What is your language?

Bornes relacionados com Miniaturas

Buscando...?

Mostrando postagens com marcador prática. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador prática. Mostrar todas as postagens

sábado, 26 de setembro de 2015

corpo esquecido

Como se fosse um saco cheio de vários tipos de grãos e pela sua abertura olhássemos e identificássemos cada um dos tipos contidos nele, assim nos pomos a dissecar o corpo, discriminando suas partes e órgãos. Esta foi uma das formas que o Buddha nos ensinou, no satipaṭṭhāna sutta, para instigar o questionamento de nossa identificação com nossos corpos. Uma outra é a contemplação do processo de desintegração de cadáveres.
Quando o Buddha dizia que seu ensino ia contra a corrente do mundo, muitos de então talvez não imaginassem como isso soaria dois mil e quinhentos anos depois.
Hoje, com todos os recursos que há para esculpirmos nossos corpos, sermos nossos corpos é inquestionável.

Mas voltemos ao ensinamento.
Enquanto confiantes no Buddha, praticamos examinar aquilo de que somos compostos, ou os entes materiais com os quais nos identificamos, trazendo para a luz da consciência a natureza medíocre da matéria que gostamos de esquecer: átomos e moléculas, que são só o que tem que ser átomos e moléculas.

Graças ao atual conhecimento sem igual de átomos e moléculas temos inúmeros recursos para moldar nossos corpos. Quase como os oleiros moldavam a argila em belos potes nos tempos do Buddha.

Podemos sentir dor quando quebra-se um pote do qual gostamos, ao qual estamos apegados, no qual projetamos sentimentos e sensações. Felizmente é mais fácil optar por estabelecer ou não uma relação assim com potes.
Com o corpo há a ignorância fundamental e o mundo que gira por ela a nossa volta nos mantendo a ser corpos muito menos maleáveis e dóceis que argila. Muito mais decadentes.
Nos falta opção?
Somos consciência e matéria. Seja lá o que forem tais coisas, é possível, a partir de nossa experiência, afirmar este mínimo da nossa existência. 
O Buddha nos deixou métodos, como os citados acima, para confrontar a matéria de forma direta e franca dentro de nossa experiência do existir e descobrir se há uma opção para existirmos menos sujeitos à sua mediocridade. De várias formas inclinamos nosso ser ao escrutínio deste ente com que tão arraigadamente nos identificamos até sentir profundamente se é, ou não, dolorosa e frustrante esta identificação.
Trazer à consciência a natureza nua de nosso corpo, contra tudo o que há para nos fazer esquecer, talvez seja o  que exerça, dentro do preciso e vasto ensinamento do Buddha, o papel de um poderoso motor a nos impulsionar contra a correnteza.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Cultivador Da Sabedoria 2

Conforme dito aqui, mais trechos:

"Quer seus alunos fossem novatos em meditação ou monges envolvidos em uma vida inteira de prática espiritual, Ajaan Pañña salientava que o desenvolvimento da concentração e sabedoria meditativa requeria a observância de certos princípios universais. Em essência, este processo envolvia uma progressão do externo para o interno; do grosseiro ao refinado; da ênfase no corpo à ênfase na mente; e de um estado de atividade a um estado de quietude. Para ser bem sucedida, a meditação deve ser uma disciplina que envolva toda a pessoa e todas as facetas da sua vida diária. É um caminho de prática que engloba tanto causa como efeito: a fundação apropriada levando a resultados apropriados. Praticantes não podem simplesmente optar por cumprir alguns aspectos do caminho e negligenciar outros; caso contrário, todos os seus esforços acabarão por se revelar decepcionantes."

(...)

"Ajaan Pañña imprimia em seus alunos a noção de que a prática da sabedoria cobria uma gama muito ampla de fenômenos mentais. Por causa disso, eles tinham que procurar métodos criativos para lidar com as inúmeras possibilidades que podiam surgir no decurso das suas investigações. Eles não podiam esperar que os métodos adequados simplesmente aparecessem do nada para si. Os métodos corretos, os que fossem mais adequado às suas necessidades, poderiam ser bastante evasivos. Não era uma questão de simplesmente sentar e observar a consciência em seu ir e vir. Eles tinham que buscar seriamente pelo método correto, ou então nunca iriam encontrá-lo. Eles tinham que fazer uma escolha deliberada de que facetas da mente iriam observar, escolhendo os aspectos mais relevantes com base em seus insights sobre o Dhamma. Para que isso acontecesse, eles deveriam realmente aplicar diligência ao que estavam fazendo. A investigação devia ser algo importante para eles. Para serem verdadeiros cultivadores de sabedoria, eles deveriam dedicar o tempo e o esforço para desenvolverem adequadamente a prática da sabedoria. Se o fizessem, a mais elevada realização não estaria fora de seu alcance.
'Essa era a essência geral das palestras que Ajaan Pañña oferecia igualmente aos monges e praticantes laicos."

terça-feira, 29 de julho de 2014

aquarela

No Anuruddha Sutta do Angutara Nikaya, o Buddha acrescenta um oitavo pensamento aos sete virtuosos que surgiram na mente meditativa do bikkhu Anuruddha. 
Os sete: 
Este Dhamma é para aquele que é modesto, não para aquele que quer o auto-engrandecimento. Este Dhamma é para aquele que está satisfeito, não para aquele que está insatisfeito. Este Dhamma é para aquele que é isolado, não para aquele que é enredado. Este Dhamma é para aquele cuja energia está estimulada, não para aquele que é preguiçoso. Este Dhamma é para aquele cuja atenção plena está estabelecida, não para aquele cuja atenção plena é confusa. Este Dhamma é para aquele cuja mente está concentrada, não para aquele cuja mente é desconcentrada. Este Dhamma é para aquele dotado de sabedoria, não para aquele cuja sabedoria é fraca.
O oitavo: 
Este Dhamma é para aquele que desfruta da não-proliferação [conceitual], que se delicia com a não-proliferação, não para aquele que desfruta e se delicia com a proliferação.
Proliferação conceitual é uma tradução para o termo pali, papañca. Termo chave no cânone antigo, há um livro maravilhoso, como acho que todos dele são, do Venerável Katukurunde Ñanananda sobre papañca e papañca-sañña-sankha.

Proliferação é, sendo simples e pragmático, dar corda ao pensamento, viajar. Viajar no pensamento é coisa às vezes bem vista na nossa mentalidade comum de seres amantes do viver (numa folha qualquer, eu desenho um sol amarelo...)
...e o futuro é uma astro nave...
Na disciplina do Buddha, o futuro não existe assim como o passado não mais. Tudo o que importa é o movediço ponto em que estamos entre dois extremos de escuridão.
Deleitar-se com o pensamento que levado pela ignorância segue a tatear por estes extremos escuros, compondo realidades a partir do que é verdadeiramente inexistente é um engodo.
Uma coisa que leva à outra, à outra e à outra pode levar a muita coisa interessante, mas não leva a nada.
O que temos é um coração que bate, um pulmão que se enche e esvazia, sentidos que nascem a cada contato e que, segundo o Buddha, é nossa mais valiosa fonte de aprendizado, nosso campo de pesquisa que, se conduzida conforme Ele ensinou, trará resultado não reproduzível nas nossas mais belas aquarelas...


segunda-feira, 26 de maio de 2014

o que faz você ser budista?

li este livro em poucos dias. fiz várias anotações e destaques.
é um texto leve, divertido, claro e, apesar disso ou por isso mesmo, profundo. e indigesto, talvez, para quem preste atenção e reflita entre uma risada e outra. é um livro que recomendo a buddhistas, simpatizantes, curiosos e aspirantes por algumas razões.
uma delas: o autor não ensina técnicas, fórmulas, práticas. antes, ele esclarece a visão buddhista, o como o buddhismo interpreta a existência, aquilo que o interessado no buddhismo deve esperar encontrar.
com bom humor, o autor cita instâncias de nossa vida ordinária, como a política e a cultura pop, nos convidando a encarar a hipocrisia e o absurdo que nutre muito bem nossa ignorância.
não é uma leitura agradável para quem busca alguma arte da felicidade:

"O objetivo de Sidarta não era ser feliz. Seu caminho não conduz, ao final, à felicidade. Antes, é uma rota direta para o estado de libertação do sofrimento, libertação dos enganos, ilusões e confusões."

eu parafrasearia o título do best seller do dalai lama assim: "a arte de se aprofundar na infelicidade" como possível para o livro que é desenvolvido sobre o que o autor chama de quatro selos do buddhismo, sem os quais não há buddhismo, a saber: a postulação do existir como fenômeno interdependentemente composto e, por isso, impermanente, vazio e capenga ('capenga' é palavra minha). a estes três soma-se o nibbāna, fenômeno que está além das definições. a pessoa que, nas palavras do autor, não aceita estes princípios, não é buddhista.
há controvérsias? não para mim.
outro trecho:

"Hoje em dia, é comum encontrar gente que junta e mistura religiões, segundo sua conveniência e nível de conforto. Na tentativa de não serem sectárias, essas pessoas procuram explicar conceitos cristãos a partir do ponto de vista de Buda, encontrar semelhanças entre o budismo e o sufismo, ou entre o Zen e o mundo dos negócios. Naturalmente, sempre é possível encontrar pelo menos pequenas semelhanças entre quaisquer duas coisas sobre a face da Terra - mas não acredito que essas comparações sejam necessárias."

mais uma razão para eu recomendar: é um livro que não foi escrito para ser simpático à diplomacia religiosa, mas antes para estabelecer fronteiras sinceras. deixar claro que de cada lado deve haver amizade e respeito, mas importantes diferenças precisam ser conhecidas para o bem do viajante.
o ecumenismo pode ser um grande problema se servir à ocultação das diferenças em nome de abraços, sorrisos e fiéis que saem daqui para lá e de lá para aqui, sem se comprometer lá nem aqui. e, principalmente, sem se comprometer consigo mesmo.



"Uma vez que tenha aceitado intelectualmente a visão do budismo, a pessoa pode usar qualquer método que sirva para aprofundar seu entendimento e realização. Em outras palavras, pode se valer de qualquer técnica ou prática que contribua para transformar o hábito de pensar que as coisas são sólidas no hábito de vê-las como compostas, interdependentes e impermanentes. Essa é a verdadeira prática e meditação budistas - não apenas ficar sentado sem se mexer, como um pedaço de pau."

quer dizer, por mais gostoso que possa ser relaxar sem compromisso num centro de dhamma, conhecer gente cabeça, debater os males da sociedade e depois ir na missa, isso está longe de ser buddhismo e mais ainda de conduzir à meta que o Buddha alcançou e prescreveu. 
um livro que, devidamente lido, contemplado e refletido, oferece material para que o buddhismo seja incorporado à vida de uma forma que leva a transcender nomes e adjetivos. sendo um livro cuja proposta é deixar claro o que é ser buddhista, leva ao entendimento final de que ser buddhista é só um meio para alcançar a suprema meta de ser coisa alguma. irônico, como é o dhamma do Buddha.



 


 

segunda-feira, 5 de maio de 2014

pancupadanakhanda

Os cinco agregados são dos temas mais presentes e básicos no buddhismo. E, talvez, dos mais difíceis de entender. Graças a nossa forma comum de conhecer o mundo, enxergando ‘coisas substanciais’, tendemos a naturalmente substituir o entendimento de um ‘eu substancial’ por um composto formado por ‘cinco agregados’ não menos substanciais.
Mas no buddhismo não é assim.
Uma frase citada por Richard Gombrich no livro ‘What The Buddha Thougth’, página 131, é potencialmente a frase epigráfica para toda a nossa jornada de compreensão pelo Buddhadahamma: “para o buddhismo não há substantivos, somente verbos”.*
O que isso significa? Significa que cada vez que pensamos em entidades estanques, ainda que como componentes de alguma outra coisa, estamos errando, estamos patinando, atolados no ponto do caminho que é o pântano da mente conceitual, com todo o seu rico, diverso e perigoso ecossistema.
Os cinco agregados “infectados pelo apego”, enquanto pensados como entidades, semelhantes a peças de um quebra-cabeça, permanecem “infectados”, que é como eu traduzo o ‘affected’ usado pelo bikkhu Anālayo no trecho abaixo extraído do livro 'From Grasping to Emptiness – Excursions into the Thought-world of the Pāli Discourses (2)', página 24, que me pareceu um maravilhoso desenvolvimento da frase candidata a epígrafe citada acima, no sentido de nos ajudar na jornada de corrigir nossa visão através da lente do entendimento e da reflexão.
Esta correção de ponto de vista me parece ser fundamental mesmo aos primeiros passos no Caminho prevenindo o risco de se enraizar na lama. 


Devido a esta noção inerente de um sujeito substancial capaz exercer controle, os cinco agregados [infectados por] apego são experienciados como corporificações da noção 'eu sou'. Do ponto de vista comum, o corpo material é 'onde eu estou', sentimentos/sensações são 'como eu estou', percepções são 'o que eu estou' (percebendo), volições são 'por que eu estou' (agindo), e consciência é 'por meio do que eu sou' (experiencio). Deste modo, cada agregado oferece sua própria contribuição para o afirmar da ilusão tranquilizadora 'eu sou'. Tais noções 'eu sou' são, contudo, superimposições errôneas por sobre a experiência, carregadas do senso de um sujeito autônomo e independente que consegue obter ou rejeitar objetos substanciais distintos.**

Os cinco agregados do ponto de vista sugerido pelo texto se tornam muito mais presentes e facilmente observáveis na nossa vida ordinária do que se pensados como entidades a serem 'procuradas' enquanto sentados em meditação formal, não acham?


*for Buddhism there are no nouns, only verbs.       


**Due to this inherent notion of a substantial subject able to exert  control,  the  five aggregates  [affected  by]  clinging  are  experienced  as  embodiments  of  the  notion  `I  am'.  From the worldling's point of view, the material body is `where I am', feelings are `how I am', perceptions are `what I am' (perceiving),  volitions  are  `why  I  am'  (acting),  and  consciousness  is `whereby I am' (experiencing). In this way, each aggregate offers its own contribution to enacting the reassuring illusion `I am'.  Such  `I  am'  notions  are  but  erroneous  superimpositions on experience, conveying the sense of an autonomousand independent subject that reaches out to acquire or reject discrete substantial objects.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

feriado

há medo em descobrir que não podemos parar

porque normalmente dizemos ah, agora vou parar, vou fazer nada

mas é mentira

não vai parar

só se não prestarmos atenção, só se nos contentamos com palavras, só se acreditamos no que parece

se não for assim vemos que continua a respiração

que o coração bate

que os sentidos puxam de um lado para outro

que o turbilhão mental gira

que dores surgem

que nada para

só nos iludimos enquanto continuamos a morrer na mesma velocidade de sempre

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

tapa de amor

um problema meu com o amor é que ele agrada a todo mundo.
fale de amor e terá platéia garantida e palmas. no final as mesmas rodinhas de conversa fiada banhadas na água morna do amor.
um outro problema meu com o amor é a supervalorização. 
no buddhismo não vejo isso. no buddhismo o amor é uma ferramenta, um instrumento. com amor no coração levamos a vida de uma forma mais adequada a desenvolver o que realmente importa: o conhecimento da realidade e a consequente libertação dela. só isso. 
não tenho a intenção de construir um reino de amor e paz na terra, só quero o suficiente para que eu possa, e que para que todos os outros possam, chegar na cura para a vida, se um reino de paz surgir disso, melhor para quem quiser ficar por aqui.

recentemente comprei o livro passo a passo, relançado em ebook pela edições nalanda via amazon.

na época em que foi lançado impresso eu deixei passar por conta da imagem que criei do autor, Maha Ghosananda. me pareceu muito bonzinho, muito cheinho de amor e tal. ignorei. mas com o lançamento do livro digital, a facilidade e o preço camarada me convenceram a arriscar. e não me arrependi. excelente livro e mais um tapa (com amor) na minha cara de idiota. 
o amor nascido da sabedoria é outra coisa, com o qual não tenho problema algum. é um amor que brota do mergulho corajoso no mais profundo desespero e desencantamento com o mundo, do confronto com os horrores mais atrozes cometidos por seres humanos no ápice de sua estupidez e ignorância. um amor que surge do reconhecimento direto de nossa plena igualdade na mais desoladora miséria existencial. um amor que surge de uma poderosa desistência. um tipo paradoxal de desistência que mantém a retidão, a convicção, a diligência num trabalho em que o amor é ferramenta fundamental.

alguns dos meus trechos preferidos do livro:

"O que é a vida? A vida é comer e beber através de todos os nossos sentidos. E a vida é se preservar de ser comido. O que nos come? o Tempo! O que é o tempo? o tempo é viver no passado ou viver no futuro, alimentando-se de emoções. Os seres que podem dizer de si mesmos que são mentalmente sadios por apenas um minuto são raros no mundo. A maioria de nós sofre de apegar-se aos sentimentos prazerosos, não prazerosos, sentimentos neutros e sentimentos de fome e de sede. A maioria dos seres vivos tem que comer e beber através dos olhos, ouvidos, língua, pele e nervos. Nós comemos vinte e quatro horas por dia sem parar! Ansiamos por comida para o corpo, comida para os sentimentos, comida para as ações da vontade e comida para o renascimento. Somos o que comemos. Somos o mundo e comemos o mundo."

"O Buddha chorou quando viu este ciclo sem fim do sofrimento."

"Todos os tipos de sensações são sofrimento, cheias de superficialidade, cheias de 'eu sou'. Se pudermos penetrar na natureza das sensações, poderemos compreender a felicidade pura do nirvana."

"O Buddha nos diz que a iluminação começa quando compreendemos que a vida é sofrimento.
Isso pode parecer negativo ou pessimista para muitas pessoas, mas não é. É somente uma afirmação sobre nossa circunstância compartilhada, algo para ser visto sem lamento ou apego."


segunda-feira, 18 de novembro de 2013

the book is on the table. and i will translate it.

um amigo de dhamma me disse que poderia ser útil para alguns falar um pouco do meu hobby de tradutor de textos buddhistas. all right.
para todo aquele que deseja traduzir, me parece óbvio que a leitura é fundamental. seja do idioma a ser traduzido, seja do para o qual vai traduzir. quando cheguei ao theravada já estava praticando e estudando buddhismo e meditação no que havia disponível próximo de mim: um centro mahayana, buddhismo tibetano. mas minha natureza de buscador me impulsionava a cavucar as raízes daquilo. a cada menção que lia a respeito de hinayana e, menos vezes, de theravada, atiçava meus interesses, eu levantava as orelhas e abanava o rabinho.
aí me surgiu a internet. me embrenhei na mata e vi que a maior parte do material que havia sobre o theravada está em inglês. há um pouco em espanhol também. o que fazer? eu tinha estudado inglês havia um tempo, mas o impulso veio quando, tendo feito contato com o professor ricardo sasaki, do centro de estudos buddhistas nalanda, ele me perguntou se não gostaria de traduzir um pequeno texto para publicar na rede. topei. havia um programa tradutor no pc, então vamos ver no que dá.
os primeiros resultados foram fraquinhos, mas tive mais facilidade do que esperava. entregando o primeiro pedi mais um e depois outro e outro e não parei mais.
vou ficando menos ruim com o tempo e hoje leio muito mais em inglês do que em português. claro, com a ajuda da tecnologia atual. então, passando efetivamente para o que realmente pode ajudar, vou compartilhar as minhas ferramentas e modo de trabalho.
leio principalmente num tablet android com os seguintes apps: https://play.google.com/store/apps/details?id=tool.ebook.pdf.reader https://play.google.com/store/apps/details?id=org.pdf.and.djvu.reader  https://play.google.com/store/apps/details?id=org.ebookdroid
estes apps me permitem muitos recursos tais como marcar trechos, comentar, fazer anotações...
e o melhor dicionário gratuito que encontrei me ajuda com palavras e expressões que meu ínglich não alcança: https://play.google.com/store/apps/details?id=com.akdevelopment.dict.enportug2.free
quando um texto me é enviado para tradução, ou eu escolho um para traduzir, eu uso o https://support.google.com/translate/toolkit/answer/147809?hl=pt-BR uma paltaforma de tradução disponível para todos que tenham conta no google. acho excelente, é cheia de recursos dos quais não utilizo nem um terço. somo a ele um plug in do navegador firefox chamado im translator, muito bom também e com um bom dicionário.
para ajuda com o português eu uso http://aulete.uol.com.br/ tanto na versão on line quanto a instalada no pc fora outros incontáveis dicionários e tradutores on line que abundam na rede quando algum destes que citei não me convence.
então é isso.
se alguém deseja contribuir para a difusão do dhamma no brasil e ainda não sabia como, aí está minha humilde dica. de quebra ainda faz um improvement no english.
the book is in the tablet.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

oh, vida...

eu não sabia, mas a questão sobre otimismo ou pessimismo já estava resolvida no majjhima nikāya e, felizmente, a declaração do Buddha não me surpreendeu.
está lá no dīghanakhasutta, onde o Buddha discorre sobre opiniões e pontos de vista e sobre a funcionalidade deles...

na tradução do acesso ao insight, quarto parágrafo: "dentre estes, o entendimento daqueles contemplativos e brâmanes, cuja doutrina e entendimento é ‘tudo é admissível para mim,’ está próximo da cobiça, próximo do cativeiro, próximo do deleite, próximo da agarração, próximo do apego. o entendimento daqueles contemplativos e brâmanes, cuja doutrina e entendimento é ‘nada é admissível para mim,’ está próximo da não-cobiça, próximo do não-cativeiro, próximo do não-deleite, próximo da não-agarração, próximo do não-apego". esta tradução parece estar baseada na inglesa do bikkhu bodhi que usa a palavra 'acceptable' para a qual o tradutor para o português preferiu 'admissível'. outras possibilidades são: 'satisfatório', 'apropriado', 'aceitável'. já na tradução do thanissaro bhikkhu para o mesmo sutta, que consta no access to insight, a palavra preferida foi 'pleasing', que em português tem as traduções 'satisfatório', 'bom', 'atraente', 'atrativo', 'agradável', 'encantador'.

o Buddha claramente diz, então, que ambos, otimismo e pessimismo são opiniões e, como tal, devem ser consideradas. porém, o otimismo, conforme expresso no sutta, está mais para o samsāra, enquanto que o pessimismo, conforme expresso no sutta, está mais para o nibbāna...

é isso mesmo ou alguém quer opinar...?

quinta-feira, 30 de maio de 2013

simples ficando ll

na disciplina do Buddha, do encontro do objeto com a percepção surge o mundo.

se uma mente não desperta, mais ou menos assim: um carro... um opala... rosa... bonito... do mário... o que saiu do armário... e a mente não desperta segue se enrolando num emaranhado de conceitos. 
papañca-saññā-saṇkhā

se uma mente desperta:
um carro... anicca, dukkha, anattā, paz... um opala... anicca, dukkha, anattā, paz... rosa, anicca, dukkha, anattā, paz... ...anicca, dukkha, anattā, paz...  ... anicca, dukkha, anattā, paz... paz... paz...
paz.



entenda, melhor que eu, este processo fundamental no livro Concept and Reality do Venerável Bhikkhu Kaṭukurunde Ñāṇananda
só em inglês, por enquanto.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

simples ficando

pensamos 'o rio corre' e 'o rio corre' falamos. embora não haja rio algum além do correr. é o correr que é o rio. se não corre, rio não é. mas pensamos 'o rio corre' e 'o rio corre' falamos. na nossa cabeça há um rio que só há na nossa cabeça.

pensamos 'eu sou' e 'eu sou' falamos. embora não haja eu algum além do ser. é o ser que é o eu. se não for, eu não é. mas pensamos 'eu sou' e 'eu sou' falamos. na nossa cabeça há um eu que só há na nossa cabeça.

simples vai ficando quanto mais vejo através dos suttas iluminados pelas palavras do Venerável Bhante Katukurunde Ñanananda.

"When one says 'the river flows', it does not mean that there is a river quite apart from the act of flowing."

do 13º sermão da série Nibbāna - The Mind Stilled

Quando se diz 'o rio flui', isso não significa que haja um rio a parte do ato de fluir.

visite +Bhante Katukurunde Ñanananda 


sexta-feira, 10 de maio de 2013

há dhamma

numa sala de reunião em que se trata com enorme seriedade de assuntos relativos ao continuar do giro do mundo com cada um interessado em manter seu próprio mundo girando há dhamma. 
no meu corpo o desconforto: eu respiro, se inspiro eu preciso inspirar, e vice-versa, todo o tempo. minhas pernas, minha coluna, minhas nádegas, meu pescoço, meus ouvidos, meus olhos, por trás deles sempre presente uma vontade de não querer ser dor. 
inútil. 
e cada mudança de postura é fruto da esperança desta elucubração que não quer ser desconforto. 
inútil.
o mundo gira. e cada mundo ao meu redor naquela sala.
um movimento neste, outro naquele, um sispiro leve, outro mais profundo, outro coça a cebeça: todos em tentativas vãs de deixar de ser desconforto, o desconforto do giro do mundo. somos todos iguais, pobres diabos, bolotas de deterioração.
numa sala de reunião em que se trata com enorme seriedade de assuntos relativos ao continuar do giro do mundo com cada um interessado em manter seu próprio mundo girando há dhamma.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

descordar

a metáfora que vou apresentar a seguir nas minhas palavras aparece no oitavo sermão da série 'nibbāna - the mind stilled' do nunca suficientemente venerado venerável bhante katukurunde ñanananda. elaborada, rica e luminosa como é o todo de seus preciosíssimos textos, penso que a contemplação cuidadosa desta analogia pode fazer surgir um entendimento profundo. passemos a ela.
imagine longos cabos ou cordões. ao redor e ao longo de um os outros serão enrolados para formar uma corda. duas pessoas se põe, uma em cada extremo, para realizar a tarefa. para que surja a corda, cada um deve enrolar no sentido contrário do outro, note bem este detalhe. um terceiro elemento, digamos eu, se posiciona no meio entre os extremos sem ser notado (faça um esforço para aceitar isso) e segura os tais cordões num ponto de modo a impedir o enrolamento naquele ponto.
nos dois extremos os enroladores começam a sua tarefa. porém, eles começam e permanecem enrolando no mesmo sentido, para o mesmo lado, note bem também este detalhe. com o ponto intermediário preso por mim, mesmo com os extremos sendo enrolados na mesma direção uma corda começa a surgir e a se tornar cada vez mais corda, mais rígida, mais tensa conforme o trabalho prossegue.
então eu, num dado momento, quando uma bela corda é aparente, resolvo soltar aquele ponto. o que ocorre com a corda? ela imediatamente se desfaz. pela própria tensão acumulada, uma vez que o enrolamento foi feito na mesma direção nos dois extremos, o desenrolamento espontâneo revela que nenhuma corda foi construída, ela só existiu na dependência do ponto em que eu estava agarrado.

pense nisso.

uma corda só poderia ser feita se houvesse a discórdia entre os dois extremos, um teria que girar para o lado oposto do outro, se os dois lados estiverem em acordo, nenhuma corda poderá surgir. 
e eles sempre estiveram em acordo, ambos giravam para o mesmo lado, mas o eu agarrado no meio criava uma aparente discordância e uma aparência de corda surgiu.
assim é com nossa mente e os seus objetos. ambos giram para o mesmo lado da impermanência (anicca), do sofrimento (dukkha) e da ausência de ego (anattā), mas uma aparência de permanência, de felicidade e de eu se mantém agarrada no meio nos fazendo construir (sakhāra) um mundo em completa discordância com a realidade, trançando cordas que nos prendem ao sasāra. a qualquer momento em que este apego ao meio se desfaça, a corda se descorda, entramos em acordo com o mundo e começamos acordar.
estas últimas linhas um tributo a humberto gessinger.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

tédio

...tudo bem, tédio também é sofrimento. o problema, talvez, é que na maioria das vezes é um sofrimento fraquinho, insuficiente para gerar alguma mudança significativa e sempre há os remédios clássicos: novidades excitantes competindo com o, digamos a verdade, inicialmente amargo Buddhadhamma.
mas do estou falando, afinal?
é que dia destes conversávamos, por cima, superficialmente, sobre a classe média e o buddhismo e, convenhamos, o grosso dos buddhistas por aqui está da média para cima. por razões lógicas e justas: mais cultura, mais viagens, mais acessos. e, também e lamentavelmente, por mais tédio. não sei como é ter tudo, ou muito, do que se quer, mas deve ser meio chato depois de uma meia vida...
aí, como o tédio me parece ser o que disse acima, acaba gerando a busca por uma espécie de buddhismo adocicado, um buddhismo prozac, um buddhismo smurf. um buddhismo que não consegue se impor, como solução, para aquilo que o shopping sempre pode aliviar, uma vez que esta é a função sagrada dos shoppings. um buddhismo que cativa pelo que tem de menos importante: cores, costumes culturais de lá e de acolá, concertos dos beach boys, entrevistas do richard geere, cabeças raspadas, trejeitos e palavras de sabedoria de um ou outro sábio e compassivo. enquanto a vida segue e aqueles aspectos que me parecem ser a razão fundamental do buddhismo vão para debaixo do tapete mágico. e os grupos se reunem sorridentes, sem forçar a barra, em seus voos razos.
a pior coisa que pode acontecer para um bon vivant é ele gostar de buddhismo. e muito pior isto é para o dhamma.
fazer o que? a vida é imperfeita.
mas não diga aos bon vivants do dhamma que a vida é imperfeita: depois que eles conheceram o dhamma, a vida tornou-se linda!


quinta-feira, 29 de novembro de 2012

é fogo

é fogo! "o mundo está em chamas". se nos debruçássemos sobre esta rica, riquíssima imagem... só nesta frase do Buddha há tanto ensinamento...!
está aqui a impermanência, o apego, o sofrimento, a condicionalidade... tudo no fogo. haverá ainda coisas que não vejo.
depois de um certo ponto de entendimento e esforço, bastam poucas palavras para tomar um dia de reflexão. 
depois que se é tomado pelo movimento da roda do dhamma, pode-se desacelerar num momento ou noutro, mais ou menos como corpos que se chocam e se afastam dos braços de um redemoinho, mas logo volta-se, atraído pelos laços que nosso próprio entendimento e empenho construíram. 
uma vez iniciado o processo de retroalimentação entre compreensão e confiança no dhamma, penso que dificilmente haverá escape. não haverá sequer o menor desejo de escapar. e este processo inicia-se, penso eu, justamente do foco mantido na primeira nobre verdade: dukkha existe. não enxergo outra porta mais segura para o dhamma do Buddha. se por esta se entra por escolha sabiamente ponderada, provavelmente não haverá como sair. por isso, ouso pensar, o Buddha começa por aí. 
pelo oposto disso, penso sem necessidade de ousadia, vê-se tanto pseudodhamma por aí. 
esta porta é segura porque nos permite almejar a transcendência sem nos perdermos em elucubrações irreias. é uma verdade sempre clara, aguda e a disposição, sempre presente como a respiração, que vai de aspectos grosseiros a sutis. ainda mais evidente que a impermanência, outra verdade sempre à vista, dukkha, por nos aparecer primordialmente pela via das sensações, nos mantém, se assim nos comprometermos, sempre atentos ao todo do dhamma.
ver o mundo em chamas torna-se um hábito, aos poucos. e ascende. 
o fogo desperta e ilumina. 
ou aconchega e adormece.
depende daquilo que cada um escolha fazer com o conhecimento do fogo.
você desperta e vê. 
ou dorme e morre queimado.

***

"Aquele que vê o perigo do saṁsāra é aquele que vê as falhas, o problema deste mundo. Neste mundo, há tantos perigos, mas a maioria das pessoas não os vê, elas veem os prazeres e a felicidade do mundo. Agora, o Buddha diz que um bhikkhu é aquele que vê o perigo do saṁsāra. O que é o saṁsāra? O sofrimento do saṁsāra é esmagador, é intolerável. A felicidade também é saṁsāra. O Buddha nos ensinou a não se apegar a eles. Se não vemos o perigo do saṁsāra, então, quando há felicidade, nós nos apegamos a ela e nos esquecemos do sofrimento. Nós somos ignorantes em relação a ele, como uma criança que não conhece o fogo". - Ajahn Chah (trecho de um texto a ser publicado pelo nalanda)

quarta-feira, 6 de junho de 2012

it's the end of the world as we know it (and i feel fine)

O "Propósito" da Vida


Num emprego abusado, a palavra 'desculpa' seria uma melhor opção, porque não há propósito algum que, em si, não pressuponha alguma forma de vida. Todos os chamados 'propósitos' impingidos à vida pelos seres não despertos para torná-la mais alegre são apenas meras "desculpas". O buddhismo enfrenta diretamente o vazio absoluto da vida quando a iguala a "Dukkha" - a verdade amarga (do sofrimento). Segundo sua análise, se pode-se falar do propósito da vida, este é nada menos que o esforço para levar à cessação da existência samsárica - o círculo vicioso. Esta sendo a única desculpa justificável.


e com este trecho cheguei ao fim da 1ª leitura do livreto "Towards Calm And Insight" do Venerável (Venerabilíssimo e cada vez mais essencial na minha prática espiritual) Bhante Katukurunde Ñanananda. 
muitas questões nascem de uma passagem tão "radical":
será possível para um não monge realmente ser buddhista?
que implicações, em termos de qualidade de vida, gera uma ideia como essa?
é possível viver a vida sendo sincero consigo mesmo e ao mesmo tempo concordar em absoluto com o autor?
onde tal pensamento irá me (nos?) levar?
...
and i feel fine...
e cada vez mais disposto e entusiasmado na busca de respostas para todas estas perguntas!!!

vai que alguém queira me processar, e a vida já é dukkha, por si só um processo, o título deste post é homônimo de uma música da banda americana r.e.m. 
eis o link para letra e som:
pode ter algo a ver... ou não... mas o título é muito bom!

abaixo o original do Venerável em inglês e o link para o livreto:

The 'Purpose' of Life

A misuse of the word 'Excuse' would be a better substitute, because there is no purpose that does not itself presuppose some form of life. All so-called 'purposes' foisted on life by the worldling to brighten it up, are but mere 'excuses'. Buddhism faces squarely the utter hollowness of life when it equates it with 'Dukkha'  -  the bitter truth (of suffering). According to its analysis,  if one can speak of the purpose of life,  it is none other than the endeavour to bring about the cessation of samsaric existence  -  the vicious circle. This is the only excuse that is justifiable.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

sem alfa nem ômega

veja, o buddhismo vai por em dúvida a realidade daquilo que você mais ama: o seu ego. vai, de fato, oferecer métodos para que você investigue acuradamente esta noção que você tem do seu ego. vai afirmar, inclusive, que tal noção é a causa verdadeira de todos os seus problemas. 
pense bem.
o buddhismo não vai te revelar nenhuma energia, força, essência, princípio, entidade, demiurgo a quem você possa orar, pedir ajuda, proteção. nenhum deus, nem igual nem diferente do que você conhece que seja mais poderoso do que você pode ser. nenhum paraíso, nenhum salvador que possa fazer mais do que o Buddha fez, e Ele já fez tudo o que podia por nós. 
agora é conosco.
olha, o buddhismo não garante que a fé remove montanhas. a fé no buddhismo é só um componente entre outros que precisam ser cultivados em conjunto para resultarem na libertação que o Buddha afirma possível. e, na verdade, a fé algumas vezes pode até ser um obstáculo, criar montanhas, veja você.
e, veja também que, em última instância, a libertação do buddhismo vai se mostrando na medida em que vai te aproximando de uma visão em que não há coisa alguma para você se segurar, se manter de pé sobre, sustentar qualquer solidez que possa ter te tranquilizado num momento em que você esteve sem chão. o buddhismo vai, efetivamente, é te tirar o chão, te ensinar a sorrir em queda livre, parar na escuridão, encarando o medo. e encarando muitas outras coisas das quais você possa querer se livrar.
talvez você deva levar isso em conta antes de se afirmar buddhista. 
com certeza você não deve concordar com o que eu disse aqui. mas talvez deva considerar a possibilidade de eu ter razão e investigar o assunto em boas fontes, por si mesmo.
pense bem.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

cá entre nós

cá entre nós, melhor que o meu chefe não passe por aqui, mas tenho estado mais sensível ao trabalho. quer dizer, não trabalho mais nem menos do que sempre, mas o tempo que vendo tem me feito mais falta, tenho sentido mais a sua falta... certamente que isso passa, como tudo mais, mas por enquanto, pobre de mim... ou sorte a minha, pois como bem diz a música: nem podemos reclamar...
o fato é que para um não-monge e buddhista, a alternativa é sempre procurar o Dhamma por todo lado, sem desperdício de oportunidade. e o esforço compensa o tempo vendido.
dia desses tive lá uma palestra sobre resiliência, a qualidade de absorver os impactos e pressões da vida e conseguir voltar a forma normal sem marcas. a palestrante era boa, uma psicóloga que transmitiu com segurança o assunto. 
e eu lá na platéia atento àquilo tudo. e comparando tudo ao Buddhadhamma.
basicamente, o que se ensina neste tipo de palestra é a superação. é estar preparado para os fracassos na nossa busca pela felicidade porque, eles sempre dizem, coisas ruins acontecem né, gente? e nesse ponto começa o Dhamma a brilhar aos meus olhos. coisas ruins acontecem, é claro, mas quem diz o porquê, para mim, pelo menos, é só o Buddha.
e a explicação para o brilho do Dhamma aos meus olhos me parece ser a seguinte: temos a necessidade de tratar o ruim, o fracasso, a perda, o sofrimento como elementos estranhos à vida. por mais que repitamos e repitam para nós, como foi o caso, que precisamos estar preparados né gente, a dor é sempre algo fora do sistema, algo que ocorre, infelizmente ocorre, como se tivesse sido inserida na nossa vida como uma punição ou instrumento pedagógico mas que não fazia parte do plano original. mas o Buddha me vem, no meio da palestra e me alerta, isso não é bem assim, o infortúnio não só faz parte, ele é a própria natureza desse drama no qual você surge, meu filho. 
e a coisa clareia.
e eu lembro porque tenho tanta aversão à budismoterapia. mas budismoterapia não é um bom termo, parece que eu tenho algo contra terapia, o que é absolutamente oposto ao que penso. na verdade, como não tive mérito suficiente para viver pegado no manto de um ajahn chah, de um buddhadasa ou de um ñanananda, tive que quebrar o galho com uma boa terapeuta mesmo. 
junguiana. 
então, ao invés de budismoterapia eu acho melhor usar 'tradição smurf de budismo'. uma tradição imensa que tem influência tão grande que é possível perceber sinais dela em muitos praticantes de várias outras. sua principal característica é aquilo que partilha, guardadas as devidas proporções, a partilha se dá nos termos gerais, com a visão mais preciosa para nós e palestrada para mim naquele dia: os problemas são coisas que ocorrem, mas a vida não tem nada com isso. a vida é bela, perfeita, existir é uma experiência inigualável, você pode superar a dor e viver plenamente todo o seu potencial, seu ser iluminado interior... e por aí adentro. 
para mim, nada mais distinto do que o Buddha ensina. 
e o que eu aprendo do Buddha, então?
aprendo que a vida é o que é. e o que a vida é, nós não vemos. e por que não vemos? um importante motivo é justamente porque, quando pensamos no assunto, acreditamos muito intensamente que devemos nos preparar para o fenômeno errado: o infortúnio. mas aquilo para o que precisamos nos preparar é para o sucesso. este é o grande ocultador da verdade da vida. a alegria, o alívio, a cura, o prazer que tem o poder de nos iludir e nos manter no ciclo que o Buddha define como samsara. preparar-nos para o sofrimento seria algo quase supérfluo se não nos deixássemos enganar tão completamente pelo prazer. se aproveitássemos as alegrias que temos para ver a natureza condicionada e capenga do mundo, e por mundo eu falo do mundo que o Buddha fala: tudo que nos entra pelos sentidos. compreenderíamos a coisa toda da forma como entendo o Buddha me dizer. acabaria esse negócio de que os palestrantes motivacionais tanto gostam do tal do meio copo vazio ou cheio: é só um copo com água, vê o que dá para fazer com ele e para de elucubrar feito bobo. quereríamos mesmo é o nibbana
pois é, percebo que é preciso falar no nibbana para que o negócio faça sentido e não me venham chamar de pessimista, chato e agourento. sem falar em nibbana, fica tudo incompleto. a tradição smurf fica sorrindo para o vazio e a palestra acaba sendo um trabalho bem feito. e só.
daria para ser diferente? dificilmente, que eu seja realista. quem está preparado para ouvir este tipo de coisa? que a vida é capenga mesmo, que o leite vai azedar e que o caminhão de estrume vai chegar enquanto você estiver na festa simplesmente porque é de estrume que a festa é feita. não, não dá.
talvez este seja, em verdade, um ensinamento para ser mantido em segredo. se você chegou até aqui e concorda comigo vamos, na medida do possível, manter isso cá entre nós.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

ha!... grande novidade...!

Deveria ter escrito antes. Já faz algum tempo que estou remoendo estes pensamentos e este texto saiu agora e agora eu vou escrever nenhuma novidade. 
Como sempre, aliás. 
Mas, na verdade, acho que quem quer novidade não deve passar em blog buddhista. E muito menos por este aqui. As atenções por este caminho aqui estão muito mais voltadas para o velho, o antigo, o fim, a perda, a separação, a cessação, a morte, enfim, para os outros cinquenta por cento do processo de existir. Aqueles que a gente evita. Somos bípedes tentando caminhar com um pé só: um passo é o surgir o outro é o cessar. Mas queremos andar só usando o surgir, quando usamos o cessar, costuma ser de leve, rapidinho e de olhos meio fechados. Resulta em tropeço e queda, talvez. 
E tentamos cair com o surgir bem firme no solo.
Mas como eu começava a dizer, aquilo sobre o que eu deveria ter escrito, é que uma das coisas que me trouxeram ao theravada, ou ao buddhismo registrado nos suttas em pali, foi sati. Esta palavrinha, quando a ouvi (ou li) pela primeira vez, não me lembro onde nem como, reverberou em alguma coisa aqui por dentro. Ruminava e ruminava e buscava encontrar uma explanação sobre aquela palavrinha tão interessante. Uma vez perguntei a um monge ordenado numa das tradições tibetanas: "como é este negócio da atenção plena?" e ele abordou pelo lado da tomada dos preceitos e tal, que tomar os preceitos ajudava a manter a mente alerta e tal e não foi a resposta que resolveu plenamente o meu problema. Eu achava que tinha mais na tal de sati
E segui insatisfeito e procurando.
Achei o theravada: sati! Aqui se fala de sati! E achei o satipatthana sutta! Deleitei-me neste sutta. Sem apreender muita coisa na época, e tenho muito ainda que estudar, ler e refletir, praticar, enfim... Mas foi o grande momento para o meu caminhar. 
Quando eu li o Buddha dizendo que precisamos manter a plena atenção ao urinar e defecar, esta frase causou mais impacto na minha mente do que qualquer mantra sagrado que já houvesse recitado, qualquer instrução sobre a radiância da mente original que tivesse ouvido, qualquer descrição de reinos acessados por jhanas profundos... Foi um potente "ISSO! É ISSO! É POR AQUI A TRANSCENDÊNCIA QUE EU PROCURO".
E assim está sendo a minha busca. Neste corpo, nesta mente. Nas coisas ordinárias e comuns. Na morte nossa de cada dia. No relaxar a mente e ver o mundo acabando. Tentando levantar e caminhar com os dois pés, o surgir e o cessar. Enfim.

***

dia desses um kalyanamitta me disse: "e aí, quando vai montar seu grupo de estudo? para falar de dukkha, dukkha e dukkha? (rsrs)"
"iiih... hehehe... ninguém gosta de ouvir sobre dukkha!"

sábado, 13 de agosto de 2011

eu acredito - 1

quando um ser nasce, eu acredito que sua mente (ou parte dela, não sei bem) não surgiu com aquele corpo. acredito que mente é mente e matéria é matéria. duas naturezas distintas. e acredito nisso porque o Buddha assim ensinou, ao que parece. é algo em que confio. porque o Buddha, e isso é uma coisa que eu sei, foi muito preciso e acertou em muitas coisas, Suas instruções dão resultado, Sua teoria é extremamente coerente, Seu Caminho não me decepciona. quanto mais eu me aprofundo e pratico, mais desejo me aprofundar e praticar. então, minha experiência pessoal me garante este ato de fé sem problema. 
porém, eu mantenho esta crença num compartimento separado. ela não é o que define e nem sustenta minha prática. 
quando acreditamos que a mente segue num processo de condicionamento de um novo ser após a morte física, isto implica na aceitação da doutrina do kamma como definidor de alguns aspectos da vida daquele novo ser: méritos definem coisas boas, deméritos coisas ruins. doutrina que o Buddha declarou estar além da compreensão intelectual. e esta, sendo uma crença, não imediatamente verificável por experiência, tem um caráter dúbio. por exemplo: um buddhista como eu crê que está praticando o dhamma libertador do Buddha porque assim seu kamma o conduziu, ou seja, as ações passadas condicionadas pelas intenções deste mesmo contínuo mental frutificaram agora para que tal contato com o Buddhadhamma ocorresse, ou se repetisse, acontecimento digno de regozijo e alegria, um fator motivador. mas o mesmo raciocínio pode, em momentos em que outros fatores desta vida condicionam um estado mental menos animado, circunstâncias que, sabemos, não são raras, levar a pensar que os méritos não foram tantos assim, pois veja quão difícil é a prática, quão desprezível eu sou, ou o quanto minha vida é impulsionada por necessidades e tão pouco por escolhas...!  e, num movimento vicioso, deixar claro para nossa mente obscurecida como será difícil acumular os méritos necessários para um bom nascimento ou despertar futuro! por essas, mantenho a crença no seu devido lugar.
e é no próprio Buddhadhamma que baseio este meu caminhar.
Ajahn Buddhadasa ensina que há três tipos de nascimento elucidados pelo Buddha: o convencional, aquele que todos conhecemos, o nascimento através dos órgãos dos sentidos que ocorre a cada contato estabelecido entre olhos, ouvidos, pele, etc. e seus respectivos objetos e o nascimento mental que ocorre a cada vez que a idéia de eu e meu surge na mente. e é a compreensão destes dois últimos nascimentos que é relevante para obter o resultado da prática do Caminho, a saber, o cessar de dukkha, pois nada mais que dukkha e o fim de dukkha foi o que o Buddha ensinou.
a compreensão destes dois já é bastante a se fazer, mas é a compreensão do que está aqui, ocorrendo agora, é só uma questão de vir e ver. 
posso, assim, deixar a minha crença lá, nem pensar muito nela.
o nascimento que me interessa é este que ocorre agora.
a continuar, um dia...

Speech by ReadSpeaker