What is your language?

Bornes relacionados com Miniaturas

Buscando...?

Mostrando postagens com marcador treinamento. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador treinamento. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Cultivador Da Sabedoria 2

Conforme dito aqui, mais trechos:

"Quer seus alunos fossem novatos em meditação ou monges envolvidos em uma vida inteira de prática espiritual, Ajaan Pañña salientava que o desenvolvimento da concentração e sabedoria meditativa requeria a observância de certos princípios universais. Em essência, este processo envolvia uma progressão do externo para o interno; do grosseiro ao refinado; da ênfase no corpo à ênfase na mente; e de um estado de atividade a um estado de quietude. Para ser bem sucedida, a meditação deve ser uma disciplina que envolva toda a pessoa e todas as facetas da sua vida diária. É um caminho de prática que engloba tanto causa como efeito: a fundação apropriada levando a resultados apropriados. Praticantes não podem simplesmente optar por cumprir alguns aspectos do caminho e negligenciar outros; caso contrário, todos os seus esforços acabarão por se revelar decepcionantes."

(...)

"Ajaan Pañña imprimia em seus alunos a noção de que a prática da sabedoria cobria uma gama muito ampla de fenômenos mentais. Por causa disso, eles tinham que procurar métodos criativos para lidar com as inúmeras possibilidades que podiam surgir no decurso das suas investigações. Eles não podiam esperar que os métodos adequados simplesmente aparecessem do nada para si. Os métodos corretos, os que fossem mais adequado às suas necessidades, poderiam ser bastante evasivos. Não era uma questão de simplesmente sentar e observar a consciência em seu ir e vir. Eles tinham que buscar seriamente pelo método correto, ou então nunca iriam encontrá-lo. Eles tinham que fazer uma escolha deliberada de que facetas da mente iriam observar, escolhendo os aspectos mais relevantes com base em seus insights sobre o Dhamma. Para que isso acontecesse, eles deveriam realmente aplicar diligência ao que estavam fazendo. A investigação devia ser algo importante para eles. Para serem verdadeiros cultivadores de sabedoria, eles deveriam dedicar o tempo e o esforço para desenvolverem adequadamente a prática da sabedoria. Se o fizessem, a mais elevada realização não estaria fora de seu alcance.
'Essa era a essência geral das palestras que Ajaan Pañña oferecia igualmente aos monges e praticantes laicos."

segunda-feira, 5 de maio de 2014

pancupadanakhanda

Os cinco agregados são dos temas mais presentes e básicos no buddhismo. E, talvez, dos mais difíceis de entender. Graças a nossa forma comum de conhecer o mundo, enxergando ‘coisas substanciais’, tendemos a naturalmente substituir o entendimento de um ‘eu substancial’ por um composto formado por ‘cinco agregados’ não menos substanciais.
Mas no buddhismo não é assim.
Uma frase citada por Richard Gombrich no livro ‘What The Buddha Thougth’, página 131, é potencialmente a frase epigráfica para toda a nossa jornada de compreensão pelo Buddhadahamma: “para o buddhismo não há substantivos, somente verbos”.*
O que isso significa? Significa que cada vez que pensamos em entidades estanques, ainda que como componentes de alguma outra coisa, estamos errando, estamos patinando, atolados no ponto do caminho que é o pântano da mente conceitual, com todo o seu rico, diverso e perigoso ecossistema.
Os cinco agregados “infectados pelo apego”, enquanto pensados como entidades, semelhantes a peças de um quebra-cabeça, permanecem “infectados”, que é como eu traduzo o ‘affected’ usado pelo bikkhu Anālayo no trecho abaixo extraído do livro 'From Grasping to Emptiness – Excursions into the Thought-world of the Pāli Discourses (2)', página 24, que me pareceu um maravilhoso desenvolvimento da frase candidata a epígrafe citada acima, no sentido de nos ajudar na jornada de corrigir nossa visão através da lente do entendimento e da reflexão.
Esta correção de ponto de vista me parece ser fundamental mesmo aos primeiros passos no Caminho prevenindo o risco de se enraizar na lama. 


Devido a esta noção inerente de um sujeito substancial capaz exercer controle, os cinco agregados [infectados por] apego são experienciados como corporificações da noção 'eu sou'. Do ponto de vista comum, o corpo material é 'onde eu estou', sentimentos/sensações são 'como eu estou', percepções são 'o que eu estou' (percebendo), volições são 'por que eu estou' (agindo), e consciência é 'por meio do que eu sou' (experiencio). Deste modo, cada agregado oferece sua própria contribuição para o afirmar da ilusão tranquilizadora 'eu sou'. Tais noções 'eu sou' são, contudo, superimposições errôneas por sobre a experiência, carregadas do senso de um sujeito autônomo e independente que consegue obter ou rejeitar objetos substanciais distintos.**

Os cinco agregados do ponto de vista sugerido pelo texto se tornam muito mais presentes e facilmente observáveis na nossa vida ordinária do que se pensados como entidades a serem 'procuradas' enquanto sentados em meditação formal, não acham?


*for Buddhism there are no nouns, only verbs.       


**Due to this inherent notion of a substantial subject able to exert  control,  the  five aggregates  [affected  by]  clinging  are  experienced  as  embodiments  of  the  notion  `I  am'.  From the worldling's point of view, the material body is `where I am', feelings are `how I am', perceptions are `what I am' (perceiving),  volitions  are  `why  I  am'  (acting),  and  consciousness  is `whereby I am' (experiencing). In this way, each aggregate offers its own contribution to enacting the reassuring illusion `I am'.  Such  `I  am'  notions  are  but  erroneous  superimpositions on experience, conveying the sense of an autonomousand independent subject that reaches out to acquire or reject discrete substantial objects.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

que cheiro é esse?

parte das últimas palavras de um mestre da tradição das florestas da tailândia, luang pó piak, neste vídeo foram: "se quiser praticar pra valer contemple seu corpo e mente como sendo anicca, dukkha, anatta". ele responde à última pergunta das feitas por brasileiros e levadas a ele por iniciativa louvabilíssima do bikkhu mudito, monge brasileiro naquela tradição. perguntou-se se a prática de atenção plena, ou vigilância, ou presença mental, ou outra tradução que seja para a palavra pali 'sati', seria uma "prática de verdade", se "dá algum resultado". a resposta do mestre foi clara.
aquela pergunta revela parte do que compõe nossa dependência doentia da graça. nossa, de inutilidade difícil de perceber e de assim a reconhecer, procura pelo mágico. não sabemos o que ocorre aqui e agora, mas somos obcecados pelo que vem depois. e, ou, queremos algo especial, como explana o venerável sumedho neste magnífico texto. (texto não mais disponível no site. se eu reencontrar corrijo o link)
nada de mais é observar este corpo que decai momento a momento, sujeito à morte, à dor. esta mente que pula, esvai, turbilhona. estas sensações que atam. esta liberdade obediente à soberana ignorância. 
quando finalmente compreendermos o discurso do fogo...
até lá, vamos enfeitando tudo, até a prática do dhamma, que deveria levar ao desapego, ao desencanto, ao desapaixonamento. que deveria estar voltada para a completa percepção da mediocridade da vida, para então partir em busca de outra coisa. mas não, ainda encantados pelo mundo saímos em busca de um encanto maior, concebemos uma fonte de bênção que nada mais é que reflexo desta mesma condição desgraçada, mas embebida no perfume que ideamos. 


sábado, 19 de outubro de 2013

saṃsāra

que caos!
barulho
tumulto
stress

gente correndo
comigo e contra mim
vozes, gritos, cores, calor, frio
carros, obrigações, gente, gente, gente

CHEGA!

e se eu meditasse?

sento
concentro
relaxo
chego
fico
paz

ah
a paz
deleite que é o centro
fico
a paz
aqui
relaxo
a paz

ah
a paz
legal
a paz
fico

ah
a paz
ah

a paz

mas...
não

ah
a paz
ah
 a paz

...

rapaz...
e se eu ligasse a tv?


quinta-feira, 30 de maio de 2013

simples ficando ll

na disciplina do Buddha, do encontro do objeto com a percepção surge o mundo.

se uma mente não desperta, mais ou menos assim: um carro... um opala... rosa... bonito... do mário... o que saiu do armário... e a mente não desperta segue se enrolando num emaranhado de conceitos. 
papañca-saññā-saṇkhā

se uma mente desperta:
um carro... anicca, dukkha, anattā, paz... um opala... anicca, dukkha, anattā, paz... rosa, anicca, dukkha, anattā, paz... ...anicca, dukkha, anattā, paz...  ... anicca, dukkha, anattā, paz... paz... paz...
paz.



entenda, melhor que eu, este processo fundamental no livro Concept and Reality do Venerável Bhikkhu Kaṭukurunde Ñāṇananda
só em inglês, por enquanto.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

pra você, eu e todo mundo cantar junto

um bom amigo tem se interessado por buddhismo e meditação, variando a ordem dos interesses. tem lido e pesquisado na rede e diz inclusive que descobriu este blog googlando em busca de dhamma  por aí. gostei! 
ele está, como a maioria de nós, entre o nosso lar e a vida sem lar. 
caminha.
numa conversa recente me dizia que "assunto espinhoso este de anattā! esta coisa no buddhismo é que é difícil, hein?". percebo que o rapaz tem bons olhos, já vi e vejo de gente mais adiante na senda afirmar que 'é só desapegar, é só não ter apego...' 
só, olha só. 
o venerável bhante katukurunde ñanananda diz em algum dos sermões sobre nibbāna que realizar anattā é, em si mesmo, o nibbāna.
que bom que seja fácil para alguns. que bom que haja alguns capazes de ver e reconhecer os espinhos. anattā, anicca e dukkha não são visões ou crenças a se adotar, são experiências a se ter. primeiro estudamos, lemos e compreendemos; comparamos esta compreensão com o mundo que conhecemos em seus aspectos interno e externo e decidimos se vale a pena continuar aprofundando as percepções que surgirem. 
se somos sinceros, talvez este estudo comece a vir de encontro ao rumo que naturalmente temos mantido na vida, me parece que é neste momento que devemos abrir bem os olhos para sinceramente ver que não é fácil ou se está sendo fácil demais.

terça-feira, 16 de abril de 2013

é água, moço?

estou recebendo treinamento de combate a incêndios e de primeiros socorros. 
numa parte do treinamento foi exibida uma reportagem do fantástico sobre a condição precária dos bombeiros pelo brasil a dentro. 
num dado momento, a coisa exibe um nível de surrealidade que só aqui neste quinto dos infernos é capaz de chegar, levando em consideração que somos sede das próximas copa e olimpíadas. numa cidade de não sei onde nestas terras, um caminhão destinado a limpeza de fossas é solicitado a descarregar o conteúdo de seu tanque nas chamas de um incêndio por ser o recurso mais eficaz disponível para a situação, e a primeira vez não fora esta diante das câmeras. desgraça absoluta ganhou alguma graça, pois que nisso somos um povo campeão, quando o operador, com seu belíssimo sotaque nordestino, narra sua desventura: "...aí me perguntaram: é água moço? e digo: não, é fezes!".
claro, gargalhei como bom brasileiro.
como buddhista radical, a metáfora explodiu na minha cara: mas não é mais ou menos isso que estamos a fazer constantemente com as chamas do mundo? não é com recursos parecidos que nos lançamos ao combate do incêndio onipresente que nos anima?

terça-feira, 26 de março de 2013

deus me livre

"em vez de buscar deus - objetivo dos brâmanes -, Gautama sugeriu voltarmos a atenção justamente para o que, de Deus, está mais distante: o sofrimento e a angústia da vida na terra" está na página 202 do livro confissões de um ateu budista (stephen batchelor - editora pensamento).

a ciência foi destruindo nossas ilusões: éramos seres especiais sob o céu, ocupando o centro do universo; fomos perdendo a majestade. no momento somos animais entre animais, adaptados andando numa bolinha de água e rocha na perifieria de uma galáxia que é como poeira num espaço vasto e desconhecido.
o Buddha fez o mesmo com a religião já há mais de dois mil e quinhentos anos.
religiosamente nos cremos divinos, desde os brâmanes e antes e até hoje, precisamos dessa divindade, temos a fé de que somos obra ou imagem ou manifestação de algo maior, mais belo, mais mágico e com um propósito sublime.
o Buddha, me parece, deixou claro que não. somos só isso mesmo que se manifesta aqui: nascimento, envelhecimento, lamentação, dor, doença e morte. apesar de que, pelo tempo e espaço desde o advento do Buddha a Sua disciplina não tenha se mantido livre desta nossa ânsia pela divinização, qualquer um disposto a ver verá, se procurar nos textos e refletir na vida.
mas é preciso estar disposto mesmo.
o venerável +Bhante Katukurunde Ñanananda, na sua série de sermões sobre o nibbāna, mostra que o nibbāna não escapou de ser transformado em uma espécie de paraíso.
praticar o dhamma, em última instância, me parece ser o oposto de buscar um sentido ou uma salvação, é sim um limpar os olhos e olhar cada vez mais profundamente para o que há aqui e agora, por pior que seja e por pior que vá ficando, até aceitar que a cessação é o único jeito, até vencer toda a esperança, todo o instinto que nos torce o pescoço para o céu e nos obriga a sonhar um mundo.

Não é fácil encontrar o caminho para fora da loucura do saṁsāra. Fazer isso significa que devemos estar frequentemente preparados para ir contra a corrente, para ir na contramão desse mundo. Se é para seguir esse caminho até o seu fim apropriado, então se deve verdadeiramente ser maduro, resoluto e sério.
A realização total do Dhamma, acompanhada da libertação completa e desapego total do coração, conforme descrito nos suttas antigos é, sem dúvida, muito, muito rara, de fato. Mas ainda existe. Até hoje uma estrofe de um dos raros Sayadaws reverbera profunda em minha mente: “Quando você olhar mesmo as esferas sublimes mais altas da existência, as formas de inteligência radiante e jubilosa como uma cuspideira, então você está pronto para o Nibbāna”.
  
Ven. Ottama Sayadaw


terça-feira, 8 de janeiro de 2013

cegueira branca

no filme o diretor fernando meireles, a certa altura, usa um recurso muito interessante para traduzir a experiência da cegueira: numa sala vazia, objetos vão surgindo na medida em que um cego caminha por ela e se 'choca' com o espaço.
o livro homônimo que deu origem ao filme, como a maioria dos que passam por aqui, creio eu, sabe, é o do nosso senhor josé saramago.
logo no início da série de sermões 'nibbana - the mind stilled' explica o venerável ñanananda: "O Buddha disse que o mundano é cego, pelo menos até o olho do Dhamma surgir nele. Assim, o mundano cego reconhece um objeto exatamente pela resistência que ele experimenta ao bater contra esse objeto"o mundano é aquele que segue a corrente do mundo, aquele que não sabe do Buddhadhamma.
mas este 'bater' de que fala o venerável não é aquele de corpo contra corpo, mas de fenômenos 'contra' as seis portas dos sentidos (olho, ouvido, pele, língua, nariz e mente). tal 'impacto', explica o mestre com profundíssima visão, é o que nos causa o expontâneo emaranhamento na 'realidade' samsárica. deste impacto surgem o que ele explica como sendo 'nomes formais', conceitos que sobrepomos ao fluxo do mundo e nos fazemos então cegos para o mesmo mundo tal como é. alguém pensou em sankhāra?
similares aos cegos do saramago, sofremos, enquanto mundanos, de uma 'cegueira branca'. chocando-nos preenchemos espaços vazios com entidades 'sólidas' do tipo eu, você, agradável, belo, feio, vida, morte... formando nomes e nomeando formas, explica o mestre ñanananda. 
não, não é simples nem fácil compreender e muito menos explicar sem compartilhar da visão profunda de um mestre do quilate do venerável ñanananda. mas o bjetivo aqui é meramente instigar, provocar a reflexão, fomentar a curiosidade de analisar, compartilhar o interesse de contemplar com a ajuda, talvez involuntária e mesmo insuspeita, de uma obra que, tanto em sua forma literária quanto na filmográfica, me inculcou a pertinência com respeito a assunto tão fundamental para a vida de um buddhista. e não só este explicitado aqui, há mais para um buddhista refletir nesta obra.
e claro, ainda mais, muito mais, despertar o interesse pelo pensamento do venerável bhante katukurunde ñanananda. infelizmente, só em inglês por enquanto, veja no "mapas no caminho" aí ao lado. 
mas há alguns trechos em português aqui:


terça-feira, 6 de novembro de 2012

qual é a diferença?

volto constantemente à vida do Buddha. nem sempre literalmente, de pegar e ler tudo de novo (dois livros que me são especiais: velho caminho, nuvens brancas seguindo as pegadas do buda, de thich nhat hanh e buda de karen armstrong, volto mais em lembranças de passagens.
estudando o dhamma, seja ouvindo, seja lendo, um ensinamento ou outro acaba trazendo reminiscências da biografia do Tathāgata e complementando ou aprofundando o entendimento do que estudo. 
a vida do Buddha educa.
o Buddha tem se tornado cada vez mais humano. vai ficando próximo, vai virando um conhecido. mais além de um amigo que existiu e é representado hoje no altar. e passo a pensar nele vivendo por aqui, hoje, no meio de tanta poeira. no meio de tantos empoeirados. entre nós.
tenho refletido nas diferenças que manifestamos. 
há momentos em que estamos mais voltados para o caminho, e portanto mais próximos do Buddha e outros opostos. vemos alguém sofrendo, vemos algum sofrimento, e pensamos 'coitado, como sofre, como sou feliz por não ser ele' ou então 'eis o sofrimento que nos ata e dói a todos'. alguém morre e 'coitado...' ou 'sou eu logo mais'. alguém feliz! 'que sorte a dele! quando chegará a minha vez...?' ou 'que sorte a dele. que tire o melhor proveito...' 
o Buddha viu, fundamentalmente, feliz ou infelizmente, as mesmas coisas que nós vemos hoje e estas mesmas o levaram a se tornar quem foi. estaremos nós atentos a esta diferença? me parece que a resposta que damos ao que nos surge a todo instante tem o poder de nos aproximar do Buddha tanto quanto os mantras, as meditadas, as recitações, as verborragias. precisamos definir para nós as respostas e escolher quais iremos dar.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Je Tsongkhapa

 abaixo, o texto que mais estudei, em sua versão extensa chamado Lam Rim, durante o tempo em que estive sob orientação de professores ligados à tradição tibetana de Je Tsongkhapa
embora envolvido com o buddhismo desde 1995, só passei a me considerar buddhista quando ingressei no estudo e prática por meio desta tradição, em 1999. este texto fundamentou o entendimento do dhamma que sustento até hoje.
a versão é do livro "Bondade, Amor e Compaixão" de Sua Santidade o Dalai Lama, editora Pensamento.




Os Três Principais Aspectos Do Caminho

Homenagem aos principais lamas sagrados

Explicarei o melhor que puder
O significado essencial de todas as escrituras do Conquistador,
O caminho louvado pelas eminentes Crianças Conquistadoras,
Porto para os afortunados que desejam a libertação.


Aqueles desapegados dos prazeres mundanos, a lutar
Para que lazer e fortuna signifiquem dignidade, inclinados
Que são para a senda que deleita ao Buda Conquistador,
esses afortunados devem ouvir com mente límpida.


Sem a profunda convicção de abandonar a existência cíclica
Impossível deixar de perseguir os frutos do prazer no oceano da vida,
E mais: o anseio pela existência cíclica agrilhoa por completo o encarnado.
Que se busque, pois, de início, a determinação de abandoná-la.


Lazer e fortuna são difíceis de encontrar
E a vida se esvai: esse conhecimento
Converterá em seu oposto a importância dada
Às exterioridades da existência.


Se pensarmos sempre e sempre nas ações,
Em seus efeitos, que são inevitáveis,
E nos sofrimentos da existência cíclica
Converter-se-á em seu oposto a importância dada
Às circunstâncias exteriores das vidas futuras.


Se tendo assim meditado, não geramos, por um instante sequer,
Admiração pelo florescimento da existência cíclica, mas se, dia e noite,
Se faz presente a atitude de busca da libertação,
O pensamento de abandonar para sempre essa existência foi gerado.


E mais, se o pensamento de abandonar de vez a existência cíclica
Não estiver enlaçado à geração da total aspiração pela iluminação suprema,
Não será ele a causa da bênção esplêndida da iluminação excelsa.
Sim: que os inteligentes gerem a tão alta e altruísta intenção de se converter em iluminados.


[Todos os seres comuns] são arrastados pelo continuum de quatro torrentes poderosas
E atados pelos liames de ações muito duras de combater.
Na jaula de ferro da autopercepção [existência inerente], lá estão eles,
Aturdidos pela densa escuridão da ignorância.


Vezes sem conta já nasceram, e cada nascimento
Traz a tortura incessante dos três sofrimentos.
Ao pensar nas mães que caíram nessa rede,
Geram eles então a intenção altruística de converter-se em iluminados.


Sem a sabedoria que compreende o modo de ser das coisas,
Mesmo que tenham sido desenvolvidos, tanto
O pensamento de abandonar para sempre a existência cíclica
Como a intenção altruísta,
A raiz da existência cíclica não poderá ser exteirpada.
Pratica, pois, os métodos que te farão entender a manifestação dependente.


Aquele que, percebendo serem inquestionáveis
Causa e efeito de todos os fenômenos
Da existência cíclica e do nirvana,
E destruir, inteiro, o modo de percepção equivocado
Dos objetos [tidos como de existência inerente],
Terá, assim, ingressado num caminho que apraz ao Buda.

Enquanto se afigurem como separadas as duas compreensões
Da indubitabilidade da manifestação dependente
E do vazio - a não-afirmação [da existência inerente] - 
Não será compreendido o pensamento do Buda Shakyamuni.


Quando [ambas as percepções ocorrem], simultâneas, sem alternância,
E quando, apenas por ver a manifestação dependente como indubitável
O conhecimento preciso destrói por completo o modo de percepção [da concepção de existência inerente], 
Está completa a análise da apreensão [da realidade].


E mais: exclui-se o extremo da existência [inerente]
[Conhecendo-se a natureza] das circunstâncias externas
[Que existem apenas como designações nominais].
E, ao extremo da [total] não-existência, elimina-se
[Conhecendo-se a natureza] do vazio
[Como ausência de existência inerente e
Não como ausência de existência nominal].
Se for por ti sabida, dentro do vazio, a presença da causa e do efeito,
Não serás aprisinado pelas percepções extremas.


Ao teres compreendido com exatidão, do caminho
Os três aspectos principais, no que tem de essencial,
Procura a solidão e gera o poder do esforço.
Que logo chegues à meta final, meu filho!




quinta-feira, 10 de novembro de 2011

sem suco, sem fritas

...eu não tenho paciência... horrível isso, mas não consigo...
olha, paciência é uma coisa que surge na dependência de outras coisas. querer ter paciência já é perigoso. a gente perde a paciência com a gente mesmo por não conseguir ter paciência!
he, he, he... mas como é que a gente consegue, então?
eu acho que é preciso alimentar alguns pensamentos, algumas formas de ver a vida... com relação a formas de ver a vida, eu acho que é um fator importante que nos dificulta a paciência... nós temos o senso comum de achar que a vida é bela, uma graça, uma bênção. isto implica diretamente em nos considerarmos importantes, perfeitos, certos. nos vemos como o padrão de qualidade do mundo. logo, alguém que se comporta divergindo do que vemos nos é difícil tolerar.
hmmm
então, o que me ajuda muito a ter paciência é ver a vida de um  modo que para mim está mais de acordo com a realidade. vejo a vida como o resultado de um conflito na fuga da dor. estamos todos em conflito na nossa fuga da dor, todos nós, eu, você, as minhocas, os tatus-canastra.
hehehe.
a essência de viver é este fugir, e nessa fuga nos trombamos uns contra os outros.
hmmm
li uma frase do Saramago: somos todos uns pobres diabos. é o resumo perfeito do meu mestre das letras. se enxergamos a vida sob este ângulo mais realista, de que somos todos presas em fuga, a paciência, a tolerância e até um pouco de compaixão põem a cabeça pra fora do nosso lamaçal interior. nós temos a certeza de que a felicidade é uma questão de ter mais prazer. mas me parece que, na verdade, é uma questão de ter menos dor. se eu penso assim, a percepção das situações em que a dor aumenta se aperfeiçoa e aí a paciência revela sua real importância como fator que evita mais dor. e começa a surgir sem tanto esforço, vai-se tornando natural. naturalmente vai surgindo... podemos perceber que o nosso mundo não precisa de mais conflito, não devemos ser fonte de mais conflito e dor, a irritação começa a doer...
é... faz sentido...
muito sentido. é oriundo da minha forma de praticar o buddhismo, mas tem um sentido que não depende de ser buddhista para enxergar...

sábado, 22 de outubro de 2011

onde tudo começa

dia destes numa reunião de trabalho houve uma breve digressão sobre segurança no trânsito. o digressor peguntou 'onde começa o acidente de trânsito?'.
cri, cri, cri, cri...
e ele disse 'no momento em que você entra no carro!' e falou sobre tudo o que, num encadear de ocorrências, pode levar ao acidente: estado de espírito, humor, problemas, preocupações, etc.
do ponto de vista tibetano podia haver um bodhisatva ali; do católico, a bênção de são cristóvão; do meu, iddapaccayata.
e pensei na fala do Buddha 'kondana vê, kondana vê!'. e em ajahn chah que nos instrui a estar atentos para o dhamma a nossa volta.
o cara resvalava no Buddhadhamma.
em momentos assim eu sinto o dhamma tocado pelas pessoas. como a gente chega perto do dhamma. como há olhos por trás da poeira.
mas pode ser assunto para outro dia. e, realmente, preciso economizar assunto.
para hoje um paralelo com a meditação é óbvio e breve.
onde começa a meditação?
a gente senta, e busca se concentrar e tal, mas tem tudo o que veio antes frutificando naquele momento. o sentar para meditar, como qualquer momento da vida, ensina o Buddha, é resultado do que veio antes. há fatores que podemos influenciar, apesar de todos que não podemos. e para aqueles que podemos o Buddha nos ensinou a atenção vigilante, a disciplina, yoniso manasikara... podemos conduzir a nossa vida como um contínuo "meditar". e quando sentarmos a coisa só continua num nível diferente. talvez com menos acidentes. talvez com menos expectativa. talvez mais preparados para o que pode acontecer.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

eu acredito - 2

o diálogo foi mais ou menos assim:
como assim? você não crê em deus!?
não.
mas, e tudo a sua volta!? quem fez tudo isso??
é complicado... mas dá para dizer que foi ninguém.
ah, tá! tudo veio do nada...!
não é assim. eu disse que pode ser complicado...
tá bão, tá bão... mas você não tem medo da morte?
ainda tenho. mas mais de noite do que de dia...
haha. mas e daí? morreu, acabou?
pode ser complicado... mas dá para dizer que eu não sei.
não sabe? e você não se importa? não quer saber?
quero, claro que quero. mas prefiro não saber do que acreditar que sei.

E foi o que me trouxe a tentar escrever a continuação do título.
O "2".
Uma continuação do "1".
E a menção a um 'sentido' foi que me pôs a pensar.
A necessidade de um sentido para isso tudo aqui. Um propósito, um plano, como boa parte das religiões põe a acreditar. É um impulso muito forte este. E a minha compreensão do buddhadhamma, até aqui, me faz confiar intensamente no Buddha por que entendo que ele afirmou muito claramente que não há sentido algum! As coisas surgem e cessam muito veloz e ininterruptamente sem qualquer propósito a não ser surgir e cessar e ponto final.
Ou não.
Ponto final, não. Há dukkha. A dor de querer existir numa realidade que é puro movimento. E, talvez, a dor de buscar um sentido no que é pura manifestação. Dois quereres intrinsecamente atados.
E a mim, o Buddha diz que precisamos fazer as pazes com a falta. Cair. Nos manter conscientes da queda sem sentido que é como as coisas são.
Será que dá para vislumbrar um sentido nisso? O sentido da vida é o Despertar para a falta de sentido?
Não sei.
Mas sei que é preciso um Buddha, um Desperto que nos aponte a realidade e nos mostre como conhecê-la.  De outra forma o surgir é só surgir, o cessar é só cessar e não nos damos conta disso. Permanecer neste processo não dá qualquer sentido.
Duro de aceitar.
Dukkha de aceitar.
Aceitar pode não ser o sentido. Mas liberta.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

ha!... grande novidade...!

Deveria ter escrito antes. Já faz algum tempo que estou remoendo estes pensamentos e este texto saiu agora e agora eu vou escrever nenhuma novidade. 
Como sempre, aliás. 
Mas, na verdade, acho que quem quer novidade não deve passar em blog buddhista. E muito menos por este aqui. As atenções por este caminho aqui estão muito mais voltadas para o velho, o antigo, o fim, a perda, a separação, a cessação, a morte, enfim, para os outros cinquenta por cento do processo de existir. Aqueles que a gente evita. Somos bípedes tentando caminhar com um pé só: um passo é o surgir o outro é o cessar. Mas queremos andar só usando o surgir, quando usamos o cessar, costuma ser de leve, rapidinho e de olhos meio fechados. Resulta em tropeço e queda, talvez. 
E tentamos cair com o surgir bem firme no solo.
Mas como eu começava a dizer, aquilo sobre o que eu deveria ter escrito, é que uma das coisas que me trouxeram ao theravada, ou ao buddhismo registrado nos suttas em pali, foi sati. Esta palavrinha, quando a ouvi (ou li) pela primeira vez, não me lembro onde nem como, reverberou em alguma coisa aqui por dentro. Ruminava e ruminava e buscava encontrar uma explanação sobre aquela palavrinha tão interessante. Uma vez perguntei a um monge ordenado numa das tradições tibetanas: "como é este negócio da atenção plena?" e ele abordou pelo lado da tomada dos preceitos e tal, que tomar os preceitos ajudava a manter a mente alerta e tal e não foi a resposta que resolveu plenamente o meu problema. Eu achava que tinha mais na tal de sati
E segui insatisfeito e procurando.
Achei o theravada: sati! Aqui se fala de sati! E achei o satipatthana sutta! Deleitei-me neste sutta. Sem apreender muita coisa na época, e tenho muito ainda que estudar, ler e refletir, praticar, enfim... Mas foi o grande momento para o meu caminhar. 
Quando eu li o Buddha dizendo que precisamos manter a plena atenção ao urinar e defecar, esta frase causou mais impacto na minha mente do que qualquer mantra sagrado que já houvesse recitado, qualquer instrução sobre a radiância da mente original que tivesse ouvido, qualquer descrição de reinos acessados por jhanas profundos... Foi um potente "ISSO! É ISSO! É POR AQUI A TRANSCENDÊNCIA QUE EU PROCURO".
E assim está sendo a minha busca. Neste corpo, nesta mente. Nas coisas ordinárias e comuns. Na morte nossa de cada dia. No relaxar a mente e ver o mundo acabando. Tentando levantar e caminhar com os dois pés, o surgir e o cessar. Enfim.

***

dia desses um kalyanamitta me disse: "e aí, quando vai montar seu grupo de estudo? para falar de dukkha, dukkha e dukkha? (rsrs)"
"iiih... hehehe... ninguém gosta de ouvir sobre dukkha!"

sábado, 13 de agosto de 2011

eu acredito - 1

quando um ser nasce, eu acredito que sua mente (ou parte dela, não sei bem) não surgiu com aquele corpo. acredito que mente é mente e matéria é matéria. duas naturezas distintas. e acredito nisso porque o Buddha assim ensinou, ao que parece. é algo em que confio. porque o Buddha, e isso é uma coisa que eu sei, foi muito preciso e acertou em muitas coisas, Suas instruções dão resultado, Sua teoria é extremamente coerente, Seu Caminho não me decepciona. quanto mais eu me aprofundo e pratico, mais desejo me aprofundar e praticar. então, minha experiência pessoal me garante este ato de fé sem problema. 
porém, eu mantenho esta crença num compartimento separado. ela não é o que define e nem sustenta minha prática. 
quando acreditamos que a mente segue num processo de condicionamento de um novo ser após a morte física, isto implica na aceitação da doutrina do kamma como definidor de alguns aspectos da vida daquele novo ser: méritos definem coisas boas, deméritos coisas ruins. doutrina que o Buddha declarou estar além da compreensão intelectual. e esta, sendo uma crença, não imediatamente verificável por experiência, tem um caráter dúbio. por exemplo: um buddhista como eu crê que está praticando o dhamma libertador do Buddha porque assim seu kamma o conduziu, ou seja, as ações passadas condicionadas pelas intenções deste mesmo contínuo mental frutificaram agora para que tal contato com o Buddhadhamma ocorresse, ou se repetisse, acontecimento digno de regozijo e alegria, um fator motivador. mas o mesmo raciocínio pode, em momentos em que outros fatores desta vida condicionam um estado mental menos animado, circunstâncias que, sabemos, não são raras, levar a pensar que os méritos não foram tantos assim, pois veja quão difícil é a prática, quão desprezível eu sou, ou o quanto minha vida é impulsionada por necessidades e tão pouco por escolhas...!  e, num movimento vicioso, deixar claro para nossa mente obscurecida como será difícil acumular os méritos necessários para um bom nascimento ou despertar futuro! por essas, mantenho a crença no seu devido lugar.
e é no próprio Buddhadhamma que baseio este meu caminhar.
Ajahn Buddhadasa ensina que há três tipos de nascimento elucidados pelo Buddha: o convencional, aquele que todos conhecemos, o nascimento através dos órgãos dos sentidos que ocorre a cada contato estabelecido entre olhos, ouvidos, pele, etc. e seus respectivos objetos e o nascimento mental que ocorre a cada vez que a idéia de eu e meu surge na mente. e é a compreensão destes dois últimos nascimentos que é relevante para obter o resultado da prática do Caminho, a saber, o cessar de dukkha, pois nada mais que dukkha e o fim de dukkha foi o que o Buddha ensinou.
a compreensão destes dois já é bastante a se fazer, mas é a compreensão do que está aqui, ocorrendo agora, é só uma questão de vir e ver. 
posso, assim, deixar a minha crença lá, nem pensar muito nela.
o nascimento que me interessa é este que ocorre agora.
a continuar, um dia...

sexta-feira, 18 de março de 2011

morte

Tenho estado com a morte há alguns dias.
O início se deu com a narrativa saramaguiana das fabulosas intermitências. Nos entremeios, surgiram um texto do professor Ricardo Sasaki (dhammacharya dhanapala) sobre a concepção buddhista do pós morte e um longo diálogo sobre buddhismo e renascimento com uns materialistas. Isso me manteve no tête-à-tête com a morte por estes dias, com a morte na cabeça... E aí veio o tsunami, num desgraçante arremate a escancarar-me como é que, para a vida e a morte, dois nomes que, bem pode ser, inventamos para um mesmo mistério, não somos em nada diferentes das formigas. Apesar de todos os valores e importâncias que projetamos no mundo, nossos reality shows, minhas HQs, os celulares, os iQualquercoisa, desejos e encomendas que não chegam, nossos relacionamentos e momentos, nada disso nos resolve. Dificilmente vão além do que fazemos ir em conformidade com a nossa reconfortante estupidez: formas de mantermos os olhos fechados para o fato de estarmos morrendo.
Estar de papos com a morte na verdade significa meramente  tentar fazer-se ciente dela que sempre está conosco. 
Como ensinou o Buddha, nestas temporadas é quando mais sinto que dou passos no Caminho. Tomar consciência da presença da morte ocupa a mente com a certeza e coloca a dúvida a meu favor. Aonde eu estou é onde eu devo estar e é onde se dá minha prática. Tudo tem que ser percebido como sempre é, dhamma, se eu habito na consciência do que é inevitável e certo. Meu caminhar passa a ser constante e reto com a meta a minha frente, imediata, pois não sei se há tempo para 'chegar lá'. Minha única incerteza é com respeito a quando o fato se cumprirá. Estar com a morte me mantém atento para a importância de respirar e notar os movimentos do corpo e da mente. Pois qualquer que seja, o fim do movimento é um só. Estar com a morte me mantém atento para a minha igualdade com as formigas, minha desimportância e meu poder.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

natalinas

Três ítens. Tarde de vinte e quatro de dezembro. Eu e boa parte da humanidade resolvemos comprar algumas coisinhas no mesmo supermercado. Tivemos que fazer filas, claro. Grandes filas. Se a gente presta atenção, as filas são, dos eventos da vida ordinária, um dos melhores para a contemplação. No meu caso quase dá para sentir o anseio me puxando pela cabeça, esticando o meu pescoço. O corpo plantado. A mente ansiosa, lá no futuro, querendo ir. Mas a fila, os corpos, as coisas seguem sua própria cadência, prisioneiros de seu peso.
Tem aquela senhora, lá na frente,  por exemplo que, parece, insiste em pagar cinquenta e três reais e sententa e dois centavos em dinheiro contado e recontado para se livrar das moedinhas que ela vai procurando no fundo de uma bolsa e eu acho que ela deveria usar óculos pois está espremendo os olhinhos para contar. Quantos encadeamentos de condições nos trouxeram, eu e ela, para a mesma fila, aqui e agora? E não adianta mudar de fila. Eu já tentei uma vez e o rolo de impressão acabou e eu vi a pessoa que estava atrás de mim, na outra fila, indo embora. O que realmente deve ser apreciado ou, ao menos, o esforço para que o apreço se desenvolva precisa ser feito, é esta sensação causada por querer. A mente, enquanto continuar a loucamente tentar levar o corpo para seu mundo de projeções só vai gerar dor e cansaço.
A fila não tá nem aí.

***

Um pratinho de amêndoas torradas e salgadas, um copo de suco, uma boa leitura, um cômodo fresco e eu sou a pessoa mais feliz da terra. Não há nada que eu deseje agora. E isto, num estalo, me ocupa a atenção. Nada a desejar. Isto seria a paz! Sensação maravilhosa! Nada a desejar. Pleno, completo, feliz! 
Mas logo as amêndoas começam a se revelar salgadas demais e o suco muito doce. Só me confirmando que o Caminho não é por aqui.

***

Saiu na Superinteressante, edição verde, na coluna Ciência Maluca: um estudo da universidade do Missouri, EUA, que analisou a população de quatro países concluiu que as pessoas que adotam uma postura ética ao invés da natural tolerância e/ou prática do 'jeitinho' tem um nível de satisfação maior com a vida. Tal conduta eleva tanto o nível de felicidade quanto um aumento de salário.
Legal! É quase exatamente o que o Buddha diz. A satisfação é maior do que a por um aumento.
***

Com respeito ao "Uma Palavra Por Dia", vou criar uma página aqui no blog de forma que o texto vai ficando todo em um só lugar. Vou atualizando e será só clicar no 'páginas' ali do lado esquerdo para ler.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

uma palavra por dia

Dia desses achei este livro na rede, no www.buddhanet.net.
A proposta é fomentar o uso do pali para o estudo do Buddhadhamma. Compreender o significado das palavras no original é muito melhor do que nos basear em traduções se queremos gerar a experiência direta do que o Buddha ensinou.
Gostei tanto do livro que acho que vou publicar minha tradução do texto aqui juntamente com minhas impressões das palavras apresentadas.
Espero que gere o mesmo interesse em quem passe por estas bandas!

11/10/2011
Este trabalho foi assumido pelo Grupo De Tradutores do Centro de Estudos Buddhistas Nalanda e em breve eu publico o link do trabalho completo por aqui! 

24/10/2011
o Link para o trabalho completo:
http://nalanda.org.br/uma-palavra-pali-por-dia

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

cinco agregados

Os nomes são forminhas nas quais congelamos os fenômenos no tempo e no espaço. 
Como fazemos com os Cinco Agregados. 
O Buddha nos diz que somos meramente um conjunto de cinco: corpo, sensações/sentimentos, formações mentais/pensamentos, percepções e consciência. Não é forte o entendimento de que então, oras, podemos ser divididos nessas cinco 'coisas'? Nos imaginamos como um constructo de onde podem ser tirados, um a um, estes componentes.
Mas acho que não é bem assim.
A mente agarra qualquer fenômeno do qual se conscientize. E nomeia, congela e separa: isto, aquilo, aquele, aquela lá... Assim é como faz com os agregados que o Buddha listou. A qualquer cousa que surja para a mente e que possamos identificar como 'meu/eu/meu eu', eis um agregado embalado em upadana. Por exemplo: me 'identifíxo' com(o) meu corpo, meu sentimento/sensação, meus pensamentos, minha percepção, minha consciência. A cada vez que um (ou mais) surge, congelamos e compomos um eu com base nisso. E se há tal objeto precisa haver um eu possuidor/observador. É assim. Eis eu.
Eu acho que o que o Buddha quis dizer foi que estes fenômenos transitórios e compostos, como quase todo o resto, que ele chamou agregados, são por onde nos vemos como seres. Não é que sejam pedaços do ser. São sim eventos que a mente pontua e discerne no processo de existir. Cenas da peça que encenamos e que chamamos minha vida.
O Buddha declara cinco agregados. Eu não consigo ver mais nenhum. Se alguém encontrar, tudo bem. Certamente será mais um objeto "eusificado/eusificante".
Então, o caminho do despertar não é o de separar estes agregados mais do que o de perceber como a mente interpreta estas diversas formas de engendramento do eu, do mundo. É perceber como se dá a construção de um personagem com base nestes fenômenos distintos e identificáveis no contínuo do existir. É deixar a mente fazer o trabalho dela, que é conhecer. Este é o objetivo da meditação. Porque existe a ignorância que impede a mente de experienciar os agregados tal como são. Porque encapsulamos as coisas, congelamos e separamos. É um ciclo, mesmo. Repetitivo. Não é só o meu texto que é tosco. É avijja que é assim! Seguimos congelando repetidamente e nos mantendo cegos para o fato de que tudo é um ir vertiginosamente dinâmico e sem identifixidade.
E por conta disso, talvez a pergunta surja: mas quem medita?
Estritamente falando, ninguém. Mas não gosto de acabar com declarações pseudoprofundas e repetitivas.
Não há um que medite.
Começa lá atrás, com uma tomada de consciência de que algo não está bem. Achamos que há um eu que sente, tudo bem. Aí conhecemos o ensinamento do Desperto, do Buddha. Começamos a meditar. Achamos que "eu" meditamos. Tudo bem. Estudamos, entre outras coisas, os Cinco Agregados. Achamos que há um eu composto pelos Cinco. Tudo bem. Se continuamos a meditar e estudar, poderemos experienciar, vez ou outra e definitivamente todo o descrito até aqui livre de uma falsa terceira pessoa, que para nós sempre foi primeira: o eu. E revelarse-a, então, só o acontecendo: inspira, expira; tomada de consciência; inspira, expira. Sem primeira pessoa, nem segunda, nem terceira. A experiência acontecendo e absolutamente impossível de ser capturada e posta na forminha.
Tudo bem.

Speech by ReadSpeaker