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terça-feira, 18 de junho de 2013

pra não dizer que não falei das flores

tenho a impressão de que mettā começa na aceitação, no tanto faz se é limonada ou limão, estar em paz. 
não correr, não ficar para tras. 
estar do jeito que está com as dores todas do corpo e desconfortos todos da mente, olhar em volta apaziguado por não haver coisa alguma diferente, pois tudo mudou, tudo sendo o que não é aparente, passando, sempre o oposto do que eu tinha em mente.
tenho a impressão de que mettā só é possível no presente.
isso tudo é muito óbvio, é uma chuva no molhado, podem dizer, mas dizer não quer dizer nada. ouvimos de amor o tempo todo, dá até ódio, mas mettā parece outra coisa que palavra alguma diz. 
parece ser o que vai sobrar quando deixarmos ir tudo que amamos.
começamos com mettā. 
quando acaba, mettā é o que sobra.
até o fim.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

palavras

Lutar com palavras é a luta mais vã.
Fiz este copy/paste do Drummond porque foi do que eu lembrei enquanto refletia na dificuldade de expor o dhamma. 
Nenhuma novidade. 
É uma coisa repetida desde Lao-Tzu "o tao que pode ser proferido não é o tao eterno". Mas, nenhuma novidade também, nos emaranhamos repetidamente nas palavras, quer seja tentando compreender, quer seja tentando explicar. E se ficarmos satisfeitos com a explicação que recebemos ou damos pode ser sinal de que não entendemos, ou tínhamos entendido, realmente.
Queremos saber, por exemplo, o que é a mente. E lá vão e vem palavras e mais palavras, construções, raciocínios e o embolo só aumenta. 
Não é que as palavras sejam dispensáveis. Se o fossem o Buddha não teria passado mais de 40 anos pregando. Mas empacamos no meio do caminho entre as placas sinalizadoras que são as palavras e o caminhar efetivo que conduz ao entendimento. Voltamos as costas à trilha e ficamos a decifrar os sinais, suando os miolos.
Catamos palavras como se com conchas colhêssemos porções do oceano na tentativa de entendê-lo. Palavras são pedaços da imagem que compomos da realidade. Engrenagens e ferramentas que mantem o mundo do jeito que nos aparenta ser. Enquanto que o mundo que o Buddha vê e revela é um fluxo contínuo de manifestações experienciáveis das quais, viciosamente, insistimos em nos por a parte. Se Ele fez um recorte, se tentou uma palavra, é só porque não havia outro jeito a não ser render-se  à nossa limitação. 
Precisamos das palavras. Precisamos ler, estudar, debater, dialogar mas sem nos emaranhar. Sem confundir. Sem a esperança de que vamos entender alguma coisa do que o Buddha falou antes de ter experienciado lá onde as palavras não chegam. Lá onde não há lutas vãs. Na paz de uma mente incompreensivelmente pacífica e lúcida. E de uma forma que não consigamos expressar.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

gato

Um gato é, também, quando, tendo um circuito elétrico sido interrompido pegamos um pedaço de material condutivo e refazemos tal circuito religando as partes antes separadas. Normalmente "pulamos" o ponto de ruptura, daí o nome mais chique: jump. Aquele ponto é, na pior das vezes, um fusível que cumpriu o seu papel de proteger algo de uma sobrecarga de energia.
Pois bem. Existe o gato espiritual.
A prática buddhista é dividida em três campos: o comportamento disciplinado pelos treinamentos éticos (sila), o cultivo da tranquilização mental (samadhi) e o cultivo da percepção adequada da natureza dos fenômenos (pañña).
Nós, muitas vezes, pulamos sila.
Sila que tem a função de, justamente, proteger a integridade de nossa prática espiritual.
As coisas funcionam com o gato. Mas o risco de prejuízos é grande. Perde-se até a vida devido a gatos! E o mesmo pode ocorrer com relação ao gato espiritual. Dependendo da forma como entendermos vida.
Sila nos protege das sobrecargas de energia que vem dos hábitos, mentais e físicos, que confrontam o Dhamma e estão profundamente arraigados na nossa mente. O consumo de fusíveis espirituais é imenso para a maioria de nós! Mas é bem melhor substituí-los que fazer o gato (ou mesmo o mais cool, jump!). Sila protege nossa integridade mental, nossos pequenos insights, a pouca (ou não pouca) paz que conseguimos, de serem incendiados por picos de negatividade.
Por isso, não despreze sila! Mantenhamos sempre cheias as nossas caixas de fusíveis espirituais!

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Fé em Samadhi


Samadhi é a capacidade da mente de permanecer com um objeto sem distrações. Esta estabilização da mente tem efeito sobre o corpo mesmo em seus estágios mais básicos, eu acho. Uma mente que esteja apenas levemente serenizada e focada já provoca bem estar no meditador. Isso por si é um estímulo para a prática da meditação. Porém, acho que no sentido de desenvolver a fé/confiança em samadhi, não é suficiente.
Essa fé/confiança deve vir do entendimento de que uma mente concentrada é uma ferramenta indispensável para o entendimento da realidade tal como ela é. Isto é o que foi ensinado pelo Buddha. A concentração é algo a ser desenvolvido pelo praticante como um meio e não um fim em si. Mesmo os seus efeitos benéficos imediatos para o composto psicofísico são meios e não o objetivo último.
Eu entendo essa diferença como parecida com a que existe entre o atleta e o 'malhador' de academia. O atleta condiciona o corpo com a intenção de utilizá-lo para um outro fim, um 'malhador' de academia o faz apenas porque sente-se bem fazendo.
A fé em samadhi, penso eu, quando surgida da compreensão e da confiança no poder que uma mente devidamente cultivada tem de conduzir à erradicação de dukkha, é o tipo de fé que fomenta de forma mais poderosa a prática espiritual. Não sendo assim, a prática pode converter-se em apenas mais um paliativo entre tantos outros que existem para dukkha.

Speech by ReadSpeaker