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sexta-feira, 1 de junho de 2012

o que dá para fazer ll

se eu sei que uma coisa me faz bem eu vou querer que muitos saibam da existência dela. vou querer que esta coisa permaneça neste mundo por muito tempo, que muitos possam ter acesso a ela, de forma constante, segura. que esta coisa seja preservada da forma mais pura possível conforme me beneficiou.
o Caminho do Buddha, o Buddha Sasana, que a maioria conhece como buddhismo, é esta coisa para mim.
a minha maneira de trabalhar por este objetivo é compartilhar minha compreensão do Buddhadhamma bem como aquelas fontes de onde nasce tal compreensão. se mais pessoas surgirem, se as condições forem se combinando, se as bases forem se tornando tão sólidas quanto anicca, dukkha e anatta permitirem, as ocorrências indubitavelmente evoluirão naturalmente, sem pressa, de acordo com o tempo, esteja eu manifesto por aqui ou não, mas tendo feito a minha parte.
veja o vídeo:


domingo, 24 de julho de 2011

girando as rodas

Morar numa cidade grande com muitos carros é terrível. E numa cidade pequena com muitos carros também. Ou pode ser pior! Eu não cheguei a cronometrar mas sei que levo muito tempo percorrendo trechos muito curtos porque, de carro, os percorro muito mais  parado! Se é final de semana então...
Aí eu comprei uma bicicleta.
E como não pode deixar de ser, eu vi algo mais nisso do que simplesmente ganhar tempo e agilidade. Além de que o sedentário que dormita em meu ser exigiu boa argumentação antes de aceitar tão importante decisão.
Os benefícios para o mundo que geramos ao deixar o carro na garagem são bem conhecidos, mas contemplei alguns outros, como sempre, tentando manter-me sob a luz do dhamma.
O carro, sabemos, é o símbolo máximo de nossa sociedade de consumo. Fundamenta tudo que nos faz ser o que somos como civilização: infla-nos o ego, nutre nossa ilusão de poder e controle, condiciona nossas ambições e sonhos de liberdade, por ele cobrimos com liso pavimento nosso caminho naturalmente acidentado, ultrapassamos uns aos outros e nos tornamos velozes e furiosos. E quanto mais tecnologia, mais nos fazemos dependentes. Trocar estas caixas de devaneio por uma bicicleta nos coloca numa trilha bem mais real. A verdade de  nossos limites fica clara, e como os meus são exibidos, aliás! Confrontar o corpo pode ser um insight e tanto! Não poder ligar o ar, ter que esperar da natureza uma brisa ou a sombra, usar os ouvidos de novo como um sentido ao invés de só ouvir música, estar muito mais atento ao que ocorre e corre à minha volta, temer os cães ao invés de ameaçá-los ou nem se dar conta deles, tomar chuva, ofegar, parar para respirar e tomar água, descobrir como há ladeiras neste mundo e que os sobe-e-desce da vida são mesmo uma questão de ponto de vista, de onde se vem e para onde se quer ir, a conscientização de que chegar depende de, às vezes, ter que descer e empurrar não importando quantas marchas se tenha, enfim, é uma vivência muito mais orgânica do movimento, uma integração com o corpo que a poderosa mecanocinestesia dos automóveis faz esquecer.
E a dor muscular. Por enquanto, desconfio que tenha descoberto a única coisa permanente da existência!
Mas sigo feliz. E, ainda, esperançoso com respeito a frear o veloz avolumar-se da cintura, assentado no dhamma, girando as rodas e vigilante sempre, pois, claro, a mente ignorante dá um jeito de estragar as coisas como, por exemplo, quando se ouve coisa do tipo: 'ô meu tio, sai da frente com esta &#$@%!!!' E se pensa, do alto de umas imaginadas sabedoria e compaixão: 'ah meu filho, eu também já fui assim!...'

domingo, 7 de novembro de 2010

house X a mente quieta, a espinha ereta e o coração

Acho que é do funcionamento da mente esta aversão pela passividade. A qualquer estímulo a mente reage querendo algo mais do que aquilo que há.
Começar a entender que o fruto do cultivo da mente ensinado pelo Buddha é resultado de observar as coisas serem como são é algo que, paradoxo talvez, exige uma dose cavalar de esforço e boa vontade. Queremos, lá no íntimo, que a observação resolva para nós! Mesmo no estado de observação subsiste a natureza de querer que algo aconteça. Mas o Buddha ensina que nada vai acontecer antes que suas condições estejam presentes. Muitas fora de nosso controle. E uma delas a passividade. Mas aceitar isso chega a doer. E essa dor é mais uma coisa a observar. Assim como o é o desejo de que a dor passe.
O primeiro episódio da sexta temporada de House MD, chama-se Derrotado, é a ilustração de um aspecto disso. Permanecer na derrota até que se aprenda algo ao invés da busca frenética pela compensação da vitória. O poder da desistência. Porque não é hábil vencer o tempo todo. Além de não ser possível.
Ouvi de quem entende do assunto que ninguém subjuga um cavalo. Não ao menos quem aprecia ter um cavalo ao invés de um animal destruído. É preciso o entendimento. Um diálogo humilde deve ser estabelecido entre montador e montaria para que ambos se reconheçam e se aceitem. Só aí o cavalgar surge.
Temos que, humildemente, nos entender com as condições que nos mantém aqui. Compreender pela mera observação depende de verdadeiramente acolher àquilo que é tal como é. Parece que não há como ser de outra forma, não de um modo real, ao menos.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

(o que dá para fazer)

De vez em quando alguém pergunta se nosso destino como praticantes laicos não seria só fazer o melhor possível para que numa próxima vida nasçamos como monges e, aí sim, podermos praticar e chegar lá! Lá no nibbana!
Pois eu poderia citar alguns trechos dos suttas em pali em que laicos chegaram lá! Mas aí poderiam dizer que são casos muito especiais de pessoas que tiveram vidas anteriores extraordinárias e tal e eu não poderia discutir porque me falta um monte de coisa. Dentre elas, competência. Mas digo sem medo que esse negócio de justificar aquilo com base em vidas anteriores é uma questão de fé e que, sendo assim, é possível ter fé na 'extraordinariedade' da vida anterior de qualquer um! Na minha, inclusive!! 
Pois bem, deixando de lado questões de fé, posso falar do que dá para fazer como laico:
- É possível ter consigo textos e mais textos de dhamma sempre que houver aquele tempinho entre uma inutilidade samsarica e outra. Se não em livros, há aparelhos diversos, com preços diversos que possibilitam carregar textos diversos, de suttas a tratados, em volume que qualquer ser humano leva tempo para ler (e mais tempo ainda para estudar!) além da conta. E que ajudam a ver o dhamma onde e quando parece não haver dhamma.
- É possível carregar, nos mesmos aparelhinhos, sons do dhamma: palestras, cânticos, aulas, e vídeos, para aqueles momentos em que a leitura cansar.
- É possível (talvez menos para alguns, preciso reconhecer) ir a um lugar isolado e silencioso (como o Buddha recomenda nos anapanasati e satipatthana suttas)  periodicamente e cultivar a mente/coração.
- É possível (com grau de esforço maior para alguns, mas sempre decrescente na medida em que se treina) manter a disciplina dos Cinco Preceitos, e até de maior número deles, por períodos consideráveis de tempo. Cada vez maiores na medida em que se treina.
- É possível entrar em retiro com relativa periodicidade e facilidade. Desde que se aceite que o lugar de retiro não precisa ser SEMPRE aquele templo ou centro que fica lá longe e custa caro e falta tempo e minha família resmunga prá caramba... O lugar de retiro, essencialmente, é aquele em que a gente se encara e com absoluta franqueza sabe que está fazendo o melhor para honrar o nome que gosta de se dar de "discípulo do Senhor Buddha".
- É possível ser atento e lembrar do dhamma naqueles momentos em que parece que o dhamma é outra coisa que não o aqui e agora (os BONS textos são extrementes eficazes em ajudar nisso!)
- É possível ter contato com professores de dhamma. Bom, pelo menos para quem estiver lendo este blog, o que significa que tem algum acesso à rede.
- É possível fazer alguma coisa pelo dhamma do Buddha dialogando, perguntando, incentivando, doando (não nece$$ariamente) tempo ou dom (traduções de textos são uma demanda constante!), participando e assim, quem sabe, acumular aquilo que muitos gostam de acumular que são os méritos kammicos!
- É possível ser uma pessoa boa.
-É possível, e imprescindível para a saúde psíquica (e a saúde psíquica é imprescindível para a boa prática do dhamma), ser corajosamente sincero consigo próprio.

Se eu lembrar coloco mais coisas. E sugestões são muitíssimo bem vindas!
Mas posso garantir, pois ouvi de fonte que eu respeito e não só eu, que muito monge não faz um tanto do que escrevi acima! 
E aí, se você for um dos que pensa que a vida atual de laico é, na melhor das hipóteses, passagem para uma futura de monge, e quer continuar acreditando nisso, tudo bem. Se não, tente praticar o que eu escrevi (ou alguma coisa, ao menos ou a mais) junto comigo, e se a sua vida não ganhar uma dimensão de qualidade que o satisfaça e que o encha de entusiasmo e convicção na possibilidade da paz efetiva aqui e agora, pode ser que deva partir para outra com as minhas bençãos (que não valem absolutamente nada mesmo!).

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

N C O - IV


Compreender o Buddhadhamma é compreender a interdependência. O que não é nada fácil! Que o diga o ven. Ananda!
O Nobre Caminho Óctuplo, sendo a prática do Caminho por definição é, então, uma cadeia de fatores interdependentes que se alimentam e sustentam mutuamente.
É como se fosse um veículo com oito motores. Talvez não seja possível ligar os oito de uma vez. É preciso que um dê a partida, mas uma vez dada, os oito devem funcionar para que o veículo ande. Não é possível que haja movimento sem que todo o conjunto funcione...
No Caminho, me parece que, com alguma compreensão de um dos fatores, se esta for verdadeira, uma compreensão equivalente dos restantes deve ocorrer. É preciso sentir o conjunto clareando na mente e vivenciar a natureza de cada um dos fatores na prática, seja ela de que nível for.

Speech by ReadSpeaker