragem;
formações volitivas uma bananeira;
consciência, um truque de mágica


O Caminho começa onde estamos. 
Esse é um fundamento explicitado no Dhamma do Budddha por toda a coleção de seus ensinamentos no cânone antigo.
É aqui. É agora.
Você não começa por acreditar. Nem por não acreditar.
Você começa por ver o que está agora e observar isso, girar isso, burilar, mudar de posição, ficar nisso, investigar coisas que sempre pareceram não ter nada para investigar.

Uma instância em que este princípio se mostra de forma fascinante, na minha opinião, é quando o Buddha se utiliza de imagens como as do sutta citado acima para nos apontar a profundidade que Sua sabedoria alcança. 
Vamos das impressões causadas por obviedades imergindo a visão em profundidades até então não alcançadas no nosso mundo pessoal. 
E esse nosso mundo começa a ser transformado, mas no que sempre foi. 
Uma divertida sensação de espanto com aquilo que já era. 

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

menos

Mais uma manhã sobre a almofada. 
Manhã de natal.
Moro num lugar em que as manhãs são sonoras. Pardais, pombos, bem-te-vis, galos, vários outros cantos e trinados, alguns latidos.
A natureza me diz que este é mais um amanhecer. E só.
Nada demais.
Sem fixação, me dizem os pássaros, não há nada de especial, só respire com atenção, nos ouça e nos deixe, estamos só sendo, como você, só respire atento ao ar que passa, ao momento que passa, deixe ir. Deixe-se ir, como inevitavelmente você vai, como nós vamos, como se vai tudo no espaço em que o seu corpo aflora, como se vai tudo no tempo em que sua mente cria. 
Menos uma manhã.
Nada mais.

sábado, 26 de setembro de 2015

corpo esquecido

Como se fosse um saco cheio de vários tipos de grãos e pela sua abertura olhássemos e identificássemos cada um dos tipos contidos nele, assim nos pomos a dissecar o corpo, discriminando suas partes e órgãos. Esta foi uma das formas que o Buddha nos ensinou, no satipaṭṭhāna sutta, para instigar o questionamento de nossa identificação com nossos corpos. Uma outra é a contemplação do processo de desintegração de cadáveres.
Quando o Buddha dizia que seu ensino ia contra a corrente do mundo, muitos de então talvez não imaginassem como isso soaria dois mil e quinhentos anos depois.
Hoje, com todos os recursos que há para esculpirmos nossos corpos, sermos nossos corpos é inquestionável.

Mas voltemos ao ensinamento.
Enquanto confiantes no Buddha, praticamos examinar aquilo de que somos compostos, ou os entes materiais com os quais nos identificamos, trazendo para a luz da consciência a natureza medíocre da matéria que gostamos de esquecer: átomos e moléculas, que são só o que tem que ser átomos e moléculas.

Graças ao atual conhecimento sem igual de átomos e moléculas temos inúmeros recursos para moldar nossos corpos. Quase como os oleiros moldavam a argila em belos potes nos tempos do Buddha.

Podemos sentir dor quando quebra-se um pote do qual gostamos, ao qual estamos apegados, no qual projetamos sentimentos e sensações. Felizmente é mais fácil optar por estabelecer ou não uma relação assim com potes.
Com o corpo há a ignorância fundamental e o mundo que gira por ela a nossa volta nos mantendo a ser corpos muito menos maleáveis e dóceis que argila. Muito mais decadentes.
Nos falta opção?
Somos consciência e matéria. Seja lá o que forem tais coisas, é possível, a partir de nossa experiência, afirmar este mínimo da nossa existência. 
O Buddha nos deixou métodos, como os citados acima, para confrontar a matéria de forma direta e franca dentro de nossa experiência do existir e descobrir se há uma opção para existirmos menos sujeitos à sua mediocridade. De várias formas inclinamos nosso ser ao escrutínio deste ente com que tão arraigadamente nos identificamos até sentir profundamente se é, ou não, dolorosa e frustrante esta identificação.
Trazer à consciência a natureza nua de nosso corpo, contra tudo o que há para nos fazer esquecer, talvez seja o  que exerça, dentro do preciso e vasto ensinamento do Buddha, o papel de um poderoso motor a nos impulsionar contra a correnteza.

domingo, 9 de agosto de 2015

Cultivador Da Sabedoria 3

"Para ser bem sucedida, a prática da meditação tem de abranger toda a pessoa e todos os aspectos da vida diária. O caminho da prática tem causa e efeito, o que significa uma fundação adequada conducente a bons resultados. Não podemos escolher nos ocupar com alguns aspectos do caminho e negligenciar outros. Se fizermos isso, todos os nossos esforços acabarão por se revelarem decepcionantes."

terça-feira, 30 de junho de 2015

O Discípulo Laico*

Este é o discípulo do Buddha, vivendo em seu lar. Ele tem confiança no despertar do Buddha. Ele treina a si mesmo para purificar suas ações e sua fala. Ele cultiva a generosidade, aprende a ceder e a deixar ir. E esta é a sua prática: ele aproveita as oportunidades para ouvir o Dhamma - a palavra do Buddha - de monjas e monges despertos. Mas isso não é tudo. Ele sustenta a lembrança do Dhamma que ouviu. Ele tenta memorizá-lo, mantê-lo em sua mente. Porque ele sabe que, assim, vai refletir sobre ele, observar, investigar, compreender profundamente. Então, por tal prática, ele sabe, sendo esta uma lei natural, sua vida vai seguir o processo, inevitavelmente.
Lenta mas seguramente, toda a sua vida é tocada e transformada pela mágica que é o milagre do Dhamma: em seu trabalho ele é aplicado, trabalhador e diligente. Em suas finanças ele é generoso, evitando dívidas, consciente dos benefícios de poupar e nunca se esquecendo de avivar o espírito de sua família e amigos. Ele cuida bem de seus pais, a quem deve sua formação e orientação na vida, e instrui e apoia seus filhos e companheiros sempre buscando se associar com pessoas boas e nobres. Assim, sua vida mundana está num equilíbrio que lhe permite dedicar mais tempo e clareza à vida espiritual.
Pelo menos uma vez por semana, vestido de branco, símbolo da pureza, ele desfruta de um dia de silêncio e contemplação. Ele determina sua mente a aplicar-se neste nobre treinamento de corpo, fala e mente. Ele sabe, cada dia passado a seguir os passos dos Arahants será, na soma final de seus dias terrenos, mais valioso do que qualquer fortuna em sua conta bancária. Neste dia, ele lembra-se do Dhamma que aprendeu, pode também jejuar, mantendo-se leve e simples, refletindo sobre as palavras do Buddha. Ele pode contemplar as qualidades do Buddha, aquilo que caracteriza um Desperto, ele pode contemplar Dhamma e Sangha. Ele pode lembrar das qualidades dos Devas sabendo que sua vida, se purificada desta forma, irá conduzi-lo a tal estado mental e nenhum outro.
Começa todos os seus dias com as cinco contemplações saudáveis pela manhã. Todas as manhãs ele reafirma a sua confiança no mestre, o contemplativo Gotama, na sua explicação do Dhamma e no grupo de discípulos que seguem esse caminho com sinceridade. Todas as manhãs, ele reflete sobre as virtudes que está determinado a pôr em sua vida e reflete sobre como pode praticar generosidade naquele dia. Todos os dias, ele se exercita, para fortalecer sua lembrança dos ensinamentos do Buddha, recitando as palavras do Desperto de memória. Todos os dias pode-se encontrá-lo calmamente refletindo sobre o significado do Dhamma que ele aprendeu. Outros chamam de meditação, ele chama de sammā samādhi e bhāvanā, ou desenvolvimento, pois ele sabe que isto é como uma planta, precisa de atenção constante e manuseio cuidadoso para que cresça forte a dê frutos.
Ele sabe que da confiança vem serenidade, e da serenidade alegria. Tal alegria interior vai levá-lo mais do que frequentemente à permanência tranquila dos quatro jhānas. Ele sabe como utilizar a perfeita calma e equanimidade do quarto jhāna para lembrar suas vidas passadas, sim, ele pode dominar habilidades como essa, mas acima de tudo, ele não conhece maior alegria do que refletir sobre a impermanência dos seis sentidos, observando seu borbulhante surgir e cessar conforme sua sabedoria cresce, não conhece maior alegria do que observar os cinco agregados surgindo e se dissolvendo, contemplando a origem dependente que conduz a um profundo insight e sabedoria purificadora.
Conforme seus dias periódicos de meditação (Uposatha) se desenvolvem em profundidade, guiado e alinhado pelas palavras do Buddha que ele preza como um antigo tesouro, sua habilidade em aprofundar seu despertar através da aplicação das meditações como descritas pelo Buddha torna-se formidável. Ele, vestindo branco, ainda vivendo entre esposa e filhos, mantém a sua mente firmemente empenhada na atenção plena ao corpo, ou às quatro satipatthanas, ou à meditação pela respiração, conducentes a profundos insight e sabedoria e aos frutos de entrar na correnteza, de só mais uma vez retornar e de não-retorno. Este ele sabe ser o caminho para Nibbāna conforme apontado pelo Desperto.

Com base nos seguintes suttas:
•                       Mahanama Sutta,   AN.8.25
•                       Vyagghapajja Sutta,   AN 8,54
•                       Singalovada Sutta,   DN 31
•                       Sakka Sutta,   AN 10,46
•                       Muluposatha Sutta,   AN 3,60
•                       Uposatha Sutta,   AN 8,41
•                       Nandamata Sutta,   UMA 7.6
•                       Cittasamyutta,   SN 41
•                       Gihi Sutta,   AN 5,179
•                       Anana Sutta,   AN 4,62
•                       Nakula Sutta,   AN 6,16
•                       Velama Sutta,   AN 9,20
•                       Brahma Sutta,   ITIV. 106
•                       Cinco reflexões diárias: Abhiṇha Paccavekkhitabbaṭhāna Suttaṃ,   AN 5.6.7   e   Aqui




*texto traduzido e publicado sob autorização do autor.
original aqui.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Cultivador Da Sabedoria 2

Conforme dito aqui, mais trechos:

"Quer seus alunos fossem novatos em meditação ou monges envolvidos em uma vida inteira de prática espiritual, Ajaan Pañña salientava que o desenvolvimento da concentração e sabedoria meditativa requeria a observância de certos princípios universais. Em essência, este processo envolvia uma progressão do externo para o interno; do grosseiro ao refinado; da ênfase no corpo à ênfase na mente; e de um estado de atividade a um estado de quietude. Para ser bem sucedida, a meditação deve ser uma disciplina que envolva toda a pessoa e todas as facetas da sua vida diária. É um caminho de prática que engloba tanto causa como efeito: a fundação apropriada levando a resultados apropriados. Praticantes não podem simplesmente optar por cumprir alguns aspectos do caminho e negligenciar outros; caso contrário, todos os seus esforços acabarão por se revelar decepcionantes."

(...)

"Ajaan Pañña imprimia em seus alunos a noção de que a prática da sabedoria cobria uma gama muito ampla de fenômenos mentais. Por causa disso, eles tinham que procurar métodos criativos para lidar com as inúmeras possibilidades que podiam surgir no decurso das suas investigações. Eles não podiam esperar que os métodos adequados simplesmente aparecessem do nada para si. Os métodos corretos, os que fossem mais adequado às suas necessidades, poderiam ser bastante evasivos. Não era uma questão de simplesmente sentar e observar a consciência em seu ir e vir. Eles tinham que buscar seriamente pelo método correto, ou então nunca iriam encontrá-lo. Eles tinham que fazer uma escolha deliberada de que facetas da mente iriam observar, escolhendo os aspectos mais relevantes com base em seus insights sobre o Dhamma. Para que isso acontecesse, eles deveriam realmente aplicar diligência ao que estavam fazendo. A investigação devia ser algo importante para eles. Para serem verdadeiros cultivadores de sabedoria, eles deveriam dedicar o tempo e o esforço para desenvolverem adequadamente a prática da sabedoria. Se o fizessem, a mais elevada realização não estaria fora de seu alcance.
'Essa era a essência geral das palestras que Ajaan Pañña oferecia igualmente aos monges e praticantes laicos."

sábado, 7 de fevereiro de 2015

pazes

a história é aquela: o herói sai em busca do que ignora carregar no bolso por toda a jornada cheia de aventuras.
voltando ao ponto de partida, alguma coisa o faz olhar dentro do bolso.
a biografia do Buddha conta que num momento crucial de sua busca Ele se lembra de um dia em que, ainda infante, experimentou algo oriundo de um momento de quietude interior no quintal de seu palácio, na companhia de seu pai. e resolveu seguir aquela pista. 
deu no que deu.
esses toques parecem dizer que, em tese, é possível despertar até assistindo ao big brother. 
talvez fosse mais fácil se tomássemos o caminho mais difícil de dedicação integral ao cultivo da mente, à reformatação da percepção e concepção do mundo. mas como a vida não é nossa, e aceitar isso parece ser já uma gota de sabedoria, a melhor opção é fazer as pazes com nossa própria jornada.
lavar louça, varrer a casa, limpar o banheiro pode ser uma viagem.
acordar bem cedo para trabalhar. trabalhar à noite... quanta coisa acontece, quanto material vazio, impermanente, difícil de suportar surge por todos os lados!
a vassoura quase esmaga uma aranhinha que sai em atabalhoada fuga. o varredor pode bem parar um momento e questionar-se em que ponto a sua limpeza vale mais que a vida da aranha... respirar, aquietar e varrer a mente. um pouquinho.
e de pouquinho em pouquinho vai-se tomando o caminho de dedicação integral ao cultivo da mente. quem sabe quando o mais difícil deixará de ser?


terça-feira, 18 de março de 2014

aquele alguém especial

todo mundo tem alguém especial. 
é isso? deve ser... se não todo mundo, ao menos eu tenho: aquela pessoa que me lembra, a cada encontro, que estou longe de ser o que penso, ou que gostaria de ser. aquela que me lembra do caminho sobre o qual gosto tanto de escrever.
aquela pessoa, tão desprezível se me apresenta, tanta aversão me desperta, me traz à realidade de que metta sobre a almofada é outra coisa. na ordinária vida fico feliz por não lhe desejar mal. é o que dá para fazer.
constrangido diante de mim mesmo lembro do sutta em que o Buddha afirma que não será considerado seu discípulo aquele que mesmo tendo seus membros serrados nutrir ódio pelos serradores. olho para o infeliz na minha presença e lhe desejo felicidade proporcional à distância que se mantiver de mim. e, sempre, que tenha um bom renascimento.
preferencialmente do outro lado de qual mundo seja que estivermos dividindo.
meditar em metta me parece ser paralelo às práticas tântricas de trazer o resultado futuro para o momento presente, quando tantristas se visualizam como seres puros, habitando mundos puros. sentado na almofada, distribuindo amor aos seis cantos, é estar neste estado ideal. 
mas a vida é a vida.
e não é só uma questão das pessoas que se tornam especiais daqui para a frente ou pouco antes. tem aquelas que marcaram e, até que possível o contrário, estão imperdoáveis. 
há coisas que só se perdoa sobre a almofada. ao primeiro encontro ou lembrança: é, ainda está longe o despertar!
catastrófico quando tais marcas são impressas por aqueles a quem temos o dever de amar, que idealmente serviriam de parâmetros para que desenvolvêssemos amor por todos os outros: nós, os pais. estes seres que podem ser tão terríveis. aí a dificuldade de perdoar em todo seu poder de frustração. 
ó vida.
devo me ater a este estado (miserável) de coisas? suportarei este encarar a dificuldade do perdão? que outra opção além de sentar, ou nem sentar, e me imaginar amando o mundo...? fazem bem esses momentos, é fato. isso já bastaria mas, além, é treino recomendado expressamente pelo Buddha como condutor ao nibbana, ao fim final, àquele estado em que amar, não amar, perdoar, não perdoar serão questões sem sentido...
é acreditar e seguir em frente e, no final das contas, grato à toda pessoa especial.

terça-feira, 11 de março de 2014

parei de meditar

parei de meditar.
o caminho é cheio de sutilezas, isso é coisa que se vai aprendendo. 
ajahn chah, numa palestra, fala que alguém o questionou sobre o motivo de aparentes contradições que via nas orientações que ele dava a diferentes alunos. ele explicou que diferentes pessoas tem diferentes caminhadas e se desorientam por desvios diversos, daí a necessidade de puxar alguns para um lado, empurrar outros para outro, segurar estes e largar aqueles... leio tantas coisas de ajahn chah que não sei qual palestra é, mas está por aí pela rede (ou em livros). você vai acabar achando, se for como eu. graças ao pouco mérito que creio ter acumulado, meu diálogo com os mestres se dá por esta mão. plantei limões, e com eles vou fazendo minhas limonadas. dependendo da sede chupo alguns in natura.
então, parei de meditar.
num tempo a meditação foi ficando uma coisa de outro mundo, por assim dizer. muita expectativa por alguma coisa especial demais, alguma revelação talvez, algum estado, alguma super visão... e isso atrapalha e muito desanima, porque você senta e levanta o mesmo, aparentemente. daí você para.
mas não abandonei a meditação. 
tomei distância para refletir e contemplar e estudar. dei um tempo.
quando quebrei a rotina do sentar forçosamente na busca pelo momento especial, a rotina nada especial da vida se destacou como fonte de prática e insight. porque sem o dhamma não consigo ficar, meus limões são de boa qualidade e fartos, descobri. só tudo isso.
e o momento de sentar de novo se impôs.
é aí que redescubro o valor da meditação. aquilo, que as expectativas e intenções passaram a ocultar, recupera o frescor. as rotinas se integram novamente. breves momentos de paz, modestas visões, diminutos insights com sua grandeza visíveis de novo, deixando marcas na mente e transpassando o ordinário de cada dia.
cada um é um. cada um com sua passada, seus tropeços, suas paradas. para mim, vai sendo assim. na impossibilidade de dizer algo, digo uma só coisa: se entrar nessa senda, nunca pare de meditar.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

as voltas que o mundo dá

falei: "aproveite bem esse tempo sozinho. algumas das minhas melhores lembranças da infância são de momentos de solidão." no que de pronto, franco e veloz, como os pequenos são, ele replica: "puxa, sua infância foi horrível, hein!?"
pois é. não foi. ou talvez tenha sido...
quando a terra está perto de completar mais uma volta em torno do sol coisas assim acontecem e são percebidas, intensificando a inclinação à reflexão. mais de quarenta voltas, agora. e aí?
outra boa que me remeteu àqueles infantes mas não menos atormentados tempos foi ao ler no livro passo a passo, publicado pela edições nalanda via amazon, o mestre maha ghosananda falar de um método de meditação em que se mantem a atenção focada por longos períodos apenas no movimento da mão a subir e descer. eu ficava, na minha pequenina concha, por tempo abrindo e fechando a mão intrigado com o que afinal, misteriosamente, fazia aquela mão se mexer.
tempos que não voltam mais. 
mas só tempo que continua como sempre. 
não tenho qualquer saudade do passado, seja ele qual for. nunca penso em reviver nada ou em como era bom. porque nunca me parece ter sido tanto assim. tenho uma espinhosa consciência das imperfeições na jornada que continua. "eu era feliz e não sabia" é uma frase que ainda não disse. cuido para que nem mais adiante. 
meu gosto pelo dhamma do Buddha certamente vem disso, desse tom mais para "nunca fui feliz e sempre soube". 
certa vez num grupo de estudo buddhista eu fiz uma brincadeira com a minha visão de como teria sido a infância do menino que viria a ser o Buddha. uma criança esquisita como eu gostaria que tivesse sido. isso certamente para eu crer que tenho alguma chance, apesar de tudo. para que todas essas voltas que o mundo tem dado comigo sem o meu consentimento sirvam para algo além do que tem sido. 
mais de quarenta. e aí?
o mesmo. 
agora autorizado por um grande mestre, sento e foco no movimento de subir e descer da mão sabendo que não há nada de estranho nisso.


sábado, 19 de outubro de 2013

saṃsāra

que caos!
barulho
tumulto
stress

gente correndo
comigo e contra mim
vozes, gritos, cores, calor, frio
carros, obrigações, gente, gente, gente

CHEGA!

e se eu meditasse?

sento
concentro
relaxo
chego
fico
paz

ah
a paz
deleite que é o centro
fico
a paz
aqui
relaxo
a paz

ah
a paz
legal
a paz
fico

ah
a paz
ah

a paz

mas...
não

ah
a paz
ah
 a paz

...

rapaz...
e se eu ligasse a tv?


quarta-feira, 26 de junho de 2013

tudo igual

quando a gente diz que é buddhista, a maior parte das vezes somos associados com um modo de ser que convencionou-se chamar de zen. somos então pessoas da paz, que apreciam chá e incenso, que meditam ou alguma outra coisa meio yoga, que repetem mantras, auuuummmmm e por aí.
eu não sou zen, não gosto de chá nem de incenso, meditação formal é uma parcela da minha prática, sem mantras e sempre me esforço pela paz, em muitos sentidos.
dito isso, falemos sobre a capa ao lado. 
se for  para ver algo de bom nessa capa, e eu como buddhista aprendo que tudo tem um lado bom, eu vejo que é mostrar que somos todos iguais. 
os não buddhistas, os curiosos e os não amistosos vão questionar, atacar e, talvez até, querer entender o assunto. os buddhistas que gostam de se apresentar assim como quem exibe uma etiqueta significando "eu sou gente boa" vão sentir a fantasia meio amarrotada. 
não conheço mianmar além do Dhamma do Buddha que vem de lá, e mesmo disso conheço pouco, mas sei que é um dos países onde o Buddhamdhamma tem raízes profundas e floresce na sabedoria de vários grandes mestres assim como na cultura do país, em monumentos e templos belíssimos, inclusive. pois apesar disso, absurdos estão ocorrendo. realmente não sei se há monges incitando violência, mas que está havendo violência em "nome do dhamma", entre aspas, negrito, itálico e sublinhado porque é impossível violência em nome do Dhamma, isso está. 
violência é sempre em nome do ódio, da ignorância e outras qualidades humanas. e em mianmar, o que há são seres humanos, antes de buddhistas, como aqui, como no tibete ou na china. seres humanos que precisam ter em mente que buddhismo, ou qualquer religião, não é roupa nova, etiqueta ou atestado de bons antecedentes, é labuta momento a momento contra a corrente do mundo, que é muito mais forte do lado de dentro de nós. quando o nome 'buddhismo' começa a ter muita importância na vida, a ponto de a gente esquecer de estar vigilante mesmo ao atender aos chamados da natureza, a saber, defecar e urinar, conforme ensinou o Buddha, surge o perigo de distorções como estas e outras mais menos manchetáveis mas tão tristes quanto. conforme ensinou o Buddha.
então, perdeu, playboy. a casa caiu. tá na capa da time a frase: 'a face do terror buddhista'. somos todos iguais. e a despeito do sensacionalismo natural, da provável imprecisão das informações e algo mais que nosso 'ódio à mídia' puder imputar, o fato é que pisaram na bola por lá, pois onde há fumaça, ao menos uma brasinha tem. e como o Buddha ensinou: pisou na bola, cai. 

terça-feira, 18 de junho de 2013

pra não dizer que não falei das flores

tenho a impressão de que mettā começa na aceitação, no tanto faz se é limonada ou limão, estar em paz. 
não correr, não ficar para tras. 
estar do jeito que está com as dores todas do corpo e desconfortos todos da mente, olhar em volta apaziguado por não haver coisa alguma diferente, pois tudo mudou, tudo sendo o que não é aparente, passando, sempre o oposto do que eu tinha em mente.
tenho a impressão de que mettā só é possível no presente.
isso tudo é muito óbvio, é uma chuva no molhado, podem dizer, mas dizer não quer dizer nada. ouvimos de amor o tempo todo, dá até ódio, mas mettā parece outra coisa que palavra alguma diz. 
parece ser o que vai sobrar quando deixarmos ir tudo que amamos.
começamos com mettā. 
quando acaba, mettā é o que sobra.
até o fim.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Je Tsongkhapa

 abaixo, o texto que mais estudei, em sua versão extensa chamado Lam Rim, durante o tempo em que estive sob orientação de professores ligados à tradição tibetana de Je Tsongkhapa
embora envolvido com o buddhismo desde 1995, só passei a me considerar buddhista quando ingressei no estudo e prática por meio desta tradição, em 1999. este texto fundamentou o entendimento do dhamma que sustento até hoje.
a versão é do livro "Bondade, Amor e Compaixão" de Sua Santidade o Dalai Lama, editora Pensamento.




Os Três Principais Aspectos Do Caminho

Homenagem aos principais lamas sagrados

Explicarei o melhor que puder
O significado essencial de todas as escrituras do Conquistador,
O caminho louvado pelas eminentes Crianças Conquistadoras,
Porto para os afortunados que desejam a libertação.


Aqueles desapegados dos prazeres mundanos, a lutar
Para que lazer e fortuna signifiquem dignidade, inclinados
Que são para a senda que deleita ao Buda Conquistador,
esses afortunados devem ouvir com mente límpida.


Sem a profunda convicção de abandonar a existência cíclica
Impossível deixar de perseguir os frutos do prazer no oceano da vida,
E mais: o anseio pela existência cíclica agrilhoa por completo o encarnado.
Que se busque, pois, de início, a determinação de abandoná-la.


Lazer e fortuna são difíceis de encontrar
E a vida se esvai: esse conhecimento
Converterá em seu oposto a importância dada
Às exterioridades da existência.


Se pensarmos sempre e sempre nas ações,
Em seus efeitos, que são inevitáveis,
E nos sofrimentos da existência cíclica
Converter-se-á em seu oposto a importância dada
Às circunstâncias exteriores das vidas futuras.


Se tendo assim meditado, não geramos, por um instante sequer,
Admiração pelo florescimento da existência cíclica, mas se, dia e noite,
Se faz presente a atitude de busca da libertação,
O pensamento de abandonar para sempre essa existência foi gerado.


E mais, se o pensamento de abandonar de vez a existência cíclica
Não estiver enlaçado à geração da total aspiração pela iluminação suprema,
Não será ele a causa da bênção esplêndida da iluminação excelsa.
Sim: que os inteligentes gerem a tão alta e altruísta intenção de se converter em iluminados.


[Todos os seres comuns] são arrastados pelo continuum de quatro torrentes poderosas
E atados pelos liames de ações muito duras de combater.
Na jaula de ferro da autopercepção [existência inerente], lá estão eles,
Aturdidos pela densa escuridão da ignorância.


Vezes sem conta já nasceram, e cada nascimento
Traz a tortura incessante dos três sofrimentos.
Ao pensar nas mães que caíram nessa rede,
Geram eles então a intenção altruística de converter-se em iluminados.


Sem a sabedoria que compreende o modo de ser das coisas,
Mesmo que tenham sido desenvolvidos, tanto
O pensamento de abandonar para sempre a existência cíclica
Como a intenção altruísta,
A raiz da existência cíclica não poderá ser exteirpada.
Pratica, pois, os métodos que te farão entender a manifestação dependente.


Aquele que, percebendo serem inquestionáveis
Causa e efeito de todos os fenômenos
Da existência cíclica e do nirvana,
E destruir, inteiro, o modo de percepção equivocado
Dos objetos [tidos como de existência inerente],
Terá, assim, ingressado num caminho que apraz ao Buda.

Enquanto se afigurem como separadas as duas compreensões
Da indubitabilidade da manifestação dependente
E do vazio - a não-afirmação [da existência inerente] - 
Não será compreendido o pensamento do Buda Shakyamuni.


Quando [ambas as percepções ocorrem], simultâneas, sem alternância,
E quando, apenas por ver a manifestação dependente como indubitável
O conhecimento preciso destrói por completo o modo de percepção [da concepção de existência inerente], 
Está completa a análise da apreensão [da realidade].


E mais: exclui-se o extremo da existência [inerente]
[Conhecendo-se a natureza] das circunstâncias externas
[Que existem apenas como designações nominais].
E, ao extremo da [total] não-existência, elimina-se
[Conhecendo-se a natureza] do vazio
[Como ausência de existência inerente e
Não como ausência de existência nominal].
Se for por ti sabida, dentro do vazio, a presença da causa e do efeito,
Não serás aprisinado pelas percepções extremas.


Ao teres compreendido com exatidão, do caminho
Os três aspectos principais, no que tem de essencial,
Procura a solidão e gera o poder do esforço.
Que logo chegues à meta final, meu filho!




sábado, 22 de outubro de 2011

onde tudo começa

dia destes numa reunião de trabalho houve uma breve digressão sobre segurança no trânsito. o digressor peguntou 'onde começa o acidente de trânsito?'.
cri, cri, cri, cri...
e ele disse 'no momento em que você entra no carro!' e falou sobre tudo o que, num encadear de ocorrências, pode levar ao acidente: estado de espírito, humor, problemas, preocupações, etc.
do ponto de vista tibetano podia haver um bodhisatva ali; do católico, a bênção de são cristóvão; do meu, iddapaccayata.
e pensei na fala do Buddha 'kondana vê, kondana vê!'. e em ajahn chah que nos instrui a estar atentos para o dhamma a nossa volta.
o cara resvalava no Buddhadhamma.
em momentos assim eu sinto o dhamma tocado pelas pessoas. como a gente chega perto do dhamma. como há olhos por trás da poeira.
mas pode ser assunto para outro dia. e, realmente, preciso economizar assunto.
para hoje um paralelo com a meditação é óbvio e breve.
onde começa a meditação?
a gente senta, e busca se concentrar e tal, mas tem tudo o que veio antes frutificando naquele momento. o sentar para meditar, como qualquer momento da vida, ensina o Buddha, é resultado do que veio antes. há fatores que podemos influenciar, apesar de todos que não podemos. e para aqueles que podemos o Buddha nos ensinou a atenção vigilante, a disciplina, yoniso manasikara... podemos conduzir a nossa vida como um contínuo "meditar". e quando sentarmos a coisa só continua num nível diferente. talvez com menos acidentes. talvez com menos expectativa. talvez mais preparados para o que pode acontecer.

domingo, 7 de agosto de 2011

sem remédio

eu sabia dos seus problemas emocionais e/ou mentais já havia algum tempo. a gente sempre sabe dos problemas dos outros. raramente sabemos quando alguém faz o bem ou conquista algo bom ou tem algum outro sucesso na vida.
estavam sentados na salinha do café quando cheguei e conversavam sobre os problemas do filho de uma outra pessoa, problemas mentais semelhantes. e a conversa indo e disse:
"mas você está bem agora! o que você tem feito?"
querendo, claro, alguma ajuda para o filho, cujo problema parece que se agrava, querendo nome de remédio ou de médico ou do que pudesse aliviar, como fazemos quando estamos chegando perto do fim da linha. e a resposta, que me levou para dentro da conversa, foi:
"olha, com o que eu mais me dei bem foi com meditação!"
"qual medicação!?"
"meditação. me dei bem com a meditação!"
"ah!"
e eu entrei...
"que interessante!"
e falou sobre como a meditação ajudou e eu disse algumas coisas a respeito e a pessoa interessada não se interessou muito mais e foram precisando voltar para o trabalho e acabamos ficando só nós dois, os meditadores, conversando por mais um tempo.
fiquei então sabendo da gravidade do problema pelo qual passara, que envolvia alucinções visuais e auditivas, bipolaridade e desorientação temporal. não disse qual o diagnóstico mas me pareceu bastante grave. conheceu a meditação via um curso da turma do maharish maheshi yogui, acho que é assim que escreve.
mas o mais interessante para mim é que as coisas começaram realmente a lhe funcionar quando, segundo suas palavras, foi adaptando o que aprendera para o que eu identifiquei como uma aproximação ao vipassana. descreveu que sua rotina de prática se resume a manter-se atento ao que ocorre na mente. a começar quando acorda pela manhã, mais ou menos como disse: toma consciência de que acordou, toma consciência do corpo, dos sentidos, dos pensamentos. mantem-se atento durante o dia, ao perceber alguma alteração emocional, analisa, questiona, investiga, lembra de que respira e abre espaço entre si e o que acontece. ao deitar-se para dormir, mantem o foco até adormecer.
e assim, tornando-se um observador de si mesmo, está a cerca de um ano sem tomar medicamento.
sob controle.
e era tarja preta retinta.
foi um tempinho de bate-papo e meu primeiro contato pessoal com alguém, fora do círculo religioso, que ralatou benefícios advindos da meditação, e de uma forma de meditação bem próxima daquela ensinada pelo Buddha.
que bom.

***

estamos todos enlouquecendo ou apenas tomando consciência do quanto somos loucos?
será que está na moda ser meio doido ou simplesmente não temos saída a não ser enxergar o fato?
cabem outras perguntas.
sem resposta.
tente agendar uma consulta com um psicoalgumacoisa, só por curiosidade, acho que vai ser difícil um horário vago.



domingo, 24 de julho de 2011

girando as rodas

Morar numa cidade grande com muitos carros é terrível. E numa cidade pequena com muitos carros também. Ou pode ser pior! Eu não cheguei a cronometrar mas sei que levo muito tempo percorrendo trechos muito curtos porque, de carro, os percorro muito mais  parado! Se é final de semana então...
Aí eu comprei uma bicicleta.
E como não pode deixar de ser, eu vi algo mais nisso do que simplesmente ganhar tempo e agilidade. Além de que o sedentário que dormita em meu ser exigiu boa argumentação antes de aceitar tão importante decisão.
Os benefícios para o mundo que geramos ao deixar o carro na garagem são bem conhecidos, mas contemplei alguns outros, como sempre, tentando manter-me sob a luz do dhamma.
O carro, sabemos, é o símbolo máximo de nossa sociedade de consumo. Fundamenta tudo que nos faz ser o que somos como civilização: infla-nos o ego, nutre nossa ilusão de poder e controle, condiciona nossas ambições e sonhos de liberdade, por ele cobrimos com liso pavimento nosso caminho naturalmente acidentado, ultrapassamos uns aos outros e nos tornamos velozes e furiosos. E quanto mais tecnologia, mais nos fazemos dependentes. Trocar estas caixas de devaneio por uma bicicleta nos coloca numa trilha bem mais real. A verdade de  nossos limites fica clara, e como os meus são exibidos, aliás! Confrontar o corpo pode ser um insight e tanto! Não poder ligar o ar, ter que esperar da natureza uma brisa ou a sombra, usar os ouvidos de novo como um sentido ao invés de só ouvir música, estar muito mais atento ao que ocorre e corre à minha volta, temer os cães ao invés de ameaçá-los ou nem se dar conta deles, tomar chuva, ofegar, parar para respirar e tomar água, descobrir como há ladeiras neste mundo e que os sobe-e-desce da vida são mesmo uma questão de ponto de vista, de onde se vem e para onde se quer ir, a conscientização de que chegar depende de, às vezes, ter que descer e empurrar não importando quantas marchas se tenha, enfim, é uma vivência muito mais orgânica do movimento, uma integração com o corpo que a poderosa mecanocinestesia dos automóveis faz esquecer.
E a dor muscular. Por enquanto, desconfio que tenha descoberto a única coisa permanente da existência!
Mas sigo feliz. E, ainda, esperançoso com respeito a frear o veloz avolumar-se da cintura, assentado no dhamma, girando as rodas e vigilante sempre, pois, claro, a mente ignorante dá um jeito de estragar as coisas como, por exemplo, quando se ouve coisa do tipo: 'ô meu tio, sai da frente com esta &#$@%!!!' E se pensa, do alto de umas imaginadas sabedoria e compaixão: 'ah meu filho, eu também já fui assim!...'

quinta-feira, 21 de abril de 2011

palavras

Lutar com palavras é a luta mais vã.
Fiz este copy/paste do Drummond porque foi do que eu lembrei enquanto refletia na dificuldade de expor o dhamma. 
Nenhuma novidade. 
É uma coisa repetida desde Lao-Tzu "o tao que pode ser proferido não é o tao eterno". Mas, nenhuma novidade também, nos emaranhamos repetidamente nas palavras, quer seja tentando compreender, quer seja tentando explicar. E se ficarmos satisfeitos com a explicação que recebemos ou damos pode ser sinal de que não entendemos, ou tínhamos entendido, realmente.
Queremos saber, por exemplo, o que é a mente. E lá vão e vem palavras e mais palavras, construções, raciocínios e o embolo só aumenta. 
Não é que as palavras sejam dispensáveis. Se o fossem o Buddha não teria passado mais de 40 anos pregando. Mas empacamos no meio do caminho entre as placas sinalizadoras que são as palavras e o caminhar efetivo que conduz ao entendimento. Voltamos as costas à trilha e ficamos a decifrar os sinais, suando os miolos.
Catamos palavras como se com conchas colhêssemos porções do oceano na tentativa de entendê-lo. Palavras são pedaços da imagem que compomos da realidade. Engrenagens e ferramentas que mantem o mundo do jeito que nos aparenta ser. Enquanto que o mundo que o Buddha vê e revela é um fluxo contínuo de manifestações experienciáveis das quais, viciosamente, insistimos em nos por a parte. Se Ele fez um recorte, se tentou uma palavra, é só porque não havia outro jeito a não ser render-se  à nossa limitação. 
Precisamos das palavras. Precisamos ler, estudar, debater, dialogar mas sem nos emaranhar. Sem confundir. Sem a esperança de que vamos entender alguma coisa do que o Buddha falou antes de ter experienciado lá onde as palavras não chegam. Lá onde não há lutas vãs. Na paz de uma mente incompreensivelmente pacífica e lúcida. E de uma forma que não consigamos expressar.

segunda-feira, 28 de março de 2011

sabor

é o saber que liberta
nenhuma força, nenhum controle
esforçar-se apenas para permitir
a mente sendo o que é
livre para ser o que é
e cumprir sua função
sem interferência 
sabendo o que é o que
e emergir do saber 
em metta
na satisfação da bondade amorosa
por tudo
no amor de se saber
e saber o resto


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