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quarta-feira, 15 de abril de 2015

saudade

recebi dia desses um vídeo, dessas correntes que as tecnologias de hoje permitem. na verdade recebi de novo, eu acho...
com aquela música em que o djavan diz que é feliz e por isso está aqui e também quer viajar naquele balão, o vídeo exibe uma sequência de coisas que marcaram a infância e adolescência da minha geração: doces, brinquedos, personagens, brincadeiras...
superfantástico.
e aí, se entre outros, é praxe concordar com o "nossa, aquilo que foi época! que saudade!"
faz parte de estar entre outros, como fazem tantas coisas...
mas só, eu não.
saudade é algo sobre o que nem penso muito. cada dia vivido, foi. que vá. que passe. na memória, um dia que passou.
a calva aumenta, o corpo dói cada vez um pouquinho mais, mas a alma menos.
a alma se aquieta.
aspiro ficar só com a dor que for inevitável.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

fecha parênteses

mais uma tradução devidamente revista.
e autorizada pelo autor.
aqui o original.
e aqui.



Existência Significa Controle


Por Bhikkhu Ninoslav Ñāamoli




Para que algo exista (bhava), a fim de que exista em um sentido completo e apropriado, tal coisa tem de estar presente, em primeiro lugar, na forma de uma experiência plena. Quando eu digo "presente", isto deve ser entendido no sentido de que só podemos "encontrar" as coisas se estas já estão lá, no mundo. (Cf. a afirmação de Sartre em O Ser E O Nada que cada coisa nos chega com o passado). O fato é que as coisas só podem ser encontradas quando já estão presentes e isso significa que - fundamentalmente falando - estão além do controle1, não se pode ser o seu criador. Assim, a experiência como um todo não pode ser controlada; o máximo que uma pessoa pode fazer é modificar um já determinado estado de coisas, em um nível mais específico.

Tome-se os cinco agregados como exemplo: a sua natureza é aparecer, desaparecer, e mudar enquanto aparente, de acordo com o que é. É somente por upādāna que esta característica é obscurecida2, e ao invés dela, em tal caso, o ego aparente torna-se o agente fundamental do processo ou, pelo menos, esta é a forma como ele aparece a um puthujjana. Aquele que não está livre de upādāna, e da certeza de um ego, confunde o fato de que os cinco agregados (ou, neste caso, os cinco agregados apegados) podem ser modificados ou afetados, uma vez que surjam, com a noção de que eles podem ser controlados. Esta noção de controle também suporta (ou nutre) a visão de que o 'eu' é seu criador, o que por sua vez alimenta aquela noção, e assim indefinidamente. É por isso que com o 'ego' surge a percepção de domínio sobre a própria experiência

Attā, "eu", é fundamentalmente uma noção de domínio sobre as coisas.

(Ñāavīra Thera, Notes on Dhamma, DHAMMA)

O ego, então, como um "mestre", aparece como algo diferente, algo além dos cinco agregados apegados. Além disso, o ego continua achando a prova de sua existência constantemente ao interferir e modificar (quando possível) os estados surgidos dos cinco agregados apegados. O ego encontra prazer em fazê-lo.

Por outro lado, se o ego visse que, a despeito de toda a prova, o seu domínio na verdade requer (ou diretamente depende) dos cinco agregados, a noção de controle cessaria3. Isso deixa claro que o "ego" não pode exercer qualquer controle fundamental sobre o seu aparecer, desaparecer e mudança enquanto aparente. É por esta razão que por contemplar isto pelo tempo suficiente é possível tornar-se um arahat:

Então, monges, naquele tempo, o Buddha Vipassī permaneceu contemplando o surgimento e a cessação dos cinco agregados apegados ... E conforme ele permaneceu contemplando o surgimento e a cessação dos cinco agregados apegados, em pouco tempo sua mente se libertou do grilhões, sem restar vestígio.

(Mahāpadāna Sutta, Dīgha-nikāya 14 / II, 35)

Notas:

1 Ainda que se possa controlá-los, primeiro eles têm que existir. Em outras palavras - por sua própria natureza o controle é visto como algo além do nosso controle.

2 De fato, não é só a característica que é obscurecida, os cinco agregados não são vistos na maioria das vezes.

3 Porque para um puthujjana não é suficiente ver isso uma apenas vez. É somente com a repetição deste insight (alcançado através do esforço), que a visão habitual de controle irá desaparecer, e ser substituída (aos poucos também) pelo ponto de vista de uma inerente falta de controle - a visão da impermanência. Quando se vê que a impermanência subjaz a todos os projetos do ego, o ego deixa de ser ego, pois sem exercer controle essa individualidade não pode subsistir. (Cf. Ñāavīra Thera, Notes on Dhamma, PARAMATTHA SACCA, parágrafo 6)

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

que cheiro é esse?

parte das últimas palavras de um mestre da tradição das florestas da tailândia, luang pó piak, neste vídeo foram: "se quiser praticar pra valer contemple seu corpo e mente como sendo anicca, dukkha, anatta". ele responde à última pergunta das feitas por brasileiros e levadas a ele por iniciativa louvabilíssima do bikkhu mudito, monge brasileiro naquela tradição. perguntou-se se a prática de atenção plena, ou vigilância, ou presença mental, ou outra tradução que seja para a palavra pali 'sati', seria uma "prática de verdade", se "dá algum resultado". a resposta do mestre foi clara.
aquela pergunta revela parte do que compõe nossa dependência doentia da graça. nossa, de inutilidade difícil de perceber e de assim a reconhecer, procura pelo mágico. não sabemos o que ocorre aqui e agora, mas somos obcecados pelo que vem depois. e, ou, queremos algo especial, como explana o venerável sumedho neste magnífico texto. (texto não mais disponível no site. se eu reencontrar corrijo o link)
nada de mais é observar este corpo que decai momento a momento, sujeito à morte, à dor. esta mente que pula, esvai, turbilhona. estas sensações que atam. esta liberdade obediente à soberana ignorância. 
quando finalmente compreendermos o discurso do fogo...
até lá, vamos enfeitando tudo, até a prática do dhamma, que deveria levar ao desapego, ao desencanto, ao desapaixonamento. que deveria estar voltada para a completa percepção da mediocridade da vida, para então partir em busca de outra coisa. mas não, ainda encantados pelo mundo saímos em busca de um encanto maior, concebemos uma fonte de bênção que nada mais é que reflexo desta mesma condição desgraçada, mas embebida no perfume que ideamos. 


segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

rolezinho pelo Buddhadhamma

vira e mexe me deparo com alguma afirmação sobre um buddhismo ocidental em construção, e mesmo buddhismo moderno. acho isso uma grande bobagem, por um certo ângulo. 
o buddhismo é buddhismo, foi o que o Buddha ensinou e somos os mesmos da índia dos tempos do Buddha. os fenômenos continuam sendo anicca, dukkha e anatta.
por outro lado não é uma bobagem porque diz respeito às adaptações culturais que fizeram surgir inúmeros buddhismos pelo tempo e espaço. e aí eu simplesmente não me importo.
agora, há um aspecto cultural que talvez seja relevante discutir: a questão da autoridade, da centralização. esta coisa que está sendo diluída pela sociedade em rede. 
autoridades buddhistas, vamos falar especificamente de buddhismo porque sobre outras autoridades há farto material a ser estudado pelo bom leitor que gosta de refletir (a imprensa, os governos, até os shopping centers!!). então, autoridades buddhistas, sejam monásticas ou não-monásticas, num tempo que não volta mais publicavam seus textos e o papel ia para a mão de seus admiradores e alunos, cada autoridade publicava para a sua escola e seguia tendo retroalimentada a sua autoridade. se interessavam pelos textos aqueles que se interessavam e ponto porque ninguém gasta dinheiro com o que não lhe interessa. pelo menos os que tem pouco, como eu. os curiosos e/ou mal informados iam seguindo curiosos e semi-informados.
hoje mudou.
uma autoridade publica um texto na rede, e como de graça até injeção na testa, todo mundo lê. aí começa a encrenca, porque o questionamento surge, o diálogo se insere e a autoridade é posta na mesa. no meio buddhista, apesar da ausência de deus, esta questão ainda parece não estar sendo digerida. bom, na verdade esta questão é indigesta no geral, mas talvez, no buddhismo venha a ser um pouco pior por conta do estereótipo do dono da mágica, do sábio que fica no alto da montanha esperando que surjam seres aptos a beber de seu precioso néctar. 
um aspecto divertido disso, e mesmo um pouco paradoxal, é que o próprio Buddha estimulava o diálogo e o questionamento, me parece que há uma regra no vinaya, a disciplina monástica buddhista, que determina ao monge que este questione aparentes equívocos cometidos pelo seu  mestre, daí que, sendo isso verdade, o buddhismo dá mostras da sua atualidade (vocês três que leem este blog, pesquisem aí para nós, valeu?!) e, voltando lá  em cima onde eu comecei, modernizações podem não ser necessárias.
mas voltemos a onde estamos. 
então, parece que professores buddhistas precisam refletir sobre isso: uma coisa é uma situação onde a pessoa se põe sob treinamento e orientação prática. se eu estou meditando sob direção de um professor que me diz: isso é ISSO e faça ISTO. seria uma estupidez da minha parte começar com "teacher, mas isso não poderia ser isso... ou talvez até aquilo...?" e perder nosso, meu e dele, precioso tempo. outra coisa é publicar pensamentos, ideias e interpretações e esperar que isto seja saudado como fina sabedoria por todo o mundo.
não é mais assim. e isto implica que antes de tornarmos públicas as nossas ideias é preciso que, ou saibamos que nossas ideias tem pouca importância e tudo bem se alguém resolver se dignar a gastar seu tempo nos provando como somos tapados, como é o meu caso, ou precisamos estar certos de sermos plenamente capazes de defender  o dito ou escrito no caso de alguém nos honrar com importância.
estamos surgindo como um grande composto pensante, conectados, interdependentes, condicionados, sem centro. exatamente como ensinou o Buddha.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

pra você, eu e todo mundo cantar junto

um bom amigo tem se interessado por buddhismo e meditação, variando a ordem dos interesses. tem lido e pesquisado na rede e diz inclusive que descobriu este blog googlando em busca de dhamma  por aí. gostei! 
ele está, como a maioria de nós, entre o nosso lar e a vida sem lar. 
caminha.
numa conversa recente me dizia que "assunto espinhoso este de anattā! esta coisa no buddhismo é que é difícil, hein?". percebo que o rapaz tem bons olhos, já vi e vejo de gente mais adiante na senda afirmar que 'é só desapegar, é só não ter apego...' 
só, olha só. 
o venerável bhante katukurunde ñanananda diz em algum dos sermões sobre nibbāna que realizar anattā é, em si mesmo, o nibbāna.
que bom que seja fácil para alguns. que bom que haja alguns capazes de ver e reconhecer os espinhos. anattā, anicca e dukkha não são visões ou crenças a se adotar, são experiências a se ter. primeiro estudamos, lemos e compreendemos; comparamos esta compreensão com o mundo que conhecemos em seus aspectos interno e externo e decidimos se vale a pena continuar aprofundando as percepções que surgirem. 
se somos sinceros, talvez este estudo comece a vir de encontro ao rumo que naturalmente temos mantido na vida, me parece que é neste momento que devemos abrir bem os olhos para sinceramente ver que não é fácil ou se está sendo fácil demais.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

descordar

a metáfora que vou apresentar a seguir nas minhas palavras aparece no oitavo sermão da série 'nibbāna - the mind stilled' do nunca suficientemente venerado venerável bhante katukurunde ñanananda. elaborada, rica e luminosa como é o todo de seus preciosíssimos textos, penso que a contemplação cuidadosa desta analogia pode fazer surgir um entendimento profundo. passemos a ela.
imagine longos cabos ou cordões. ao redor e ao longo de um os outros serão enrolados para formar uma corda. duas pessoas se põe, uma em cada extremo, para realizar a tarefa. para que surja a corda, cada um deve enrolar no sentido contrário do outro, note bem este detalhe. um terceiro elemento, digamos eu, se posiciona no meio entre os extremos sem ser notado (faça um esforço para aceitar isso) e segura os tais cordões num ponto de modo a impedir o enrolamento naquele ponto.
nos dois extremos os enroladores começam a sua tarefa. porém, eles começam e permanecem enrolando no mesmo sentido, para o mesmo lado, note bem também este detalhe. com o ponto intermediário preso por mim, mesmo com os extremos sendo enrolados na mesma direção uma corda começa a surgir e a se tornar cada vez mais corda, mais rígida, mais tensa conforme o trabalho prossegue.
então eu, num dado momento, quando uma bela corda é aparente, resolvo soltar aquele ponto. o que ocorre com a corda? ela imediatamente se desfaz. pela própria tensão acumulada, uma vez que o enrolamento foi feito na mesma direção nos dois extremos, o desenrolamento espontâneo revela que nenhuma corda foi construída, ela só existiu na dependência do ponto em que eu estava agarrado.

pense nisso.

uma corda só poderia ser feita se houvesse a discórdia entre os dois extremos, um teria que girar para o lado oposto do outro, se os dois lados estiverem em acordo, nenhuma corda poderá surgir. 
e eles sempre estiveram em acordo, ambos giravam para o mesmo lado, mas o eu agarrado no meio criava uma aparente discordância e uma aparência de corda surgiu.
assim é com nossa mente e os seus objetos. ambos giram para o mesmo lado da impermanência (anicca), do sofrimento (dukkha) e da ausência de ego (anattā), mas uma aparência de permanência, de felicidade e de eu se mantém agarrada no meio nos fazendo construir (sakhāra) um mundo em completa discordância com a realidade, trançando cordas que nos prendem ao sasāra. a qualquer momento em que este apego ao meio se desfaça, a corda se descorda, entramos em acordo com o mundo e começamos acordar.
estas últimas linhas um tributo a humberto gessinger.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

tu és só isso

mente e matéria. 
nada mais. 
uma condicionando a outra. 
só isso.
não é uma descrição agradável quando contemplada cuidadosamente. implica em que no visto há só o processo de ver, no degustado só o processo de degustar, no ouvido só o ouvir, no sentido só o sentir, no pensado só o pensar. tudo começando só para acabar, começando a acabar já no começo. nenhuma testemunha para curtir ou dar um plus. onde não há ninguém, ninguém há para haver, apesar das aparências. esta mesma aparência que faz de tudo tão sofridamente frustrante. 
segundo a segundo; hora a hora; dia a dia; semana a semana; mês a mês; ano a ano; só isso.
aparência até o fim.


sexta-feira, 20 de maio de 2011

vídeo e mensagens



Após assistirem ao vídeo, dois amigos de dhamma trocam mensagens e chegam mais ou menos no que segue...

"onde estão as pessoas que faleceram? existem? estão bem? e as que
sofrem imenso e sem qualquer possibilidade de mudança? para que serve
todo esse sofrimento?"

"há respostas, e várias, para estas questões! um problema é que todas elas dependem de crença. nada mais nos é exigido a não ser que nos calemos e aceitemos a resposta dada.'
concordo com o que você assinala sobre o vazio que nos toma o coração, mas não que seja a análise do monge a sua causa. eu acho que o vazio se deve, num nível mais profundo, a nossa prória forma precária de experienciar a existência.'
o que o buddhismo nos propõe, me parece, é que enquanto abordarmos tais questões profundas com uma mente que opera enjaulada num nível tão superficial não há chance de sairmo-nos bem! e nos mantemos presas da crença, da frágil crença.'
o monge faz uma introdução (o buddhismo em 15 minutos!!!) brevíssima, mas espetacular, na minha opinião. um resumo de algo que precisamos compreender se quisermos caminhar na senda do Buddha. tal compreensão se dá em primeira mão, conhecermos a nós, nesta forma, é conhecermos o 'todo', o mundo. e este conhecimento estendemos ao outro. acho que só a partir daí começaremos a ter respostas satisfatórias para estas suas questões que não dependam de um calar-se e aceitar...'
grandíssimo abraço!"

A fonte do vídeo é o seguinte site:
http://an-news.blogspot.com/2010/12/psicologia-budista.html?utm_source=feedburner&utm_medium=feed&utm_campaign=Feed%3A+an-news+%28AN-News%29&utm_content=Google+International

quarta-feira, 4 de maio de 2011

você é jovem ainda, jovem ainda, jovem ainda...

Nós envelhecemos e morremos. Mas a ordem é que permaneçamos jovens e imortais até que, enfim, morramos. O mundo gira para os jovens, lisos e belos, e é o que mantém o mundo a girar. Custe o que custar.
E custa.
Pois no pacote juventude vem fartas porções de irresponsabilidade, precipitação, impulsividade, estupidez, ignorância, futilidade, rebeldia, tolice, vaidade, ansiedade, obsessão e uma penca de outras coisas ruins pregadas a tudo de bom com que o vigor juvenil nos investe.
Até nas religiões está se valorizando os joviais, festivos e energéticos. Queremos mestres espirituais também lisos e belos, cerimônias animadas, queremos pular, cantar e dançar. Uma balada espiritual.
Nossos filhos tem poucos pais mas muitos amigos e quase nenhuma barreira para sua infantilidade ou cheia hormonal adolescente. Seguem pueris, bebendo, fumando, chingando, batendo, matando, se revoltando e procriando. Procriando coleguinhas com coleguinhas.
Nos enxergamos jovens enquanto consumimos o planeta que temos literalmente em nossas mãos graças aos incontáveis brinquedos dos sonhos com os quais podemos nos entreter agora.
É do que esta nossa vida precisa. Que nos mantenhamos encantados na juventude, que encubramos a dor,  sufoquemos a tristeza, não pensemos no fim recorrendo a tudo que atabalhoadamente nos é oferecido para possuir e depositar sobre a verdade dolorosa, mais por ser ignorada que devidamente conhecida, do tempo que passa e de tudo que cessa.
Da maré de citações e referências que sempre banha este blog, lembro da "A Queda" do Lobão, em especial a última estrofe:

Diante do medo um sorriso aeróbico
Nas bochechas a câimbra de uma alegria incompleta
Nada como um sorriso burro e paranóico
Para não perceber a velocidade terrível da queda

Percebo agora que começo a me repetir. É a idade.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

yoniso manasikara

Sempre que fazemos contato sensorial com algo e não lembramos de que este algo nada mais é que matéria e mente (ou só matéria ou mente...), não lembramos de que é impermanente (anicca), não lembramos de que é vazio  de uma essência (anatta), não lembramos de que é insatisfatório (dukkha), não lembramos de que é dependente de causas e condições, estamos funcionando em ayoniso manasikara. Funcionando sem a atenção sábia.
Funcionar sem atenção sábia é, estritamente, causa para sofrer. 
Parece simples, não?

quinta-feira, 24 de junho de 2010

os urubus

Ele me disse que estava de saco cheio! Até do buddhismo!
E eu entendi. 
Porque a vida é... Sei lá! Só sei que ela está com a razão. 
Lembrei do dia em que os urubus me trouxeram a paz.
Estava indo trabalhar, com a cabeça pipocando de problemas. Proliferação de pensamentos sobre a situação: como as coisas estão, como poderiam ficar, como eu temia que ficassem, como eu gostaria que fosse... "O que aconteceria se fosse assim?... E se se eu fizesse isso?... E se tivesse feito?... E se acontecesse...? Se eu não fosse...!"
E etc. Como todo mundo sabe como é...
Ouvia The Jesus & Mary Chain, uma banda da minha adolescência e pensava. Pensava muito...
Na beira da estrada apareceu uma revoada de urubus. Daquele jeito de quando descobrem carniça. E me trouxeram de volta à lucidez! 
A morte! A poderosa consciência da morte!
Nada, nenhuma força no mundo vai impedir que isso termine! Não importa quanto eu pense, pondere, especule e me castigue, isso passa! E este corpo vira, se não literalmente, comida de urubus, certamente, comida para urubus! E pensei se estava passando meus impermanentes momentos de uma forma útil, hábil. Que bem havia em tanto pensamento...
Tomei uma consciência muito agradável ali de como vitalizamos coisas com base apenas em fantasias e expectativas. Enquanto morremos, perdemos muito tempo de vida.
Abaixei o som, inclusive dos pensamentos, e segui o rumo que me cabia seguir naquele momento. 
Respirei consciente de que cada respiração me levava.
Grato aos urubus.

terça-feira, 1 de junho de 2010

presença de anicca

"A única certeza nesta vida é a mudança!" Filosofávamos numa conversa...
Meu camarada contava como eram os planos de seu pai: comprar um grande terreno, construir casas para os filhos e ter todos juntos. Mantendo a tradição de festas e reuniões familiares animadas e calorosas.
O pai separou-se da mãe e mora na Bahia. Os irmãos todos estão também quilometricamente separados.
"O que nos faz pensar que será diferente conosco?" Falávamos... 
"Quantos planos já tivemos que refazer, adaptar, abandonar...?"
"Vou construindo a minha casa já morando dentro dela. Resultado: Um cômodo vai ficando melhor que o outro! Quando termina um, o outro já precisa de reforma! E as coisas quase nunca saem como planejado... Há sempre uma coisinha..."
"Será que a vida dos famosos e endinheirados é diferente?"
"Acho que não... Eles tem que se virar contra outros tipos de mudança, mas o tormento é o mesmo (talvez pior): fazer plásticas, academias, lutar com a mídia... Tem sempre gente mais bonita, mais 'talentosa', mais escandalosa surgindo. O público consome vorazmente!"
"E o cachê cai!"
Quanto maior a ilusão de controle, e dinheiro e fama parece que aumentam consideravelmente esta ilusão, maior o tormento a medida que os castelos vão caindo... Ou seja, o problema não está lá fora, nas condições externas, como sempre...
Havíamos começado este colóquio falando da pressa do tempo...
"Olha só, já estamos no meio de mais um ano!"
"Percebe como as coisas vão perdendo a graça? As datas, as copas, os aniversários..."
"De certo modo é bom... Vamos, probabilisticamente ao menos, chegando perto da morte, é bom que desencantemos dessas coisas todas. É tudo uma repetição só..."
"A graça vai sendo a própria mudança! O interessante passa a ser só a percepção das ilusões, das grandes bobagens que podem ser as vidas..."
E fomos dormir pra trabalhar no outro dia.


segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

mensagem cifrada

No meu trabalho houve um concurso de textos mensagem-de-fim-de-ano.
Enviei o meu.
Não ganhei mas gostei do que escrevi. Até que não ficou ruim visto que foi composto dentro das regras de formatação exigidas. Achei uma razoável tentativa de falar do dhamma sem usar a palavra dhamma!

Se prendemos a respiração por alguns momentos, ocorre um desconforto. Tanto maior quanto for o tempo que tentarmos. Tentar parar os pensamentos também é frustrante. Tanto maior quanto a determinação que aplicarmos para fazê-lo.
Quando chega o fim de um ano é o início de outro. E celebramos! Festejamos! A mudança, o novo. Mas será que é realmente da mudança que gostamos? Ou será que a nossa verdadeira inspiração é a esperança de que aquilo que nos agrada continue da forma que está e que só mude o que queiramos? É como tentar segurar a respiração ou parar o pensamento.
A essência do existir é a transformação. Sem ela não há dia e noite, inspirar e expirar, sono e balada... Todos sabemos. Porém, parece que tentamos o tempo todo deter o movimento, acreditamos ter o poder de fazer com que, sempre, tudo seja da forma que queremos. E isso é tão frustrante quanto maior for o nosso empenho.
Quer dizer então que deveríamos desistir de tudo, sentar na calçada e ficar vendo a vida passar? Não planejar? Não almejar...? Não! A passividade inerte não é a proposta! Na verdade, uma coisa bem pouca, uma simples mudança de foco é, tenho a impressão, do que precisamos.
Não podermos controlar tudo não significa não podermos ser felizes! E, no final das contas, todos os nossos atos, desde o mero respirar, são com a motivação de sermos felizes. Talvez devêssemos valorizar mais o aprendizado e esquecer um pouco o desejo, o anseio, o domínio. O que precisamos é tentar abrir mão da aflição pelo controle, ou da ilusão do controle absoluto, e aprimorarmos a capacidade de perceber e aprender com a natureza, com a realidade, com a mudança. Aprender com as coisas conforme elas são ao invés da luta vã para fazer delas o que nunca serão. Abandonemos a ilusão de tornar a vida nossa prisioneira.
Neste ano que se inicia, poderíamos, antes de enumerar nossos desejos, pensar no como e no que precisamos aprender para realmente apreciar e, se possível, aproveitar todas as mudanças que ocorrerão, queiramos ou não. Talvez devêssemos almejar estar plenamente abertos para as possibilidades, atentos para as tendências e tranquilos para as transformações. Não tentemos aprisionar o novo ano nas gaiolas dos nossos desejos míopes. Vamos contemplar o surgir do ano novo. E nascermos junto com ele. Sensíveis para as oportunidades que, invariavelmente, surgem. Enxergar-nos como parte deste fluir incessante que é a vida. Mutável, impermanente, impossível de deter. Nova a cada segundo. No sentido mais profundo: simples mudança.
Um feliz ano novo para nós. Façamos-nos aptos a vivenciar a mudança. A cada momento!

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Um Problema de Todo Mundo 2


Não há qualquer entidade, ego ou alma que passe de um momento a outro no nosso processo de existir, mas nós achamos que há. E é nos momentos de experiência mais intensa que esta ilusão torna-se mais evidente. Quando desejamos, experimentamos ou sentimos algo fortemente o 'eu' torna-se mais saliente, perceptível, destacado... Nestes momentos, podemos dizer, o eu nasce com imenso estardalhaço!
Mas toda experiência nada mais é que um surgir e cessar constante (sabbe sankhara anicca) e o ego assim nascido, em razão de um fenômeno passageiro, incerto, momentâneo fica à deriva quando o que motivou sua existência cessa. O nosso eu ilusório 'sobrevive' à realidade que passa e então 'sofre, envelhece, adoece e morre'! Como não podemos aceitar tal destino, imediatamente saímos à caça de novas experiências, sensações e quereres que nos dêem a 'alegria de nascer de novo' e a vã esperança de permanecer! E o samsara continua... A roda gira.
Passamos a vida toda querendo ser, querendo existir verdadeiramente.
Verdadeiramente lutando contra a realidade.

Speech by ReadSpeaker