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terça-feira, 15 de julho de 2014
quarta-feira, 1 de maio de 2013
pra você, eu e todo mundo cantar junto
um bom amigo tem se interessado por buddhismo e meditação, variando a ordem dos interesses. tem lido e pesquisado na rede e diz inclusive que descobriu este blog googlando em busca de dhamma por aí. gostei!
ele está, como a maioria de nós, entre o nosso lar e a vida sem lar.
caminha.
numa conversa recente me dizia que "assunto espinhoso este de anattā! esta coisa no buddhismo é que é difícil, hein?". percebo que o rapaz tem bons olhos, já vi e vejo de gente mais adiante na senda afirmar que 'é só desapegar, é só não ter apego...'
só, olha só.
o venerável bhante katukurunde ñanananda diz em algum dos sermões sobre nibbāna que realizar anattā é, em si mesmo, o nibbāna.
que bom que seja fácil para alguns. que bom que haja alguns capazes de ver e reconhecer os espinhos. anattā, anicca e dukkha não são visões ou crenças a se adotar, são experiências a se ter. primeiro estudamos, lemos e compreendemos; comparamos esta compreensão com o mundo que conhecemos em seus aspectos interno e externo e decidimos se vale a pena continuar aprofundando as percepções que surgirem.
se somos sinceros, talvez este estudo comece a vir de encontro ao rumo que naturalmente temos mantido na vida, me parece que é neste momento que devemos abrir bem os olhos para sinceramente ver que não é fácil ou se está sendo fácil demais.
quinta-feira, 20 de dezembro de 2012
tu és só isso
mente e matéria.
nada mais.
uma condicionando a outra.
só isso.
não é uma descrição agradável quando contemplada cuidadosamente. implica em que no visto há só o processo de ver, no degustado só o processo de degustar, no ouvido só o ouvir, no sentido só o sentir, no pensado só o pensar. tudo começando só para acabar, começando a acabar já no começo. nenhuma testemunha para curtir ou dar um plus. onde não há ninguém, ninguém há para haver, apesar das aparências. esta mesma aparência que faz de tudo tão sofridamente frustrante.
segundo a segundo; hora a hora; dia a dia; semana a semana; mês a mês; ano a ano; só isso.
aparência até o fim.
visite + Bhante Katukurunde Ñanananda
quarta-feira, 12 de dezembro de 2012
tédio
...tudo bem, tédio também é sofrimento. o problema, talvez, é que na maioria das vezes é um sofrimento fraquinho, insuficiente para gerar alguma mudança significativa e sempre há os remédios clássicos: novidades excitantes competindo com o, digamos a verdade, inicialmente amargo Buddhadhamma.
mas do estou falando, afinal?
é que dia destes conversávamos, por cima, superficialmente, sobre a classe média e o buddhismo e, convenhamos, o grosso dos buddhistas por aqui está da média para cima. por razões lógicas e justas: mais cultura, mais viagens, mais acessos. e, também e lamentavelmente, por mais tédio. não sei como é ter tudo, ou muito, do que se quer, mas deve ser meio chato depois de uma meia vida...
aí, como o tédio me parece ser o que disse acima, acaba gerando a busca por uma espécie de buddhismo adocicado, um buddhismo prozac, um buddhismo smurf. um buddhismo que não consegue se impor, como solução, para aquilo que o shopping sempre pode aliviar, uma vez que esta é a função sagrada dos shoppings. um buddhismo que cativa pelo que tem de menos importante: cores, costumes culturais de lá e de acolá, concertos dos beach boys, entrevistas do richard geere, cabeças raspadas, trejeitos e palavras de sabedoria de um ou outro sábio e compassivo. enquanto a vida segue e aqueles aspectos que me parecem ser a razão fundamental do buddhismo vão para debaixo do tapete mágico. e os grupos se reunem sorridentes, sem forçar a barra, em seus voos razos.
a pior coisa que pode acontecer para um bon vivant é ele gostar de buddhismo. e muito pior isto é para o dhamma.
fazer o que? a vida é imperfeita.
mas não diga aos bon vivants do dhamma que a vida é imperfeita: depois que eles conheceram o dhamma, a vida tornou-se linda!
mas do estou falando, afinal?
é que dia destes conversávamos, por cima, superficialmente, sobre a classe média e o buddhismo e, convenhamos, o grosso dos buddhistas por aqui está da média para cima. por razões lógicas e justas: mais cultura, mais viagens, mais acessos. e, também e lamentavelmente, por mais tédio. não sei como é ter tudo, ou muito, do que se quer, mas deve ser meio chato depois de uma meia vida...
aí, como o tédio me parece ser o que disse acima, acaba gerando a busca por uma espécie de buddhismo adocicado, um buddhismo prozac, um buddhismo smurf. um buddhismo que não consegue se impor, como solução, para aquilo que o shopping sempre pode aliviar, uma vez que esta é a função sagrada dos shoppings. um buddhismo que cativa pelo que tem de menos importante: cores, costumes culturais de lá e de acolá, concertos dos beach boys, entrevistas do richard geere, cabeças raspadas, trejeitos e palavras de sabedoria de um ou outro sábio e compassivo. enquanto a vida segue e aqueles aspectos que me parecem ser a razão fundamental do buddhismo vão para debaixo do tapete mágico. e os grupos se reunem sorridentes, sem forçar a barra, em seus voos razos.
a pior coisa que pode acontecer para um bon vivant é ele gostar de buddhismo. e muito pior isto é para o dhamma.
fazer o que? a vida é imperfeita.
mas não diga aos bon vivants do dhamma que a vida é imperfeita: depois que eles conheceram o dhamma, a vida tornou-se linda!
domingo, 30 de setembro de 2012
macacada
há pouco conversava com um amigo simpatizante do buddhismo. leitor de muitas coisas, amante do saber, um reflexivo. dizia-me que tenta meditar, mas não consegue. repliquei que se tenta, de certa forma já medita. dizia-me que há dificuldade em desapegar-se, há a vida, há os apetites, há os amores, os desejos e as famílias. repliquei que há necessidades, se não todas saudáveis do ponto de vista de um Desperto, ao menos há possibilidades de se manter um equilibrado controle da doença que é o samsara. e há obsessões. há que se satisfazer necessidades de forma equilibrada que estas tendem a diminuir serenamente. mas se cria-se e nutre-se e cuida-se de obsessões, estas aumentam monstruosamente. dizia-me como o buddhismo acerta sobre as coisas. repliquei que é mesmo...
dizia-me que precisava aquietar o macaco louco. repliquei que se o macaco percebe que estamos atrás, aí que não pegamos ele. é preciso espreitar, meio de longe, meio como quem não está por ali. de rabo de olho, vigiar o bicho. decorar seus movimentos, gravar seus caminhos, deixar que se acostume com nossa presença. sejamos amigos, sejamos bonzinhos. até que o macaco venha descansar em nosso colo.
dizia-me o amigo daqueles que se conhece há mais de vinte anos, com quem se estudava, com quem se acertava e errava, com quem se ouvia rock em silêncio. daqueles que caminham até longe. daqueles de muito antes das redes que emaranham pessoas. daqueles que sabem quem fomos. que leram nossos livros. amigos que ainda gostam de se ouvir.
sexta-feira, 22 de junho de 2012
por que que a gente é assim?
não sou um grande leitor de suttas.
na maior parte das vezes que vou a um sutta é porque ele foi, todo ou em parte, comentado em algum texto que eu esteja lendo. e aí eu fico maravilhado pela perspicácia do Buddha, pela beleza e profundidade da metáfora e, quase sempre, por eu já ter passado por ali e não ter apreendido toda a nuance do agora tão completo ensinamento.
por eu conhecer pouco os suttas eu não deveria expressar a ideia que vou mesmo assim.
ainda não vi o Buddha dizer que o mundo é perfeito.
ainda não vi o Buddha dizer que a natureza das coisas é bela. que tudo é maravilhoso em si. ainda não vi o Buddha dizer para nos fazermos abertos à mágica da vida.
o que sempre encontro é o Buddha falando da necessidade do desapego, do desencanto, da temeridade do surgir e cessar dos compostos, da vanidade da beleza, da doença, do envelhecimento, da morte e da absoluta necessidade do escape disso tudo.
mas não é raro eu ver textos de dhamma falando as coisas que eu ainda não vi o Buddha falar.
mas, se eu não estiver escrevendo (mais) uma grande besteira, por que o Buddha não falava, então?
porque Ele sabia como a gente é.
é porque Ele sabia que daríamos um jeito de elucubrar formas absurdas para despertar e continuar dormindo. Ele sabia da nossa incomensurável preguiça e sono. Ele sabia que a mais tênue sujestão de concessão ao samsara iria prevalecer sobre qualquer milhar de conselhos que desse para abandoná-lo.
então, mesmo que o Buddha não tenha feito tal concessão, como eu disse, não sou qualificado para afirmar isso, ela foi achada e nós nos aconchegamos nela sempre que podemos ou descuidamos.
e a noite nunca tem fim.
preferimos tais abordagens e nos encantamos na sua profundidade. aquelas vindas de mentes que superaram a dualidade. que afirmam a maravilha do surgir e cessar, a mágica do existir, o fulgor, a intensa beleza e possibilidades que a vida nos oferece. isto sim é a sabedoria que combina com o modo como sabemos ser. nos é agradavelmente enlevante. aí não é a vida que é imperfeita, nós é que não sabemos enxergar sua perfeição, afinal podemos escapar da prisão e continuar nela, como um pasarinho capaz de voar carregando a gaiola consigo.
eu vou continuar buscando pela condescendência do Buddha.
enquanto não a encontro, prefiro me manter empenhado em um dia compreender "sabbe sankhara dukkha".
e pedindo para que, por favor, me ajudem a corrigir meu possível erro.
terça-feira, 27 de março de 2012
nãoeu.exe
...pensemos que é como se baixássemos o nãoeu.exe e o deixássemos ali no desktop, na área de trabalho, sem executar.
temos o programa, podemos lê-lo quando preciso, podemos falar sobre suas vantagens e aplicações com nossos amigos, o aplicativo realmente parece bom, não há o que apontar de ruim sobre ele, é só estrela, mas ainda não o executamos.
não conseguimos executar porque há inúmeras incompatibilidades que precisamos resolver. e é chato, cansativo, até dolorido resolvê-las.
precisamos fazer muitos ajustes, como no eumeamo.exe. temos que excluir alguns como o euquesei.exe, o eusoumaiseu.exe, o problemameu.exe, eutenhosemprerazão.exe e vários outros dos quais somos quase dependentes, sem os quais praticamente não conseguimos viver! o euexisto.exe, por exemplo! como ficar sem ele!? e é justamente o mais incompatível de todos!!
mas temos lá o desktop ostentando o programa.
chique.
e euentendo.exe parece até rodar melhor...
terça-feira, 20 de março de 2012
sistema imunológico
"Bastou a um príncipe indiano ver um velho, um inválido e um morto para compreender tudo; nós que também os vemos não compreendemos nada, pois nada muda em nossa vida. Não podemos renunciar a coisa alguma; no entanto as evidências da vaidade estão ao nosso alcance. Doentes de esperança, esperamos sempre; e a vida não é mais do que a esperança hipostasiada."
diz emil cioran no ensaio imunidade contra a renúncia do livro breviário de decomposição, editora rocco.
em um diálogo onde surgiu o assunto nibbana, conversamos que este está além de toda comparação, compreensão, conceituação.
parece correto.
mas penso que é preciso ter o cuidado de observar que aceitar esta noção de o nibbana ser assim tão indizível de uma forma muito empolgada pode ser mais uma estratégia do nosso sistema imunológico anti-renúncia.
porquê nos falta, em princípio, um parâmetro para comparar, passamos, sutilmente, a relacionar a alegria da prática buddhista àquilo que unicamente conhecemos como alegria, que são as sensações próprias do nosso modo de existir: basicamente a satisfação de um desejo. é natural que comecemos a tentar, por mais que nos informem do contrário, encaixar o nibbana naquilo que é o problema a ser sanado por sua realização, e passamos a reforçar nosso natural instinto de afirmação da única forma de existência que conhecemos: aquela baseada no eu existo.
uma vez que do nibbana não se possa dizer que é existência nem não-existência, para qual lado nossos imuno-soldadinhos vão sorrateiramente pender?
as palavras entram pelos ouvidos e olhos e saem da boca mas no meio deste trajeto, entre a entrada e a saída, são contaminadas pelos anticorpos anti-renúncia.
há sempre uma reticência, há sempre uma tentativa de enxergar na vida, condicionada como ela é e, sendo condicionada, uma causa de insatisfação e decepção segundo o Buddha, um valor, um algo que nos justifique manter nosso ponto de vista inato de que não é dukkha. ou, se é, dukkha não é tão ruim assim, sussurramos para nós mesmos.
renúncia, em termos buddhistas, não é uma coisa fácil.
não é, certamente não é, uma coisa simples experimentar o sofrimento que existe na satisfação da fome ou que a verdadeira paz é fruto de não ter mais fome. abrir mão da fome, de taṇhā, não é coisa simples, talvez trabalho para uma vida ou mais, mas de forma alguma ajuda se permitir debater com aquilo que o Buddha disse tão claramente e que uma observação e contemplação sinceras, mesmo que a mente ainda seja desprovida de elevadas aquisições meditativas, é capaz de nos mostrar, nas minhas palavras: a vida é a manifestação de um problema que só o nibbana pode resolver.
existe alguma tristeza nesta última afirmação?
a resposta mais precisa é a vida do próprio Buddha.
após seu despertar, viveu por muitos anos em alegria e energicamente ensinando só isso, a insatisfação e seu fim.
meu esforço como Seu seguidor não é outro além do de descobrir como ser verdadeiramente feliz enquanto resultante partícipe deste turbilhão de enganos.
mas sem tentar mudar Suas palavras. sem sonhar com outra vida. sem me revoltar contra o óbvio.
sem piorar as coisas.
parece correto.
mas penso que é preciso ter o cuidado de observar que aceitar esta noção de o nibbana ser assim tão indizível de uma forma muito empolgada pode ser mais uma estratégia do nosso sistema imunológico anti-renúncia.
porquê nos falta, em princípio, um parâmetro para comparar, passamos, sutilmente, a relacionar a alegria da prática buddhista àquilo que unicamente conhecemos como alegria, que são as sensações próprias do nosso modo de existir: basicamente a satisfação de um desejo. é natural que comecemos a tentar, por mais que nos informem do contrário, encaixar o nibbana naquilo que é o problema a ser sanado por sua realização, e passamos a reforçar nosso natural instinto de afirmação da única forma de existência que conhecemos: aquela baseada no eu existo.
uma vez que do nibbana não se possa dizer que é existência nem não-existência, para qual lado nossos imuno-soldadinhos vão sorrateiramente pender?
as palavras entram pelos ouvidos e olhos e saem da boca mas no meio deste trajeto, entre a entrada e a saída, são contaminadas pelos anticorpos anti-renúncia.
há sempre uma reticência, há sempre uma tentativa de enxergar na vida, condicionada como ela é e, sendo condicionada, uma causa de insatisfação e decepção segundo o Buddha, um valor, um algo que nos justifique manter nosso ponto de vista inato de que não é dukkha. ou, se é, dukkha não é tão ruim assim, sussurramos para nós mesmos.
renúncia, em termos buddhistas, não é uma coisa fácil.
não é, certamente não é, uma coisa simples experimentar o sofrimento que existe na satisfação da fome ou que a verdadeira paz é fruto de não ter mais fome. abrir mão da fome, de taṇhā, não é coisa simples, talvez trabalho para uma vida ou mais, mas de forma alguma ajuda se permitir debater com aquilo que o Buddha disse tão claramente e que uma observação e contemplação sinceras, mesmo que a mente ainda seja desprovida de elevadas aquisições meditativas, é capaz de nos mostrar, nas minhas palavras: a vida é a manifestação de um problema que só o nibbana pode resolver.
existe alguma tristeza nesta última afirmação?
a resposta mais precisa é a vida do próprio Buddha.
após seu despertar, viveu por muitos anos em alegria e energicamente ensinando só isso, a insatisfação e seu fim.
meu esforço como Seu seguidor não é outro além do de descobrir como ser verdadeiramente feliz enquanto resultante partícipe deste turbilhão de enganos.
mas sem tentar mudar Suas palavras. sem sonhar com outra vida. sem me revoltar contra o óbvio.
sem piorar as coisas.
sexta-feira, 9 de março de 2012
meu mantra
somos todos uns pobres diabos.
adoro esta frase.
muito por tê-la lido do saramago. mais por ecoar o que tenho apreendido do Buddhadhamma. ela me é como um mantra.
o girar da vida a minha volta e dentro de mim é quase sempre no sentido oposto ao Dhamma do Buddha. um sinal deste giro contrário é a forma como nos vamos apegando aos saberes que acumulamos. cada novo saber é um tijolo, uma pá de concreto na estátua do ego. "Eu sei isso agora!" comemoramos, e está posto mais um peso sobre esta carroça de rodas quadradas que puxamos para todo lado.
sempre que me pego carregando a minha eu recito: somos todos uns pobres diabos.
não sei muita coisa que efetivamente me alivie o peso. e não quero mais peso sobre a garupa. aquilo que vou descobrindo, que seja mais um retirar de ignorância do que um acrescentar de saber.
é difícil reconhecer que sou filho de avijja. mas a única forma de sair de baixo das enormes asas de mamãe é aceitando-a e compreendendo-a.
somos todos uns pobres diabos.
o que efetivamente sabemos que nos tire o amargo da boca quando comemos muito chocolate?
qual o conhecimento que nos tranquiliza quando na insônia nos vem a lembrança de nosso destino certo: uma doença horrível, uma perda, a tumba...?
o que eu sei que não possa ser dito ou pensado ou conceituado mas apenas organicamente sentido como paz no corpo e mente?
quanta tralha eu ainda preciso tirar da carroça antes de efetivamente abandonar a própria com suas rodas quadradas?
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
o problema da identidade
o problema da identidade é que mesmo quando tendo mais cabelo, menos rugas, olheiras e gordura eu consegui sair tão mal naquela foto, imagina hoje!
na verdade este é o problema do documento de identidade.
o da identidade é ainda mais sem graça.
identificar-se como qualquer coisa é realmente como amontoar bolhas de sabão sobre a superfície da água. o negócio se espalha, estoura, dissolve-se enquanto continuamos absorvidos na inútil tarefa.
mas basta pararmos para olhar com atenção, vermos a dinâmica da coisa para desistirmos, ao menos até a próxima descuidada, de continuarmos com aquilo.
qualquer identidade que nos atribuímos traz problemas.
minha fonte de néctar neste aspecto é Ajahn Buddhadasa.
como ele ensina, qualquer coisa com a qual nos identificarmos trará problemas: um bom, um mau, um legal, um triste, um chato, um alegre, um festivo, um problemático, um sábio, um vencedor, um perdedor... qualquer identidade é uma tentativa frustrante de conter a correnteza do existir.
deixemos que os outros pensem algo de nós, mas não façamos o mesmo. vamos nos manter observando o processo.
até o fim.
minha fonte de néctar neste aspecto é Ajahn Buddhadasa.
como ele ensina, qualquer coisa com a qual nos identificarmos trará problemas: um bom, um mau, um legal, um triste, um chato, um alegre, um festivo, um problemático, um sábio, um vencedor, um perdedor... qualquer identidade é uma tentativa frustrante de conter a correnteza do existir.
deixemos que os outros pensem algo de nós, mas não façamos o mesmo. vamos nos manter observando o processo.
até o fim.
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
uma dose de Bukowski e muito dhamma
paro
não importa o quanto corram, eu vou devagar
e paro
ouço
não importa o quanto chamem, eu ouço
não importa quantos sabores criem
quantos modelos
quantos recursos
quantos aplicativos
de quantas necessidades precisem
não importa quantas festas
quantos shows
quantos bares
quantos assuntos
quanto barulho
quanta tv
eu não ligo
eu não vou
me basta o bastante
não importa quanta realidade inventem
quantos jogos
quantos programas
quanta disputa
quanto celebrem
quanta celebridade
eu ignoro
não importa quanto tocam
quanto compoem
quanto vibram
quanto pulam
quanto gritam
quanto cantem
eu silencio
e eu recuso os panetones de setembro
os ovos de páscoa de fevereiro
as canjicas de abril
e as micaretas todas
os amistosos
os preparativos
eu recuso
eu me enraízo
e abdico da razão
eu não penso enquanto caminho
eu sinto meus pés no chão
meditação, meditação...
quase ninguém percebe que
O Buddha
ao despertar
tocou a terra
não importa o quanto corram, eu vou devagar
e paro
ouço
não importa o quanto chamem, eu ouço
não importa quantos sabores criem
quantos modelos
quantos recursos
quantos aplicativos
de quantas necessidades precisem
não importa quantas festas
quantos shows
quantos bares
quantos assuntos
quanto barulho
quanta tv
eu não ligo
eu não vou
me basta o bastante
não importa quanta realidade inventem
quantos jogos
quantos programas
quanta disputa
quanto celebrem
quanta celebridade
eu ignoro
não importa quanto tocam
quanto compoem
quanto vibram
quanto pulam
quanto gritam
quanto cantem
eu silencio
e eu recuso os panetones de setembro
os ovos de páscoa de fevereiro
as canjicas de abril
e as micaretas todas
os amistosos
os preparativos
eu recuso
eu me enraízo
e abdico da razão
eu não penso enquanto caminho
eu sinto meus pés no chão
meditação, meditação...
quase ninguém percebe que
O Buddha
ao despertar
tocou a terra
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sábado, 27 de março de 2010
o sentido
O Buddha diz que se não houvesse o prazer no mundo, os seres não engendrariam a adesão ao mundo.
O modo de funcionar dos sentidos é este: prazer e dor. E neutralidade. Esperar que chocolate um dia pareça jiló é ilusão! Chocolate é bom, para mim e para o Arahant (que goste de chocolate!).
Não é confiando nos sentidos que a Renúncia será experimentada. A função deles é manter a Roda girando.
Já a observação sábia dos sentidos, por outro lado, garante um conhecimento crescente de seu funcionamento e o do mundo. E é desse conhecimento que, até que se prove o contrário, surge o desgosto, o afastamento e a Renúncia.
O Buddha não ensina a transformação do mundo. Ensina, meramente, sua compreensão.
sexta-feira, 5 de março de 2010
o horror... o horror...
Ouvi durante cerca de cinquenta minutos. Raiva, rancor, traição. Tudo baseado em quereres, desejos, disputas. Amizade que ia bem até que o mesmo objeto incendiou os apegos. E aí começou a tragédia! O mais triste é ter uma imensa vontade de dizer que nada daquilo vale a pena, que não há o que justifique permitir o coração assim, cheio de rancor, que tudo passa, mas não encontrar espaço, nem momento, nem palavras. É só permanecer ali, com uma imensa sensação de impotência, ouvindo deprimentes relatos de guerra.
A única frase que sai: "Não se preocupe. Todo o dito fica entre nós."
Às vezes há a vontade iludida de salvar o mundo! Compartilhar palavras de amor e sabedoria, mostrar que há um Caminho que liberta... Mas há estes momentos de realidade que nos coloca em nosso devido campo de batalha: nosso interior. Não há outro lugar. É aqui por dentro que eu posso fazer algo de significativo para o mundo. Com muita paciência, esforço e dedicação. Assim carregando a paz em segurança mesmo no meio de fogo cruzado.
quarta-feira, 16 de dezembro de 2009
Espelho, espelho meu...
Mas então, por que nós nos ressentimos tanto de mexer com os nossos desejos? Por que sempre que o Buddha fala que o desejo (taṇhā) precisa ser eliminado nós damos uma mexida no assento, coçamos a cabeça, olhamos para o lado...?
Criam uma imagem baseada nos próprios valores, ou pontos de vista, ou na própria auto imagem, ou até naquilo que gostariam de ser mas não conseguem, e passam a desejar que um outro torne-se isso! E eis que o tormento se desenrola, às vezes, ou quase sempre, maior para quem deseja!
É tão impossível mudar o outro quanto necessário, apesar de difícil, mudar a nós mesmos. Só nos resta esperar que um bom exemplo surta efeito...
A única forma de nos tornarmos donos do nosso destino é pela sábia desistência de possuir um destino.
***
Chega a ser doloroso observar pessoas que acreditam que podem mudar outras pessoas. Podem passar uma vida nesta ilusão.Criam uma imagem baseada nos próprios valores, ou pontos de vista, ou na própria auto imagem, ou até naquilo que gostariam de ser mas não conseguem, e passam a desejar que um outro torne-se isso! E eis que o tormento se desenrola, às vezes, ou quase sempre, maior para quem deseja!
É tão impossível mudar o outro quanto necessário, apesar de difícil, mudar a nós mesmos. Só nos resta esperar que um bom exemplo surta efeito...
***
Tão doloroso quanto, é observar aqueles que se dizem 'donos do seu destino'. Que afirmam, ou acreditam, que podem tudo! Vencer, vencer, vencer... Igual ao flamengo! Aí, é constrangedor observar suas expressões diante das vicissitudes e descontrole da vida...A única forma de nos tornarmos donos do nosso destino é pela sábia desistência de possuir um destino.
sexta-feira, 27 de novembro de 2009
upādāna
De vez e quando alguém pergunta se não haveria um 'apego bom'. Um apego do qual não precisaríamos nos livrar.
Isso vem do nosso mal entendimento do que significa a palavra pali upādāna causado pela recorrente dificuldade de tradução. Upādāna abrange, segundo Ajahn Buddhadasa em "A causa do Sofrimento na Perspectiva Buddhista" (pág. 94), os significados de: apegar-se, agarrar e segurar. Ele, inclusive, aconselha-nos a combinarmos mentalmente estes três significados e passarmos a usar a palavra pali com o entendimento resultante ao invés da tradução apego.
Nossa mente concebe entidades que encapsulam os fenômenos. Não concebemos as coisas como processos dependentes, embora possamos, racionalmente, compreender isso. Não pensamos no nosso computador como um conjunto de componentes pelos quais passa um fluxo de energia. Não vivenciamos a idéia de que a cada vez que usamos o computador, estamos consumindo estes mesmos componentes, cada uso é uma gota de destruição. Da mesma forma que cada respiração é um passo em direção à dissolução deste composto corpo e mente. Não concebendo a realidade da forma adequada, povoamos o existir de entidades que permanecem, resistem e subsistem aos fenômenos e compomos a dicotomia possuidores/possuídos. Ilusões possuindo ilusões.
Isto me parece ser, em essência, upādāna. E não há como qualquer felicidade real surgir disso.
Há um trecho do Ariyapariyesana Sutta (A Nobre Busca) que acho que, se for decorado, repetido e tiver o seu entendimento frequentemente burilado e aprofundado na mente, pode conduzir a uma compreensão bastante poderosa de upādāna. É o seguinte:
“Bhikkhus, existem esses dois tipos de busca: a busca nobre e a busca ignóbil. E o que é a busca ignóbil? Nesse caso, alguém que, estando ele mesmo sujeito ao nascimento, busca aquilo que também está sujeito ao nascimento; estando ele mesmo sujeito ao envelhecimento, busca aquilo que também está sujeito ao envelhecimento; estando ele mesmo sujeito à enfermidade, busca aquilo que também está sujeito à enfermidade; estando ele mesmo sujeito à morte, busca aquilo que também está sujeito à morte; estando ele mesmo sujeito à tristeza, busca aquilo que também está sujeito à tristeza; estando ele mesmo sujeito às contaminações, busca aquilo que também está sujeito às contaminações."
Fazer daquelas entidades concebidas, as bases e fontes da nossa felicidade, não pode dar certo...
Isso vem do nosso mal entendimento do que significa a palavra pali upādāna causado pela recorrente dificuldade de tradução. Upādāna abrange, segundo Ajahn Buddhadasa em "A causa do Sofrimento na Perspectiva Buddhista" (pág. 94), os significados de: apegar-se, agarrar e segurar. Ele, inclusive, aconselha-nos a combinarmos mentalmente estes três significados e passarmos a usar a palavra pali com o entendimento resultante ao invés da tradução apego.
Nossa mente concebe entidades que encapsulam os fenômenos. Não concebemos as coisas como processos dependentes, embora possamos, racionalmente, compreender isso. Não pensamos no nosso computador como um conjunto de componentes pelos quais passa um fluxo de energia. Não vivenciamos a idéia de que a cada vez que usamos o computador, estamos consumindo estes mesmos componentes, cada uso é uma gota de destruição. Da mesma forma que cada respiração é um passo em direção à dissolução deste composto corpo e mente. Não concebendo a realidade da forma adequada, povoamos o existir de entidades que permanecem, resistem e subsistem aos fenômenos e compomos a dicotomia possuidores/possuídos. Ilusões possuindo ilusões.
Isto me parece ser, em essência, upādāna. E não há como qualquer felicidade real surgir disso.
Há um trecho do Ariyapariyesana Sutta (A Nobre Busca) que acho que, se for decorado, repetido e tiver o seu entendimento frequentemente burilado e aprofundado na mente, pode conduzir a uma compreensão bastante poderosa de upādāna. É o seguinte:
“Bhikkhus, existem esses dois tipos de busca: a busca nobre e a busca ignóbil. E o que é a busca ignóbil? Nesse caso, alguém que, estando ele mesmo sujeito ao nascimento, busca aquilo que também está sujeito ao nascimento; estando ele mesmo sujeito ao envelhecimento, busca aquilo que também está sujeito ao envelhecimento; estando ele mesmo sujeito à enfermidade, busca aquilo que também está sujeito à enfermidade; estando ele mesmo sujeito à morte, busca aquilo que também está sujeito à morte; estando ele mesmo sujeito à tristeza, busca aquilo que também está sujeito à tristeza; estando ele mesmo sujeito às contaminações, busca aquilo que também está sujeito às contaminações."
Fazer daquelas entidades concebidas, as bases e fontes da nossa felicidade, não pode dar certo...
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