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quarta-feira, 25 de novembro de 2015

O Descaminho Do Bodhichátova

É um tipo numeroso. Você provavelmente conhece um. Quer ele se denomine bodhisattva, cristão piedoso, rotariano, espírita caridoso ou o que for. 
Ele ou ela se orgulha da própria bondade, humildade, modéstia e generosidade. Um nobre, enfim. 
O bem que faz continua sendo ótimo para aquele que recebe, mas vá conviver com o tipo. Uma benção para os distantes, um tormento para os próximos.
Não raro uma pessoa autoritária, dona da verdade, aquela que sabe. A que nos contempla do topo do monte, de onde nos prega, guia e salva.
No início do meu buddhismo, essa coisa do bodhisattva sempre me incomodava. Não engolia essa obrigação de iluminar o universo. Com o tempo e o estudo, compreendi melhor a coisa e convivo bem com a ideia hoje. Ao meu modo.
É que pensar nos outros é funcional para o Despertar. 
Simples assim. 
Uma vez que o Despertar é ou se revela fundamentalmente ao desfazer a ilusão de que existe o ego, pensar nos outros é um modo prático de ir esmerilhando a ideia do eu.
E não é só isso.
A bondade é funcional. O bom humor, o otimismo, a alegria também são. 
É a arte de fazer limonadas.
Contemplar o vazio de um refrescante copo de limonada é muito mais fácil que de um azedo limão.
Saber da desgraça que é a vida é básico. Identificar e valorizar o que há de tolerável e bom na vida é funcional para acabar com esta mesma desgraça.
Para meditar, preciso de uma mente contente. Parece que há mesmo raízes biológicas no sentir-se bem ao fazer o bem, já li isso em algum lugar. Logo...
Aquele tipo do qual comecei falando é um dos imbróglios do querer ser bodhisattva, que nos deixam ressabiados com essa coisa de abnegação. Porque é a distorção em pessoa a nos expor à perigosa falácia do desprendimento. Nós todos, no íntimo, sabemos do quase absurdo que é a ideia de fazer o bem sem esperar algo em troca. Queremos sempre algo em troca. Fazemos o bem para sentirmo-nos bem, no mínimo. Ao menos aqueles de nós que são sinceros e não altamente realizados. 
Ao eu, que imaginamos ser, alimentamos com a ideia da santidade.
Muito melhor, me parece, é fazer o bem porque é bom para mim: medito melhor. 
Se estou em paz na vida, se me permito a alegria de dar água ao beija-flor, que é um bichinho feroz e violento, medito melhor; se me permito a alegria de contemplar a beleza da flor, este estágio que prenuncia sua morte e apodrecimento, medito melhor.
E vamos vivendo, fazendo o bem. Reconhecendo e aceitando nossa realidade, tudo fica mais pacificado.
Estou numa fase de grande interesse pelo dzogchen, em grande parte porque do que vou elucubrando das preleções do Bhikkhu Kaṭukurunde Ñāṇananda, acho que o dzogchen está lá, nos suttas antigos. Lendo bastante sobre o assunto, passei pelo seguinte trecho do ótimo livro de um dos vários mestres do buddhismo chamado mahayana que transitam por essa prática:

"Muitas vezes, em nome do amor, acabamos desenvolvendo um ego enorme, quando o queríamos pequeno. A motivação é o nosso bem-estar, não o de nossos semelhantes. Ajudar os semelhantes, sem dúvida, nos deixa felizes por nossos atos, mas, como o ovo e a galinha, a questão é o que vem primeiro, qual é a nossa intenção original. Portanto, não se apresse a doar cegamente todos os seus bens materiais. Aos poucos, descobrirá o que realmente quer entregar ao mundo e aos outros. Faça o que tem a fazer sem deixar nada para trás e sem se forçar de maneira alguma. Vá devagar, avaliando bem suas ações."

por Gyalwang Drukpa
Editora Pensamento

Todos apreciam e gostariam de ser salvadores do universo. Eis o sucesso dos filmes dos Vingadores a demonstrar.
Mas é essencial voltarmos nosso olhar equânime e compassivo para a nossa própria necessidade de salvação.

terça-feira, 30 de junho de 2015

O Discípulo Laico*

Este é o discípulo do Buddha, vivendo em seu lar. Ele tem confiança no despertar do Buddha. Ele treina a si mesmo para purificar suas ações e sua fala. Ele cultiva a generosidade, aprende a ceder e a deixar ir. E esta é a sua prática: ele aproveita as oportunidades para ouvir o Dhamma - a palavra do Buddha - de monjas e monges despertos. Mas isso não é tudo. Ele sustenta a lembrança do Dhamma que ouviu. Ele tenta memorizá-lo, mantê-lo em sua mente. Porque ele sabe que, assim, vai refletir sobre ele, observar, investigar, compreender profundamente. Então, por tal prática, ele sabe, sendo esta uma lei natural, sua vida vai seguir o processo, inevitavelmente.
Lenta mas seguramente, toda a sua vida é tocada e transformada pela mágica que é o milagre do Dhamma: em seu trabalho ele é aplicado, trabalhador e diligente. Em suas finanças ele é generoso, evitando dívidas, consciente dos benefícios de poupar e nunca se esquecendo de avivar o espírito de sua família e amigos. Ele cuida bem de seus pais, a quem deve sua formação e orientação na vida, e instrui e apoia seus filhos e companheiros sempre buscando se associar com pessoas boas e nobres. Assim, sua vida mundana está num equilíbrio que lhe permite dedicar mais tempo e clareza à vida espiritual.
Pelo menos uma vez por semana, vestido de branco, símbolo da pureza, ele desfruta de um dia de silêncio e contemplação. Ele determina sua mente a aplicar-se neste nobre treinamento de corpo, fala e mente. Ele sabe, cada dia passado a seguir os passos dos Arahants será, na soma final de seus dias terrenos, mais valioso do que qualquer fortuna em sua conta bancária. Neste dia, ele lembra-se do Dhamma que aprendeu, pode também jejuar, mantendo-se leve e simples, refletindo sobre as palavras do Buddha. Ele pode contemplar as qualidades do Buddha, aquilo que caracteriza um Desperto, ele pode contemplar Dhamma e Sangha. Ele pode lembrar das qualidades dos Devas sabendo que sua vida, se purificada desta forma, irá conduzi-lo a tal estado mental e nenhum outro.
Começa todos os seus dias com as cinco contemplações saudáveis pela manhã. Todas as manhãs ele reafirma a sua confiança no mestre, o contemplativo Gotama, na sua explicação do Dhamma e no grupo de discípulos que seguem esse caminho com sinceridade. Todas as manhãs, ele reflete sobre as virtudes que está determinado a pôr em sua vida e reflete sobre como pode praticar generosidade naquele dia. Todos os dias, ele se exercita, para fortalecer sua lembrança dos ensinamentos do Buddha, recitando as palavras do Desperto de memória. Todos os dias pode-se encontrá-lo calmamente refletindo sobre o significado do Dhamma que ele aprendeu. Outros chamam de meditação, ele chama de sammā samādhi e bhāvanā, ou desenvolvimento, pois ele sabe que isto é como uma planta, precisa de atenção constante e manuseio cuidadoso para que cresça forte a dê frutos.
Ele sabe que da confiança vem serenidade, e da serenidade alegria. Tal alegria interior vai levá-lo mais do que frequentemente à permanência tranquila dos quatro jhānas. Ele sabe como utilizar a perfeita calma e equanimidade do quarto jhāna para lembrar suas vidas passadas, sim, ele pode dominar habilidades como essa, mas acima de tudo, ele não conhece maior alegria do que refletir sobre a impermanência dos seis sentidos, observando seu borbulhante surgir e cessar conforme sua sabedoria cresce, não conhece maior alegria do que observar os cinco agregados surgindo e se dissolvendo, contemplando a origem dependente que conduz a um profundo insight e sabedoria purificadora.
Conforme seus dias periódicos de meditação (Uposatha) se desenvolvem em profundidade, guiado e alinhado pelas palavras do Buddha que ele preza como um antigo tesouro, sua habilidade em aprofundar seu despertar através da aplicação das meditações como descritas pelo Buddha torna-se formidável. Ele, vestindo branco, ainda vivendo entre esposa e filhos, mantém a sua mente firmemente empenhada na atenção plena ao corpo, ou às quatro satipatthanas, ou à meditação pela respiração, conducentes a profundos insight e sabedoria e aos frutos de entrar na correnteza, de só mais uma vez retornar e de não-retorno. Este ele sabe ser o caminho para Nibbāna conforme apontado pelo Desperto.

Com base nos seguintes suttas:
•                       Mahanama Sutta,   AN.8.25
•                       Vyagghapajja Sutta,   AN 8,54
•                       Singalovada Sutta,   DN 31
•                       Sakka Sutta,   AN 10,46
•                       Muluposatha Sutta,   AN 3,60
•                       Uposatha Sutta,   AN 8,41
•                       Nandamata Sutta,   UMA 7.6
•                       Cittasamyutta,   SN 41
•                       Gihi Sutta,   AN 5,179
•                       Anana Sutta,   AN 4,62
•                       Nakula Sutta,   AN 6,16
•                       Velama Sutta,   AN 9,20
•                       Brahma Sutta,   ITIV. 106
•                       Cinco reflexões diárias: Abhiṇha Paccavekkhitabbaṭhāna Suttaṃ,   AN 5.6.7   e   Aqui




*texto traduzido e publicado sob autorização do autor.
original aqui.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

realpolitik

o risco de ver eleita uma presidente evangélica me faz revisitar meu ateísmo. 
mais do que o mero fato de marina silva se declarar evangélica, afinal ela tem o direito, o que incomoda é sua aparente afinação com o que de pior esta derivação do cristianismo tem entre os seus líderes aqui no brasil. afinação evidenciada pelo imediato apoio que a ela sermonam.
o problema seria menor, ou nem haveria, se ela meramente cresse, mas ao invés, seu comportamento sugere que, assim como os lastimáveis líderes, ela considera que aquilo que consta, em termos de ética, princípios de conduta e mesmo história, na obra máxima da mitologia judaico-cristã,  a chamada bíblia sagrada, é adequado ao todo da população.
difícil prever o prejuízo que isto traria à sociedade, é possível até que nenhum. há os que afirmam que aqueles líderes e suas ideias são menos que bazófia midiática e não tem relevância para o todo multifacetado da comunidade evangélica nacional. deus queira que seja assim. não sei, mas sei que dar a esse tipo de gente mesmo a impressão de poder me causa ojeriza. eu imagino esse povo que se propagandeia imbuído de uma missão sagrada tentando validar o ensino de pseudociência nas escolas, mitologia como a verdade nas escolas, forçando a intromissão oficial na intimidade das pessoas. eles tem mídia, eles tem dinheiro e há muita ignorância, miséria e medo a serem explorados no país... um quadro ao menos, por possível, digno de consideração.
na minha revisitação revejo em dawkins, hitchens, harris, para ficar só nos chamados três cavaleiros do apocalipse ou do ateísmo militante internacional, os males que a religião provocou e provoca ao mundo. isto poderia causar algum desconforto a alguém que se considera religioso como eu me considero, mas o buddhismo não é equiparado à religião por estes críticos, em geral eles até o respeitam ou ignoram. suas críticas são dirigidas ao teísmo e em especial ao monoteísmo judaico-cristão. em verdade vos digo, o monoteísmo tem um passado terrível. e não só os livros de história, mas tv e internet nos horrorizam aqui e agora.
esta coisa de ser um religioso ateu parece complicada para alguns, penso até que há infundada resistência ao termo, julgo que muito seja por conta de um equivocado espírito corporativo surgido da noção de que as religiões são iguais. coisa de que discordo.
embora seja possível ver pontos comuns, como é para quaisquer duas coisas no mundo, o teísmo parte do princípio de que a verdade última nos é divinamente revelada e vai mal encaixando os fatos da realidade nela. não há como negar que este fundamento a torna incompatível com o buddhismo que parte do exato oposto: fomenta a análise e aprofundamento na realidade experiencial que eventualmente conduzirá ao conhecimento da verdade transcendente. pelo caminho, a investigação dos fatos vai reformatando a percepção e, consequentemente, o agir do buddhista no mundo. se não para melhor, para menos ruim.
há muito que ser desenvolvido nesta abordagem, mas este breve resumo do buddhismo já deixa espaço restrito para conceituá-lo como religião, mas muito espaço para nós, ateus, assumi-lo sem qualquer constrangimento.
se há risco de criar alguma animosidade por parte de religiosos teístas por conta de tais afirmações, bom, acho que não há o que fazer da parte dos buddhistas que se assumem ateus. por mim há respeito ao direito de ter crenças, melhor quando não tomadas por conhecimento e sonhadas como verdade a ser aceita por todos como salvação. assumir-se um ateu é, assim, além de coerência para o buddhista, uma afirmativa pedagógica numa sociedade que precisa discutir e definir a influência que está disposta a aceitar de crenças e religiões e também uma exigência por tolerância que só existe verdadeiramente se houver plena aceitação de diferenças claramente afirmadas.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

apague a lanterna, cuide do seu barril

deve ter sido maravilhoso conhecer o Buddha. 
não diga! sério!? você pode ironizar... mas deixa eu continuar...
maravilhoso não só por ele ter sido o Buddha. digamos que não fosse, penso só numa característica que acho fazer valer esta minha afirmação: o Buddha era o que ensinava.
estamos nós de tal forma (talvez desde quando dormíamos e pulávamos em galhos) submersos num lamaçal de hipocrisia que, só por isso, o Buddha descrito já é um tesouro.
não vamos falar de políticos, nem da mídia, que aí é lama além da conta e podre, a gente desiste, ou quase (nem falemos de grupos de chimpanzés). ficando no dia a dia (caso você não esteja cumprindo as ordens da política nem da mídia) quantas pessoas você conhece que são o que dizem? minimamente? quantas pessoas correspondem a uma boa impressão que causem num primeiro encontro? no sentido de caráter.
no trabalho, por exemplo, quantas pessoas admiráveis você conhece e, caso tenham algum sucesso, sabe que chegaram lá graças a terem praticado o discurso que pregam hoje? não sei quantas pessoas assim seriam necessárias para um mundo melhor, por mim, conhecer uma já me faria menos triste...
e dariam algum sentido à junho de 2013...
e isto se aplica a todo tipo de convívio humano.
em religião, por exemplo. esteja preparado, seja em qual credo você estiver, para decepções em série.
estou caminhando para vinte anos de envolvimento com o buddhismo, num interesse sempre crescente, numa certeza cada vez mais prazerosa, mas em grande parte por vir neste caminho, pelos últimos dez anos, com base naquilo que encontro, ou que na maior parte me é apontado, do dhamma considerado o mais próximo do Buddha, os suttas do cânone antigo. é lá que no último discurso Ele afirma que não haverá pessoa que O suceda e que cada um dos seus seguidores deve se tornar um refúgio para si mesmo. quer dizer, sua medida, enquanto praticante do Buddha Sasana deve ser sempre o "o que eu digo versus o que eu faço". e esteja preparado para as decepções com você mesmo, mas com a diferença de que com respeito a estas você sempre pode fazer alguma coisa e, principalmente, obter resultado.
deixe o diógenes.
apague a lanterna e cuide do seu barril.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

o que faz você ser budista?

li este livro em poucos dias. fiz várias anotações e destaques.
é um texto leve, divertido, claro e, apesar disso ou por isso mesmo, profundo. e indigesto, talvez, para quem preste atenção e reflita entre uma risada e outra. é um livro que recomendo a buddhistas, simpatizantes, curiosos e aspirantes por algumas razões.
uma delas: o autor não ensina técnicas, fórmulas, práticas. antes, ele esclarece a visão buddhista, o como o buddhismo interpreta a existência, aquilo que o interessado no buddhismo deve esperar encontrar.
com bom humor, o autor cita instâncias de nossa vida ordinária, como a política e a cultura pop, nos convidando a encarar a hipocrisia e o absurdo que nutre muito bem nossa ignorância.
não é uma leitura agradável para quem busca alguma arte da felicidade:

"O objetivo de Sidarta não era ser feliz. Seu caminho não conduz, ao final, à felicidade. Antes, é uma rota direta para o estado de libertação do sofrimento, libertação dos enganos, ilusões e confusões."

eu parafrasearia o título do best seller do dalai lama assim: "a arte de se aprofundar na infelicidade" como possível para o livro que é desenvolvido sobre o que o autor chama de quatro selos do buddhismo, sem os quais não há buddhismo, a saber: a postulação do existir como fenômeno interdependentemente composto e, por isso, impermanente, vazio e capenga ('capenga' é palavra minha). a estes três soma-se o nibbāna, fenômeno que está além das definições. a pessoa que, nas palavras do autor, não aceita estes princípios, não é buddhista.
há controvérsias? não para mim.
outro trecho:

"Hoje em dia, é comum encontrar gente que junta e mistura religiões, segundo sua conveniência e nível de conforto. Na tentativa de não serem sectárias, essas pessoas procuram explicar conceitos cristãos a partir do ponto de vista de Buda, encontrar semelhanças entre o budismo e o sufismo, ou entre o Zen e o mundo dos negócios. Naturalmente, sempre é possível encontrar pelo menos pequenas semelhanças entre quaisquer duas coisas sobre a face da Terra - mas não acredito que essas comparações sejam necessárias."

mais uma razão para eu recomendar: é um livro que não foi escrito para ser simpático à diplomacia religiosa, mas antes para estabelecer fronteiras sinceras. deixar claro que de cada lado deve haver amizade e respeito, mas importantes diferenças precisam ser conhecidas para o bem do viajante.
o ecumenismo pode ser um grande problema se servir à ocultação das diferenças em nome de abraços, sorrisos e fiéis que saem daqui para lá e de lá para aqui, sem se comprometer lá nem aqui. e, principalmente, sem se comprometer consigo mesmo.



"Uma vez que tenha aceitado intelectualmente a visão do budismo, a pessoa pode usar qualquer método que sirva para aprofundar seu entendimento e realização. Em outras palavras, pode se valer de qualquer técnica ou prática que contribua para transformar o hábito de pensar que as coisas são sólidas no hábito de vê-las como compostas, interdependentes e impermanentes. Essa é a verdadeira prática e meditação budistas - não apenas ficar sentado sem se mexer, como um pedaço de pau."

quer dizer, por mais gostoso que possa ser relaxar sem compromisso num centro de dhamma, conhecer gente cabeça, debater os males da sociedade e depois ir na missa, isso está longe de ser buddhismo e mais ainda de conduzir à meta que o Buddha alcançou e prescreveu. 
um livro que, devidamente lido, contemplado e refletido, oferece material para que o buddhismo seja incorporado à vida de uma forma que leva a transcender nomes e adjetivos. sendo um livro cuja proposta é deixar claro o que é ser buddhista, leva ao entendimento final de que ser buddhista é só um meio para alcançar a suprema meta de ser coisa alguma. irônico, como é o dhamma do Buddha.



 


 

sexta-feira, 4 de abril de 2014

resumindo

a quem interessar possa, um resumo do buddhismo:

tava todo mundo, humanamente, não olvidemos, sonhando ser divino.
chega o Buddha diz: "não! desiste dessa bobagem! isso aqui não tem solução! apaga tudo e não começa de novo!"
aí, divinizaram Ele.

terça-feira, 25 de março de 2014

uma introdução ao buddhismo a um cumpanheiro

no trabalho:
- jorjão, cê tem alguma religião ou tem nada?
ele sabe, mas pergunta porque quer ouvir alguma coisa da fonte. muito bom...
- eu sou buddhista, cara...
- hmmm... e no que cê acredita...? no Buddha? hehehe...
- no que acredito...? ó, a gente acredita que há um modo de ir diminuindo bastante o sofrimento, até acabar com ele. isso através de observação de si, sua mente, e do que está em volta... entre outras coisas, mas resumindo, é isso.
- hmm... mas você consegue...? você consegue dominar a mente...?
- não é tanto uma questão de domínio... é mais uma questão de conhecimento das coisas...
- hmm..
- a ideia comum das pessoas é que a gente vira uma espécie de planta... mas não é bem assim...
- hmm...
- o que ocorre é que com o conhecimento você vai ganhando um espaço para escolha...  vou tentar te dar um exemplo: sabe quando você vai num churrasco e escolhe se vai beber ou não? um dia cê pode escolher beber e ir na corrente do que vier... num outro você pode precisar dirigir, ou estar responsável por alguém e decide se segurar...
- hmm...
- então, no buddhismo a gente aprende que tudo ao nosso redor é como bebida, uma bebida que entra pelos olhos, ouvidos, boca etc. e nos embebeda, nos conduz, entorpece e influencia... ser buddhista é, basicamente, através do cultivo constante da atenção e do conhecimento que vem disso, aumentar o espaço entre nós e estas "cervejas" de modo a decidir se vamos seguir o fluxo ou nos conter...
- hmm...
- bom, tem mais coisa envolvida, mas basicamente é isso...

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

era só o que faltava

que não se discuta a existência de deus é também minha opinião. qual a necessidade disso? mas necessidade vejo de declarar-me ateu e fiel de uma religião que o nega total e completamente sem o substituir por outro: nenhum poder cósmico, nem luminoso, nem escuro, pessoal ou impessoal, aqui ou mais além.
um porquê de tal necessidade por mim notada é que vivemos tempos estranhos, eu quase escrevo alarmantes, mas o que causa alarme por estas terras são contusões do neymar. a proliferação dos parasitas da fé por aí a pregar ódio e preconceito, proibições e intromissões, sem que voz alguma se sobreponha, e falta especial eu sinto daquelas que compartilham da mesma fé, os parasitas ganhando poder e nele se refestelando, isso não causa alarme. e eles seguem a se fartar nababescamente da, quase, novamente, digo boa, mas não, não é boa esta fé.
um outro porquê, talvez mais importante, penso que deixar claro um caminho espiritual que se trilha na terra, com pés firmes no chão movediço, com ética, disciplina, compaixão, esforço e diligência, pleno da ausência de deus, é mensagem poderosa à sensação de libertina liberdade que esta cada vez mais aparente ausência faz surgir e provocação necessária àqueles que só concebem o insidioso amor pelo igual.
proclamemos nós, buddhistas, que não fomos feitos à imagem de deus algum e nem a uns dos outros. desistamos já de qualquer invenção de igualdades, nos bastam a dor, o envelhecimento e a morte comuns. tão às claras e tanto ignorados que um caminho espiritual que sobre elas se debruça, sem por qualquer deus no meio caminho, e nem no final, existe.
li dia destes que só faltava aos buddhistas declararem-se publicamente ateus. isto afirmado em tom de decepção indignada, soando quase como um desafio. concordo, falta. embora não a mim que tenho gosto especial por repisar o tema. desde que cheguei ao Buddha, e já cheguei ateu, e a ele aceitei como mestre, em qualquer conversa pouca em que o tema surja faço o possível para deixar claríssimo: sim sou ateu, como todo buddhista deveria reconhecer ter sido o Buddha. sempre com a intenção de que nada falte.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

que seja feliz quem souber o que é o bem

me perdoem a redundância, mas então é natal, a festa cristã... e o ano termina e nasce outra vez... 
fica todo mundo meio simonezado...
quem passa por aqui e lê um texto ou outro pode ter a impressão de que eu sou um ateu intolerante, militante e até irritante, ou mesmo ignorante.
me esforço para o oposto disso. 
ateu eu sou sem esforço.
não tenho coisa alguma contra crença qualquer, eu tenho as minhas próprias, inclusive. o que ocorre é que sei que são crenças.
não me oponho a qualquer deus, assim como não a papai noel ou outro ser do tipo.
é fato que o velho barbudo pode ser usado como a mais covarde arma do capitalismo selvagem consumista, cruel e irresponsável (estou falando de papai noel). mas também é um belo símbolo e estímulo de bondade, generosidade, fraternidade e por aí... ou seja, conceitos, ideias, imagens é tudo neutro, como se manifesta na prática das vidas é o que importa.
daí que eu, vira e mexe, escrevo alguma coisa sobre meu desgosto com professor buddhista falar de deus. 
a mim, enquanto buddhista, pouco me importa no que o outro crê, me interessa é em como esta crença se manifesta. sendo assim, não vejo qualquer necessidade em ficar elucubrando harmonias, suando para achar pontos comuns em crenças várias, porque o diálogo é bem mais simples e funcional que isso, é um mero sejamos bons. todo mundo sabe o que é ser bom, solidário, fraterno, ético. uma coisa que o buddhismo vai ensinando quanto mais a gente se aprofunda é que a vida é, até decepcionantemente, simples e a sabedoria é algo assustadoramente acessível. nós é que sofisticamos as coisas graças a nossa estupidez.
quer complicar a vida? tudo bem! mas que seja para a sua diversão intelectual, emocional ou outra. ou seja, faça como eu! na prática, seja simples. esqueça as iluminuras do espírito, as consciências divinas, o além do além e, acima de tudo, não queira convencer os outros de suas luzes. guarde para você sua transcendência e me dê um abraço.
pois o ano termina e nasce outra vez.

domingo, 22 de setembro de 2013

i want to believe

já vi algumas argumentações em favor da veracidade do renascimento, de gente que eu admiro e respeito. 
se eu não acreditasse, nenhuma teria me convencido.
agora, com a novela, a necessidade de esclarecer as diferenças entre renascimento e reencarnação movimenta parte do mundo buddhista. muito pertinente este trabalho para nós, crentes. para quem não é, equivale a discutir diferentes espécies de unicórnio (para valer o símile combinemos que unicórnios não existam).
vários de nós, que gostamos de pensar, de questionar, de saber, de filosofar e que muito por conta disso rejeitamos a religião que herdamos, encontramos no buddhismo refúgio para o vazio que o pensamento materialista científico deixa no nosso peito. o buddhismo é empirista, é pragmático, é pé no chão e estas características nos alegram, nos encantam, nos confortam. uma religião plena de bom-senso e repleta de insights muito próximos daqueles que a ciência ocidental vem obtendo em sua história, tanto nas visões do mundo físico quanto do psicológico. surgem, frequentemente, novos resultados positivos da meditação, em especial os modos buddhistas de meditação, sobre a mente, o corpo e a estrutura cerebral, por exemplo.
isso pode deixar a nós, buddhistas, um pouco carregados de uma certa empáfia diante dos outros religiosos. pode ser que passemos a nos achar mais alguma coisa, alguma coisa acima do populacho crente.
mas não.
se somos buddhistas, e não Buddhas ou outra coisa mais próxima de um Buddha que de um ser comum, e se somos fiéis ao ensinamento, somos tão crentes quanto qualquer outro. cremos, por exemplo, pois não sabemos, no renascimento e na lei do kamma e, ainda que conforme expostos no buddhismo sejam mais palatáveis, são uma mera crença para nós. fora todos os casos descritos nos suttas e sutras tais como voos, teleportes, encontros com seres fantásticos... coisas que podem ser explicadas pelo recurso do simbolismo, da metáfora ou mitologia mas que estão lá como estão. claro que opções existem, stephen batchelor que nos diz, mas isso é lá com ele.
e apesar de todo nosso racionalismo escolhemos seguir caminho. por quê?
eu, porque preciso.
o mundo, tal como se me apresenta, não vale a pena. simples assim. eu não conseguiria durar muito mais se não houvesse a esperança (pois é...) de uma solução para isso tudo que está aí. esperança que o Buddha me dá. e que outros encontram em outros.
dentro dos meus limites eu posso afirmar que fé, no sentido comumente compreendido, não é o meu forte. dentro dos meus limites eu comprovo muito da prática do que o Buddha ensina para dar-lhe um voto de confiança e crer naquilo que (ainda?) não posso ver.
isso hoje eu tenho bem resolvido, mas já flertei com a turma do espiritualismo quântico. o livro que me trouxe ao buddhismo foi o tao da física... todavia, graças a mergulhar, o mais fundo que sou capaz, a cabeça no Buddhadhamma, deixei de lado esta ambição de unificar a ciência e a minha religião. não vejo problema algum em me identificar como religioso, como crente, pois é o que sou.
só ao Despertar deixarei de sê-lo.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

tudo igual

quando a gente diz que é buddhista, a maior parte das vezes somos associados com um modo de ser que convencionou-se chamar de zen. somos então pessoas da paz, que apreciam chá e incenso, que meditam ou alguma outra coisa meio yoga, que repetem mantras, auuuummmmm e por aí.
eu não sou zen, não gosto de chá nem de incenso, meditação formal é uma parcela da minha prática, sem mantras e sempre me esforço pela paz, em muitos sentidos.
dito isso, falemos sobre a capa ao lado. 
se for  para ver algo de bom nessa capa, e eu como buddhista aprendo que tudo tem um lado bom, eu vejo que é mostrar que somos todos iguais. 
os não buddhistas, os curiosos e os não amistosos vão questionar, atacar e, talvez até, querer entender o assunto. os buddhistas que gostam de se apresentar assim como quem exibe uma etiqueta significando "eu sou gente boa" vão sentir a fantasia meio amarrotada. 
não conheço mianmar além do Dhamma do Buddha que vem de lá, e mesmo disso conheço pouco, mas sei que é um dos países onde o Buddhamdhamma tem raízes profundas e floresce na sabedoria de vários grandes mestres assim como na cultura do país, em monumentos e templos belíssimos, inclusive. pois apesar disso, absurdos estão ocorrendo. realmente não sei se há monges incitando violência, mas que está havendo violência em "nome do dhamma", entre aspas, negrito, itálico e sublinhado porque é impossível violência em nome do Dhamma, isso está. 
violência é sempre em nome do ódio, da ignorância e outras qualidades humanas. e em mianmar, o que há são seres humanos, antes de buddhistas, como aqui, como no tibete ou na china. seres humanos que precisam ter em mente que buddhismo, ou qualquer religião, não é roupa nova, etiqueta ou atestado de bons antecedentes, é labuta momento a momento contra a corrente do mundo, que é muito mais forte do lado de dentro de nós. quando o nome 'buddhismo' começa a ter muita importância na vida, a ponto de a gente esquecer de estar vigilante mesmo ao atender aos chamados da natureza, a saber, defecar e urinar, conforme ensinou o Buddha, surge o perigo de distorções como estas e outras mais menos manchetáveis mas tão tristes quanto. conforme ensinou o Buddha.
então, perdeu, playboy. a casa caiu. tá na capa da time a frase: 'a face do terror buddhista'. somos todos iguais. e a despeito do sensacionalismo natural, da provável imprecisão das informações e algo mais que nosso 'ódio à mídia' puder imputar, o fato é que pisaram na bola por lá, pois onde há fumaça, ao menos uma brasinha tem. e como o Buddha ensinou: pisou na bola, cai. 

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

o dhamma que está mais aquém ll

assim como thor, odin, hércules e outros arquetípicos seres, lúcifer, da mitologia judaico-cristã, também virou personagem de hqs. sua estréia foi na série sandman, escrita pelo premiado neil gaiman.
lá aconteceu dele abandonar o inferno sob a direção de outros e vir morar conosco aqui na terra. mas longe de ser malígno como se crê. ele meramente resolve partilhar de nossa companhia, observando aqueles por quem parece ter algum fascínio ou repulsa. ou uma atormentada confusão dos dois sentimentos.
este lúcifer que então habita a terra, como alguns anos após a sua partida do inferno passa a ser narrado pelo autor mike carey, não sendo a personificação do mal, não estando nem um pouco interessado em tentar e corromper, parece, para um buddhista, mais próximo dos mensageiros divinos que de māra.
este lúcifer ilumina os cantos onde a poeira se acumula, os escuros da criação. e a palavra "criação" o buddhista troca por sankhāra.
este lúcifer parece ter perdido as esperanças. por isso desistiu do mal, desistiu de tentar, de nos mostrar o que vê. segue apenas. e vez ou outra, em seu tédio, deixa escapar alguma coisa que, talvez na sua confusão ainda espere, alguém aprecie.
abaixo, duas de suas falas luminosas na história em três partes publicada recentemente no brasil pela editora panini.

"vivendo aqui entre eles... olhando-os viver e morrer e construir e quebrar... você não pode deixar de pensar em como tudo é impermanente neste universo. nada realmente bem feito. nada feito para durar."

"os filhos de adão cedem tão pouco espaço ao silêncio durante suas vidas e, apesar desta raridade, parecem incapazes de valorizá-lo."


quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

o dhamma que está mais aquém


a hq é sobre a vinda dos mitológicos quatro cavaleiros do apocalipse.
eles chegam no ano dois mil, durante show de uma banda de rock gótico que 'celebra' a virada do milênio e o que encontram, uma completa inversão, os deixa tão desnorteados que acabam se reunindo num bar onde, conversando com pessoas movidas por suas próprias circunstâncias desastrosas que acabam se encontrando no mesmo bar, conhecem as versões pós-modernas para a peste, a guerra, a fome e a morte, ou seja, aquilo que deveria ser papel deles trazer está já otimizado.

tomam consciência de que estão ultrapassados e precisam se reciclar.
nesta boa e divertida história um momento se destaca para mim no final, numa das últimas falas do cavaleiro morte. ele diz:
"eu sempre preferi os lentos falecimentos. seus venenos, guerra; sua corrupção repugnante, peste; e todas as suas desperdiçadas obras, fome.
no entanto, o que é melhor que uma morte ardilosa, em que o corpo continua a viver, na qual o cadáver vigoroso não é mais guiado pela razão, mas levado para lá e para cá por meras sensações? o som mais grave, a luz mais brilhante. um mundo de humanos insetos zunindo, zunindo mas sem nenhum propósito e sem qualquer efeito. eu não acredito que nunca pensei nisso antes... agora sim, eles vão me seguir. suas pernas vão levá-los para onde eu for e tudo de que eu preciso é aumentar sua cota de sensações. (...) irei serví-los de novidades sem fim, sem conteúdo ou contexto."
a associação imediata com o dhamma que me surge é o verso do dhammapada que afirma a morte em vida do negligente. para quem quiser se aprofundar, está havendo uma leitura guiada pelo professor ricardo sasaki aqui.
mas há mais.
até onde sei, esta hq escrita por robert rodi e ilustrada por esad ribic para o selo vertigo estadunidense não foi ainda publicada no brasil. abaixo o link para a edição à venda na amazon.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

tédio

...tudo bem, tédio também é sofrimento. o problema, talvez, é que na maioria das vezes é um sofrimento fraquinho, insuficiente para gerar alguma mudança significativa e sempre há os remédios clássicos: novidades excitantes competindo com o, digamos a verdade, inicialmente amargo Buddhadhamma.
mas do estou falando, afinal?
é que dia destes conversávamos, por cima, superficialmente, sobre a classe média e o buddhismo e, convenhamos, o grosso dos buddhistas por aqui está da média para cima. por razões lógicas e justas: mais cultura, mais viagens, mais acessos. e, também e lamentavelmente, por mais tédio. não sei como é ter tudo, ou muito, do que se quer, mas deve ser meio chato depois de uma meia vida...
aí, como o tédio me parece ser o que disse acima, acaba gerando a busca por uma espécie de buddhismo adocicado, um buddhismo prozac, um buddhismo smurf. um buddhismo que não consegue se impor, como solução, para aquilo que o shopping sempre pode aliviar, uma vez que esta é a função sagrada dos shoppings. um buddhismo que cativa pelo que tem de menos importante: cores, costumes culturais de lá e de acolá, concertos dos beach boys, entrevistas do richard geere, cabeças raspadas, trejeitos e palavras de sabedoria de um ou outro sábio e compassivo. enquanto a vida segue e aqueles aspectos que me parecem ser a razão fundamental do buddhismo vão para debaixo do tapete mágico. e os grupos se reunem sorridentes, sem forçar a barra, em seus voos razos.
a pior coisa que pode acontecer para um bon vivant é ele gostar de buddhismo. e muito pior isto é para o dhamma.
fazer o que? a vida é imperfeita.
mas não diga aos bon vivants do dhamma que a vida é imperfeita: depois que eles conheceram o dhamma, a vida tornou-se linda!


segunda-feira, 30 de julho de 2012

vários dedos, diversas luas


"We happened to mention earlier that the term Tathāgata was already  current among ascetics of other sects. But it is not in the same sense that  the Buddha used this term. For those of other sects, the term Tathāgata  carried with  it  the prejudice of a soul or a self, even  if  it purported  to  represent  the  ideal of emancipation."

"Mencionamos anteriormente que o termo Tathāgata já era usado entre ascetas de outras seitas. Mas não no mesmo sentido em que o Buddha usava o termo. Para os de outras seitas, o termo Tathāgata carregava o preconceito de uma alma ou um ego, mesmo que com o significado de representar o ideal da emancipação." 

é o que diz o venerável bhante ñanananda no 21º sermão da série "nibbana - the mind stilled".
este trecho me fez refletir em que apesar de todos falarmos em tolerância, respeito à diversidade e pontos de vista, vira e mexe ainda fazemos força para igualar coisas demais e, a meu ver, de forma absolutamente desnecessária.
há muito gosto, por exemplo, pela famosa metáfora do dedo que aponta a lua. esta imagem é sempre usada quando queremos dizer que todos os caminhos levam a um só fim, que todos os grandes mestres falaram da mesma coisa, chegaremos todos ao mesmo objetivo, então, vamos dar as mãos. 
mas será que precisamos desta ideia para darmos as mãos? 
acho que não.
quando usamos a imagem desta forma, a lua é o grande mistério, aquilo que está além do além, o indizível. os dedos são as tentativas de nos direcionar para a grande incógnita. 
eu penso um pouco e chego à conclusão de que falar sobre tal conceito é falar sobre nada ou, pior, sobre qualquer coisa. e o Buddha, que nos últimos anos é, dos grandes, Aquele para o qual tenho me voltado completamente, desde que decidiu-Se por falar sobre o mistério que descobriu por Si mesmo, decisão descrita como difícil no cânone antigo, note-se bem, falou bastante, explicou, instruiu, definiu e estabeleceu a verdade que realizou da melhor forma que pode, assim como diversos dos Seus seguidores tempo afora, incluso os dias de hoje, conforme atestam o trecho que citei e muitos outros que estão indicados por este blog.
não sei como (na verdade até sei um pouco mas não o suficiente para afirmar que sei) é com os outros, mas acredito que todos os grandes definiram bem aquilo que os seus dedos apontaram. e, no limite do meu conhecimento, vejo diferentes luas.
certa vez disse isso mesmo numa lista de discussão quando surgiu a metáfora com aparente intenção ecumênica. afirmei que me parecia haver diferentes luas e não me lembro de ter havido continuidade na conversa. talvez porque eu ainda tenha muito o que evoluir ou porque as pessoas tomem isso como uma atitude antipática, radical, exclusivista e por aí... nada mais oposto à verdade (exceto a questão da evolução) no que diz respeito a mim. 
eu sinto desconforto é justamente quando vejo, por exemplo, buddhistas dialogando sobre deus com algum teísta porque, quando é alguém que se balize pelo cânone buddhista, é inevitável que a coisa, o conceito deus, vá sendo torcido, torcido, torcido até que não sobre nada do pobre criador, princípio de tudo, pai de todos, a despeito de todo respeito e sincero desejo ecumênico do buddhista em questão. e os envolvidos no tal diálogo acabam se protegendo e se aconchegando no grande mistério, ou nada, ou qualquer coisa.
acho que não precisamos disso.
porque já temos o suficiente de pontos em comum: todos queremos o bom para nós. 
claro, simples e ponto. 
e para isso há a regra de ouro escrita por todos os dedos de bom senso: aja com os outros como quer que ajam contigo. simples. nada mais a dizer.
mas ainda podemos conversar sobre as luas e os mistérios. 
mas me parece uma atitude muito mais sábia, compassiva, e sinceramente ecumênica eu continuar amando a quem tem plena convicção de que meu destino final é o quinto dos infernos ou algo que o valha. e da mesma forma eu continuar a ser amado por ele mesmo que eu afirme, sem medo, que não há a menor possibilidade de eu aceitar qualquer concepção de deus que tenha sido pensada até hoje. nós precisamos nos amar sem tentativas sempre vãs de nos equalizar desprezando o que realmente tem valor: que o efeito, tanto da minha busca pelo fim do mundo quanto a de uma busca pela vida eterna, por exemplo, seja uma existência cada vez menos ruim, aqui e agora, para mim, para você e para quem não tem qualquer interesse pelo que acabei de escrever.
se o grande mistério for realmente o mesmo, se no final nos encontrarmos numa mesma lua, façamos lá uma grande festa, oras bolas!

***

lembrei de uma passagem daquele que considero um de meus professores adjuntos de dhamma, o josé saramago. no livro "o evangelho segundo jesus cristo" ocorre, em certa altura, de estarem jesus e o diabo num barco, em mar aberto, e deus no céu. os três entretendo um colóquio meio profundo quando, num dado momento, uma poderosa voz manifesta-se acima deles. 
os três tremem.
mas, afinal, dão de ombros e a estória segue.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

it's the end of the world as we know it (and i feel fine)

O "Propósito" da Vida


Num emprego abusado, a palavra 'desculpa' seria uma melhor opção, porque não há propósito algum que, em si, não pressuponha alguma forma de vida. Todos os chamados 'propósitos' impingidos à vida pelos seres não despertos para torná-la mais alegre são apenas meras "desculpas". O buddhismo enfrenta diretamente o vazio absoluto da vida quando a iguala a "Dukkha" - a verdade amarga (do sofrimento). Segundo sua análise, se pode-se falar do propósito da vida, este é nada menos que o esforço para levar à cessação da existência samsárica - o círculo vicioso. Esta sendo a única desculpa justificável.


e com este trecho cheguei ao fim da 1ª leitura do livreto "Towards Calm And Insight" do Venerável (Venerabilíssimo e cada vez mais essencial na minha prática espiritual) Bhante Katukurunde Ñanananda. 
muitas questões nascem de uma passagem tão "radical":
será possível para um não monge realmente ser buddhista?
que implicações, em termos de qualidade de vida, gera uma ideia como essa?
é possível viver a vida sendo sincero consigo mesmo e ao mesmo tempo concordar em absoluto com o autor?
onde tal pensamento irá me (nos?) levar?
...
and i feel fine...
e cada vez mais disposto e entusiasmado na busca de respostas para todas estas perguntas!!!

vai que alguém queira me processar, e a vida já é dukkha, por si só um processo, o título deste post é homônimo de uma música da banda americana r.e.m. 
eis o link para letra e som:
pode ter algo a ver... ou não... mas o título é muito bom!

abaixo o original do Venerável em inglês e o link para o livreto:

The 'Purpose' of Life

A misuse of the word 'Excuse' would be a better substitute, because there is no purpose that does not itself presuppose some form of life. All so-called 'purposes' foisted on life by the worldling to brighten it up, are but mere 'excuses'. Buddhism faces squarely the utter hollowness of life when it equates it with 'Dukkha'  -  the bitter truth (of suffering). According to its analysis,  if one can speak of the purpose of life,  it is none other than the endeavour to bring about the cessation of samsaric existence  -  the vicious circle. This is the only excuse that is justifiable.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

sem alfa nem ômega

veja, o buddhismo vai por em dúvida a realidade daquilo que você mais ama: o seu ego. vai, de fato, oferecer métodos para que você investigue acuradamente esta noção que você tem do seu ego. vai afirmar, inclusive, que tal noção é a causa verdadeira de todos os seus problemas. 
pense bem.
o buddhismo não vai te revelar nenhuma energia, força, essência, princípio, entidade, demiurgo a quem você possa orar, pedir ajuda, proteção. nenhum deus, nem igual nem diferente do que você conhece que seja mais poderoso do que você pode ser. nenhum paraíso, nenhum salvador que possa fazer mais do que o Buddha fez, e Ele já fez tudo o que podia por nós. 
agora é conosco.
olha, o buddhismo não garante que a fé remove montanhas. a fé no buddhismo é só um componente entre outros que precisam ser cultivados em conjunto para resultarem na libertação que o Buddha afirma possível. e, na verdade, a fé algumas vezes pode até ser um obstáculo, criar montanhas, veja você.
e, veja também que, em última instância, a libertação do buddhismo vai se mostrando na medida em que vai te aproximando de uma visão em que não há coisa alguma para você se segurar, se manter de pé sobre, sustentar qualquer solidez que possa ter te tranquilizado num momento em que você esteve sem chão. o buddhismo vai, efetivamente, é te tirar o chão, te ensinar a sorrir em queda livre, parar na escuridão, encarando o medo. e encarando muitas outras coisas das quais você possa querer se livrar.
talvez você deva levar isso em conta antes de se afirmar buddhista. 
com certeza você não deve concordar com o que eu disse aqui. mas talvez deva considerar a possibilidade de eu ter razão e investigar o assunto em boas fontes, por si mesmo.
pense bem.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

(o que dá para fazer)

De vez em quando alguém pergunta se nosso destino como praticantes laicos não seria só fazer o melhor possível para que numa próxima vida nasçamos como monges e, aí sim, podermos praticar e chegar lá! Lá no nibbana!
Pois eu poderia citar alguns trechos dos suttas em pali em que laicos chegaram lá! Mas aí poderiam dizer que são casos muito especiais de pessoas que tiveram vidas anteriores extraordinárias e tal e eu não poderia discutir porque me falta um monte de coisa. Dentre elas, competência. Mas digo sem medo que esse negócio de justificar aquilo com base em vidas anteriores é uma questão de fé e que, sendo assim, é possível ter fé na 'extraordinariedade' da vida anterior de qualquer um! Na minha, inclusive!! 
Pois bem, deixando de lado questões de fé, posso falar do que dá para fazer como laico:
- É possível ter consigo textos e mais textos de dhamma sempre que houver aquele tempinho entre uma inutilidade samsarica e outra. Se não em livros, há aparelhos diversos, com preços diversos que possibilitam carregar textos diversos, de suttas a tratados, em volume que qualquer ser humano leva tempo para ler (e mais tempo ainda para estudar!) além da conta. E que ajudam a ver o dhamma onde e quando parece não haver dhamma.
- É possível carregar, nos mesmos aparelhinhos, sons do dhamma: palestras, cânticos, aulas, e vídeos, para aqueles momentos em que a leitura cansar.
- É possível (talvez menos para alguns, preciso reconhecer) ir a um lugar isolado e silencioso (como o Buddha recomenda nos anapanasati e satipatthana suttas)  periodicamente e cultivar a mente/coração.
- É possível (com grau de esforço maior para alguns, mas sempre decrescente na medida em que se treina) manter a disciplina dos Cinco Preceitos, e até de maior número deles, por períodos consideráveis de tempo. Cada vez maiores na medida em que se treina.
- É possível entrar em retiro com relativa periodicidade e facilidade. Desde que se aceite que o lugar de retiro não precisa ser SEMPRE aquele templo ou centro que fica lá longe e custa caro e falta tempo e minha família resmunga prá caramba... O lugar de retiro, essencialmente, é aquele em que a gente se encara e com absoluta franqueza sabe que está fazendo o melhor para honrar o nome que gosta de se dar de "discípulo do Senhor Buddha".
- É possível ser atento e lembrar do dhamma naqueles momentos em que parece que o dhamma é outra coisa que não o aqui e agora (os BONS textos são extrementes eficazes em ajudar nisso!)
- É possível ter contato com professores de dhamma. Bom, pelo menos para quem estiver lendo este blog, o que significa que tem algum acesso à rede.
- É possível fazer alguma coisa pelo dhamma do Buddha dialogando, perguntando, incentivando, doando (não nece$$ariamente) tempo ou dom (traduções de textos são uma demanda constante!), participando e assim, quem sabe, acumular aquilo que muitos gostam de acumular que são os méritos kammicos!
- É possível ser uma pessoa boa.
-É possível, e imprescindível para a saúde psíquica (e a saúde psíquica é imprescindível para a boa prática do dhamma), ser corajosamente sincero consigo próprio.

Se eu lembrar coloco mais coisas. E sugestões são muitíssimo bem vindas!
Mas posso garantir, pois ouvi de fonte que eu respeito e não só eu, que muito monge não faz um tanto do que escrevi acima! 
E aí, se você for um dos que pensa que a vida atual de laico é, na melhor das hipóteses, passagem para uma futura de monge, e quer continuar acreditando nisso, tudo bem. Se não, tente praticar o que eu escrevi (ou alguma coisa, ao menos ou a mais) junto comigo, e se a sua vida não ganhar uma dimensão de qualidade que o satisfaça e que o encha de entusiasmo e convicção na possibilidade da paz efetiva aqui e agora, pode ser que deva partir para outra com as minhas bençãos (que não valem absolutamente nada mesmo!).

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

diálogo impertinente

Qualquer semelhança com a realidade é devido ao fato de que o diálogo abaixo, em sua essência, aconteceu.
Recentemente.

- ...uns amigos do Mahayana questionam sempre...
- Sobre?
- Ah, eles tem uma postura crítica quanto a nós, theravadas... Dizem que somos preocupados apenas conosco...
- Como assim?
- Falam que buscamos apenas a nossa iluminação. Eles buscam a iluminação de todos...
- Hmm... E...?
- É chato isso... Fica uma sensação de "eles são OS BUDDHISTAS"!
- Bobagem... Esta questão toda tem um fundo histórico meio complexo que muitos não tem nem noção do que se trata. Só repetem o que ouvem...
- Pois é... Eles afirmam que tem uma mente ampla!
- Ah...
Pergunte o que eles fazem para que todos se iluminem... Eu acho que não é nada muito além do que fazemos.
-É...
- Nós fazemos o possível para que as pessoas tenham contato com o Buddhadhamma, sentamos e meditamos, nos esforçamos para sermos boas referências através da prática dos preceitos... Alguns de nós, e deles, se envolvem com trabalhos voluntários... Eu fico buscando uma diferença entre nós e não acho...
- É a questão da mente ampla que eles falam... A tal da bodhiccita.
- "O desejo que todos atinjam a iluminação"...
- É...
- E daí?
- Daí o que?
- Você deseja que todos atinjam a iluminação?
- Claro, ué?!
- Se este desejo é sinal de 'mente ampla', quem além de você pode dizer se a sua mente é ampla ou não?
- ...

quarta-feira, 15 de abril de 2009

O Ser Buddhista


De vez em quando alguém pergunta o que é preciso para ser buddhista, como se tornar buddhista, o que é ser buddhista, no que crer...
'Tecnicamente' falando, eu responderia que é preciso assumir o que nós buddhistas conhecemos como As Três Jóias ou os Três Tesouros como um objeto de refúgio, ou de fé, ou de proteção que são o Buddha, o Dhamma e a Sangha.
Ter o Buddha como refúgio significa compreender que Ele foi o ser que realizou o objetivo máximo que pode ser realizado. E que é o guia absoluto daqueles aptos a trilhar o caminho espiritual que Ele revelou. É o modelo e a inspiração fundamental.
O Dhamma revelado e ensinado pelo Buddha é o ensinamento perfeito e completo que, se seguido adequadamente, conduz ao mesmo resultado alcançado por Ele, o pleno Despertar.
A Sangha é a comunidade de seres que praticam o Dhamma da forma adequada e colhem os seus resultados, por isso são seres dignos de respeito e um fiel suporte e incentivo.
Isto é o bem básico e o 'técnico'.
Mas falando de uma forma mais aprofundada (não profunda, aprofundada!), uma coisa que um Buddhista precisa considerar é que, na verdade, ser buddhista requer a disposição de pensar em deixar de querer ser qualquer coisa. É preciso, em algum momento, começar a refletir sobre isso... Contemplar essa idéia... O que não é algo fácil para nós que, talvez, nem consigamos imaginar como é que se pode não ser alguma coisa!! Mas para que compreendamos isso é que existem Os Três Tesouros descritos acima!

Speech by ReadSpeaker