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terça-feira, 19 de agosto de 2014

fecha parênteses

mais uma tradução devidamente revista.
e autorizada pelo autor.
aqui o original.
e aqui.



Existência Significa Controle


Por Bhikkhu Ninoslav Ñāamoli




Para que algo exista (bhava), a fim de que exista em um sentido completo e apropriado, tal coisa tem de estar presente, em primeiro lugar, na forma de uma experiência plena. Quando eu digo "presente", isto deve ser entendido no sentido de que só podemos "encontrar" as coisas se estas já estão lá, no mundo. (Cf. a afirmação de Sartre em O Ser E O Nada que cada coisa nos chega com o passado). O fato é que as coisas só podem ser encontradas quando já estão presentes e isso significa que - fundamentalmente falando - estão além do controle1, não se pode ser o seu criador. Assim, a experiência como um todo não pode ser controlada; o máximo que uma pessoa pode fazer é modificar um já determinado estado de coisas, em um nível mais específico.

Tome-se os cinco agregados como exemplo: a sua natureza é aparecer, desaparecer, e mudar enquanto aparente, de acordo com o que é. É somente por upādāna que esta característica é obscurecida2, e ao invés dela, em tal caso, o ego aparente torna-se o agente fundamental do processo ou, pelo menos, esta é a forma como ele aparece a um puthujjana. Aquele que não está livre de upādāna, e da certeza de um ego, confunde o fato de que os cinco agregados (ou, neste caso, os cinco agregados apegados) podem ser modificados ou afetados, uma vez que surjam, com a noção de que eles podem ser controlados. Esta noção de controle também suporta (ou nutre) a visão de que o 'eu' é seu criador, o que por sua vez alimenta aquela noção, e assim indefinidamente. É por isso que com o 'ego' surge a percepção de domínio sobre a própria experiência

Attā, "eu", é fundamentalmente uma noção de domínio sobre as coisas.

(Ñāavīra Thera, Notes on Dhamma, DHAMMA)

O ego, então, como um "mestre", aparece como algo diferente, algo além dos cinco agregados apegados. Além disso, o ego continua achando a prova de sua existência constantemente ao interferir e modificar (quando possível) os estados surgidos dos cinco agregados apegados. O ego encontra prazer em fazê-lo.

Por outro lado, se o ego visse que, a despeito de toda a prova, o seu domínio na verdade requer (ou diretamente depende) dos cinco agregados, a noção de controle cessaria3. Isso deixa claro que o "ego" não pode exercer qualquer controle fundamental sobre o seu aparecer, desaparecer e mudança enquanto aparente. É por esta razão que por contemplar isto pelo tempo suficiente é possível tornar-se um arahat:

Então, monges, naquele tempo, o Buddha Vipassī permaneceu contemplando o surgimento e a cessação dos cinco agregados apegados ... E conforme ele permaneceu contemplando o surgimento e a cessação dos cinco agregados apegados, em pouco tempo sua mente se libertou do grilhões, sem restar vestígio.

(Mahāpadāna Sutta, Dīgha-nikāya 14 / II, 35)

Notas:

1 Ainda que se possa controlá-los, primeiro eles têm que existir. Em outras palavras - por sua própria natureza o controle é visto como algo além do nosso controle.

2 De fato, não é só a característica que é obscurecida, os cinco agregados não são vistos na maioria das vezes.

3 Porque para um puthujjana não é suficiente ver isso uma apenas vez. É somente com a repetição deste insight (alcançado através do esforço), que a visão habitual de controle irá desaparecer, e ser substituída (aos poucos também) pelo ponto de vista de uma inerente falta de controle - a visão da impermanência. Quando se vê que a impermanência subjaz a todos os projetos do ego, o ego deixa de ser ego, pois sem exercer controle essa individualidade não pode subsistir. (Cf. Ñāavīra Thera, Notes on Dhamma, PARAMATTHA SACCA, parágrafo 6)

quinta-feira, 31 de julho de 2014

hollow and dry

Como ficarei sem o eu? 
Se você é buddhista, já ouviu ou fez esta pergunta. Muito provavelmente ambos.
Ajahn Chah diz nalgum texto por aí que se você passa por uma rua e alguém o xinga dia após dia, você pode começar a pensar em tomar alguma atitude. Mas aí ouve que aquela pessoa é maluca e, então, relaxa, talvez até com um sorriso.
O buddhismo, cada vez mais me parece, é simples. No início é complicado, até porque a gente quer que seja. É mais bonito. Para discípulos e mestres, uma coisa rebuscada, complexa, difícil... Mas aí, a gente vai lendo as coisas dos suttas antigos e o Buddha sempre trazendo o assunto para o palpável mundo real e ordinário, usando imagens de açougueiros, carpinteiros, fogo, pedra... tudo muito simples, direto e claro. Começamos a desconfiar de quem se deleita no complexo. Discípulos e, principalmente, mestres.
Em 'Notes On Meditation' Ven. Ninoslav Ñāṇamoli diz o seguinte sobre um resultado da prática de ānāpānasati: 

Este tipo de atenção, quando desenvolvido, não deixa nada de fora, e se vai de forma simples, mas constante, tornando mais consciente da natureza da ação, em geral, enquanto que a ação mesma está realmente presente. Em última análise, é claro, isso leva à total transparência deste "eu" nesta experiência da respiração como um todo, e sua natureza totalmente redundante que vem sendo gratuitamente assumida.  Esta natureza, se atentamente perseguida na medida necessária, pode eventualmente ser completamente entendida e o gratuito "eu" destruído. Isso, no entanto, não deve ser tomado no sentido de que o fenômeno do "eu" irá desaparecer como se nunca tivesse existido, mas no sentido de que esse "eu" deixará de ser "mim" e "meu". Ele permanecerá apenas ali, hollow and dry.

Nem traduzi hollow and dry porque está perfeito. Busque a tradução das palavras para você ver...
Mas parece que é assim. Vai ficar ali, como a coisa oca que é, seca.
Simples.
Buddhismo é isso. É mergulhar nesta bolota de deterioração com coragem imensa, para voltar, como sempre, ao Ajahn Chah. 
Bolota de deterioração é uma das minhaS definições preferidas para o acontecimento que insiste em ser eu.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

que cheiro é esse?

parte das últimas palavras de um mestre da tradição das florestas da tailândia, luang pó piak, neste vídeo foram: "se quiser praticar pra valer contemple seu corpo e mente como sendo anicca, dukkha, anatta". ele responde à última pergunta das feitas por brasileiros e levadas a ele por iniciativa louvabilíssima do bikkhu mudito, monge brasileiro naquela tradição. perguntou-se se a prática de atenção plena, ou vigilância, ou presença mental, ou outra tradução que seja para a palavra pali 'sati', seria uma "prática de verdade", se "dá algum resultado". a resposta do mestre foi clara.
aquela pergunta revela parte do que compõe nossa dependência doentia da graça. nossa, de inutilidade difícil de perceber e de assim a reconhecer, procura pelo mágico. não sabemos o que ocorre aqui e agora, mas somos obcecados pelo que vem depois. e, ou, queremos algo especial, como explana o venerável sumedho neste magnífico texto. (texto não mais disponível no site. se eu reencontrar corrijo o link)
nada de mais é observar este corpo que decai momento a momento, sujeito à morte, à dor. esta mente que pula, esvai, turbilhona. estas sensações que atam. esta liberdade obediente à soberana ignorância. 
quando finalmente compreendermos o discurso do fogo...
até lá, vamos enfeitando tudo, até a prática do dhamma, que deveria levar ao desapego, ao desencanto, ao desapaixonamento. que deveria estar voltada para a completa percepção da mediocridade da vida, para então partir em busca de outra coisa. mas não, ainda encantados pelo mundo saímos em busca de um encanto maior, concebemos uma fonte de bênção que nada mais é que reflexo desta mesma condição desgraçada, mas embebida no perfume que ideamos. 


segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

rolezinho pelo Buddhadhamma

vira e mexe me deparo com alguma afirmação sobre um buddhismo ocidental em construção, e mesmo buddhismo moderno. acho isso uma grande bobagem, por um certo ângulo. 
o buddhismo é buddhismo, foi o que o Buddha ensinou e somos os mesmos da índia dos tempos do Buddha. os fenômenos continuam sendo anicca, dukkha e anatta.
por outro lado não é uma bobagem porque diz respeito às adaptações culturais que fizeram surgir inúmeros buddhismos pelo tempo e espaço. e aí eu simplesmente não me importo.
agora, há um aspecto cultural que talvez seja relevante discutir: a questão da autoridade, da centralização. esta coisa que está sendo diluída pela sociedade em rede. 
autoridades buddhistas, vamos falar especificamente de buddhismo porque sobre outras autoridades há farto material a ser estudado pelo bom leitor que gosta de refletir (a imprensa, os governos, até os shopping centers!!). então, autoridades buddhistas, sejam monásticas ou não-monásticas, num tempo que não volta mais publicavam seus textos e o papel ia para a mão de seus admiradores e alunos, cada autoridade publicava para a sua escola e seguia tendo retroalimentada a sua autoridade. se interessavam pelos textos aqueles que se interessavam e ponto porque ninguém gasta dinheiro com o que não lhe interessa. pelo menos os que tem pouco, como eu. os curiosos e/ou mal informados iam seguindo curiosos e semi-informados.
hoje mudou.
uma autoridade publica um texto na rede, e como de graça até injeção na testa, todo mundo lê. aí começa a encrenca, porque o questionamento surge, o diálogo se insere e a autoridade é posta na mesa. no meio buddhista, apesar da ausência de deus, esta questão ainda parece não estar sendo digerida. bom, na verdade esta questão é indigesta no geral, mas talvez, no buddhismo venha a ser um pouco pior por conta do estereótipo do dono da mágica, do sábio que fica no alto da montanha esperando que surjam seres aptos a beber de seu precioso néctar. 
um aspecto divertido disso, e mesmo um pouco paradoxal, é que o próprio Buddha estimulava o diálogo e o questionamento, me parece que há uma regra no vinaya, a disciplina monástica buddhista, que determina ao monge que este questione aparentes equívocos cometidos pelo seu  mestre, daí que, sendo isso verdade, o buddhismo dá mostras da sua atualidade (vocês três que leem este blog, pesquisem aí para nós, valeu?!) e, voltando lá  em cima onde eu comecei, modernizações podem não ser necessárias.
mas voltemos a onde estamos. 
então, parece que professores buddhistas precisam refletir sobre isso: uma coisa é uma situação onde a pessoa se põe sob treinamento e orientação prática. se eu estou meditando sob direção de um professor que me diz: isso é ISSO e faça ISTO. seria uma estupidez da minha parte começar com "teacher, mas isso não poderia ser isso... ou talvez até aquilo...?" e perder nosso, meu e dele, precioso tempo. outra coisa é publicar pensamentos, ideias e interpretações e esperar que isto seja saudado como fina sabedoria por todo o mundo.
não é mais assim. e isto implica que antes de tornarmos públicas as nossas ideias é preciso que, ou saibamos que nossas ideias tem pouca importância e tudo bem se alguém resolver se dignar a gastar seu tempo nos provando como somos tapados, como é o meu caso, ou precisamos estar certos de sermos plenamente capazes de defender  o dito ou escrito no caso de alguém nos honrar com importância.
estamos surgindo como um grande composto pensante, conectados, interdependentes, condicionados, sem centro. exatamente como ensinou o Buddha.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

marvelous

na marvel comics vivem homem-aranha, homem de ferro, thor, hulk, quarteto fantástico, x-men... não batman, superman e mulher-maravilha, que são de outra editora, a dc comics. 
em ambas frequentemente o universo é salvo da destruição completa. 
nestas realidades a humanidade convive com incontáveis outras raças inteligentes de outros mundos e mesmo de outros universos e dimensões, quase sempre superiores em algum ou vários aspectos, mas quem salva tudo sempre somos os nós de lá. um dos principais autores da marvel atualmente, vi dizer em algum lugar pela rede, que pretende explorar esta questão do porquê, afinal, de uma bolinha na periferia da galáxia habitada por um tipo tão primitivo vem os salvadores de tudo. sempre.
este assunto me veio à cabeça após ler uma menção, no meu ver provocativa, feita a deus por ajahn buddhadasa, num trecho do que parece ser um próximo lançamento da edições nalanda. lá o mestre diz o que poderia despertar o interesse de um buddhista pelo reino de deus.
mestres buddhistas falando de deus é coisa de que nunca gosto. mas entendo a necessidade do esforço diplomático que todo líder precisa empreender. 
não me parece ser o caso no trecho que li, mais uma provocação bem humorada mesmo.
mas vira-e-mexe acontece de eu achar pela rede professores entrando por esse diálogo e se arriscando ao resvalo no transcendentalismo ou no substancialismo ou outro ismo que não o pragmatismo e experiencialismo radicais do Buddha.
o Buddha, e todos os que o seguem até hoje que são do meu interesse, são peremptórios em afirmar que a condição mor para a desgraça do mundo é a ilusão do eu. todos os professores desde as fontes mais antigas são taxativos e criteriosos em negar o eu e reapresentar os argumentos do Buddha com relação à necessidade de desfazer tal ilusão.
mas quando o assunto é deus eu vejo o surgimento de uma síndrome do veja bem, como se deus não fosse, do ponto de vista buddhista, e principalmente o deus dominante que é o judaico-cristão, a mais perniciosa versão do ego. pois que foi reificado como único, como verdadeiro e fonte de tudo. foi dos deuses que inventaram para nós o que assumiu as rédeas da cultura ocidental, influenciando inclusive a ciência (sobre isso vide o livro 'criação imperfeita' do físico marcelo gleiser) além de chegar a infectar o oriente. domina e infecta justamente por ser a derivação suprema da ilusão fundamental sem a qual não haveria dukkha.
e fruto da nossa instintiva busca por importância no cosmo.
os argumentos podem ser vários, mas no fim das contas o que queremos mesmo é ser especiais, divinos em qualquer medida. tanto que corrompemos mesmo as sábias instruções do Buddha.
quando o Buddha nos diz, por exemplo, que o início e o fim do mundo (universo) cabe neste corpo de metro e pouco, é mais agradável igualarmos este corpo ao grandioso cosmo, apesar de evidente que é o cosmo, com todas as suas estrelinhas, planetas, galáxias definhando rumo à extinção, que precisa ser igualado a este medíocre corpo, ou não é? este fato em si do inefável rumo à dissolução, diz o Buddha em outro trecho das escrituras antigas, deveria ser suficiente para que brotasse em nós o mais sábio desconforto e desencanto. mas preferimos criar uma salvação divina, assim como criamos nos quadrinhos.
mas mesmo nas histórias em quadrinhos questionar o senso de valor e importância próprios é algo que ocorre vez ou outra.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

simples ficando

pensamos 'o rio corre' e 'o rio corre' falamos. embora não haja rio algum além do correr. é o correr que é o rio. se não corre, rio não é. mas pensamos 'o rio corre' e 'o rio corre' falamos. na nossa cabeça há um rio que só há na nossa cabeça.

pensamos 'eu sou' e 'eu sou' falamos. embora não haja eu algum além do ser. é o ser que é o eu. se não for, eu não é. mas pensamos 'eu sou' e 'eu sou' falamos. na nossa cabeça há um eu que só há na nossa cabeça.

simples vai ficando quanto mais vejo através dos suttas iluminados pelas palavras do Venerável Bhante Katukurunde Ñanananda.

"When one says 'the river flows', it does not mean that there is a river quite apart from the act of flowing."

do 13º sermão da série Nibbāna - The Mind Stilled

Quando se diz 'o rio flui', isso não significa que haja um rio a parte do ato de fluir.

visite +Bhante Katukurunde Ñanananda 


quarta-feira, 1 de maio de 2013

pra você, eu e todo mundo cantar junto

um bom amigo tem se interessado por buddhismo e meditação, variando a ordem dos interesses. tem lido e pesquisado na rede e diz inclusive que descobriu este blog googlando em busca de dhamma  por aí. gostei! 
ele está, como a maioria de nós, entre o nosso lar e a vida sem lar. 
caminha.
numa conversa recente me dizia que "assunto espinhoso este de anattā! esta coisa no buddhismo é que é difícil, hein?". percebo que o rapaz tem bons olhos, já vi e vejo de gente mais adiante na senda afirmar que 'é só desapegar, é só não ter apego...' 
só, olha só. 
o venerável bhante katukurunde ñanananda diz em algum dos sermões sobre nibbāna que realizar anattā é, em si mesmo, o nibbāna.
que bom que seja fácil para alguns. que bom que haja alguns capazes de ver e reconhecer os espinhos. anattā, anicca e dukkha não são visões ou crenças a se adotar, são experiências a se ter. primeiro estudamos, lemos e compreendemos; comparamos esta compreensão com o mundo que conhecemos em seus aspectos interno e externo e decidimos se vale a pena continuar aprofundando as percepções que surgirem. 
se somos sinceros, talvez este estudo comece a vir de encontro ao rumo que naturalmente temos mantido na vida, me parece que é neste momento que devemos abrir bem os olhos para sinceramente ver que não é fácil ou se está sendo fácil demais.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

descordar

a metáfora que vou apresentar a seguir nas minhas palavras aparece no oitavo sermão da série 'nibbāna - the mind stilled' do nunca suficientemente venerado venerável bhante katukurunde ñanananda. elaborada, rica e luminosa como é o todo de seus preciosíssimos textos, penso que a contemplação cuidadosa desta analogia pode fazer surgir um entendimento profundo. passemos a ela.
imagine longos cabos ou cordões. ao redor e ao longo de um os outros serão enrolados para formar uma corda. duas pessoas se põe, uma em cada extremo, para realizar a tarefa. para que surja a corda, cada um deve enrolar no sentido contrário do outro, note bem este detalhe. um terceiro elemento, digamos eu, se posiciona no meio entre os extremos sem ser notado (faça um esforço para aceitar isso) e segura os tais cordões num ponto de modo a impedir o enrolamento naquele ponto.
nos dois extremos os enroladores começam a sua tarefa. porém, eles começam e permanecem enrolando no mesmo sentido, para o mesmo lado, note bem também este detalhe. com o ponto intermediário preso por mim, mesmo com os extremos sendo enrolados na mesma direção uma corda começa a surgir e a se tornar cada vez mais corda, mais rígida, mais tensa conforme o trabalho prossegue.
então eu, num dado momento, quando uma bela corda é aparente, resolvo soltar aquele ponto. o que ocorre com a corda? ela imediatamente se desfaz. pela própria tensão acumulada, uma vez que o enrolamento foi feito na mesma direção nos dois extremos, o desenrolamento espontâneo revela que nenhuma corda foi construída, ela só existiu na dependência do ponto em que eu estava agarrado.

pense nisso.

uma corda só poderia ser feita se houvesse a discórdia entre os dois extremos, um teria que girar para o lado oposto do outro, se os dois lados estiverem em acordo, nenhuma corda poderá surgir. 
e eles sempre estiveram em acordo, ambos giravam para o mesmo lado, mas o eu agarrado no meio criava uma aparente discordância e uma aparência de corda surgiu.
assim é com nossa mente e os seus objetos. ambos giram para o mesmo lado da impermanência (anicca), do sofrimento (dukkha) e da ausência de ego (anattā), mas uma aparência de permanência, de felicidade e de eu se mantém agarrada no meio nos fazendo construir (sakhāra) um mundo em completa discordância com a realidade, trançando cordas que nos prendem ao sasāra. a qualquer momento em que este apego ao meio se desfaça, a corda se descorda, entramos em acordo com o mundo e começamos acordar.
estas últimas linhas um tributo a humberto gessinger.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

reencarnação? deixe isso para depois da morte

a gente encarna neste assunto desde os tempos do Buddha e antes: o que eu fui? o que eu serei? eu fui ou não fui? serei ou não serei?
no que o Buddha replica: você sabe o que você é?
o Buddha nos diz que nossa visão da realidade é distorcida, equivocada, doente, iludida. e é com base nesta visão, é desta perspectiva presente, que nos pomos a questionar o que virá.
aconteceu, algumas vezes, ter de responder se eu acredito em reencarnação. como é que vai se explicar isso? vem aquela história de que não é bem reencarnação pois tudo muda e tal... mas no fim das contas fica a sensação de que não há muita diferença na diferença que um buddhista, com algum conhecimento de anatta, vê e aquilo sobre o que pergunta o curioso.
o fato é que pensamos num tipo ou outro de continuidade tão impossível de provar quanto a existência ou não de deus. e, na minha opinião, tão fútil quanto.
na última vez em que fui questionado respondi que sim, acredito em um tipo de continuidade, mas que sei que acredito e não acredito que sei.
seria muito mais produtivo tentar apresentar para a pessoa a natureza distorcida de nossa visão de mundo, falar que nestas bases em que nos sustentamos a pergunta é desinteressante e inútil, que antes de nos preocuparmos com este assunto há outros mais pertinentes para nos ocuparmos e buscar corrigir e compreender... mas não chegamos perto disso e já correram ou mudaram de assunto. o que interessa somente é saber se partilhamos em algum aspecto da estupidez da maioria. aí, no fim das contas, em nome de alguma coisa que fica entre o enfado e a convivência amigável a resposta acaba sendo sim, acredito, me passa aí um pedaço de bolo...

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

tu és só isso

mente e matéria. 
nada mais. 
uma condicionando a outra. 
só isso.
não é uma descrição agradável quando contemplada cuidadosamente. implica em que no visto há só o processo de ver, no degustado só o processo de degustar, no ouvido só o ouvir, no sentido só o sentir, no pensado só o pensar. tudo começando só para acabar, começando a acabar já no começo. nenhuma testemunha para curtir ou dar um plus. onde não há ninguém, ninguém há para haver, apesar das aparências. esta mesma aparência que faz de tudo tão sofridamente frustrante. 
segundo a segundo; hora a hora; dia a dia; semana a semana; mês a mês; ano a ano; só isso.
aparência até o fim.


terça-feira, 27 de março de 2012

nãoeu.exe

...pensemos que é como se baixássemos o nãoeu.exe e o deixássemos ali no desktop, na área de trabalho, sem executar. 
temos o programa, podemos lê-lo quando preciso, podemos falar sobre suas vantagens e aplicações com nossos amigos, o aplicativo realmente parece bom, não há o que apontar de ruim sobre ele, é só estrela, mas ainda não o executamos. 
não conseguimos executar porque há inúmeras incompatibilidades que precisamos resolver. e é chato, cansativo, até dolorido resolvê-las. 
precisamos fazer muitos ajustes, como no eumeamo.exe. temos que excluir alguns como o euquesei.exe, o eusoumaiseu.exe, o problemameu.exe, eutenhosemprerazão.exe e vários outros dos quais somos quase dependentes, sem os quais praticamente não conseguimos viver! o euexisto.exe, por exemplo! como ficar sem ele!? e é justamente o mais incompatível de todos!! 
mas temos lá o desktop ostentando o programa. 
chique. 
e euentendo.exe parece até rodar melhor...



quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

fantasma

ele é alguma coisa entre anti-herói e vilão e faz parte dos  thunderbolts, um controverso super grupo no universo marvel das hqs. o seu principal poder é ficar intangível e recentemente publicado no brasil pela panini, no número 11 da revista ''reinado sombrio" ele, após ajudar um membro de sua super equipe, fala:
"todo mundo fica melhor quando está intangível. quando nos damos conta de que nada é verdadeiramente real... bem, essa noção nos dá nova perspectiva".

quarta-feira, 21 de julho de 2010

yoniso manasikara

Sempre que fazemos contato sensorial com algo e não lembramos de que este algo nada mais é que matéria e mente (ou só matéria ou mente...), não lembramos de que é impermanente (anicca), não lembramos de que é vazio  de uma essência (anatta), não lembramos de que é insatisfatório (dukkha), não lembramos de que é dependente de causas e condições, estamos funcionando em ayoniso manasikara. Funcionando sem a atenção sábia.
Funcionar sem atenção sábia é, estritamente, causa para sofrer. 
Parece simples, não?

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Um Problema de Todo Mundo 3


O encanto pelo mundo depende da ilusão de que existe um ego. Depende da ilusão da existência do experimentador, do possuidor da experiência. Daquele eu concebido pela ignorância (avijja) que permanece além das experiências.
Se alcançarmos a visão do surgimento e cessação de todos os fenômenos, o encanto pelo mundo dá lugar ao desencanto. Não havendo mais o conceito do observador, com o conhecimento de que tudo é um surgir e cessar contínuo e incontrolável, incluindo os próprios momentos mentais, os fenômenos perdem a sua graça! O processo de existir se revela em todo o seu vazio opressivo. Veremos a grande ilusão que é crer que podemos ser ou ter qualquer coisa! Desistiremos dessa fantasia irrealizável e viveremos a nossa vida da única forma em que ela pode ser vivida. Desencantados pelo mundo, não iludidos, sem desejos ou anseios, sem revolta. Felizes por aceitar e saber que não há felicidade no mundo!
É como me parece ser o que o Buddha ensinou...

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Um Problema de Todo Mundo 2


Não há qualquer entidade, ego ou alma que passe de um momento a outro no nosso processo de existir, mas nós achamos que há. E é nos momentos de experiência mais intensa que esta ilusão torna-se mais evidente. Quando desejamos, experimentamos ou sentimos algo fortemente o 'eu' torna-se mais saliente, perceptível, destacado... Nestes momentos, podemos dizer, o eu nasce com imenso estardalhaço!
Mas toda experiência nada mais é que um surgir e cessar constante (sabbe sankhara anicca) e o ego assim nascido, em razão de um fenômeno passageiro, incerto, momentâneo fica à deriva quando o que motivou sua existência cessa. O nosso eu ilusório 'sobrevive' à realidade que passa e então 'sofre, envelhece, adoece e morre'! Como não podemos aceitar tal destino, imediatamente saímos à caça de novas experiências, sensações e quereres que nos dêem a 'alegria de nascer de novo' e a vã esperança de permanecer! E o samsara continua... A roda gira.
Passamos a vida toda querendo ser, querendo existir verdadeiramente.
Verdadeiramente lutando contra a realidade.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Um Problema de Todo Mundo


O buddhismo ensina que 'por trás' de nossas experiências/ações não há uma 'entidade' tal como alma ou ego. Algo que seja o 'observador/experimentador' daquilo que nos ocorre e separável das experiências em si. É a doutrina de anatta: o não-eu.
De acordo com esta doutrina quando, por exemplo, caminhamos, e pensamos que 'eu estou caminhando', este 'eu' que caminha é a ilusão, a criação da mente, pois não há nada no ato de caminhar além do caminhar. Não há o ego que seja levado pelo corpo/mente que caminha. Cada passo, cada movimento, cada impressão/sensação é um fenômeno que surge e cessa em dependência de condições/causas.
Mas nós não sentimos assim.
Há o andante, o caminhante que perdura a cada passo. Se deixarmos o exemplo do caminhar, há o fazedor/experimentador de toda e qualquer coisa. O ego criado pela mente 'passa' de um fenômeno para outro sempre e sempre. Segundo o Buddha, este é o problema de todo mundo.

sábado, 25 de abril de 2009

E Aí, Peixe?


Se perguntássemos a um peixe: "Ei, peixe! Como está a água?" Ele provavelmente nos olharia de volta e perguntaria: "Mas o que é água!?" Esta é mais uma que eu não esqueço daquele professor! Não sei de onde ele tirou essa ou se tirou de algum lugar...
Temos a mesma reação que o peixe quando o Buddha nos instrui sobre a natureza de anatta. Estamos tão imersos nessa existência dos eu, meu e meu eu que ficamos sem chão ao considerar o assunto logo de cara. Como o peixe, nós naturalmente não paramos para pensar na visão que temos da natureza da nossa realidade. Quando o Buddha afirma que ela mesma é que é o problema, nos vemos sem alternativa! "Ora, e agora!? Do que Ele está falando!?" Se aquilo que é tudo o que conhecemos é o problema, significa que o problema não tem solução? Significa que o problema, efetivamente, nunca existiu! Diferente da água, que é uma realidade objetiva e externa ao peixe, os eu, meu e meu eu são obra da mente. São artifícios da mente numa iludida interpretação da realidade. Essa necessidade de compactar as coisas em entidades permanentes, por exemplo a certeza que temos de que o eu que inspirou é aquele que expira agora, é que deve ser revelada e dissolvida pela sabedoria introspectiva. Quando começamos a duvidar de nós mesmos, com base naquilo que o Buddha ensinou, a perplexidade, fruto da certeza, começa a diminuir. E, novamente, diferente do peixe que não vive fora da água, nós podemos viver 'fora' do eu. E conforme ensinou e demonstrou o Buddha e muitos de seus discípulos ao longo do tempo, viver muito melhor...

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Causas e Condições II


Pensando em termos de condicionalidade, diante dos gostos e desejos passamos a nos comportar como a criança que puxa a barba do Papai Noel.
As condições do que é tão único, tão nosso, tão nós, se insinuam. O momento influencia, nossa disposição mental, nossa condição física, o tempo, o lugar... Enfim, são tantos os fatores que compõem os nossos quereres que eles e, em inevitável consequência, aquele que quer, assumem a aparência de uma projeção, um jogo, (de) sombras e cores, uma mistura e, não mais, um.
Os gostos e desejos podem não ser o que sempre pareceram ser, e dessa desconfiança o próprio status do eu fica abalado...

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