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segunda-feira, 15 de setembro de 2014

realpolitik

o risco de ver eleita uma presidente evangélica me faz revisitar meu ateísmo. 
mais do que o mero fato de marina silva se declarar evangélica, afinal ela tem o direito, o que incomoda é sua aparente afinação com o que de pior esta derivação do cristianismo tem entre os seus líderes aqui no brasil. afinação evidenciada pelo imediato apoio que a ela sermonam.
o problema seria menor, ou nem haveria, se ela meramente cresse, mas ao invés, seu comportamento sugere que, assim como os lastimáveis líderes, ela considera que aquilo que consta, em termos de ética, princípios de conduta e mesmo história, na obra máxima da mitologia judaico-cristã,  a chamada bíblia sagrada, é adequado ao todo da população.
difícil prever o prejuízo que isto traria à sociedade, é possível até que nenhum. há os que afirmam que aqueles líderes e suas ideias são menos que bazófia midiática e não tem relevância para o todo multifacetado da comunidade evangélica nacional. deus queira que seja assim. não sei, mas sei que dar a esse tipo de gente mesmo a impressão de poder me causa ojeriza. eu imagino esse povo que se propagandeia imbuído de uma missão sagrada tentando validar o ensino de pseudociência nas escolas, mitologia como a verdade nas escolas, forçando a intromissão oficial na intimidade das pessoas. eles tem mídia, eles tem dinheiro e há muita ignorância, miséria e medo a serem explorados no país... um quadro ao menos, por possível, digno de consideração.
na minha revisitação revejo em dawkins, hitchens, harris, para ficar só nos chamados três cavaleiros do apocalipse ou do ateísmo militante internacional, os males que a religião provocou e provoca ao mundo. isto poderia causar algum desconforto a alguém que se considera religioso como eu me considero, mas o buddhismo não é equiparado à religião por estes críticos, em geral eles até o respeitam ou ignoram. suas críticas são dirigidas ao teísmo e em especial ao monoteísmo judaico-cristão. em verdade vos digo, o monoteísmo tem um passado terrível. e não só os livros de história, mas tv e internet nos horrorizam aqui e agora.
esta coisa de ser um religioso ateu parece complicada para alguns, penso até que há infundada resistência ao termo, julgo que muito seja por conta de um equivocado espírito corporativo surgido da noção de que as religiões são iguais. coisa de que discordo.
embora seja possível ver pontos comuns, como é para quaisquer duas coisas no mundo, o teísmo parte do princípio de que a verdade última nos é divinamente revelada e vai mal encaixando os fatos da realidade nela. não há como negar que este fundamento a torna incompatível com o buddhismo que parte do exato oposto: fomenta a análise e aprofundamento na realidade experiencial que eventualmente conduzirá ao conhecimento da verdade transcendente. pelo caminho, a investigação dos fatos vai reformatando a percepção e, consequentemente, o agir do buddhista no mundo. se não para melhor, para menos ruim.
há muito que ser desenvolvido nesta abordagem, mas este breve resumo do buddhismo já deixa espaço restrito para conceituá-lo como religião, mas muito espaço para nós, ateus, assumi-lo sem qualquer constrangimento.
se há risco de criar alguma animosidade por parte de religiosos teístas por conta de tais afirmações, bom, acho que não há o que fazer da parte dos buddhistas que se assumem ateus. por mim há respeito ao direito de ter crenças, melhor quando não tomadas por conhecimento e sonhadas como verdade a ser aceita por todos como salvação. assumir-se um ateu é, assim, além de coerência para o buddhista, uma afirmativa pedagógica numa sociedade que precisa discutir e definir a influência que está disposta a aceitar de crenças e religiões e também uma exigência por tolerância que só existe verdadeiramente se houver plena aceitação de diferenças claramente afirmadas.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

de humano para humano

para a pergunta "por que eu sou buddhista?" há algumas respostas.
mas a minha preferida é: o buddhismo é ensinamento de humano para humano. como ilustra este belo trecho do ensaio ideal solitude, do venerável ñāānanda.

sem dúvida, esta solidão física era muitas vezes apoiada pelo Buddha como um pré-requisito essencial para o desapego. assim, no final de um dos pronunciamentos mais contundentes a favor deste tipo de solidão, ele confessa ao seu ajudante, o venerável nāgita, com notável franqueza, que ficava bastante confortável, mesmo ao atender aos chamados da natureza, quando não via ninguém em frente ou atrás de si, enquanto viajava sozinho (aguttara nikāya III 344).

no doubt, this physical solitude is often upheld by the Buddha as an essential pre-requisite for detachment. thus at the end of one of the most forceful perorations in favor of this type of solitude, he confesses to his attendant, the venerable nāgita, with remarkable candor, that he is quite at ease even in answering calls of nature, when he sees none in front of or behind him while journeying all alone.

quinta-feira, 31 de julho de 2014

hollow and dry

Como ficarei sem o eu? 
Se você é buddhista, já ouviu ou fez esta pergunta. Muito provavelmente ambos.
Ajahn Chah diz nalgum texto por aí que se você passa por uma rua e alguém o xinga dia após dia, você pode começar a pensar em tomar alguma atitude. Mas aí ouve que aquela pessoa é maluca e, então, relaxa, talvez até com um sorriso.
O buddhismo, cada vez mais me parece, é simples. No início é complicado, até porque a gente quer que seja. É mais bonito. Para discípulos e mestres, uma coisa rebuscada, complexa, difícil... Mas aí, a gente vai lendo as coisas dos suttas antigos e o Buddha sempre trazendo o assunto para o palpável mundo real e ordinário, usando imagens de açougueiros, carpinteiros, fogo, pedra... tudo muito simples, direto e claro. Começamos a desconfiar de quem se deleita no complexo. Discípulos e, principalmente, mestres.
Em 'Notes On Meditation' Ven. Ninoslav Ñāṇamoli diz o seguinte sobre um resultado da prática de ānāpānasati: 

Este tipo de atenção, quando desenvolvido, não deixa nada de fora, e se vai de forma simples, mas constante, tornando mais consciente da natureza da ação, em geral, enquanto que a ação mesma está realmente presente. Em última análise, é claro, isso leva à total transparência deste "eu" nesta experiência da respiração como um todo, e sua natureza totalmente redundante que vem sendo gratuitamente assumida.  Esta natureza, se atentamente perseguida na medida necessária, pode eventualmente ser completamente entendida e o gratuito "eu" destruído. Isso, no entanto, não deve ser tomado no sentido de que o fenômeno do "eu" irá desaparecer como se nunca tivesse existido, mas no sentido de que esse "eu" deixará de ser "mim" e "meu". Ele permanecerá apenas ali, hollow and dry.

Nem traduzi hollow and dry porque está perfeito. Busque a tradução das palavras para você ver...
Mas parece que é assim. Vai ficar ali, como a coisa oca que é, seca.
Simples.
Buddhismo é isso. É mergulhar nesta bolota de deterioração com coragem imensa, para voltar, como sempre, ao Ajahn Chah. 
Bolota de deterioração é uma das minhaS definições preferidas para o acontecimento que insiste em ser eu.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

fundamento

Dia desses me perguntaram: "o que você diz quando te perguntam quais são os fundamentos do theravada?" Eu respondi: "ninguém me pergunta isso!" 
Verdade. O mais profundo de que me lembro foi o "no que o buddhismo acredita?" 
Muito melhor a pergunta sobre o theravada. Porque mais difícil de responder. Por isso mesmo vou escrever o que eu responderia.
Há, penso, algumas respostas.
Aqui cabe um trecho do livro meanings que diz: ...a religião buddhismo, um fenômeno social e histórico relacionado, mas distinto dos ensinamentos do Buddha, surgiu e cresceu, transformando-se e proliferando-se (pág. 10 da edição digital, 2º parágrafo).
Citado isso, me obrigo a começar por esclarecer o que entendo ser o theravada, eu diria que é o grupo buddhista que toma o cânone pali como autoridade final. Significando que qualquer que seja o buddhismo ensinado, tal ensinamento precisa ser rastreado até o cânone pali, em letra e/ou em significado para ser aceito como buddhismo por este grupo. Ponto.
E fiel a esse ponto, eu, que me considero parte desse grupo, seguiria em diante dizendo que o fundamento deste theravada que eu concebo são as palavras do Buddha registradas nos suttas pali e reproduzidas ao aqui ao lado no blog; uma frase que é o que alimenta minha prática pessoal e deve me levar até o nibbāna se eu, um dia, a realizar completamente - disse o Buddha, mais ou menos assim: eu ensino só duas coisas, dukkha e o fim de dukkha. No lugar de dukkha, cabe tudo que não queiramos, assim como muito que, por ignorância, queremos. Para simplificar, traduzimos dukkha por sofrimento. Então, o Buddha ensinou o sofrimento e seu fim.
Aí cabe outra frase do livro citado acima: a fim de conhecer o sofrimento não é suficiente apenas sofrer (3ºparágrafo do primeiro ensaio, Feelings Are Suffering).
Não, o sofrimento não é o que pensamos. Nem conhecê-lo é.
Em Clearing The Path, escreve Ñāṇavīra TheraO leitor,(leitor ideal daquela obra, que comenta os suttas pali) presume-se subjetivamente envolvido num problema angustiante, o problema da sua existência, que é também o problema do seu sofrimento (prefácio, 1º parágrafo).
Voltando, só estas duas coisas é uma resposta possível. Duas coisas que pensamos conhecer bem, principalmente quando não pensamos sobre elas. 
Talvez, pudesse até elaborar um pouco mais e dizer que o theravada se fundamenta em nos despertar a atenção àqueles momentos que provocam a busca ideal de que fala Ñāavīra Thera. 
Há momentos em que nalgum lugar fagulha a impressão de que dukkha, a primeira coisa ensinada pelo Buddha, não é só a dor de barriga, mas também a feijoada; dukkha não é só o divórcio, mas também o apaixonar-se; dukkha é a morte, mas também o nascimento. 
E aí mesmo a segunda coisa: esta fagulha, se alimentada corretamente até tornar-se chama de sabedoria realizada, consome-se e apaga, sem deixar vestígio.
Fim da resposta e, eu sendo bem sucedido, fundamento para muitas perguntas mais.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

o que vemos - frequentemente bloqueia nossa visão - se falhamos em 'ver através'*

Anos atrás, conversava com um professor de dhamma sobre meditação, pedia orientações sobre como manter a mente numa postura meditativa durante o dia, a certa altura ele disse, em tom bem humorado, talvez desconfiado de que eu fosse mais um maluco que faz contato com centros de dhamma misturando Santo Agostinho com Deepak Chopra e Paulo Coelho, que eu não devia, por exemplo, dirigir meu carro focado nas sensações táteis da nuca, isso poderia gerar mais problemas que solução...
Sempre lembro desta orientação - praticar concentração em trânsito é realmente algo arriscado, ainda que trânsito, mesmo numa cidade pequena como a minha, seja um local em que permanecemos parados boa parte do tempo sem muito o que fazer.
Mas tenho uma alternativa ao tédio.
No trânsito estamos no meio do símbolo maior de nossa liberdade, vitória, sucesso como seres-humanos - o carro. O carro é um ser como nós, um pet, um amigo, um amor, uma razão para muitos. Um carro é a extensão de nosso próprio corpo e mente. Um carro nos enche de um poder, nos poweriza o ego, nos acrescenta. Obra prima de Māra, enfim.
Uma das mais poderosas imagens encontradas nos suttas antigos é a da carruagem, que pode ser lido AQUI.
Desde um tempo, então, tenho feito tal contemplação quando em trânsito, analisando o que ocorre na mente ao olhar os carros, ao estar num carro, ao pensar num carro, ao admirar um carro... decorado o raciocínio do sutta, observo o que surge na mente com a palavra "carro", com a imagem "carro"... desfazendo os carros todos em suas partes que não revelam nenhum carro, sobrando só a palavra "carro", mais nada além de uma ideia...
conduzir a análise nos mesmos moldes para as pessoas que dirigem ou se movimentam entre os carros não é tão mais difícil... Alimentando a mente com a realidade do vazio...
Há inúmeras formas de manter o dhamma na mente durante o dia conferindo um sentido à vida (encontre a sua!), principalmente quando vai-se convencendo da carência de qualquer outro sentido que não o nibbāna...
O título deste post é minha tradução para a epígrafe do livro "Seeing Through - A Guide To Insight Meditation" do mestre Katukurunde Ñāananda, disponível AQUI. Uma frase que vale manter presente na mente ou coração, ou em ambos. Tanto quanto este conselho de Ajahn Chah: "A prática do Dhamma é assim. Não é que o Dhamma esteja muito longe, ele está aqui conosco. O Dhamma não é sobre anjos nas alturas ou coisas do tipo. É simplesmente sobre a gente, sobre o que estamos fazendo agora. Observe a si próprio. Às vezes há felicidade, outras sofrimento, às vezes conforto, outras dor, às vezes amor, às vezes ódio... isso é Dhamma. Você vê isso? Você deve conhecer esse Dhamma, você precisa ler suas experiências".


E, siga o conselho daquele professor: deixe para focar a nuca em casa, na rua, foque no que está à sua frente.

* What we see - so often blocks our vision - if we fail to 'see through'


terça-feira, 25 de março de 2014

uma introdução ao buddhismo a um cumpanheiro

no trabalho:
- jorjão, cê tem alguma religião ou tem nada?
ele sabe, mas pergunta porque quer ouvir alguma coisa da fonte. muito bom...
- eu sou buddhista, cara...
- hmmm... e no que cê acredita...? no Buddha? hehehe...
- no que acredito...? ó, a gente acredita que há um modo de ir diminuindo bastante o sofrimento, até acabar com ele. isso através de observação de si, sua mente, e do que está em volta... entre outras coisas, mas resumindo, é isso.
- hmm... mas você consegue...? você consegue dominar a mente...?
- não é tanto uma questão de domínio... é mais uma questão de conhecimento das coisas...
- hmm..
- a ideia comum das pessoas é que a gente vira uma espécie de planta... mas não é bem assim...
- hmm...
- o que ocorre é que com o conhecimento você vai ganhando um espaço para escolha...  vou tentar te dar um exemplo: sabe quando você vai num churrasco e escolhe se vai beber ou não? um dia cê pode escolher beber e ir na corrente do que vier... num outro você pode precisar dirigir, ou estar responsável por alguém e decide se segurar...
- hmm...
- então, no buddhismo a gente aprende que tudo ao nosso redor é como bebida, uma bebida que entra pelos olhos, ouvidos, boca etc. e nos embebeda, nos conduz, entorpece e influencia... ser buddhista é, basicamente, através do cultivo constante da atenção e do conhecimento que vem disso, aumentar o espaço entre nós e estas "cervejas" de modo a decidir se vamos seguir o fluxo ou nos conter...
- hmm...
- bom, tem mais coisa envolvida, mas basicamente é isso...

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

era só o que faltava

que não se discuta a existência de deus é também minha opinião. qual a necessidade disso? mas necessidade vejo de declarar-me ateu e fiel de uma religião que o nega total e completamente sem o substituir por outro: nenhum poder cósmico, nem luminoso, nem escuro, pessoal ou impessoal, aqui ou mais além.
um porquê de tal necessidade por mim notada é que vivemos tempos estranhos, eu quase escrevo alarmantes, mas o que causa alarme por estas terras são contusões do neymar. a proliferação dos parasitas da fé por aí a pregar ódio e preconceito, proibições e intromissões, sem que voz alguma se sobreponha, e falta especial eu sinto daquelas que compartilham da mesma fé, os parasitas ganhando poder e nele se refestelando, isso não causa alarme. e eles seguem a se fartar nababescamente da, quase, novamente, digo boa, mas não, não é boa esta fé.
um outro porquê, talvez mais importante, penso que deixar claro um caminho espiritual que se trilha na terra, com pés firmes no chão movediço, com ética, disciplina, compaixão, esforço e diligência, pleno da ausência de deus, é mensagem poderosa à sensação de libertina liberdade que esta cada vez mais aparente ausência faz surgir e provocação necessária àqueles que só concebem o insidioso amor pelo igual.
proclamemos nós, buddhistas, que não fomos feitos à imagem de deus algum e nem a uns dos outros. desistamos já de qualquer invenção de igualdades, nos bastam a dor, o envelhecimento e a morte comuns. tão às claras e tanto ignorados que um caminho espiritual que sobre elas se debruça, sem por qualquer deus no meio caminho, e nem no final, existe.
li dia destes que só faltava aos buddhistas declararem-se publicamente ateus. isto afirmado em tom de decepção indignada, soando quase como um desafio. concordo, falta. embora não a mim que tenho gosto especial por repisar o tema. desde que cheguei ao Buddha, e já cheguei ateu, e a ele aceitei como mestre, em qualquer conversa pouca em que o tema surja faço o possível para deixar claríssimo: sim sou ateu, como todo buddhista deveria reconhecer ter sido o Buddha. sempre com a intenção de que nada falte.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

rolezinho pelo Buddhadhamma

vira e mexe me deparo com alguma afirmação sobre um buddhismo ocidental em construção, e mesmo buddhismo moderno. acho isso uma grande bobagem, por um certo ângulo. 
o buddhismo é buddhismo, foi o que o Buddha ensinou e somos os mesmos da índia dos tempos do Buddha. os fenômenos continuam sendo anicca, dukkha e anatta.
por outro lado não é uma bobagem porque diz respeito às adaptações culturais que fizeram surgir inúmeros buddhismos pelo tempo e espaço. e aí eu simplesmente não me importo.
agora, há um aspecto cultural que talvez seja relevante discutir: a questão da autoridade, da centralização. esta coisa que está sendo diluída pela sociedade em rede. 
autoridades buddhistas, vamos falar especificamente de buddhismo porque sobre outras autoridades há farto material a ser estudado pelo bom leitor que gosta de refletir (a imprensa, os governos, até os shopping centers!!). então, autoridades buddhistas, sejam monásticas ou não-monásticas, num tempo que não volta mais publicavam seus textos e o papel ia para a mão de seus admiradores e alunos, cada autoridade publicava para a sua escola e seguia tendo retroalimentada a sua autoridade. se interessavam pelos textos aqueles que se interessavam e ponto porque ninguém gasta dinheiro com o que não lhe interessa. pelo menos os que tem pouco, como eu. os curiosos e/ou mal informados iam seguindo curiosos e semi-informados.
hoje mudou.
uma autoridade publica um texto na rede, e como de graça até injeção na testa, todo mundo lê. aí começa a encrenca, porque o questionamento surge, o diálogo se insere e a autoridade é posta na mesa. no meio buddhista, apesar da ausência de deus, esta questão ainda parece não estar sendo digerida. bom, na verdade esta questão é indigesta no geral, mas talvez, no buddhismo venha a ser um pouco pior por conta do estereótipo do dono da mágica, do sábio que fica no alto da montanha esperando que surjam seres aptos a beber de seu precioso néctar. 
um aspecto divertido disso, e mesmo um pouco paradoxal, é que o próprio Buddha estimulava o diálogo e o questionamento, me parece que há uma regra no vinaya, a disciplina monástica buddhista, que determina ao monge que este questione aparentes equívocos cometidos pelo seu  mestre, daí que, sendo isso verdade, o buddhismo dá mostras da sua atualidade (vocês três que leem este blog, pesquisem aí para nós, valeu?!) e, voltando lá  em cima onde eu comecei, modernizações podem não ser necessárias.
mas voltemos a onde estamos. 
então, parece que professores buddhistas precisam refletir sobre isso: uma coisa é uma situação onde a pessoa se põe sob treinamento e orientação prática. se eu estou meditando sob direção de um professor que me diz: isso é ISSO e faça ISTO. seria uma estupidez da minha parte começar com "teacher, mas isso não poderia ser isso... ou talvez até aquilo...?" e perder nosso, meu e dele, precioso tempo. outra coisa é publicar pensamentos, ideias e interpretações e esperar que isto seja saudado como fina sabedoria por todo o mundo.
não é mais assim. e isto implica que antes de tornarmos públicas as nossas ideias é preciso que, ou saibamos que nossas ideias tem pouca importância e tudo bem se alguém resolver se dignar a gastar seu tempo nos provando como somos tapados, como é o meu caso, ou precisamos estar certos de sermos plenamente capazes de defender  o dito ou escrito no caso de alguém nos honrar com importância.
estamos surgindo como um grande composto pensante, conectados, interdependentes, condicionados, sem centro. exatamente como ensinou o Buddha.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

que seja feliz quem souber o que é o bem

me perdoem a redundância, mas então é natal, a festa cristã... e o ano termina e nasce outra vez... 
fica todo mundo meio simonezado...
quem passa por aqui e lê um texto ou outro pode ter a impressão de que eu sou um ateu intolerante, militante e até irritante, ou mesmo ignorante.
me esforço para o oposto disso. 
ateu eu sou sem esforço.
não tenho coisa alguma contra crença qualquer, eu tenho as minhas próprias, inclusive. o que ocorre é que sei que são crenças.
não me oponho a qualquer deus, assim como não a papai noel ou outro ser do tipo.
é fato que o velho barbudo pode ser usado como a mais covarde arma do capitalismo selvagem consumista, cruel e irresponsável (estou falando de papai noel). mas também é um belo símbolo e estímulo de bondade, generosidade, fraternidade e por aí... ou seja, conceitos, ideias, imagens é tudo neutro, como se manifesta na prática das vidas é o que importa.
daí que eu, vira e mexe, escrevo alguma coisa sobre meu desgosto com professor buddhista falar de deus. 
a mim, enquanto buddhista, pouco me importa no que o outro crê, me interessa é em como esta crença se manifesta. sendo assim, não vejo qualquer necessidade em ficar elucubrando harmonias, suando para achar pontos comuns em crenças várias, porque o diálogo é bem mais simples e funcional que isso, é um mero sejamos bons. todo mundo sabe o que é ser bom, solidário, fraterno, ético. uma coisa que o buddhismo vai ensinando quanto mais a gente se aprofunda é que a vida é, até decepcionantemente, simples e a sabedoria é algo assustadoramente acessível. nós é que sofisticamos as coisas graças a nossa estupidez.
quer complicar a vida? tudo bem! mas que seja para a sua diversão intelectual, emocional ou outra. ou seja, faça como eu! na prática, seja simples. esqueça as iluminuras do espírito, as consciências divinas, o além do além e, acima de tudo, não queira convencer os outros de suas luzes. guarde para você sua transcendência e me dê um abraço.
pois o ano termina e nasce outra vez.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

as voltas que o mundo dá

falei: "aproveite bem esse tempo sozinho. algumas das minhas melhores lembranças da infância são de momentos de solidão." no que de pronto, franco e veloz, como os pequenos são, ele replica: "puxa, sua infância foi horrível, hein!?"
pois é. não foi. ou talvez tenha sido...
quando a terra está perto de completar mais uma volta em torno do sol coisas assim acontecem e são percebidas, intensificando a inclinação à reflexão. mais de quarenta voltas, agora. e aí?
outra boa que me remeteu àqueles infantes mas não menos atormentados tempos foi ao ler no livro passo a passo, publicado pela edições nalanda via amazon, o mestre maha ghosananda falar de um método de meditação em que se mantem a atenção focada por longos períodos apenas no movimento da mão a subir e descer. eu ficava, na minha pequenina concha, por tempo abrindo e fechando a mão intrigado com o que afinal, misteriosamente, fazia aquela mão se mexer.
tempos que não voltam mais. 
mas só tempo que continua como sempre. 
não tenho qualquer saudade do passado, seja ele qual for. nunca penso em reviver nada ou em como era bom. porque nunca me parece ter sido tanto assim. tenho uma espinhosa consciência das imperfeições na jornada que continua. "eu era feliz e não sabia" é uma frase que ainda não disse. cuido para que nem mais adiante. 
meu gosto pelo dhamma do Buddha certamente vem disso, desse tom mais para "nunca fui feliz e sempre soube". 
certa vez num grupo de estudo buddhista eu fiz uma brincadeira com a minha visão de como teria sido a infância do menino que viria a ser o Buddha. uma criança esquisita como eu gostaria que tivesse sido. isso certamente para eu crer que tenho alguma chance, apesar de tudo. para que todas essas voltas que o mundo tem dado comigo sem o meu consentimento sirvam para algo além do que tem sido. 
mais de quarenta. e aí?
o mesmo. 
agora autorizado por um grande mestre, sento e foco no movimento de subir e descer da mão sabendo que não há nada de estranho nisso.


segunda-feira, 18 de novembro de 2013

the book is on the table. and i will translate it.

um amigo de dhamma me disse que poderia ser útil para alguns falar um pouco do meu hobby de tradutor de textos buddhistas. all right.
para todo aquele que deseja traduzir, me parece óbvio que a leitura é fundamental. seja do idioma a ser traduzido, seja do para o qual vai traduzir. quando cheguei ao theravada já estava praticando e estudando buddhismo e meditação no que havia disponível próximo de mim: um centro mahayana, buddhismo tibetano. mas minha natureza de buscador me impulsionava a cavucar as raízes daquilo. a cada menção que lia a respeito de hinayana e, menos vezes, de theravada, atiçava meus interesses, eu levantava as orelhas e abanava o rabinho.
aí me surgiu a internet. me embrenhei na mata e vi que a maior parte do material que havia sobre o theravada está em inglês. há um pouco em espanhol também. o que fazer? eu tinha estudado inglês havia um tempo, mas o impulso veio quando, tendo feito contato com o professor ricardo sasaki, do centro de estudos buddhistas nalanda, ele me perguntou se não gostaria de traduzir um pequeno texto para publicar na rede. topei. havia um programa tradutor no pc, então vamos ver no que dá.
os primeiros resultados foram fraquinhos, mas tive mais facilidade do que esperava. entregando o primeiro pedi mais um e depois outro e outro e não parei mais.
vou ficando menos ruim com o tempo e hoje leio muito mais em inglês do que em português. claro, com a ajuda da tecnologia atual. então, passando efetivamente para o que realmente pode ajudar, vou compartilhar as minhas ferramentas e modo de trabalho.
leio principalmente num tablet android com os seguintes apps: https://play.google.com/store/apps/details?id=tool.ebook.pdf.reader https://play.google.com/store/apps/details?id=org.pdf.and.djvu.reader  https://play.google.com/store/apps/details?id=org.ebookdroid
estes apps me permitem muitos recursos tais como marcar trechos, comentar, fazer anotações...
e o melhor dicionário gratuito que encontrei me ajuda com palavras e expressões que meu ínglich não alcança: https://play.google.com/store/apps/details?id=com.akdevelopment.dict.enportug2.free
quando um texto me é enviado para tradução, ou eu escolho um para traduzir, eu uso o https://support.google.com/translate/toolkit/answer/147809?hl=pt-BR uma paltaforma de tradução disponível para todos que tenham conta no google. acho excelente, é cheia de recursos dos quais não utilizo nem um terço. somo a ele um plug in do navegador firefox chamado im translator, muito bom também e com um bom dicionário.
para ajuda com o português eu uso http://aulete.uol.com.br/ tanto na versão on line quanto a instalada no pc fora outros incontáveis dicionários e tradutores on line que abundam na rede quando algum destes que citei não me convence.
então é isso.
se alguém deseja contribuir para a difusão do dhamma no brasil e ainda não sabia como, aí está minha humilde dica. de quebra ainda faz um improvement no english.
the book is in the tablet.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

arredondadores da roda

recebi link para uma matéria e uma entrevista com um novo sábio. quem me enviou queria saber se eu conhecia. fui lá. e concluí que o novo sábio é mais um daqueles que eu costumo chamar de arrendondadores da roda. porque nada vejo surgir de novo das palavras que ajuntam. o arredondador em questão, pelo que li sobre, escreveu já mais de mil páginas conectando vários ramos do saber humano rumo a uma holística integração de tudo. e do resumo das suas ideias nada me iludiu.
as obras dos arrendondadores me causam a sensação de legos. você passa um tempo montando e resulta um carrinho, uma nave ou outra coisa já sabida de antemão e, por si mesma, sem graça e precária. o prazer esteve em encaixar as peças. o valor do resultado final depende é da imaginação. 
é assim com os arrendondadores: o prazer está em montar o palavrório e levitar nos loopings filosóficos. e só. o resultado final é algo já sabido. mas queremos que seja novo.
os arrendondadores tem admiradores. 
nossa tendência, conforme explana o bhante katukurunde ñāṇananda e como já publiquei por aqui recentemente citando o erudito david kalupahana, é nos encantar pelo complexo e nos cegar para o simples. por mais, e quanto mais, evidente seja, mais buscamos pelo oposto. considerando isso, vislumbramos amplitude e profundidade até então talvez não aparentes na afirmação do Buddha de que seu ensino ia contra a corrente do mundo. uma afirmação simples e clara como sempre.
atualmente penso eu que, para nós, macacos pelados, a compreensão de anicca, dukkha e anatta (impermanência, sofrimento e não-eu) é o que basta para uma vida, seja como tarefa, seja como solução. nada mais eu vejo como necessário. mas a contemplação destas três características implica em confrontar, além daquela paixão pelo complicado, uma outra que nos alimenta essa antipatia pelo simples: a de querermos ser divinos. a mesma inteligência que nos faz símios capazes de saber a evidente miséria, vanidade e instabilidade do existir, nos torce o olhar para o alto, para a criação das mais variadas opções de redenção e divindade e fuga do óbvio. 
enquanto sob os pés o chão continua a ruir, os corpos a contrariar, as mentes a criar do nada coisas cujo único propósito é continuar surgindo e perecendo.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

algum tempo de jóia rara no ar...

- vocês acreditam em reencarnação?
- não!
- não?!
- não.
- mas na novela...
- esquece a novela...
- mas disse que podemos reencarnar como animais...
- já somos.
- mas o que acontece depois da morte, então?
- enterra, crema ou faz ração. de preferência antes de começar o mal cheiro...
- animal!
 
 para uma abordagem séria:
http://rarajoia.blogspot.com.br/

sábado, 31 de agosto de 2013

reinos

conversava outro dia com um colega evangélico. ele me chegou com uma dica de vídeo de um pastor de quem gosta e a conversa foi até onde eu passei a tocar num assunto que me incomoda: o silêncio, ao menos aparente para mim, da sincera, correta e séria comunidade evangélica e seus líderes com respeito àquilo que tem contribuído para um conceito se avultar no imaginário de uma parcela da população, a saber, numa forma educada: os evangélicos, quando não são ingênuos, são desonestos. 
a mesma provocação eu fazia vez em quando a um senhor que comigo trabalhou e é pastor, fundador de uma denominação, inclusive. um senhor honesto, trabalhador, cumpridor. apesar de aposentado, sempre cioso da necessidade de conciliar seus compromissos religiosos com os do trabalho. e ele travava quando eu tocava no assunto dos casos notórios de enriquecimento absurdo de líderes evangélicos, por exemplo. era perceptível o incômodo mas ele tergiversava e dizia que cada um conduz a obra ao seu estilo... eu lamentava. e elucubrava a respeito da raiz da dificuldade.
e o meu interlocutor de então também patinava no mesmo ponto. hesitava em fazer críticas ou reconhecer mesmo o óbvio ululante. e eu insistia em que há a necessidade de uma resposta ativa a fatos evidentemente absurdos do seu mundo religioso.
coincidentemente, na manhã seguinte, em minha caminhada pelas veredas virtuais me deparo com isso: 
 que me explica um pouco mais do complexo e grave imbróglio em que vejo estar o protestantismo. 
este pastor, na minha opinião uma das figuras mais lamentáveis do cenário religioso nacional, se as informações constantes no site supralinkado forem verdadeiras, continua em sua cruzada de aversão baseada em ofensas toscas, impropérios afetados e exploração, via teatral destempero emocional, dos que são vítimas de sua presença canastrona. este senhor, pelo que se lê, tenta me ofender enquanto ateu e consegue me entristecer enquanto religioso. enquanto ateu são claras as tentativas de ofensa e me incomodam até o ponto em que concluo que ser ofendido por ele é quase um elogio. me entristece enquanto religioso porque trabalha, estúpida e ferozmente, pela destruição da religião, de todas as religiões, pois que o seu discurso distorce o próprio sentido do que é religião, seu discurso agride o exato espírito da religião quando sua filosofia desvia a atenção de seus ouvintes e fiéis para o exterior, inventando um mundo inimigo. aquela luta religiosa que é essencialmente travada no interior do crente é ignorada e transferida para fora, o mal passa a ser o outro. e só o outro. e aí entendo porque nesta visão de mundo as recompensas que buscam só podem ser da mesma ordem. é a superficialidade de pensamento que me parece característica do fanatismo. o fanático sendo incapaz de encontrar no seu interior aquilo que busca, precisa ser no mundo o que não encontra e o faz pela força da sua própria frustração. o fanático é vítima da inépcia introspectiva e torna-se o tirano quando alimenta e explora esta mesma incapacidade no outro. é o poder da teologia da prosperidade material.
é da natureza da matéria não satisfazer ao espírito. o reino do espírito não é deste modo. este é um reino fundado na carência e constituído de mentira, um reino frágil. uma fragilidade que precisa ser reconhecida mas que, até agora, me parece, estranhamente, ser só temida.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

don't worry, be happy

 ...àquelas pessoas que se preocupam com o fato de o Buddha ter equalizado vida a sofrimento é possível argumentar o seguinte: é dito que, se nos mantivermos diligentes no caminho, quando despertarmos, quando chegarmos a ser verdadeiramente despertos, a vida se tornará incomparavelmente mais suportável e, somado a isso, conheceremos a insuperável alegria de saber, com plena certeza, que nunca mais vieveremos de novo...

sábado, 6 de julho de 2013

dukkhinha quer ir pro espaço

numa animada conversa familiar sobre política, mídia e outras mazelas humanas, dukkhinha, se feliz ou infelizmente é algo a se pensar, com seu jeito de coruja observava tudo de um canto.
na volta pra casa, diz: acho que é por isso que quero ser astronauta, pra escapar desse mundo...

cacetada!
e agora? pensa o pai...
pensa o pai...

e diz:
carinha, não é bem assim. posso dizer uma coisa? olha, eu acredito que não é desta forma que se escapa do mundo, assim não dá certo. isso tudo de que nós estávamos falando lá, é de nós mesmos, não é que eles sejam o mal e nós o bem, somos todos humanidade, para onde nós formos vamos carregar isso com a gente. a forma de escapar é pela compreensão. a gente tem que mergulhar a compreensão neste mundo e ver através dele...

hmmm...

e a gente vê através do mundo quando se esforça em olhar pra dentro da gente. aí a gente começa a ver que muito do que parecia estar lá fora, na verdade sempre esteve aqui dentro... esta semelhança que vai surgindo é como ver através, e isso, eu acredito, é começar a escapar de verdade, sem precisar fugir daqui...

hmmm... acho que entendi o que você tá dizendo...

...

vamos comprar uma pizza pra comer com a mãe?
vamos!
beleza.






segunda-feira, 1 de julho de 2013

esses humanos

minha mãe é uma cristã fervorosa e nossos bate-papos vez ou outra giram em torno de religião. ficamos sempre por ali, nas semelhanças que conseguimos enxergar nos nossos caminhos. foi na minha última visita que ela fez uma citação dos evangelhos que muito me agradou. parece que ela sabe o que me agrada. disse ela que jesus certa vez desabafou: "até quando vos suportarei?!" se dirigindo a alguém que pedia mais um milagre. eu não tenho bíblia, mas fiz uma pesquisa e me pareceu um trecho muito interessante que vale ler e refletir. mais uma que passo a gostar além daquela clássica em que ele desce o sarrafo nos vendilhões e algumas dos apócrifos.
acho muito salutares estas passagens mais humanas dos mestres. são antídotos importantes contra a nossa tendência à divinização, além de motivadores à reflexão no nosso real campo de trabalho: a vida nossa de cada dia. nos ajuda a ir removendo a casca de mediocridade que a encobre.
e é divertido, tanto quanto pedagógico, visualisar os mestres olhando o balde a meditar: o balde é vazio... o chute é vazio... a vontade é vazia...
um momento desses, em que, segundo o +Bhante Katukurunde Ñanananda, o Buddha confidencia certo desânimo ao venerável Sāriputta, eu traduzi aqui. há também a conhecida passagem em que Ele hesita, logo após o Despertar, se ensina ou não o Dhamma que realizou. aliás, a vida do Buddha é um relato tremendamente humano embora, prova de força de nossas tendências, Ele não tenha escapado do endeusamento através do tempo e espaço.
um indicativo de que insistimos em procurar a 'salvação' no lugar errado?
é neste corpo e mente com suas precariedades que está o início e o fim do mundo, o início e o fim do sofrimento. está lá, disponível como nunca antes para todos nós, nas palavras daquele mestre insuperável de humanos e deuses que morreu com problemas abdominais e diarreia para nunca mais renascer.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

estamos fazendo bonito

coisa de um mês atrás eu dizia no café que acredito no poder da rede, no poder do conhecimento. dizia que acredito que mudanças ocorreriam, ainda que lentamente, movidas principalmente pelo acesso irrestrito à informação que a rede oferece. o assunto era os preços do brasil, de coisas como carros, por exemplo, custarem tão insanamente mais caro aqui. numa conversão simples, um carro pelo qual se paga setenta, oitenta mil reais aqui, lá nos eua pagariam o equivalente a quarenta ou trinta, me diziam. numa conversão mais elaborada, talvez vinte... o que vale para carro valendo para outros bens de consumo. aí eu disse que o fato mesmo de estarmos ali conversando e dividindo conhecimento era sinal de alguma lenta mudança ocorrendo. 
eu me creio exemplo. 
antes da rede, me contentava com o buddhismo que chegava a mim, eu com poucos recursos e morando em cidades pequenas, sempre um pouco descontente. com a rede eu fui ao dhamma que escolhi e nele mergulhei. minha qualidade de vida deu um salto como nunca antes na história deste país. embora a rede não substitua o valor de um contato pessoal com mestres, a quantidade de material disponível pode compensar na dependência decisiva do empenho do aluno.
assim, então, afirmava eu, contra alguma descrença geral, que acreditava, ao menos naquilo que diz respeito a consumo, que mudanças viriam: teríamos bens cada vez melhores e mais baratos, aos poucos deixaríamos de subsidiar, pela nossa estupidez, a bonança alheia.
mas eis que somos todos pegos de surpresa por esta maravilhosa onda de protestos pelo brasil afora! inteligentemente organizados num momento preciso e perfeito via rede! eu não estava sendo otimista, então! fui modesto. 
quem imaginou que a pátria fosse tirar as chuteiras e por os pés no chão, no nosso chão tão sujo? 
surpresa para mim e para todos, está acontecendo: a beleza exibida pelo talento inquestionável do menino neymar não será mais do que é: diversão, uma bobagem que queremos apreciar sim, mas do conforto de uma vida digna, sob o governo de gente decente. parece que estamos meio indiferentes a um placar de goleada somado a uma bela exibição em campo. para tristeza do pelé. parece que o rei ficou nu.
a qualidade de vida que o dhamma me proporciona se faz, entre muito mais, pela aniquilação impiedosa da minha ingenuidade. não esperar um mundo melhor mas reconhecer a necessidade funcional de um mundo menos ruim é a sabedoria que vou adquirindo. é claro que neste movimento todo há bandidos, há vontades escusas que vão se imiscuir. há interesses políticos sendo plantados e colhidos. vão querer transformar isso em dinheiro como sempre. a grande mídia, tomada de pânico por sairmos na rua para o mundo ver, (deu no nyt!) já, ainda que meio atabalhoada, tenta capitalizar a ameaça de descapitalização, os governos rapidamente cedem no que foi fácil na esperança de que se esqueça o difícil, a saber, que governem. haverá gente mais inteligente e tão cheia de dinheiro quanto o ronaldo pedindo para que nos concentremos em apoiar a nossa seleção, que pensemos na copa e nas olimpíadas, tentando nos convencer de que estádios e sinalizações em inglês são tão importantes quanto hospitais e escolas, tentando nos convencer de que somos um povo alegre e festivo, que o mundo quer de nós a nossa hospitalidade indígena, nosso gingado africano... mas parece que, num oferecimento de mustela putorius furus, vão furar,  parece que a nossa preguiça - goodbye, macunaíma... - nos enjoou, estamos levantando, não estamos mais engolindo, hein, zagalo?...

peraí... meu alarme anti-polyana berra a pergunta: será? não sei, vamos ver no que dá. mas, prá começar, acho que estamos fazendo bonito

segunda-feira, 17 de junho de 2013

dos males

dia destes comprei uma rifa de igreja, sorteio pela loteria federal. 
aí, um tempo depois, ouvi: 
ah, achei muito engraçado você comprar a rifa, tirei o chapéu prá quem conseguiu te vender...
mas por que tirou o chapéu!? me acha tão pão duro assim?!
não, não! é que você sendo ateu, né? ajudar igreja...? é meio esquisito...

aí eu ri e expliquei algo que por aqui já escrevi: apesar do meu ateísmo de muito tempo, nunca fui aversivo às coisas do espírito, seja lá o que for que a palavra espírito signifique... 
eu creio no poder da oração, creio no poder benéfico de qualquer religião. assim como no maléfico, devo dizer. creio na utilidade de existirem muitas religiões.
vivendo nesta época tão perigosamente medíocre, tão danosamente estúpida, tão lamentavelmente superficial como eu poderia deixar de ajudar esta ou aquela religião e religiosos que me convencerem de sua retidão? 

o assunto chegou no encontro da juventude com o papa que acontecerá no brasil e em que alguém próximo a nós está trabalhando ativamente como parte do comitê organizador. no que eu puder fazer para ajudar, conte comigo, eu disse. simpatizo com este papa, simpatizo com movimentos católicos, simpatizo com engajamento jovem em algo mais profundo e salutar, é óbvio.
algumas alternativas: poderosas e emicis, ou cada vez eu quero mais, ou tchê-rê-rê-tchê-tchê, ou tudo isso junto com muita droga lícita e ilícita e um imenso, negro e gelado nada devorando corações e cérebros. 
acho que no fim deixei claro o porquê de não ser esquisito um ateu preferir uma boa missa ao invés desta desgraceira toda. 
ainda mais no caso de um ateu religioso como eu.
e ainda tenho a chance de ganhar um carro zero.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

raio

A matéria de capa da revista superinteressante deste mês é 'Como Lidar Com A Tristeza'. A chamada diz o seguinte:

"Vivemos tempos de prosperidade, mas nunca tanta gente esteve tão deprimida. Afinal, o que está acontecendo conosco? Por que estamos tão tristes?"

Não sei.
E ainda não li a matéria.
Mas no meu trabalho ela se confirma. Só no meu grupo, de aproximadamente 120 pessoas, no momento, três casos de transtorno psico-emocional, um com afastamento, outro com pedido de demissão.
Com o terceiro caso eu conversava outro dia.
Sei que enquanto ouvia dos sintomas da depressão, do transtorno, da grande dor de uma solidão que esmaga o peito e apavora, das crises de choro e mergulho numa tristeza dolorida, das histórias da vida, das possíveis causas e traumas, talvez por ter em mente o frescor das palavras recém lidas e constantemente contempladas do Venerável +Bhante Katukurunde Ñanananda, experimentei um tipo de esvaziamento proporcionado por uma pacificadora sensação de igualdade de condições, de estar no mesmo barco furado, de se saber seguro de nada, de se contemplar como um fluxo turbulento de causas e condições incontroláveis.
Neste flash de esvaziamento uma amostra de paz, neste relâmpago uma compaixão assustadora e uma impotência diante da urgência de fazer algo.
Mas não soube o que fazer.
Nenhum conselho, nenhum abraço, nenhuma esperança ofereci.
Só olho no olho, alguns resmungos, um meneio de cabeça.                      
E, no final, sorrimos.

Speech by ReadSpeaker