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quarta-feira, 25 de novembro de 2015

O Descaminho Do Bodhichátova

É um tipo numeroso. Você provavelmente conhece um. Quer ele se denomine bodhisattva, cristão piedoso, rotariano, espírita caridoso ou o que for. 
Ele ou ela se orgulha da própria bondade, humildade, modéstia e generosidade. Um nobre, enfim. 
O bem que faz continua sendo ótimo para aquele que recebe, mas vá conviver com o tipo. Uma benção para os distantes, um tormento para os próximos.
Não raro uma pessoa autoritária, dona da verdade, aquela que sabe. A que nos contempla do topo do monte, de onde nos prega, guia e salva.
No início do meu buddhismo, essa coisa do bodhisattva sempre me incomodava. Não engolia essa obrigação de iluminar o universo. Com o tempo e o estudo, compreendi melhor a coisa e convivo bem com a ideia hoje. Ao meu modo.
É que pensar nos outros é funcional para o Despertar. 
Simples assim. 
Uma vez que o Despertar é ou se revela fundamentalmente ao desfazer a ilusão de que existe o ego, pensar nos outros é um modo prático de ir esmerilhando a ideia do eu.
E não é só isso.
A bondade é funcional. O bom humor, o otimismo, a alegria também são. 
É a arte de fazer limonadas.
Contemplar o vazio de um refrescante copo de limonada é muito mais fácil que de um azedo limão.
Saber da desgraça que é a vida é básico. Identificar e valorizar o que há de tolerável e bom na vida é funcional para acabar com esta mesma desgraça.
Para meditar, preciso de uma mente contente. Parece que há mesmo raízes biológicas no sentir-se bem ao fazer o bem, já li isso em algum lugar. Logo...
Aquele tipo do qual comecei falando é um dos imbróglios do querer ser bodhisattva, que nos deixam ressabiados com essa coisa de abnegação. Porque é a distorção em pessoa a nos expor à perigosa falácia do desprendimento. Nós todos, no íntimo, sabemos do quase absurdo que é a ideia de fazer o bem sem esperar algo em troca. Queremos sempre algo em troca. Fazemos o bem para sentirmo-nos bem, no mínimo. Ao menos aqueles de nós que são sinceros e não altamente realizados. 
Ao eu, que imaginamos ser, alimentamos com a ideia da santidade.
Muito melhor, me parece, é fazer o bem porque é bom para mim: medito melhor. 
Se estou em paz na vida, se me permito a alegria de dar água ao beija-flor, que é um bichinho feroz e violento, medito melhor; se me permito a alegria de contemplar a beleza da flor, este estágio que prenuncia sua morte e apodrecimento, medito melhor.
E vamos vivendo, fazendo o bem. Reconhecendo e aceitando nossa realidade, tudo fica mais pacificado.
Estou numa fase de grande interesse pelo dzogchen, em grande parte porque do que vou elucubrando das preleções do Bhikkhu Kaṭukurunde Ñāṇananda, acho que o dzogchen está lá, nos suttas antigos. Lendo bastante sobre o assunto, passei pelo seguinte trecho do ótimo livro de um dos vários mestres do buddhismo chamado mahayana que transitam por essa prática:

"Muitas vezes, em nome do amor, acabamos desenvolvendo um ego enorme, quando o queríamos pequeno. A motivação é o nosso bem-estar, não o de nossos semelhantes. Ajudar os semelhantes, sem dúvida, nos deixa felizes por nossos atos, mas, como o ovo e a galinha, a questão é o que vem primeiro, qual é a nossa intenção original. Portanto, não se apresse a doar cegamente todos os seus bens materiais. Aos poucos, descobrirá o que realmente quer entregar ao mundo e aos outros. Faça o que tem a fazer sem deixar nada para trás e sem se forçar de maneira alguma. Vá devagar, avaliando bem suas ações."

por Gyalwang Drukpa
Editora Pensamento

Todos apreciam e gostariam de ser salvadores do universo. Eis o sucesso dos filmes dos Vingadores a demonstrar.
Mas é essencial voltarmos nosso olhar equânime e compassivo para a nossa própria necessidade de salvação.

sábado, 26 de setembro de 2015

corpo esquecido

Como se fosse um saco cheio de vários tipos de grãos e pela sua abertura olhássemos e identificássemos cada um dos tipos contidos nele, assim nos pomos a dissecar o corpo, discriminando suas partes e órgãos. Esta foi uma das formas que o Buddha nos ensinou, no satipaṭṭhāna sutta, para instigar o questionamento de nossa identificação com nossos corpos. Uma outra é a contemplação do processo de desintegração de cadáveres.
Quando o Buddha dizia que seu ensino ia contra a corrente do mundo, muitos de então talvez não imaginassem como isso soaria dois mil e quinhentos anos depois.
Hoje, com todos os recursos que há para esculpirmos nossos corpos, sermos nossos corpos é inquestionável.

Mas voltemos ao ensinamento.
Enquanto confiantes no Buddha, praticamos examinar aquilo de que somos compostos, ou os entes materiais com os quais nos identificamos, trazendo para a luz da consciência a natureza medíocre da matéria que gostamos de esquecer: átomos e moléculas, que são só o que tem que ser átomos e moléculas.

Graças ao atual conhecimento sem igual de átomos e moléculas temos inúmeros recursos para moldar nossos corpos. Quase como os oleiros moldavam a argila em belos potes nos tempos do Buddha.

Podemos sentir dor quando quebra-se um pote do qual gostamos, ao qual estamos apegados, no qual projetamos sentimentos e sensações. Felizmente é mais fácil optar por estabelecer ou não uma relação assim com potes.
Com o corpo há a ignorância fundamental e o mundo que gira por ela a nossa volta nos mantendo a ser corpos muito menos maleáveis e dóceis que argila. Muito mais decadentes.
Nos falta opção?
Somos consciência e matéria. Seja lá o que forem tais coisas, é possível, a partir de nossa experiência, afirmar este mínimo da nossa existência. 
O Buddha nos deixou métodos, como os citados acima, para confrontar a matéria de forma direta e franca dentro de nossa experiência do existir e descobrir se há uma opção para existirmos menos sujeitos à sua mediocridade. De várias formas inclinamos nosso ser ao escrutínio deste ente com que tão arraigadamente nos identificamos até sentir profundamente se é, ou não, dolorosa e frustrante esta identificação.
Trazer à consciência a natureza nua de nosso corpo, contra tudo o que há para nos fazer esquecer, talvez seja o  que exerça, dentro do preciso e vasto ensinamento do Buddha, o papel de um poderoso motor a nos impulsionar contra a correnteza.

sábado, 24 de janeiro de 2015

tentação

Na manhã do último domingo de 2014 eu estava lendo Ensinamentos de Buddha, Ensinamentos de Cristo, livro do mestre tailandês Ajahn Buddhadasa, publicado pela Edições Nalanda, quando chamaram no portão os Testemunhas de Jeová. Eu estava bem inter religioso. Como sempre, ouvi, sorri, agradeci, fui legal... Eu realmente respeito pessoas boas, com boa vontade. Inegável a boa vontade dessa gente que bate nas nossas casas nas manhãs de domingo, de calor infernal inclusive. Calor que vem dando medo, se somado à decadência humana que nos chega por todas a mídias em todas as resoluções, dá pânico, na verdade. De repente tudo o que sempre soubemos revela-se verdade, mesmo! Somos roubados, enganados, dilapidados, explorados, feitos de idiotas todo o tempo, desde há muito. De repente tudo o que sabíamos que ia acontecer realmente acontece: o equilíbrio que nos possibilitou chegar até aqui foi abalado por nosso consumo alucinado de tudo que há e não há mais para ser consumido. Agora a terra começa a se relacionar conosco como o câncer que vamos sendo. 
E aquelas pessoas boas tem certeza de que tudo isso tem uma solução e é essa certeza que nos vem transmitir: esta esperança de que um mundo maravilhoso nos será restaurado para desfrute e deleite. Seus olhos realmente brilham, suas expressões serenas, vozes suaves, sorrisos amáveis. Eu presto pouca atenção nas suas palavras.
Agradeci, entrei com o folheto que anunciava a algo da forma de habitar aquele mundo com aquelas boas pessoas e me senti realmente tentado: seria realmente maravilhoso acordar a cada dia com aquela esperança, aquela certeza... um mundo perfeito num futuro tão aparentemente próximo... 
Seria por conta do clima de fim de ano? Ou do livro que estava lendo? Ou do clima de fim de mundo? 
Seja como for, foi que permaneci naquele estado por um tempo, um estado de querer crer, de esperar... Até balbuciei mantras de outros tempos, achei meu mala, pus no pescoço... Mas passou.
Passou, porque tudo passa se a gente deixa. E passam mais rápido coisas com as quais desafinamos. Meu desafino com as verdades duvidosas é desde que me lembro de mim. Guardo de uma palestra em que o Bhante Mudito disse que a um buddhista uma qualidade essencial é "querer saber a verdade, por pior que ela seja", me confirmou mais isso que eu já sabia: meu caminho é este que está por aqui e não tem jeito. Não me convencem outros poderes que não meus próprios feitos, outras bençãos que não minhas intenções, outras ajudas que não os dedos que apontam o caminho. Só acredito que há uma verdade, só espero um dia encará-la. Talvez a única exceção para essa paixão pela verdade seja com respeito à minha conta bancária. Evito ao máximo saber dela no momento.
No final é essa mente instável, sujeita a tentações deste tipo e de outros, reveladora da fragilidade e inconstância de nossa ilusão de posse e controle de um ego, é este prestar atenção e saber um pouco do que de fato vai ocorrendo que acabou por permitir passar o desejo por uma fé que fosse, que trouxe os pés de volta à trilha, que me lembrou de seguir aceitando ser o cão de palha, que no final das contas me parece ser a grande salvação.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

apague a lanterna, cuide do seu barril

deve ter sido maravilhoso conhecer o Buddha. 
não diga! sério!? você pode ironizar... mas deixa eu continuar...
maravilhoso não só por ele ter sido o Buddha. digamos que não fosse, penso só numa característica que acho fazer valer esta minha afirmação: o Buddha era o que ensinava.
estamos nós de tal forma (talvez desde quando dormíamos e pulávamos em galhos) submersos num lamaçal de hipocrisia que, só por isso, o Buddha descrito já é um tesouro.
não vamos falar de políticos, nem da mídia, que aí é lama além da conta e podre, a gente desiste, ou quase (nem falemos de grupos de chimpanzés). ficando no dia a dia (caso você não esteja cumprindo as ordens da política nem da mídia) quantas pessoas você conhece que são o que dizem? minimamente? quantas pessoas correspondem a uma boa impressão que causem num primeiro encontro? no sentido de caráter.
no trabalho, por exemplo, quantas pessoas admiráveis você conhece e, caso tenham algum sucesso, sabe que chegaram lá graças a terem praticado o discurso que pregam hoje? não sei quantas pessoas assim seriam necessárias para um mundo melhor, por mim, conhecer uma já me faria menos triste...
e dariam algum sentido à junho de 2013...
e isto se aplica a todo tipo de convívio humano.
em religião, por exemplo. esteja preparado, seja em qual credo você estiver, para decepções em série.
estou caminhando para vinte anos de envolvimento com o buddhismo, num interesse sempre crescente, numa certeza cada vez mais prazerosa, mas em grande parte por vir neste caminho, pelos últimos dez anos, com base naquilo que encontro, ou que na maior parte me é apontado, do dhamma considerado o mais próximo do Buddha, os suttas do cânone antigo. é lá que no último discurso Ele afirma que não haverá pessoa que O suceda e que cada um dos seus seguidores deve se tornar um refúgio para si mesmo. quer dizer, sua medida, enquanto praticante do Buddha Sasana deve ser sempre o "o que eu digo versus o que eu faço". e esteja preparado para as decepções com você mesmo, mas com a diferença de que com respeito a estas você sempre pode fazer alguma coisa e, principalmente, obter resultado.
deixe o diógenes.
apague a lanterna e cuide do seu barril.

domingo, 29 de junho de 2014

controle


num texto que li de palestra de ajahn chah, do qual não me lembro o nome mas está por aí, ele diz que alguns vez ou outra o questionavam sobre aparentes contradições no que ensinava. ele explica, então, que era assim mesmo: esse precisa ir mais à direita, o outro mais à esquerda. e aquele, quando começa a ir demais pela direita é preciso que volte pra esquerda... e vice-versa. 
fato é que o caminho do Buddha é simples assim: esteja atento ao agora! coisa que é tremendamente complicada!
eu, nessa vida há algum tempo, tenho aprendido a perceber as ordens: há momentos em que devoção faz falta e eu busco refúgio com mais intensidade... noutros que a mente está mais saltadora que o (a)normal: hora de concentrar. estudando demais? fico sem fazer nada, contemplando o tédio... 
percepção que se nutre da introspecção, é óbvio. mais um tanto de rendição, não tão fácil pois que o mundo demanda controle! direção! ação! mas a natureza condicionada e incontrolável, desconhecida e misteriosa, o assombroso desequilíbrio que é estar vivo... aqui, talvez caiba um parêntese: (aquela história de ser atraído ao buddhismo pela expectativa de controlar a mente? é bom rever...).
acabo de ler um ensaio do livro recém lançado pela path press publication, meanings, livro do qual eu certamente vou falar muito por aqui (estou no terceiro ensaio, mas voltando ao primeiro... um livro para ser lido muito, muito lentamente acompanhado de muita, muita reflexão introspectiva...): existence means control (existência significa controle). basicamente: se o engodo do controle é enchimento do existir, existir é dukkha. bom... li só uma vez... ainda ruminando...

***

...estar atento ao aqui e agora. tão repetido que a profundidade a que deveria conduzir nem sempre conduz, talvez... 
uma implicação: a ambição de encontrar um início para tudo! de onde isso veio? como isso começou? e quem criou deus? 
estar atento ao aqui e agora é abrir mão dessa obsessão e mergulhar no que ocorre, seja lá o que for...

terça-feira, 18 de março de 2014

aquele alguém especial

todo mundo tem alguém especial. 
é isso? deve ser... se não todo mundo, ao menos eu tenho: aquela pessoa que me lembra, a cada encontro, que estou longe de ser o que penso, ou que gostaria de ser. aquela que me lembra do caminho sobre o qual gosto tanto de escrever.
aquela pessoa, tão desprezível se me apresenta, tanta aversão me desperta, me traz à realidade de que metta sobre a almofada é outra coisa. na ordinária vida fico feliz por não lhe desejar mal. é o que dá para fazer.
constrangido diante de mim mesmo lembro do sutta em que o Buddha afirma que não será considerado seu discípulo aquele que mesmo tendo seus membros serrados nutrir ódio pelos serradores. olho para o infeliz na minha presença e lhe desejo felicidade proporcional à distância que se mantiver de mim. e, sempre, que tenha um bom renascimento.
preferencialmente do outro lado de qual mundo seja que estivermos dividindo.
meditar em metta me parece ser paralelo às práticas tântricas de trazer o resultado futuro para o momento presente, quando tantristas se visualizam como seres puros, habitando mundos puros. sentado na almofada, distribuindo amor aos seis cantos, é estar neste estado ideal. 
mas a vida é a vida.
e não é só uma questão das pessoas que se tornam especiais daqui para a frente ou pouco antes. tem aquelas que marcaram e, até que possível o contrário, estão imperdoáveis. 
há coisas que só se perdoa sobre a almofada. ao primeiro encontro ou lembrança: é, ainda está longe o despertar!
catastrófico quando tais marcas são impressas por aqueles a quem temos o dever de amar, que idealmente serviriam de parâmetros para que desenvolvêssemos amor por todos os outros: nós, os pais. estes seres que podem ser tão terríveis. aí a dificuldade de perdoar em todo seu poder de frustração. 
ó vida.
devo me ater a este estado (miserável) de coisas? suportarei este encarar a dificuldade do perdão? que outra opção além de sentar, ou nem sentar, e me imaginar amando o mundo...? fazem bem esses momentos, é fato. isso já bastaria mas, além, é treino recomendado expressamente pelo Buddha como condutor ao nibbana, ao fim final, àquele estado em que amar, não amar, perdoar, não perdoar serão questões sem sentido...
é acreditar e seguir em frente e, no final das contas, grato à toda pessoa especial.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

que cheiro é esse?

parte das últimas palavras de um mestre da tradição das florestas da tailândia, luang pó piak, neste vídeo foram: "se quiser praticar pra valer contemple seu corpo e mente como sendo anicca, dukkha, anatta". ele responde à última pergunta das feitas por brasileiros e levadas a ele por iniciativa louvabilíssima do bikkhu mudito, monge brasileiro naquela tradição. perguntou-se se a prática de atenção plena, ou vigilância, ou presença mental, ou outra tradução que seja para a palavra pali 'sati', seria uma "prática de verdade", se "dá algum resultado". a resposta do mestre foi clara.
aquela pergunta revela parte do que compõe nossa dependência doentia da graça. nossa, de inutilidade difícil de perceber e de assim a reconhecer, procura pelo mágico. não sabemos o que ocorre aqui e agora, mas somos obcecados pelo que vem depois. e, ou, queremos algo especial, como explana o venerável sumedho neste magnífico texto. (texto não mais disponível no site. se eu reencontrar corrijo o link)
nada de mais é observar este corpo que decai momento a momento, sujeito à morte, à dor. esta mente que pula, esvai, turbilhona. estas sensações que atam. esta liberdade obediente à soberana ignorância. 
quando finalmente compreendermos o discurso do fogo...
até lá, vamos enfeitando tudo, até a prática do dhamma, que deveria levar ao desapego, ao desencanto, ao desapaixonamento. que deveria estar voltada para a completa percepção da mediocridade da vida, para então partir em busca de outra coisa. mas não, ainda encantados pelo mundo saímos em busca de um encanto maior, concebemos uma fonte de bênção que nada mais é que reflexo desta mesma condição desgraçada, mas embebida no perfume que ideamos. 


domingo, 19 de janeiro de 2014

change

das muitas perguntas da música uma é especialmente boa: se você soubesse que é capaz de descobrir uma verdade que trará uma dor que não pode ser aliviada você mudaria? canta tracy chapman em 'change'.
muito pertinente para um buddhista, uma poética versão da questão das pílulas de matrix. 
para quem leva a sério o Buddha Sasana o caminho passa longe da turma que dança pelada sob a luz do luar... 


antes da liberdade, uma vistoria meticulosa na prisão da vida.
antes da felicidade um escrutínio corajoso pelos mecanismos e origens da dor.
antes da verdade iluminadora um mergulho na escuridão uterina da mãe ilusão.
antes da plenitude um pavor diante do vazio abissal.

um trincar os dentes até que o medo passe. 
nem fugir, nem lutar.
um ficar de olhos bem abertos e fixos resistindo a dormir ou a ver tv...

um caminho para qualquer um. nada especial.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

rolezinho pelo Buddhadhamma

vira e mexe me deparo com alguma afirmação sobre um buddhismo ocidental em construção, e mesmo buddhismo moderno. acho isso uma grande bobagem, por um certo ângulo. 
o buddhismo é buddhismo, foi o que o Buddha ensinou e somos os mesmos da índia dos tempos do Buddha. os fenômenos continuam sendo anicca, dukkha e anatta.
por outro lado não é uma bobagem porque diz respeito às adaptações culturais que fizeram surgir inúmeros buddhismos pelo tempo e espaço. e aí eu simplesmente não me importo.
agora, há um aspecto cultural que talvez seja relevante discutir: a questão da autoridade, da centralização. esta coisa que está sendo diluída pela sociedade em rede. 
autoridades buddhistas, vamos falar especificamente de buddhismo porque sobre outras autoridades há farto material a ser estudado pelo bom leitor que gosta de refletir (a imprensa, os governos, até os shopping centers!!). então, autoridades buddhistas, sejam monásticas ou não-monásticas, num tempo que não volta mais publicavam seus textos e o papel ia para a mão de seus admiradores e alunos, cada autoridade publicava para a sua escola e seguia tendo retroalimentada a sua autoridade. se interessavam pelos textos aqueles que se interessavam e ponto porque ninguém gasta dinheiro com o que não lhe interessa. pelo menos os que tem pouco, como eu. os curiosos e/ou mal informados iam seguindo curiosos e semi-informados.
hoje mudou.
uma autoridade publica um texto na rede, e como de graça até injeção na testa, todo mundo lê. aí começa a encrenca, porque o questionamento surge, o diálogo se insere e a autoridade é posta na mesa. no meio buddhista, apesar da ausência de deus, esta questão ainda parece não estar sendo digerida. bom, na verdade esta questão é indigesta no geral, mas talvez, no buddhismo venha a ser um pouco pior por conta do estereótipo do dono da mágica, do sábio que fica no alto da montanha esperando que surjam seres aptos a beber de seu precioso néctar. 
um aspecto divertido disso, e mesmo um pouco paradoxal, é que o próprio Buddha estimulava o diálogo e o questionamento, me parece que há uma regra no vinaya, a disciplina monástica buddhista, que determina ao monge que este questione aparentes equívocos cometidos pelo seu  mestre, daí que, sendo isso verdade, o buddhismo dá mostras da sua atualidade (vocês três que leem este blog, pesquisem aí para nós, valeu?!) e, voltando lá  em cima onde eu comecei, modernizações podem não ser necessárias.
mas voltemos a onde estamos. 
então, parece que professores buddhistas precisam refletir sobre isso: uma coisa é uma situação onde a pessoa se põe sob treinamento e orientação prática. se eu estou meditando sob direção de um professor que me diz: isso é ISSO e faça ISTO. seria uma estupidez da minha parte começar com "teacher, mas isso não poderia ser isso... ou talvez até aquilo...?" e perder nosso, meu e dele, precioso tempo. outra coisa é publicar pensamentos, ideias e interpretações e esperar que isto seja saudado como fina sabedoria por todo o mundo.
não é mais assim. e isto implica que antes de tornarmos públicas as nossas ideias é preciso que, ou saibamos que nossas ideias tem pouca importância e tudo bem se alguém resolver se dignar a gastar seu tempo nos provando como somos tapados, como é o meu caso, ou precisamos estar certos de sermos plenamente capazes de defender  o dito ou escrito no caso de alguém nos honrar com importância.
estamos surgindo como um grande composto pensante, conectados, interdependentes, condicionados, sem centro. exatamente como ensinou o Buddha.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

the book is on the table. and i will translate it.

um amigo de dhamma me disse que poderia ser útil para alguns falar um pouco do meu hobby de tradutor de textos buddhistas. all right.
para todo aquele que deseja traduzir, me parece óbvio que a leitura é fundamental. seja do idioma a ser traduzido, seja do para o qual vai traduzir. quando cheguei ao theravada já estava praticando e estudando buddhismo e meditação no que havia disponível próximo de mim: um centro mahayana, buddhismo tibetano. mas minha natureza de buscador me impulsionava a cavucar as raízes daquilo. a cada menção que lia a respeito de hinayana e, menos vezes, de theravada, atiçava meus interesses, eu levantava as orelhas e abanava o rabinho.
aí me surgiu a internet. me embrenhei na mata e vi que a maior parte do material que havia sobre o theravada está em inglês. há um pouco em espanhol também. o que fazer? eu tinha estudado inglês havia um tempo, mas o impulso veio quando, tendo feito contato com o professor ricardo sasaki, do centro de estudos buddhistas nalanda, ele me perguntou se não gostaria de traduzir um pequeno texto para publicar na rede. topei. havia um programa tradutor no pc, então vamos ver no que dá.
os primeiros resultados foram fraquinhos, mas tive mais facilidade do que esperava. entregando o primeiro pedi mais um e depois outro e outro e não parei mais.
vou ficando menos ruim com o tempo e hoje leio muito mais em inglês do que em português. claro, com a ajuda da tecnologia atual. então, passando efetivamente para o que realmente pode ajudar, vou compartilhar as minhas ferramentas e modo de trabalho.
leio principalmente num tablet android com os seguintes apps: https://play.google.com/store/apps/details?id=tool.ebook.pdf.reader https://play.google.com/store/apps/details?id=org.pdf.and.djvu.reader  https://play.google.com/store/apps/details?id=org.ebookdroid
estes apps me permitem muitos recursos tais como marcar trechos, comentar, fazer anotações...
e o melhor dicionário gratuito que encontrei me ajuda com palavras e expressões que meu ínglich não alcança: https://play.google.com/store/apps/details?id=com.akdevelopment.dict.enportug2.free
quando um texto me é enviado para tradução, ou eu escolho um para traduzir, eu uso o https://support.google.com/translate/toolkit/answer/147809?hl=pt-BR uma paltaforma de tradução disponível para todos que tenham conta no google. acho excelente, é cheia de recursos dos quais não utilizo nem um terço. somo a ele um plug in do navegador firefox chamado im translator, muito bom também e com um bom dicionário.
para ajuda com o português eu uso http://aulete.uol.com.br/ tanto na versão on line quanto a instalada no pc fora outros incontáveis dicionários e tradutores on line que abundam na rede quando algum destes que citei não me convence.
então é isso.
se alguém deseja contribuir para a difusão do dhamma no brasil e ainda não sabia como, aí está minha humilde dica. de quebra ainda faz um improvement no english.
the book is in the tablet.

sábado, 31 de agosto de 2013

reinos

conversava outro dia com um colega evangélico. ele me chegou com uma dica de vídeo de um pastor de quem gosta e a conversa foi até onde eu passei a tocar num assunto que me incomoda: o silêncio, ao menos aparente para mim, da sincera, correta e séria comunidade evangélica e seus líderes com respeito àquilo que tem contribuído para um conceito se avultar no imaginário de uma parcela da população, a saber, numa forma educada: os evangélicos, quando não são ingênuos, são desonestos. 
a mesma provocação eu fazia vez em quando a um senhor que comigo trabalhou e é pastor, fundador de uma denominação, inclusive. um senhor honesto, trabalhador, cumpridor. apesar de aposentado, sempre cioso da necessidade de conciliar seus compromissos religiosos com os do trabalho. e ele travava quando eu tocava no assunto dos casos notórios de enriquecimento absurdo de líderes evangélicos, por exemplo. era perceptível o incômodo mas ele tergiversava e dizia que cada um conduz a obra ao seu estilo... eu lamentava. e elucubrava a respeito da raiz da dificuldade.
e o meu interlocutor de então também patinava no mesmo ponto. hesitava em fazer críticas ou reconhecer mesmo o óbvio ululante. e eu insistia em que há a necessidade de uma resposta ativa a fatos evidentemente absurdos do seu mundo religioso.
coincidentemente, na manhã seguinte, em minha caminhada pelas veredas virtuais me deparo com isso: 
 que me explica um pouco mais do complexo e grave imbróglio em que vejo estar o protestantismo. 
este pastor, na minha opinião uma das figuras mais lamentáveis do cenário religioso nacional, se as informações constantes no site supralinkado forem verdadeiras, continua em sua cruzada de aversão baseada em ofensas toscas, impropérios afetados e exploração, via teatral destempero emocional, dos que são vítimas de sua presença canastrona. este senhor, pelo que se lê, tenta me ofender enquanto ateu e consegue me entristecer enquanto religioso. enquanto ateu são claras as tentativas de ofensa e me incomodam até o ponto em que concluo que ser ofendido por ele é quase um elogio. me entristece enquanto religioso porque trabalha, estúpida e ferozmente, pela destruição da religião, de todas as religiões, pois que o seu discurso distorce o próprio sentido do que é religião, seu discurso agride o exato espírito da religião quando sua filosofia desvia a atenção de seus ouvintes e fiéis para o exterior, inventando um mundo inimigo. aquela luta religiosa que é essencialmente travada no interior do crente é ignorada e transferida para fora, o mal passa a ser o outro. e só o outro. e aí entendo porque nesta visão de mundo as recompensas que buscam só podem ser da mesma ordem. é a superficialidade de pensamento que me parece característica do fanatismo. o fanático sendo incapaz de encontrar no seu interior aquilo que busca, precisa ser no mundo o que não encontra e o faz pela força da sua própria frustração. o fanático é vítima da inépcia introspectiva e torna-se o tirano quando alimenta e explora esta mesma incapacidade no outro. é o poder da teologia da prosperidade material.
é da natureza da matéria não satisfazer ao espírito. o reino do espírito não é deste modo. este é um reino fundado na carência e constituído de mentira, um reino frágil. uma fragilidade que precisa ser reconhecida mas que, até agora, me parece, estranhamente, ser só temida.

sábado, 6 de julho de 2013

dukkhinha quer ir pro espaço

numa animada conversa familiar sobre política, mídia e outras mazelas humanas, dukkhinha, se feliz ou infelizmente é algo a se pensar, com seu jeito de coruja observava tudo de um canto.
na volta pra casa, diz: acho que é por isso que quero ser astronauta, pra escapar desse mundo...

cacetada!
e agora? pensa o pai...
pensa o pai...

e diz:
carinha, não é bem assim. posso dizer uma coisa? olha, eu acredito que não é desta forma que se escapa do mundo, assim não dá certo. isso tudo de que nós estávamos falando lá, é de nós mesmos, não é que eles sejam o mal e nós o bem, somos todos humanidade, para onde nós formos vamos carregar isso com a gente. a forma de escapar é pela compreensão. a gente tem que mergulhar a compreensão neste mundo e ver através dele...

hmmm...

e a gente vê através do mundo quando se esforça em olhar pra dentro da gente. aí a gente começa a ver que muito do que parecia estar lá fora, na verdade sempre esteve aqui dentro... esta semelhança que vai surgindo é como ver através, e isso, eu acredito, é começar a escapar de verdade, sem precisar fugir daqui...

hmmm... acho que entendi o que você tá dizendo...

...

vamos comprar uma pizza pra comer com a mãe?
vamos!
beleza.






quinta-feira, 20 de junho de 2013

estamos fazendo bonito

coisa de um mês atrás eu dizia no café que acredito no poder da rede, no poder do conhecimento. dizia que acredito que mudanças ocorreriam, ainda que lentamente, movidas principalmente pelo acesso irrestrito à informação que a rede oferece. o assunto era os preços do brasil, de coisas como carros, por exemplo, custarem tão insanamente mais caro aqui. numa conversão simples, um carro pelo qual se paga setenta, oitenta mil reais aqui, lá nos eua pagariam o equivalente a quarenta ou trinta, me diziam. numa conversão mais elaborada, talvez vinte... o que vale para carro valendo para outros bens de consumo. aí eu disse que o fato mesmo de estarmos ali conversando e dividindo conhecimento era sinal de alguma lenta mudança ocorrendo. 
eu me creio exemplo. 
antes da rede, me contentava com o buddhismo que chegava a mim, eu com poucos recursos e morando em cidades pequenas, sempre um pouco descontente. com a rede eu fui ao dhamma que escolhi e nele mergulhei. minha qualidade de vida deu um salto como nunca antes na história deste país. embora a rede não substitua o valor de um contato pessoal com mestres, a quantidade de material disponível pode compensar na dependência decisiva do empenho do aluno.
assim, então, afirmava eu, contra alguma descrença geral, que acreditava, ao menos naquilo que diz respeito a consumo, que mudanças viriam: teríamos bens cada vez melhores e mais baratos, aos poucos deixaríamos de subsidiar, pela nossa estupidez, a bonança alheia.
mas eis que somos todos pegos de surpresa por esta maravilhosa onda de protestos pelo brasil afora! inteligentemente organizados num momento preciso e perfeito via rede! eu não estava sendo otimista, então! fui modesto. 
quem imaginou que a pátria fosse tirar as chuteiras e por os pés no chão, no nosso chão tão sujo? 
surpresa para mim e para todos, está acontecendo: a beleza exibida pelo talento inquestionável do menino neymar não será mais do que é: diversão, uma bobagem que queremos apreciar sim, mas do conforto de uma vida digna, sob o governo de gente decente. parece que estamos meio indiferentes a um placar de goleada somado a uma bela exibição em campo. para tristeza do pelé. parece que o rei ficou nu.
a qualidade de vida que o dhamma me proporciona se faz, entre muito mais, pela aniquilação impiedosa da minha ingenuidade. não esperar um mundo melhor mas reconhecer a necessidade funcional de um mundo menos ruim é a sabedoria que vou adquirindo. é claro que neste movimento todo há bandidos, há vontades escusas que vão se imiscuir. há interesses políticos sendo plantados e colhidos. vão querer transformar isso em dinheiro como sempre. a grande mídia, tomada de pânico por sairmos na rua para o mundo ver, (deu no nyt!) já, ainda que meio atabalhoada, tenta capitalizar a ameaça de descapitalização, os governos rapidamente cedem no que foi fácil na esperança de que se esqueça o difícil, a saber, que governem. haverá gente mais inteligente e tão cheia de dinheiro quanto o ronaldo pedindo para que nos concentremos em apoiar a nossa seleção, que pensemos na copa e nas olimpíadas, tentando nos convencer de que estádios e sinalizações em inglês são tão importantes quanto hospitais e escolas, tentando nos convencer de que somos um povo alegre e festivo, que o mundo quer de nós a nossa hospitalidade indígena, nosso gingado africano... mas parece que, num oferecimento de mustela putorius furus, vão furar,  parece que a nossa preguiça - goodbye, macunaíma... - nos enjoou, estamos levantando, não estamos mais engolindo, hein, zagalo?...

peraí... meu alarme anti-polyana berra a pergunta: será? não sei, vamos ver no que dá. mas, prá começar, acho que estamos fazendo bonito

quinta-feira, 13 de junho de 2013

à revelia

No buddhismo tibetano, estudando e praticando sob a abordagem do Lam Rim, eu meditava e contemplava o renascimento nos infernos. Haveriam diversos infernos frios e quentes ao extremo e a instrução é para que sejamos o mais detalhistas possível com respeito a visualizar os tremendos sofrimentos que lá se passa.
Eu tinha grande dificuldade com esta meditação.
O objetivo da prática, até onde me lembro, era gerar o medo de cometer ações que levassem a tais renascimentos tanto quanto servir de ilustração para o que é o saṃsāra e ajudar a fomentar o sentimento de renúncia.
Uma vez que creio em renascimento, ou pelo menos considero tal possibilidade, pensar no inferno tem lá seus momentos de eficácia. Mas com respeito à ir gerando alguma renúncia, quase sempre me basta olhar por dentro e em volta do que ocorre aqui mesmo.
Existo à revelia não é de hoje. E sendo assim, não há outra vida que me seduza após esta aqui, podem vir com o paraíso que for que dispenso sem hesitação, podem me prometer ser um deus qualquer, tô fora! Então, porque cargas d'água ainda não despertei do pesadelo do saṃsāra? Porque não basta não querer renascer em outra vida. Isto, aliás, eu acho que é até comum, o ó do borogodó é desistir de renascer nesta aqui!

domingo, 26 de maio de 2013

o pior cego

"O pior cego é o que quer ver."
Millôr Fernandes

"Tanto antes como agora, o sofrimento e sua cessação eu proclamo."
O Buddha

O Buddha ensinou só duas coisas. Coisas que não queremos ver. 
Uma, o sofrimento, a palavra original é dukkha. O consenso é que 'sofrimento' não é uma tradução perfeita, com o que eu concordo. Já fui quase convencido de que não é a menos ruim, mas por hora acho que é sim a menos ruim. Volto a isso num outro dia.
Evidente que não queremos ver o sofrimento, não queremos envelhecer, adoecer, morrer, perder,  sofrer.
A outra coisa que o Buddha ensinou, a cessação do sofrimento, também não queremos ver. Parece que queremos, mas acho que não. Já estive na presença de gente que 'só queria que essa dor passasse', mas aí é no fim, no extremo, quando não há mais o que fazer. Na maior parte das vezes, enquanto há o que fazer,  o que queremos é substituir dor por outra coisa. 
Pela cessação, pelo apagamento, pelo nibbāna talvez leve tempo para nos interessarmos.
Enquanto isso vamos tateando, cegos por ver demais, vendo o Dhamma do Buddha como queremos ver.

terça-feira, 16 de abril de 2013

é água, moço?

estou recebendo treinamento de combate a incêndios e de primeiros socorros. 
numa parte do treinamento foi exibida uma reportagem do fantástico sobre a condição precária dos bombeiros pelo brasil a dentro. 
num dado momento, a coisa exibe um nível de surrealidade que só aqui neste quinto dos infernos é capaz de chegar, levando em consideração que somos sede das próximas copa e olimpíadas. numa cidade de não sei onde nestas terras, um caminhão destinado a limpeza de fossas é solicitado a descarregar o conteúdo de seu tanque nas chamas de um incêndio por ser o recurso mais eficaz disponível para a situação, e a primeira vez não fora esta diante das câmeras. desgraça absoluta ganhou alguma graça, pois que nisso somos um povo campeão, quando o operador, com seu belíssimo sotaque nordestino, narra sua desventura: "...aí me perguntaram: é água moço? e digo: não, é fezes!".
claro, gargalhei como bom brasileiro.
como buddhista radical, a metáfora explodiu na minha cara: mas não é mais ou menos isso que estamos a fazer constantemente com as chamas do mundo? não é com recursos parecidos que nos lançamos ao combate do incêndio onipresente que nos anima?

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

cem dúvidas, com certeza

paccatta veditabbo.
esta frase, vai que você, assim como eu, entenda quase nada de pāli, significa que o ensinamento do Buddha deve ser experimentado e realizado por cada um, cada um contínuo processo de mente e corpo. e as palavras, os textos, os amigos e os professores são indispensáveis para a maioria de nós. dito isso, passemos à iconoclastia.
desde que terminei de ler o 'confissões de um ateu budista' eu queria falar da minha iconoclastia congênita, sair do armário, embora sempre tenha deixado pistas por aqui, ui!  e o mote final veio no último domingo quando li sobre mais um escândalo sexual envolvendo um respeitado mestre buddhista nos eua. a coisa está triste e feia para ele. não vou dizer quem ou a tradição pois isso é um problema nosso acima de qualquer outra coisa. e penso que o Buddha tenha deixado estratégias capazes de, dentro da Sua disciplina, prevenir tais desvios.
o Buddha foi um mestre religioso que tinha a postura do 'duvide de mim'. o kalama sutta, dos meus preferidos, é o paradigma desta posição. há também uma passagem da qual eu gosto bastante narrada por ajahn chah em que o Buddha pergunta a um dos seus principais discípulos, sāriputta, se este acreditava num ensinamento que havia acabado de receber do mestre, sāriputta disse que não, que precisava por a prova antes, e o Buddha louvou sua atitude.
há outros pontos.
antes de tornar-se Buddha, o jovem andarilho teve ao menos dois mestres aos quais abandonou após concluir que não estavam corretos. e, finalmente uma passagem importante para a minha opinião, quando próximo de Sua morte foi perguntado por ānanda, seu assistente e responsável pela transmissão futura de muitos sermões, quem assumiria Seu lugar como o guia para a comunidade, o Buddha disse que seria o Dhamma, nenhuma pessoa, mas o Dhamma. pode pesquisar.
se precisamos de algo para nos agarrar, muitas vezes o encontramos numa crença, numa fé, numa pessoa. o que o Buddha dizia sobre a fé? que era algo útil desde que sempre posta a prova e alimentada empiricamente. e ninguém desperta ninguém, nem o Buddha. o guia aponta o caminho. só o conhecimento pessoal, direto é o que desperta, e tal conhecimento não é possível se soterrarmos nosso senso crítico, analítico, nosso bom senso sob uma montanha de fé. a fé pode gerar ou alimentar no discípulo o engodo de que um mestre pode fazer o que nem o Buddha fez, e num mestre pode gerar a crença de que ele seja capaz de tamanho milagre. perigoso isso, como atestam os vários casos de abuso por parte de professores buddhistas.
bons amigos, bons professores são necessários. mas os bons e, no caso, bons pelos critérios do Buddhadhamma. um destes critérios eu entendo como 'pode duvidar de mim' e, como comecei lá em cima:, nos cabe o paccatta veditabbo. mas dá trabalho isso. temos que nos esforçar, estudar, desafiar nossas crenças sobre tudo, incluindo nós mesmos, nada tão fácil como crer e confiar cegamente e esperar por uma luz que nos ilumine. mas o que pode surgir disso é uma mão que nos boline.
esta postura tem manifestação em diversos níveis. em listas e grupos de discussão abertos pela rede, e em presenciais da mesma forma, sempre há as pessoas dependentes de crer acima de tudo. tudo que é dito por uma autoridade ou meramente um nome oriental é imediatamente louvado e sorvido com gosto. frases de power point atribuídas ao dalai lama e outros carismáticos mestres, muitas vezes equivocadamente note-se bem, fazem tremendo sucesso. pois bem, foi num grupo virtual deste tipo que um texto foi publicado e saudado como excelente. eu fazia parte do grupo.
aprendi uma metáfora, no buddhismo tibetano, que nunca esqueço: numa tina de água límpida, pingue uma gota de excremento e ofereça para ver se alguém bebe da água, ainda que clara e fresca. no tal texto em questão eu apontei que havia não uma gota, mas uma boa colher de sopa. iniciou-se uma discussão agradável, onde nenhum dos erros que apontei, nenhum dos meus argumentos foi refutado, mas onde se concluiu que o texto era excelente porque foi tal mestre que escreveu, logo só podia ser excelente. e eu, talvez por ser um mero silva, um furtado de sabedorias, estava claramente tomado por impurezas mentais agindo como o arauto da discórdia. ponto final.
sempre procurando estar cônscio da desgraça de ser humano entre humanos, dei de ombros e fui.
pensando em retrospectiva, este me parece ser um exemplo claro, em escala embrionária, da mentalidade que gera os escândalos: a pessoa acima do óbvio, dos registros dos suttas, do bom senso e de qualquer argumento.
incapaz de confiar em qualquer um que diga confie em mim plenamente, em grande parte sou buddhista justamente por isso. e, quando confio, confio agora, amanhã é outro dia.
alguém que afirma conhecer a verdade não deve ver problema em que duvidem dele, como fazia o Buddha. acho que seria bom se muitos buddhistas lembrassem sempre disso, mestres e alunos.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

francamente

uma característica que os meus conviventes me imputam é transparência. alguns dizem que gostam por saber o que eu penso, outros não dizem nada. alguns dizem que 'eu só digo a verdade'. obviamente que esta última afirmação é um exagero, dissesse eu somente a verdade estaria vivendo feliz num eremitério, coisa a que minha capacidade de ser feliz ainda não chega. dependo de uma omissão ou outra, uma concessão aqui, outra ali...
mas, ainda assim, busco o compromisso com a sinceridade, comigo e com minhas relações.
vez ou outra alguém lacrimeja, enrubesce, se afasta ou se assusta. mas quase sempre os pedidos por minha opinião sobre situações ou assuntos continuam, mesmo daqueles de uma forma ou outra contrariados. continua existindo, apesar de toda a predileção por panos quentes, a consciência do poder terapêutico do banho de água fria.
e esta sinceridade com outros é a parte fácil, apesar de tudo. difícil é ser consigo próprio. talvez este o maior desafio para um buddhista: conciliar aquilo que ele vai percebendo, na medida em que sua prática resulta, com aquilo que vê da vida com seus olhos ainda empoeirados. conciliar a limitada capacidade de ser feliz com o entendimento cada vez menos impreciso do que possa ser a felicidade.

domingo, 6 de janeiro de 2013

navegar é preciso

é muito difícil falar sobre sofrimento, sobre dukkha. para a maioria das pessoas, quando você fala em sofrimento você logo é interpretado como alguém que tem algum encosto, ou é deprimido, ou é infeliz, ou é rancoroso, ou precisa se tratar de alguma forma, ou é só chato mesmo. uma chatice mórbida.
mas dukkha, o sofrimento, é cinquenta por cento do que o Buddha afirmou ter ensinado sobre. bom, parece que meio Buddha tinha algum tipo de problema. e grave.
mas não é isto que pensam do Buddha, claro. pelo menos não nós, os buddhistas.
por que não? porque o ensino do Buddha não é uma exaltação do sofrimento, Ele não proclamou a existência absoluta da dor, Ele não queria ser um chato. ao contrário disso, Seu ensino é de libertação, é de cessação de todo tormento, é de consecução da paz plena e completa, por mais que muitos duvidem. e suspeito que não é só não-buddhistas que duvidem disso...
o sofrimento, ou pelo menos aquilo que assim entendemos como, é algo bastante óbvio, certo? quem não sabe que o sofrimento existe? até minhoca sofre. mas o Buddha dedicou metade do seu ensinamento só a este fato óbvio e conhecido até pelas minhocas. estranho isso? não para  muitos, aparentemente. 
muitos não pensam nisso, muitos não pensam em sofrimento, é chato, é mórbido, é coisa de deprimido.
o bom, o ótimo é falar de libertação. de preferência dispensando a outra metade do ensinamento, aquela da qual, afinal de contas, até as minhocas sabem.
o Buddha desperdiçou metade do seu tempo, ao que parece. esta é a conclusão inevitável a que chegamos.
eu não. não é concebível para mim que o Buddha tenha dedicado metade do seu tempo ao óbvio.
e eis a grande sabedoria e poder inigualáveis do Buddha: ele percebeu que o grande trunfo do sofrimento é o fato de as pessoas usarem de todo tipo de estratégia, e são inúmeras e de ótima qualidade, para evitar pensar nisso.
como o grande trunfo do diabo: fazer com que não creiam nele.
por isso o Buddha dispendeu seu sacratíssimo tempo a ensinar sobre o sofrimento. analisá-lo, expô-lo, dissecá-lo em minúcia até revelar sua verdadeira dimensão e abrangência que vai muito além da compreensão das minhocas. e é disso que surgiu Sua completa libertação, do mergulho naquilo sobre o que o resto do mundo navegava. e ainda navega.
mas chega.
não falemos mais disso.
disse o grante poeta: navegar é preciso, viver não é preciso.
exato. exatíssimo.
viver é mergulhar, é cumprir a tarefa, e ver-se impermanente, insatisfatório, vazio, é escrutinar a dor até ser-se a dor, é olhar nos olhos de mara e sorrir.
mas quem precisa disso quando se pode ser feliz como o são as minhocas?

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

aqui estou, mais um dia

no fim do ensaio 'the taste of freedom', bikkhu bodhi diz:

Em sua plenitude, a liberdade para a qual o Buddha aponta como a meta do Seu ensino só pode ser experimentada por aquele que conquistou a realização da meta, algo que diz respeito a sua vívida experiência pessoal. Mas assim como o sal empresta o seu gosto a qualquer comida que tempera, assim também o sabor da liberdade penetra toda a Doutrina e Disciplina proclamadas pelo Buddha, no começo, meio e fim. Qualquer que seja o grau do progresso em que estamos na prática do Dhamma, na correspondente extensão pode o sabor da liberdade ser sentido. Sempre deve ser levado em consideração, contudo, que a liberdade verdadeira — a autonomia interna da mente — não surge como um presente da graça. Só pode ser obtido pela prática do caminho que conduz à liberdade, o Nobre Caminho Óctuplo.
mas tem dias terrivelmente quentes em que você acorda suando. ainda que sem saber o que é caminhar sob a mira de uma hk, sente que está verdadeiramente emaranhado. o calor, pequenas coisas, a coprofagia da sua yorkshire, um conflito que surge entre a renúncia e o sorvete de chocolate com paçoca, entre a meditação, a tv por assinatura e a internet. você imagina como seria pular ao invés de transitar por aquela mesma ponte, de todo mesmo dia.
tem dias em que olhar para cima e não ver nada, olhar para os lados e ver tudo, olhar para o espelho e ver só aquilo que tem para ver, te leva a sentimentos confusos que não se decidem alegria ou tristeza. e agrilhoam.
não.
tem dias difíceis.
neste dia você conversa com um bom amigo, que aos seus olhos tem motivos para não ser como você está.
mas este amigo diz que sim, que você tem razão, que a vida é realmente o que parece. que tudo dói e viver é um desastre que sucede a alguns. e aí você sabe que este é, com toda a certeza do mundo, um bom amigo. um bom amigo por não dizer que a vida é bela, que há um sentido maior, que tudo vai acabar bem no final. não. um bom amigo te diz a verdade. e você decide o que fazer com ela.
e você lembra de um outro texto, talvez de um outro autor, não lembro, em que é dito para que nos matenhamos conscientes de uma coisa muito importante: tudo, todo momento, todo movimento é dependente de condições.
e aí brilha uma centelha.
aí, apesar de nada mudar, apesar de tudo, parece que você tem escolha. aquela liberdade da qual falou o bikkhu bodhi começa a clarear a sua frente.
se você está aqui, o fim é certo. todo o sofrimento continuará, é só isso, você está preso. mas você pode escolher continuar presa das condições que fazem você imaginar o salto, ou escolher as condições que vão te fazer atravessar para o outro lado. você pode escolher ceder ao hábito de querer que tudo mude ou pode escolher a alegria de estar se aproximando da verdade pela contemplação da verdade visceral que se apresenta. pode escolher a alegria de resistir, a alegria de desistir, a alegria de saber aquilo que pode no momento: Qualquer que seja o grau do progresso em que estamos na prática do Dhamma, na correspondente extensão pode o sabor da liberdade ser sentido.
e nada muda, mas aqueles sentimentos, antes confusos, agora você sabe: uns são alegria, outros são tristeza.
você sabe alguma coisa da verdade.
você escolhe o que fazer com ela.



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