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domingo, 25 de junho de 2017

quem pensa que está pensando?

nada permanece por que o movimento para preencher o vazio é incessante



                        e do vazio nada se pode falar      

             talvez experimentar


e o saber na mente que experimentou o vazio



                                                                   a mente o traz consigo pela sua criação mágica de                                                      

                                         existência


que é o nome para o movimento    


só há movimento



                               e o tudo agora é uma avalanche
                               um incêndio?
   

                                                                                    um turbilhão

para não se perder no meio disso



                                                                      não há o que fazer




desfaça-se







                                      

segunda-feira, 24 de abril de 2017

me editar








fora isso 

que senta e pensa 
que pensa e passa
que passa e volta
que volta e sente
que sente e sofre
que sofre e surta
que surta e levanta
que levanta e pensa
que pensa e passa
que passa e volta
que volta e senta
que senta e sofre
que sofre e sente
que sente e pensa
que pensa e surta

fora isso

não encontrei mais nada

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

presente

no presente estou só
entre tudo passado e futuro
no presente fico só

só com a deterioração incessante de tudo que surge

há o meu eu que insiste em me acompanhar mas se irrita com as minhas perguntas sobre, afinal, qual é a sua...

se aquieta, finge que não está ali
e me sinto só por algum tempo

mas

que possa eu carregar esta solidão pelo tumulto do dia
que possa eu estar só na multidão
entre tudo passado e futuro
entre desejos e anseios
entre eu e os outros
que eu possa me lembrar do vazio de estar presente

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

feriado

há medo em descobrir que não podemos parar

porque normalmente dizemos ah, agora vou parar, vou fazer nada

mas é mentira

não vai parar

só se não prestarmos atenção, só se nos contentamos com palavras, só se acreditamos no que parece

se não for assim vemos que continua a respiração

que o coração bate

que os sentidos puxam de um lado para outro

que o turbilhão mental gira

que dores surgem

que nada para

só nos iludimos enquanto continuamos a morrer na mesma velocidade de sempre

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

abismar-se

o presente é um abismo
focar o agora é encarar um abismo
no futuro flutua-se
no passado pousa-se
no presente é só um abismar-se

e nada

quarta-feira, 1 de maio de 2013

cão


feliz foi o nome dado pelo mais novo da casa ao recém chegado cão. 

os mais novos, com a desculpa justa da imaturidade, carecem de olhos precisos, tudo que lhes parece bom é totalmente bom. feliz ficou sendo.
a manhã daquele dia raiara obediente às preces e desejos de todos. seria dia de praia. que felicidade. e a felicidade do dia estava plena daquele poder que tem de cegar, excitar, confundir. batiam uns nos outros nas céleres arrumações para o passeio. feliz saltitava. 
nós, que agora observamos a cena, apesar de podermos sugerir alguns outros nomes como fiel, amigo, belezinha, carinhoso, não temos como discordar do batismo feito pelo menor de todos: feliz era isso mesmo acima de tudo. 
feliz, por misteriosa influência do nome, ou mais certo, meramente por ser um cão, era incapaz de ver que o passeio não era para ele. feliz  ficaria.
um grita daqui, outro cobra de lá, aquela responde, alguém confirma: tudo pronto! vamos embora. 
feliz fica. agora só nome.
na barafunda daquela manhã, entre ralhos e afagos, inventaram coisas demais para muitos darem conta. ninguém lembrou da vasilha de água.
feliz já sentia sede.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

formiga

a formiga parou para limpar as antenas, mas veio um suspiro, uma inspiração que trouxe o pensar: eu sou um ser realmente especial. faço parte de uma colônia fantástica, nossa disciplina e inteligência coletiva são impressionantes, construímos complexos sistemas de túneis e galerias sofisticadamente concebidos e organizados. nossa rainha, a majestosa mãe de todos, nos abastece com novos e perfeitos membros incansavelmente, sejamos milhares ou milhões reina a harmonia e a beleza em nossa comunidade, somos seres de imensurável importância para o equilíbrio da vida como um todo.
sou, verdadeiramente, um ser maravilhoso.
nisso um pé pisa sobre a pensadora.
uma outra característica maviosa das formigas é o fato de elas suportarem terríveis ferimentos e agonizarem por um bom tempo.
mas não desta vez.
eviscerada, só teve tempo de pensar: o que aconteceu?

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

ícaro

pensar começa a cansar
todas essas idéias girando e subindo e subindo
um revolver de imagens e palavras e conceitos
como corpos sólidos em volta de quê?
de quê??

e uma dor chama de volta para o corpo
para o que está sendo
a paz de estar sendo o que passa
ainda que seja dor
em contraste com o inútil pensar
ser a dor

oniprensente dor a dar sentido

saber a dor
sem pensar
sem crer
sem buscar
sem esperança

(o saṃsāra é um motor total flex que gira muito bem queimando esperança)

o chamado da impermanência
o chamado do sofrimento
o chamado do vazio
baixo e constante

o pensar é um grito
uma fantasia de sabedoria
só a mente no corpo sabe
nada mais

sabe o que está sendo o que é
o pensamento quer
o pensamento espera
o pensamento anseia
e cria, e constrói, e compõe
e foge do que está sendo

chega

ser o sol a doer 
queimar a cera e derrubar em queda ao chão que nunca haverá

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

eutro

eu outro
outro eu

numa caminhada pela rua todos carregam em seus corpos as marcas do tempo
cada um consigo a morte em seus sinais

peles, cabelos, andares, gestos, vozes, trombeteiam seus finais

cada um consigo sinais das dores várias, matizes da dor comum de estar aqui assim
carrancas e sorrisos, imagens da dor ou de sua ausência momentânea

temporais

num passeio pela rua tudo aquilo de que somos fermentados conta nossa história

transpirações e perfumes, andrajos e grifes, gritos e silêncio, surgidos há pouco, há muito surgidos cruzamos caminho
como se fôssemos outros
como se fôssemos diferentes tentamos nos preservar
mas andando, para lá para cá, elegantes miseráveis, céleres lentos a mesma estrada

o tudo num caminhar atento por qualquer lugar

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

assente

assente-se
sinta
saiba sua matéria sendo só o que é
saiba-se sem certezas
esqueça
deixe ser a carcaça sumindo aos poucos 


simples

mente
e
massa
aceite ser só isso
cessando
não seja mais
nada
e
silencie

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

quem procura, não acha

procura-se por aquele que dormiu ontem e acordou hoje, que estava aqui e foi para ali, que quis e conseguiu, que começou e terminou. usa-se de todos os recursos para localizá-lo; pensa-se assim, contampla-se de outro modo, observa-se deste ponto e daquele, pondera-se, reflete-se, aquieta-se ao extremo, espreita-se... 
e nada.
aquele, sempre tão sólido, agora é vaporoso. incerto, tremula e some diante das vistas. mera visão. 
um nada.
mas com este mesmo nada, então, algo se confronta: é isto que ocorre. 
ocorre este toque.
ocorre este pensamento.
ocorre este som.
ocorre este ir e este vir.
e esta dor.
deste confronto uma alternativa apenas: havendo isto, aquilo surge; isto cessando, aquilo cessa.
depende. 
só dependência.
ninguém imune ao ocorrido. ninguém seguro a observar o desenrolar dos atos. 
ninguém vive. 
nenhuma testemunha.
e é esta ausência que revela o vão. 
esta ausência é que apaga a graça. 
aos poucos, aos poucos, a constatação de não haver ninguém, vai gerando apreensão diante da possibilidade do ocorrer este toque, aquela visão, outro som, um ir e vir, mais uma dor, prazer, ilusão. pois nada sobra, nada fica, nada resta, não há. só ocorre e acaba. morte.
sem espectador, não há espetáculo.
só há espetáculo.
nenhum espectador.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

edukkhação

na disciplina do Buddha
tudo educa

nascer educa
envelhecer
adoecer
educa morrer
ouvir educa
ver
educa cheirar
sentir
pensar educa
mover-se educa
parar educa
aprender educa
ensinar educa
estudar educa
o que quer que surja educa
o que quer que se componha
educa
o que quer que se decomponha

ser educa

existir educa

até que não mais edukkhação seja necessário

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

esquindô, esquindô

em nenhuma outra época do ano nossa idiotice aflora tão intensa e belamente.
em nenhuma outra época celebramos com tanto orgulho nossa colossal imbecilidade.
já se nota a efusiva escuridão de ignorância que toma conta do meu entorno.
teria tanto para falar sobre esta tão estúpida festividade em um meu grito de carnaval...

mas já há tudo abaixo:




Vamos celebrar
A estupidez humana

A estupidez de todas as nações
O meu país e sua corja
De assassinos
Covardes, estupradores
E ladrões...

Vamos celebrar
A estupidez do povo
Nossa polícia e televisão
Vamos celebrar nosso governo
E nosso estado que não é nação...

Celebrar a juventude sem escolas
As crianças mortas
Celebrar nossa desunião...

Vamos celebrar Eros e Thanatos
Persephone e Hades
Vamos celebrar nossa tristeza
Vamos celebrar nossa vaidade...

Vamos comemorar como idiotas
A cada fevereiro e feriado
Todos os mortos nas estradas
Os mortos por falta
De hospitais...

Vamos celebrar nossa justiça
A ganância e a difamação
Vamos celebrar os preconceitos
O voto dos analfabetos
Comemorar a água podre
E todos os impostos
Queimadas, mentiras
E seqüestros...

Nosso castelo
De cartas marcadas
O trabalho escravo
Nosso pequeno universo
Toda a hipocrisia
E toda a afetação
Todo roubo e toda indiferença
Vamos celebrar epidemias
É a festa da torcida campeã...

Vamos celebrar a fome
Não ter a quem ouvir
Não se ter a quem amar
Vamos alimentar o que é maldade
Vamos machucar o coração...

Vamos celebrar nossa bandeira
Nosso passado
De absurdos gloriosos
Tudo que é gratuito e feio
Tudo o que é normal
Vamos cantar juntos
O hino nacional
A lágrima é verdadeira
Vamos celebrar nossa saudade
Comemorar a nossa solidão...

Vamos festejar a inveja
A intolerância
A incompreensão
Vamos festejar a violência
E esquecer a nossa gente
Que trabalhou honestamente
A vida inteira
E agora não tem mais
Direito a nada...

Vamos celebrar a aberração
De toda a nossa falta
De bom senso
Nosso descaso por educação
Vamos celebrar o horror
De tudo isto
Com festa, velório e caixão
Tá tudo morto e enterrado agora
Já que também podemos celebrar
A estupidez de quem cantou
Essa canção...

Venha!
Meu coração está com pressa
Quando a esperança está dispersa
Só a verdade me liberta
Chega de maldade e ilusão
Venha!
O amor tem sempre a porta aberta
E vem chegando a primavera
Nosso futuro recomeça
Venha!
Que o que vem é Perfeição!...


letra de Perfeição do Legião Urbana.

DEZ! nota: dez.

domingo, 4 de dezembro de 2011

dukkhinha continua

 no carro.

...ah, aí é aquela coisa chata de falar de deus e inferno e tal...
chato, filho?
ô...!
mas você respeita, né?
claro, né pai? mas não é fácil...! uma pessoa lá em cima no céu... um inferno embaixo da terra... nossa, nada a ver!
acho que se você tentar ver a coisa de uma outra forma talvez fique menos chato...
ah, tá! ... como assim?
tente ver tudo isso que é falado como símbolos...
... (começa aquela cara, aquela imagem maravilhosa e indescritível de uma cabecinha fresca pensando).
símbolos de coisas que existem dentro e fora de nós...
hmmm... como assim...?
onde colocamos os mortos?
enterramos eles...
sim... colocamos debaixo da terra. por onde passam nossos esgotos?
debaixo da terra!
então, tudo que queremos esconder, ou de que não gostamos, enterramos... colocamos embaixo da terra... o inferno é um símbolo para essa nossa atitude...
... (a cara começa a brilhar).
o que você mais gosta de fazer... em casa... passa aquele tempo todo e eu até implico com você?
hmmm... origami...?
e isso é o que? é criar, filho! você tem uma enorme vontade e prazer de criar coisas, né?
é... acho que é...
deus pode ser um símbolo para esta energia de criar também, filho. esta energia que todo ser humano tem e precisa ter... pegamos isso e transformamos numa pessoa, pra poder até entender melhor...
é mesmo! eles falam que deus criou tudo, né? nossa! tudo começa a fazer sentido!
ha, ha, ha, ha...! tá vendo como muda quando a gente pensa de uma outra forma?
é!... é legal!
totalmente diferente de negar, descartar, jogar fora, né?
hehehe
a gente precisa sempre pensar nas coisas, filho. quase sempre a gente descobre algo de bom... dificilmente alguma coisa é totalmente inútil...
...
com relação a este assunto, a gente corre o risco de cometer o mesmo erro de quem acredita sem compreender: não compreendem e acreditam; não compreendemos e negamos!
é... é mesmo... 
...
vou falar com meus amigos...
isso eu não aconselho, não... daqui a pouco vão me chamar na escola pra dizer que você tá pondo coisa na cabeça dos outros... espera mais um pouco. pensa mais no assunto, compreende melhor você primeiro.
...
...
...
nossa... que da hora!! acho que não quero ser mais astronauta, não... quero ser filósofo!
hahahahaha...

sábado, 20 de agosto de 2011

espaço

vai haver um dia em que surgirá espaço
enquanto caminha
enquanto trabalha
enquanto dirige
enquanto
sem que soubesse
surgirá espaço

poderá ser
que enquanto caminha
haverá espaço para que o que vê
e goste ou não, passe
poderá ser
que enquanto trabalha haverá espaço para que o que surja, cesse
que enquanto dirige haverá espaço para que ultrapassem e sigam

sem que espere ou queira

o espaço surgirá
haverá esse dia

mas não anseie por ele
não conte as horas
nem as semanas
nem meses ou anos
apenas siga respirando
sem esquecer
sem contar nem mesmo as respirações além do que for necessário para parar de contar

e então
depois de surgido
e conhecido o espaço
vai saber:
surgiu
e há
e é assim
e foi por aquilo

e haverá espaço
para o espaço
surgir

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

hai kai

Brincando com amigos pipocaram estes versinhos. 
Andei versando por aqui, acabei lembrando destes esquecidos!








cabelos brancos, rugas, dores
a cada bela primavera
mais disso e um pouco mais

***

repare bem como
se arrasta a barata meio pisada
parece amar a vida!

***

cadáver de cachorro no caminho
paro todo dia a acompanhar as mudanças
chego arfando no trabalho

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Buraco de Minhoca

Buraco de minhoca, além de ser o nome do que é, também o é de um fenômeno previsto pela ciência amiga dos espirituais: a física quântica.
É uma espécie de túnel, gerado por uma quantidade colossal de energia, que é capaz de ligar dois lugares separados por qualquer grandeza de tempo e/ou espaço.
Simploriamente falando: estando uma das "bocas" na nossa sala, a outra pode estar em outra galáxia. Passando o pé pela boca daqui, ele sai lá! Ela pode estar também a, digamos, 500 anos no futuro, e nós podemos transitar livremente entre lá e aqui!!
E tem gente que duvida de uma bobagenzinha como a telepatia!!
Mas o fato é que, devido a uma grande quantidade de energia gerada pela leitura do "A Menina Que Roubava Livros", um daqueles foi gerado na minha cabeça. Com uma das bocas lá nos meus dezesseis anos.
Aquele serzinho acredita ser poeta. Graças a mim, ele agora sabe que a vida vai, em algum momento, desaparecer com ele! Mas também contei que hoje existe internet, e o moleque, esperto como é, deu um pulo aqui e deixou o que se segue:

como chegam as férias
a folga e o fim delas
chega o natal
o aniversário
aquele livro via postal
aquela revista
aquele filme
a morte chega
como chega aquele dia
e o depois
aquela hora
o passeio
a viagem e o fim dela
a morte chega
uma questão de tempo
como poucos lembram saber
uma questão de espera
em qualquer lugar
mas sempre no presente
a morte chega
pode ser amanhã ou hoje
mas depois certamente será
a morte chega
quem fica atento
às vezes vê ela passando
rapidamente abre caminho
mas ela volta
ela chega
e quem sou eu para não morrer?
o Buddha disse:
"àquele que descobre a resposta
a morte não pega"

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