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terça-feira, 21 de janeiro de 2014

era só o que faltava

que não se discuta a existência de deus é também minha opinião. qual a necessidade disso? mas necessidade vejo de declarar-me ateu e fiel de uma religião que o nega total e completamente sem o substituir por outro: nenhum poder cósmico, nem luminoso, nem escuro, pessoal ou impessoal, aqui ou mais além.
um porquê de tal necessidade por mim notada é que vivemos tempos estranhos, eu quase escrevo alarmantes, mas o que causa alarme por estas terras são contusões do neymar. a proliferação dos parasitas da fé por aí a pregar ódio e preconceito, proibições e intromissões, sem que voz alguma se sobreponha, e falta especial eu sinto daquelas que compartilham da mesma fé, os parasitas ganhando poder e nele se refestelando, isso não causa alarme. e eles seguem a se fartar nababescamente da, quase, novamente, digo boa, mas não, não é boa esta fé.
um outro porquê, talvez mais importante, penso que deixar claro um caminho espiritual que se trilha na terra, com pés firmes no chão movediço, com ética, disciplina, compaixão, esforço e diligência, pleno da ausência de deus, é mensagem poderosa à sensação de libertina liberdade que esta cada vez mais aparente ausência faz surgir e provocação necessária àqueles que só concebem o insidioso amor pelo igual.
proclamemos nós, buddhistas, que não fomos feitos à imagem de deus algum e nem a uns dos outros. desistamos já de qualquer invenção de igualdades, nos bastam a dor, o envelhecimento e a morte comuns. tão às claras e tanto ignorados que um caminho espiritual que sobre elas se debruça, sem por qualquer deus no meio caminho, e nem no final, existe.
li dia destes que só faltava aos buddhistas declararem-se publicamente ateus. isto afirmado em tom de decepção indignada, soando quase como um desafio. concordo, falta. embora não a mim que tenho gosto especial por repisar o tema. desde que cheguei ao Buddha, e já cheguei ateu, e a ele aceitei como mestre, em qualquer conversa pouca em que o tema surja faço o possível para deixar claríssimo: sim sou ateu, como todo buddhista deveria reconhecer ter sido o Buddha. sempre com a intenção de que nada falte.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

qual é a diferença?

volto constantemente à vida do Buddha. nem sempre literalmente, de pegar e ler tudo de novo (dois livros que me são especiais: velho caminho, nuvens brancas seguindo as pegadas do buda, de thich nhat hanh e buda de karen armstrong, volto mais em lembranças de passagens.
estudando o dhamma, seja ouvindo, seja lendo, um ensinamento ou outro acaba trazendo reminiscências da biografia do Tathāgata e complementando ou aprofundando o entendimento do que estudo. 
a vida do Buddha educa.
o Buddha tem se tornado cada vez mais humano. vai ficando próximo, vai virando um conhecido. mais além de um amigo que existiu e é representado hoje no altar. e passo a pensar nele vivendo por aqui, hoje, no meio de tanta poeira. no meio de tantos empoeirados. entre nós.
tenho refletido nas diferenças que manifestamos. 
há momentos em que estamos mais voltados para o caminho, e portanto mais próximos do Buddha e outros opostos. vemos alguém sofrendo, vemos algum sofrimento, e pensamos 'coitado, como sofre, como sou feliz por não ser ele' ou então 'eis o sofrimento que nos ata e dói a todos'. alguém morre e 'coitado...' ou 'sou eu logo mais'. alguém feliz! 'que sorte a dele! quando chegará a minha vez...?' ou 'que sorte a dele. que tire o melhor proveito...' 
o Buddha viu, fundamentalmente, feliz ou infelizmente, as mesmas coisas que nós vemos hoje e estas mesmas o levaram a se tornar quem foi. estaremos nós atentos a esta diferença? me parece que a resposta que damos ao que nos surge a todo instante tem o poder de nos aproximar do Buddha tanto quanto os mantras, as meditadas, as recitações, as verborragias. precisamos definir para nós as respostas e escolher quais iremos dar.

domingo, 22 de julho de 2012

23.4

muito antes de buddhista eu já era ateu.
encontrei bem cedo razões para não crer em um criador, princípio de tudo, pai de todos, todo bondade e outros atributos consensuais nas tradições teístas. e no buddhismo aprofundei e confirmei minhas razões.
vez ou outra me dizem que não há ateus num avião caindo. eu penso que a falha de quem diz é esperar estar num avião para tomar consciência da queda. eu busco esta consciência todo o tempo e com isso torno-me ciente também da necessidade de proteção.
é grande.
pensei nisso por uns dias por conta de conversas com bons amigos evangélicos. nestas conversas às vezes surge certa comoção e tristeza pela minha eventual condenação no dia do juízo.
infelizmente não há o que eu possa fazer.
até lá, vamos nos ouvindo. 
o que inspirou este texto foi uma instrução que recebi para manter a bíblia, eu preciso adquiri-la primeiro, aberta no salmo 23 e comprovar a proteção que vou obter.
o salmo é bem conhecido, na verdade. ouvia de minha mãe. 
está assim na rede a parte que me foi recomendada:

"ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal nenhum, porque tu estás comigo: a tua vara e o teu cajado me consolam."

uma poderosa afirmação de proteção.
como eu disse, muito cedo eu manifestei meu ateísmo, lá pelos 10, 11 anos. um protoateísmo na verdade é a palavra que preciso inventar.
o curioso é que não criei aversão por religião ou religiosidade. embora as primeiras aulas de darwin tenham me arrebatado, eu continuei capaz de orar ainda que com a sensação de estar falando sozinho.
até hoje me pego falando sozinho e às vezes sinto como se estivesse orando...
talvez isso ajude a explicar o fato de eu manter bons relacionamentos com religiosos em geral e de estes serem, quase sempre, meus bate-papos preferidos. estes bate-papos muitas vezes abrem janelas pelas quais olho para dentro e para fora do mundo... fico matutando sobre o que ouço e que significado aquilo pode ter para mim...
e desse jeito mantive o salmo na cabeça procurando pela minha própria proteção. porque eu não posso ficar desprotegido. eu estou sempre no vale, é onde eu vivo, sempre sob a sombra da morte.
o vale é povoado de egos insurgentes e conflituosos, sempre nascendo e morrendo e até se matando uns aos outros, sempre... e eu atento, sob a sombra da morte tentando não nascer...
tentando aceitar o mal inevitável e compreender o que posso evitar, tomo a vara e o cajado para mim. a vara me alerta para a dor que vem de me acomodar no descuido e no deleite nascendo sob a sombra.
a vara me lembra que a sombra é da morte.
o cajado me ajuda a descobrir a terra fofa e movediça da preguiça, as pedras das opiniões inamovíveis, os buracos do egotismo, os espinhos da fala imprópria.
é o cajado que mais uso pois o que mais faço é caminhar.
e caminhando pelo vale vou descobrindo o que os bons amigos me querem dizer, ou talvez lhes mostrando o que ouço quando falam.
tomara que importe tanto para eles quanto é importante para mim.



quarta-feira, 9 de maio de 2012

sem alfa nem ômega

veja, o buddhismo vai por em dúvida a realidade daquilo que você mais ama: o seu ego. vai, de fato, oferecer métodos para que você investigue acuradamente esta noção que você tem do seu ego. vai afirmar, inclusive, que tal noção é a causa verdadeira de todos os seus problemas. 
pense bem.
o buddhismo não vai te revelar nenhuma energia, força, essência, princípio, entidade, demiurgo a quem você possa orar, pedir ajuda, proteção. nenhum deus, nem igual nem diferente do que você conhece que seja mais poderoso do que você pode ser. nenhum paraíso, nenhum salvador que possa fazer mais do que o Buddha fez, e Ele já fez tudo o que podia por nós. 
agora é conosco.
olha, o buddhismo não garante que a fé remove montanhas. a fé no buddhismo é só um componente entre outros que precisam ser cultivados em conjunto para resultarem na libertação que o Buddha afirma possível. e, na verdade, a fé algumas vezes pode até ser um obstáculo, criar montanhas, veja você.
e, veja também que, em última instância, a libertação do buddhismo vai se mostrando na medida em que vai te aproximando de uma visão em que não há coisa alguma para você se segurar, se manter de pé sobre, sustentar qualquer solidez que possa ter te tranquilizado num momento em que você esteve sem chão. o buddhismo vai, efetivamente, é te tirar o chão, te ensinar a sorrir em queda livre, parar na escuridão, encarando o medo. e encarando muitas outras coisas das quais você possa querer se livrar.
talvez você deva levar isso em conta antes de se afirmar buddhista. 
com certeza você não deve concordar com o que eu disse aqui. mas talvez deva considerar a possibilidade de eu ter razão e investigar o assunto em boas fontes, por si mesmo.
pense bem.

sábado, 13 de agosto de 2011

eu acredito - 1

quando um ser nasce, eu acredito que sua mente (ou parte dela, não sei bem) não surgiu com aquele corpo. acredito que mente é mente e matéria é matéria. duas naturezas distintas. e acredito nisso porque o Buddha assim ensinou, ao que parece. é algo em que confio. porque o Buddha, e isso é uma coisa que eu sei, foi muito preciso e acertou em muitas coisas, Suas instruções dão resultado, Sua teoria é extremamente coerente, Seu Caminho não me decepciona. quanto mais eu me aprofundo e pratico, mais desejo me aprofundar e praticar. então, minha experiência pessoal me garante este ato de fé sem problema. 
porém, eu mantenho esta crença num compartimento separado. ela não é o que define e nem sustenta minha prática. 
quando acreditamos que a mente segue num processo de condicionamento de um novo ser após a morte física, isto implica na aceitação da doutrina do kamma como definidor de alguns aspectos da vida daquele novo ser: méritos definem coisas boas, deméritos coisas ruins. doutrina que o Buddha declarou estar além da compreensão intelectual. e esta, sendo uma crença, não imediatamente verificável por experiência, tem um caráter dúbio. por exemplo: um buddhista como eu crê que está praticando o dhamma libertador do Buddha porque assim seu kamma o conduziu, ou seja, as ações passadas condicionadas pelas intenções deste mesmo contínuo mental frutificaram agora para que tal contato com o Buddhadhamma ocorresse, ou se repetisse, acontecimento digno de regozijo e alegria, um fator motivador. mas o mesmo raciocínio pode, em momentos em que outros fatores desta vida condicionam um estado mental menos animado, circunstâncias que, sabemos, não são raras, levar a pensar que os méritos não foram tantos assim, pois veja quão difícil é a prática, quão desprezível eu sou, ou o quanto minha vida é impulsionada por necessidades e tão pouco por escolhas...!  e, num movimento vicioso, deixar claro para nossa mente obscurecida como será difícil acumular os méritos necessários para um bom nascimento ou despertar futuro! por essas, mantenho a crença no seu devido lugar.
e é no próprio Buddhadhamma que baseio este meu caminhar.
Ajahn Buddhadasa ensina que há três tipos de nascimento elucidados pelo Buddha: o convencional, aquele que todos conhecemos, o nascimento através dos órgãos dos sentidos que ocorre a cada contato estabelecido entre olhos, ouvidos, pele, etc. e seus respectivos objetos e o nascimento mental que ocorre a cada vez que a idéia de eu e meu surge na mente. e é a compreensão destes dois últimos nascimentos que é relevante para obter o resultado da prática do Caminho, a saber, o cessar de dukkha, pois nada mais que dukkha e o fim de dukkha foi o que o Buddha ensinou.
a compreensão destes dois já é bastante a se fazer, mas é a compreensão do que está aqui, ocorrendo agora, é só uma questão de vir e ver. 
posso, assim, deixar a minha crença lá, nem pensar muito nela.
o nascimento que me interessa é este que ocorre agora.
a continuar, um dia...

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

(o que dá para fazer)

De vez em quando alguém pergunta se nosso destino como praticantes laicos não seria só fazer o melhor possível para que numa próxima vida nasçamos como monges e, aí sim, podermos praticar e chegar lá! Lá no nibbana!
Pois eu poderia citar alguns trechos dos suttas em pali em que laicos chegaram lá! Mas aí poderiam dizer que são casos muito especiais de pessoas que tiveram vidas anteriores extraordinárias e tal e eu não poderia discutir porque me falta um monte de coisa. Dentre elas, competência. Mas digo sem medo que esse negócio de justificar aquilo com base em vidas anteriores é uma questão de fé e que, sendo assim, é possível ter fé na 'extraordinariedade' da vida anterior de qualquer um! Na minha, inclusive!! 
Pois bem, deixando de lado questões de fé, posso falar do que dá para fazer como laico:
- É possível ter consigo textos e mais textos de dhamma sempre que houver aquele tempinho entre uma inutilidade samsarica e outra. Se não em livros, há aparelhos diversos, com preços diversos que possibilitam carregar textos diversos, de suttas a tratados, em volume que qualquer ser humano leva tempo para ler (e mais tempo ainda para estudar!) além da conta. E que ajudam a ver o dhamma onde e quando parece não haver dhamma.
- É possível carregar, nos mesmos aparelhinhos, sons do dhamma: palestras, cânticos, aulas, e vídeos, para aqueles momentos em que a leitura cansar.
- É possível (talvez menos para alguns, preciso reconhecer) ir a um lugar isolado e silencioso (como o Buddha recomenda nos anapanasati e satipatthana suttas)  periodicamente e cultivar a mente/coração.
- É possível (com grau de esforço maior para alguns, mas sempre decrescente na medida em que se treina) manter a disciplina dos Cinco Preceitos, e até de maior número deles, por períodos consideráveis de tempo. Cada vez maiores na medida em que se treina.
- É possível entrar em retiro com relativa periodicidade e facilidade. Desde que se aceite que o lugar de retiro não precisa ser SEMPRE aquele templo ou centro que fica lá longe e custa caro e falta tempo e minha família resmunga prá caramba... O lugar de retiro, essencialmente, é aquele em que a gente se encara e com absoluta franqueza sabe que está fazendo o melhor para honrar o nome que gosta de se dar de "discípulo do Senhor Buddha".
- É possível ser atento e lembrar do dhamma naqueles momentos em que parece que o dhamma é outra coisa que não o aqui e agora (os BONS textos são extrementes eficazes em ajudar nisso!)
- É possível ter contato com professores de dhamma. Bom, pelo menos para quem estiver lendo este blog, o que significa que tem algum acesso à rede.
- É possível fazer alguma coisa pelo dhamma do Buddha dialogando, perguntando, incentivando, doando (não nece$$ariamente) tempo ou dom (traduções de textos são uma demanda constante!), participando e assim, quem sabe, acumular aquilo que muitos gostam de acumular que são os méritos kammicos!
- É possível ser uma pessoa boa.
-É possível, e imprescindível para a saúde psíquica (e a saúde psíquica é imprescindível para a boa prática do dhamma), ser corajosamente sincero consigo próprio.

Se eu lembrar coloco mais coisas. E sugestões são muitíssimo bem vindas!
Mas posso garantir, pois ouvi de fonte que eu respeito e não só eu, que muito monge não faz um tanto do que escrevi acima! 
E aí, se você for um dos que pensa que a vida atual de laico é, na melhor das hipóteses, passagem para uma futura de monge, e quer continuar acreditando nisso, tudo bem. Se não, tente praticar o que eu escrevi (ou alguma coisa, ao menos ou a mais) junto comigo, e se a sua vida não ganhar uma dimensão de qualidade que o satisfaça e que o encha de entusiasmo e convicção na possibilidade da paz efetiva aqui e agora, pode ser que deva partir para outra com as minhas bençãos (que não valem absolutamente nada mesmo!).

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Altar


Tive que desmontar o meu altar por um período. 
Sem problema para um cara pragmático, desde pequeno fã do sr. Spock. 
Continuei fazendo minhas práticas normalmente de frente para uma inspiradora parede azul...
Há poucos dias refiz o meu altar. Pus lá a minha imagem do Buddha, arranjei espaço para os meus livros de dhamma, ficou bem melhor, mais simples e com tudo num lugar só. 
Ontem, chegando do trabalho senti vontade de sentar-me diante do altar. 
E sentei. 
Mas fiquei sentado, olhando para o Buddha, sem meditar, sem recitar, só ali. 
E foi vindo na minha mente aquilo que fui compreendendo Dele pelo meu tempo de prática. 
A sensação de estar diante de um ser plenamente confiável, sábio, disposto a fazer o possível para me ajudar a encontrar o que procuro. Fiquei ali, massageando a mente/coração com aquela sensação de respeito e admiração por um ser que aprendi ser inigualável no mundo e ao mesmo tempo empaticamente acessível apesar do tempo e espaço que nos separa. 
O corpo cansado. 
A mente/coração desfrutando do momento. 
Sentar diante do altar para um 'bate-papo informal' como este com o Tathagata era uma coisa que ainda não tinha feito. 
É uma coisa que eu nunca imaginei o sr. Spock fazendo. 
O altar tem a função de servir como inspiração para a meditação! É sentar, focar a mente, se esforçar para dar mais um passinho de protozoário rumo ao nibbana! Não para 'jogar conversa fora!' 
Mas foi tão bom sentar ali e ficar 'ouvindo' o Buddha falar lá de longe, pelo tempo... E Sua voz soando tão perto...
Perdão, sr. Spock.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Fé em Pañña


Ter fé em pañña, significa confiar que realizar a verdadeira natureza dos fenômenos tais como eles são, dukkha, anicca e anatta leva à pacificação de todos os nossos tormentos.
O objeto de pañña é o 'mundo', ou seja, o todo de nossa experiência mental/sensorial. Por estarmos num estado em que carecemos do conhecimento da verdade dos fenômenos e em que, por isso mesmo, criamos ilusões em profusão nos mais variados níveis e fazemos disso o nosso mundo, a fé em pañña tem uma importância crucial para nós. É dessa fé/confiança que surge o sentimento do valor e da necessidade da introspecção e a energia para nos comprometermos com a vigilância (sati), com os treinamentos, com a prática formal de meditação e o estudo. Ou seja, tudo aquilo que aumente a nossa sabedoria.
Sabedoria, ou pañña, é muito mais que 'saber'. É perceber de forma atenta e sagaz, investigar e analisar o 'mundo', transformando a mente no que diz respeito ao seu próprio funcionamento e não apenas pelo acréscimo de conhecimento.
O cultivo de pañña corrói o apego (upadana). A mente que funciona de acordo com pañña liberta de upadana por que sabe, por entender-se também a si mesma, que não há ao que apegar-se, que para que o apego surja, algo inexistente, falso, precisa ser criado e, sendo falso, só pode gerar problema (dukkha)!
Sendo o 'mundo' o objeto de pañña, um efeito imediato para quem tem fé neste fator mental e busca cultivá-lo é uma maior tolerância para com a vida. Enfraquece nossa habitual vontade de estar em outro lugar ou de outra forma no momento em que nos lembramos de que estamos exatamente onde pañña, que nos libertará, age! Para onde quer que vamos, como quer que estejamos, estamos no 'mundo' e o 'mundo', enquanto não percebido por pañña, nos trará problema.
De um jeito ou de outro.
Mais cedo ou mais tarde.
Segundo o Buddha.
Então, por isso eu penso que precisamos compreender, valorizar e cultivar esta fé e confiança nesse fator. E no Buddha. Pois o Buddha nos assegura que, apesar do medo que possamos ter, não há paz que supere àquela do fim do 'mundo'.


Fé em Samadhi


Samadhi é a capacidade da mente de permanecer com um objeto sem distrações. Esta estabilização da mente tem efeito sobre o corpo mesmo em seus estágios mais básicos, eu acho. Uma mente que esteja apenas levemente serenizada e focada já provoca bem estar no meditador. Isso por si é um estímulo para a prática da meditação. Porém, acho que no sentido de desenvolver a fé/confiança em samadhi, não é suficiente.
Essa fé/confiança deve vir do entendimento de que uma mente concentrada é uma ferramenta indispensável para o entendimento da realidade tal como ela é. Isto é o que foi ensinado pelo Buddha. A concentração é algo a ser desenvolvido pelo praticante como um meio e não um fim em si. Mesmo os seus efeitos benéficos imediatos para o composto psicofísico são meios e não o objetivo último.
Eu entendo essa diferença como parecida com a que existe entre o atleta e o 'malhador' de academia. O atleta condiciona o corpo com a intenção de utilizá-lo para um outro fim, um 'malhador' de academia o faz apenas porque sente-se bem fazendo.
A fé em samadhi, penso eu, quando surgida da compreensão e da confiança no poder que uma mente devidamente cultivada tem de conduzir à erradicação de dukkha, é o tipo de fé que fomenta de forma mais poderosa a prática espiritual. Não sendo assim, a prática pode converter-se em apenas mais um paliativo entre tantos outros que existem para dukkha.

domingo, 5 de abril de 2009

Fé em Sila 6

"...tem gente que bebe para esquecer e, depois que esquece, bebe pra lembrar!..." Era o que dizia, se bem me lembro, um verso de uma música do grupo Exporta Samba, se bem me lembro, num dos LP's do meu pai que cresci ouvindo como filho carioca do tempo em que pagode se chamava 'Samba de Partido Alto'!
É uma divertida percepção de um dos efeitos que os intoxicantes induzem na mente. Há também o efeito de desinibir, 'soltar', relaxar, aproximar as pessoas... Todos eles resultantes, me parece, em grande parte, de embotar uma das principais qualidades mentais a ser cultivada pelo buddhista: o discernimento.
A prática do Buddhadhamma é toda voltada para o cultivo e desenvolvimento do discernimento. Porque é da nossa natureza não tê-lo bem desenvolvido, segundo o Buddha, é que nós permanecemos subjugados por dukkha. Então, uma pergunta óbvia: para quê deixar ainda mais precária uma coisa que, para a nossa infelicidade, já não funciona bem?
Abster-se de tomar intoxicantes, antes de qualquer coisa, diz respeito a, na minha opinião, tomar consciência da importância do cultivo da introspecção e do discernimento. Nós precisamos aguçar cada vez mais estas características, talvez até a ponto de descobrir outros 'intoxicantes' mais sutis. Podemos nos perguntar por quê e como vemos TV?

sábado, 4 de abril de 2009

Fé em Sila 5






Deixar-se dominar pela esfera sensorial é o problema. Manter-se escravo dos sentidos é o resultado da desatenção às experiências sensoriais. O que frequentemente leva à dukkha.
O Buddha ensinava que nós continuamos presos ao ciclo de dukkha por vermos como permanentes as coisas impermanentes, satisfatórias as insatisfatórias e como possuidoras de uma entidade essencial indivisível aquilo que não a possui (esta última é mais evidente como uma ignorância da natureza dependente das coisas).
A má conduta sensorial tem como seu fundamento especificamente a ideia da satisfatoriedade. Enquanto não refletimos sobre as três características com relação aos objetos sensoriais, em especial a insatisfatoriedade (dukkha), continuamos presos. A sensação é, pelo próprio poder que exerce sobre a nossa mente, um momento da nossa experiência ao qual devemos dar grande atenção. A ponderação e investigação constantes sobre a forma como nos relacionamos sensorialmente com o mundo é um treinamento de compreensão e libertação em si mesmo, de acordo com o Buddha. Manter-se cego e, em consequencia, sujeito a esse poder, deixando-se guiar por desejos em série sem nenhuma consciência do que acontece, meramente 'desfrutando' daquilo que a vida tem para nos oferecer, é o comportamento que deve ser transformado com a ajuda do Quarto Preceito.
Penso que, abordado dessa forma, ou seja, indo além da mera 'restrição' e compreendendo-o como um treinamento fundamentado na natureza da realidade, a característica da fé como confiança torna-se mais evidente fortalecendo a própria fé.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Fé em Sila 3


Tomar posse de forma ilícita significa que estamos plenos de vários sentimentos e visões equivocados da realidade segundo o Buddha. O desrespeito pelo bem estar alheio, a crença na ilusão de possuir coisas, o enganar-se na possibilidade de satisfação pela materialidade, o completo domínio permitido ao desejo saltam mesmo a um pequeno esforço de percepção.
Quando nos permitimos gerar a sensação de posse de forma ilícita estamos fomentando uma das mais prejudiciais e toscas formas de ignorância apontadas pelo Buddha: o senso de meu. Aceitar o "meu" de forma irrefletida e comum é fechar os olhos para a principal porta de saída do samsara, é jogar fora o vidro do mais poderoso remédio para dukkha: a realização de anatta, a ausência de um ego.
Não basta nos apegarmos àquilo que temos o direito de possuir honestamente, precisamos nos tornar ainda mais tolos e iludidos criando a fantasia de que o que é de um outro, ou ao que não temos direito, é nosso!

Fé em Sila 2


De imediato é possível perceber que todos os cinco preceitos nos conduzem a uma contenção do nosso sentimento exacerbado de ego. Ferir, roubar, enganar, usufruir dos outros ou nos abandonar aos gozos ou nos embriagar significa que acreditamos que somos mais importantes, em alguma medida, que os outros seres.
Mas tem mais.
Causar dano é o caso mais óbvio. Com o ego inflado, dando-nos o direito de ferir outros seres, negamos a capacidade que temos de sentir compaixão, de nos pôr no lugar dos outros, de tentar enxergar as coisas a partir de um outro ponto de vista. É virtualmente impossível existir sem, de alguma forma, ferir outros seres. Mas fazer disso uma justificativa para agir de forma irrefletida e desreipeitosa para com o sofrimento alheio, cegos e indiferentes é o que me parece ser o grande problema a ser evitado e corrigido pela visão da realidade. Não ferir e proteger os seres está baseado na realidade da interpendência de todos os fenômenos, na igualdade da nossa natureza sofredora e no fato de que todos tem os mesmos direito e desejo de não sofrer. E exercitar este duvidar da própria importância diante do universo, faz com que nos aproximemos da visão da irrealidade do nosso ego.
Assim, abster-se de causar dano e agir ativamente pelo bem estar dos seres fundamentado nesta visão, constitui-se num treinamento que, por estar de acordo com a natureza da realidade, nos capacita a vivê-la cada vez mais profundamente.

Fé em Sila 1


Sila, ou a disciplina moral buddhista significa, fundamentalmente, não ser causa de sofrimento a seres aptos a sofrer. Nós mesmos, inclusive. Tomar os Cinco Preceitos são a forma mais básica de um buddhista se comprometer com sila.
A forma como tenho gostado de pensar neles é: Não matar (causar danos), não roubar (tomar posse de forma ilícita), não mentir (enganar), não se comportar de forma prejudicial no campo da sensualidade e não consumir intoxicantes.
Além da abstenção destes comportamentos inadequados, o exercício daqueles comportamentos que atuam como opostos também fazem parte do compromisso. Assim, não causar dano é melhor se acompanhado de uma atitude de proteção e fomento ao bem estar dos seres; não roubar e respeitar e proteger as posses dos outros; não enganar e ser verdadeiro, sincero e transparente em palavras e atos; não ter comportamentos sensuais inadequados e não fomentá-los nos outros; não consumir intoxicantes e exercitar o discernimento.
O manter dos preceitos depende, em grande medida, da fé. Existe a fé no kamma. Manter os preceitos tanto nos protege do mau kamma quanto nos favorece a acumular o bom kamma. Porém, o kamma é uma coisa que para a imensa maioria dos buddhistas está mais ligado à crença. Acho que uma forma mais fiel ao entendimento de fé como sendo confiança, é a compreensão de que sila implica no comportamento que está de acordo com a natureza da realidade conforme o Buddha a ensinou, sendo assim um treinamento que habilita a mente a cada vez mais estar em sintonia com esta visão da realidade. E quanto mais compreendermos a visão de realidade ensinada pelo Buddha, maior será a nossa fé em sila.

quinta-feira, 2 de abril de 2009


Fé no buddhismo é dependente de compreensão. Quanto mais compreendermos o ensinamento do Buddha, maior será a nossa fé. Não há a necessidade de crer em primeiro lugar. O que não significa que não haja aspectos do Caminho que dependam de uma aceitação pré-compreensão (por algum tempo, pelo menos, é o que dizem...!). Mas estes não são fundamentais a ponto de impedir alguém de tornar-se um buddhista por não aceitá-los completamente. O Caminho é gradual e as verdades fundamentalmente relevantes para o despertar são acessíveis para quem puser em prática as instruções do Buddha.
Assim, fé assume um significado de confiança mais do que de crença. Uma confiança no Buddha é o suficiente para começar a praticar. Um voto de confiança.
Alguém que sinta a necessidade de, por qualquer motivo que seja, iniciar um caminho espiritual e entre em contato com o buddhismo, pode ter despertado em si esse voto de confiança pela mera compreensão intelectual dos princípios básicos do Dhamma. A partir daí, o Caminho gradualmente se constrói. E um objeto dessa fé/confiança no Caminho é o princípio chamado de Os Três Treinamentos: sila, samadhi, pañña (disciplina moral, concentração, sabedoria).

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