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sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

tapa de amor

um problema meu com o amor é que ele agrada a todo mundo.
fale de amor e terá platéia garantida e palmas. no final as mesmas rodinhas de conversa fiada banhadas na água morna do amor.
um outro problema meu com o amor é a supervalorização. 
no buddhismo não vejo isso. no buddhismo o amor é uma ferramenta, um instrumento. com amor no coração levamos a vida de uma forma mais adequada a desenvolver o que realmente importa: o conhecimento da realidade e a consequente libertação dela. só isso. 
não tenho a intenção de construir um reino de amor e paz na terra, só quero o suficiente para que eu possa, e que para que todos os outros possam, chegar na cura para a vida, se um reino de paz surgir disso, melhor para quem quiser ficar por aqui.

recentemente comprei o livro passo a passo, relançado em ebook pela edições nalanda via amazon.

na época em que foi lançado impresso eu deixei passar por conta da imagem que criei do autor, Maha Ghosananda. me pareceu muito bonzinho, muito cheinho de amor e tal. ignorei. mas com o lançamento do livro digital, a facilidade e o preço camarada me convenceram a arriscar. e não me arrependi. excelente livro e mais um tapa (com amor) na minha cara de idiota. 
o amor nascido da sabedoria é outra coisa, com o qual não tenho problema algum. é um amor que brota do mergulho corajoso no mais profundo desespero e desencantamento com o mundo, do confronto com os horrores mais atrozes cometidos por seres humanos no ápice de sua estupidez e ignorância. um amor que surge do reconhecimento direto de nossa plena igualdade na mais desoladora miséria existencial. um amor que surge de uma poderosa desistência. um tipo paradoxal de desistência que mantém a retidão, a convicção, a diligência num trabalho em que o amor é ferramenta fundamental.

alguns dos meus trechos preferidos do livro:

"O que é a vida? A vida é comer e beber através de todos os nossos sentidos. E a vida é se preservar de ser comido. O que nos come? o Tempo! O que é o tempo? o tempo é viver no passado ou viver no futuro, alimentando-se de emoções. Os seres que podem dizer de si mesmos que são mentalmente sadios por apenas um minuto são raros no mundo. A maioria de nós sofre de apegar-se aos sentimentos prazerosos, não prazerosos, sentimentos neutros e sentimentos de fome e de sede. A maioria dos seres vivos tem que comer e beber através dos olhos, ouvidos, língua, pele e nervos. Nós comemos vinte e quatro horas por dia sem parar! Ansiamos por comida para o corpo, comida para os sentimentos, comida para as ações da vontade e comida para o renascimento. Somos o que comemos. Somos o mundo e comemos o mundo."

"O Buddha chorou quando viu este ciclo sem fim do sofrimento."

"Todos os tipos de sensações são sofrimento, cheias de superficialidade, cheias de 'eu sou'. Se pudermos penetrar na natureza das sensações, poderemos compreender a felicidade pura do nirvana."

"O Buddha nos diz que a iluminação começa quando compreendemos que a vida é sofrimento.
Isso pode parecer negativo ou pessimista para muitas pessoas, mas não é. É somente uma afirmação sobre nossa circunstância compartilhada, algo para ser visto sem lamento ou apego."


quinta-feira, 13 de junho de 2013

à revelia

No buddhismo tibetano, estudando e praticando sob a abordagem do Lam Rim, eu meditava e contemplava o renascimento nos infernos. Haveriam diversos infernos frios e quentes ao extremo e a instrução é para que sejamos o mais detalhistas possível com respeito a visualizar os tremendos sofrimentos que lá se passa.
Eu tinha grande dificuldade com esta meditação.
O objetivo da prática, até onde me lembro, era gerar o medo de cometer ações que levassem a tais renascimentos tanto quanto servir de ilustração para o que é o saṃsāra e ajudar a fomentar o sentimento de renúncia.
Uma vez que creio em renascimento, ou pelo menos considero tal possibilidade, pensar no inferno tem lá seus momentos de eficácia. Mas com respeito à ir gerando alguma renúncia, quase sempre me basta olhar por dentro e em volta do que ocorre aqui mesmo.
Existo à revelia não é de hoje. E sendo assim, não há outra vida que me seduza após esta aqui, podem vir com o paraíso que for que dispenso sem hesitação, podem me prometer ser um deus qualquer, tô fora! Então, porque cargas d'água ainda não despertei do pesadelo do saṃsāra? Porque não basta não querer renascer em outra vida. Isto, aliás, eu acho que é até comum, o ó do borogodó é desistir de renascer nesta aqui!

terça-feira, 28 de maio de 2013

diálogo entre religiosos

... então neste dia, que está próximo, haverá o julgamento e os merecedores ganharão a vida eterna num mundo renovado. 
e os que morreram?
ressuscitarão.
e os que forem julgados não merecedores?
permanecerão mortos ou morrerão.
não haverá punição?
não! só não serão recompensados com a vida eterna...
então deixarão de existir...?
sim, pode-se dizer que sim...
então, como não tenho como saber qual de nós está certo, caso você esteja eu já estou no caminho da recompensa que me interessa, não existir me parece bom...

terça-feira, 26 de março de 2013

deus me livre

"em vez de buscar deus - objetivo dos brâmanes -, Gautama sugeriu voltarmos a atenção justamente para o que, de Deus, está mais distante: o sofrimento e a angústia da vida na terra" está na página 202 do livro confissões de um ateu budista (stephen batchelor - editora pensamento).

a ciência foi destruindo nossas ilusões: éramos seres especiais sob o céu, ocupando o centro do universo; fomos perdendo a majestade. no momento somos animais entre animais, adaptados andando numa bolinha de água e rocha na perifieria de uma galáxia que é como poeira num espaço vasto e desconhecido.
o Buddha fez o mesmo com a religião já há mais de dois mil e quinhentos anos.
religiosamente nos cremos divinos, desde os brâmanes e antes e até hoje, precisamos dessa divindade, temos a fé de que somos obra ou imagem ou manifestação de algo maior, mais belo, mais mágico e com um propósito sublime.
o Buddha, me parece, deixou claro que não. somos só isso mesmo que se manifesta aqui: nascimento, envelhecimento, lamentação, dor, doença e morte. apesar de que, pelo tempo e espaço desde o advento do Buddha a Sua disciplina não tenha se mantido livre desta nossa ânsia pela divinização, qualquer um disposto a ver verá, se procurar nos textos e refletir na vida.
mas é preciso estar disposto mesmo.
o venerável +Bhante Katukurunde Ñanananda, na sua série de sermões sobre o nibbāna, mostra que o nibbāna não escapou de ser transformado em uma espécie de paraíso.
praticar o dhamma, em última instância, me parece ser o oposto de buscar um sentido ou uma salvação, é sim um limpar os olhos e olhar cada vez mais profundamente para o que há aqui e agora, por pior que seja e por pior que vá ficando, até aceitar que a cessação é o único jeito, até vencer toda a esperança, todo o instinto que nos torce o pescoço para o céu e nos obriga a sonhar um mundo.

Não é fácil encontrar o caminho para fora da loucura do saṁsāra. Fazer isso significa que devemos estar frequentemente preparados para ir contra a corrente, para ir na contramão desse mundo. Se é para seguir esse caminho até o seu fim apropriado, então se deve verdadeiramente ser maduro, resoluto e sério.
A realização total do Dhamma, acompanhada da libertação completa e desapego total do coração, conforme descrito nos suttas antigos é, sem dúvida, muito, muito rara, de fato. Mas ainda existe. Até hoje uma estrofe de um dos raros Sayadaws reverbera profunda em minha mente: “Quando você olhar mesmo as esferas sublimes mais altas da existência, as formas de inteligência radiante e jubilosa como uma cuspideira, então você está pronto para o Nibbāna”.
  
Ven. Ottama Sayadaw


quarta-feira, 6 de junho de 2012

it's the end of the world as we know it (and i feel fine)

O "Propósito" da Vida


Num emprego abusado, a palavra 'desculpa' seria uma melhor opção, porque não há propósito algum que, em si, não pressuponha alguma forma de vida. Todos os chamados 'propósitos' impingidos à vida pelos seres não despertos para torná-la mais alegre são apenas meras "desculpas". O buddhismo enfrenta diretamente o vazio absoluto da vida quando a iguala a "Dukkha" - a verdade amarga (do sofrimento). Segundo sua análise, se pode-se falar do propósito da vida, este é nada menos que o esforço para levar à cessação da existência samsárica - o círculo vicioso. Esta sendo a única desculpa justificável.


e com este trecho cheguei ao fim da 1ª leitura do livreto "Towards Calm And Insight" do Venerável (Venerabilíssimo e cada vez mais essencial na minha prática espiritual) Bhante Katukurunde Ñanananda. 
muitas questões nascem de uma passagem tão "radical":
será possível para um não monge realmente ser buddhista?
que implicações, em termos de qualidade de vida, gera uma ideia como essa?
é possível viver a vida sendo sincero consigo mesmo e ao mesmo tempo concordar em absoluto com o autor?
onde tal pensamento irá me (nos?) levar?
...
and i feel fine...
e cada vez mais disposto e entusiasmado na busca de respostas para todas estas perguntas!!!

vai que alguém queira me processar, e a vida já é dukkha, por si só um processo, o título deste post é homônimo de uma música da banda americana r.e.m. 
eis o link para letra e som:
pode ter algo a ver... ou não... mas o título é muito bom!

abaixo o original do Venerável em inglês e o link para o livreto:

The 'Purpose' of Life

A misuse of the word 'Excuse' would be a better substitute, because there is no purpose that does not itself presuppose some form of life. All so-called 'purposes' foisted on life by the worldling to brighten it up, are but mere 'excuses'. Buddhism faces squarely the utter hollowness of life when it equates it with 'Dukkha'  -  the bitter truth (of suffering). According to its analysis,  if one can speak of the purpose of life,  it is none other than the endeavour to bring about the cessation of samsaric existence  -  the vicious circle. This is the only excuse that is justifiable.

terça-feira, 20 de março de 2012

sistema imunológico

"Bastou a um príncipe indiano ver um velho, um inválido e um morto para compreender tudo; nós que também os vemos não compreendemos nada, pois nada muda em nossa vida. Não podemos renunciar a coisa alguma; no entanto as evidências da vaidade estão ao nosso alcance. Doentes de esperança, esperamos sempre; e a vida não é mais do que a esperança hipostasiada."

diz emil cioran no ensaio imunidade contra a renúncia do livro breviário de decomposição, editora rocco.

em um diálogo onde surgiu o assunto nibbana, conversamos que este está além de toda comparação, compreensão, conceituação.
parece correto.
mas penso que é preciso ter o cuidado de observar que aceitar esta noção de o nibbana ser assim tão indizível de uma forma muito empolgada pode ser mais uma estratégia do nosso sistema imunológico anti-renúncia.
porquê nos falta, em princípio, um parâmetro para comparar, passamos, sutilmente, a relacionar a alegria da prática buddhista àquilo que unicamente conhecemos como alegria, que são as sensações próprias do nosso modo de existir: basicamente a satisfação de um desejo. é natural que comecemos a tentar, por mais que nos informem do contrário, encaixar o nibbana naquilo que é o problema a ser sanado por sua realização, e passamos a reforçar nosso natural instinto de afirmação da única forma de existência que conhecemos: aquela baseada no eu existo.
uma vez que do nibbana não se possa dizer que é existência nem não-existência, para qual lado nossos imuno-soldadinhos vão sorrateiramente pender?
as palavras entram pelos ouvidos e olhos e saem da boca mas no meio deste trajeto, entre a entrada e a saída, são contaminadas pelos anticorpos anti-renúncia.
há sempre uma reticência, há sempre uma tentativa de enxergar na vida, condicionada como ela é e, sendo condicionada, uma causa de insatisfação e decepção segundo o Buddha, um valor, um algo que nos justifique manter nosso ponto de vista inato de que não é dukkha. ou, se é, dukkha não é tão ruim assim, sussurramos para nós mesmos.
renúncia, em termos buddhistas, não é uma coisa fácil.
não é, certamente não é, uma coisa simples experimentar o sofrimento que existe na satisfação da fome ou que a verdadeira paz é fruto de não ter mais fome. abrir mão da fome, de taṇhā, não é coisa simples, talvez trabalho para uma vida ou mais, mas de forma alguma ajuda se permitir debater com aquilo que o Buddha disse tão claramente e que uma observação e contemplação sinceras, mesmo que a mente ainda seja desprovida de elevadas aquisições meditativas, é capaz de nos mostrar, nas minhas palavras: a vida é a manifestação de um problema que só o nibbana pode resolver.
existe alguma tristeza nesta última afirmação? 
a resposta mais precisa é a vida do próprio Buddha. 
após seu despertar, viveu por muitos anos em alegria e energicamente ensinando só isso, a insatisfação e seu fim. 
meu esforço como Seu seguidor não é outro além do de descobrir como ser verdadeiramente feliz enquanto resultante partícipe deste turbilhão de enganos. 
mas sem tentar mudar Suas palavras. sem sonhar com outra vida. sem me revoltar contra o óbvio.
sem piorar as coisas. 

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Je Tsongkhapa

 abaixo, o texto que mais estudei, em sua versão extensa chamado Lam Rim, durante o tempo em que estive sob orientação de professores ligados à tradição tibetana de Je Tsongkhapa
embora envolvido com o buddhismo desde 1995, só passei a me considerar buddhista quando ingressei no estudo e prática por meio desta tradição, em 1999. este texto fundamentou o entendimento do dhamma que sustento até hoje.
a versão é do livro "Bondade, Amor e Compaixão" de Sua Santidade o Dalai Lama, editora Pensamento.




Os Três Principais Aspectos Do Caminho

Homenagem aos principais lamas sagrados

Explicarei o melhor que puder
O significado essencial de todas as escrituras do Conquistador,
O caminho louvado pelas eminentes Crianças Conquistadoras,
Porto para os afortunados que desejam a libertação.


Aqueles desapegados dos prazeres mundanos, a lutar
Para que lazer e fortuna signifiquem dignidade, inclinados
Que são para a senda que deleita ao Buda Conquistador,
esses afortunados devem ouvir com mente límpida.


Sem a profunda convicção de abandonar a existência cíclica
Impossível deixar de perseguir os frutos do prazer no oceano da vida,
E mais: o anseio pela existência cíclica agrilhoa por completo o encarnado.
Que se busque, pois, de início, a determinação de abandoná-la.


Lazer e fortuna são difíceis de encontrar
E a vida se esvai: esse conhecimento
Converterá em seu oposto a importância dada
Às exterioridades da existência.


Se pensarmos sempre e sempre nas ações,
Em seus efeitos, que são inevitáveis,
E nos sofrimentos da existência cíclica
Converter-se-á em seu oposto a importância dada
Às circunstâncias exteriores das vidas futuras.


Se tendo assim meditado, não geramos, por um instante sequer,
Admiração pelo florescimento da existência cíclica, mas se, dia e noite,
Se faz presente a atitude de busca da libertação,
O pensamento de abandonar para sempre essa existência foi gerado.


E mais, se o pensamento de abandonar de vez a existência cíclica
Não estiver enlaçado à geração da total aspiração pela iluminação suprema,
Não será ele a causa da bênção esplêndida da iluminação excelsa.
Sim: que os inteligentes gerem a tão alta e altruísta intenção de se converter em iluminados.


[Todos os seres comuns] são arrastados pelo continuum de quatro torrentes poderosas
E atados pelos liames de ações muito duras de combater.
Na jaula de ferro da autopercepção [existência inerente], lá estão eles,
Aturdidos pela densa escuridão da ignorância.


Vezes sem conta já nasceram, e cada nascimento
Traz a tortura incessante dos três sofrimentos.
Ao pensar nas mães que caíram nessa rede,
Geram eles então a intenção altruística de converter-se em iluminados.


Sem a sabedoria que compreende o modo de ser das coisas,
Mesmo que tenham sido desenvolvidos, tanto
O pensamento de abandonar para sempre a existência cíclica
Como a intenção altruísta,
A raiz da existência cíclica não poderá ser exteirpada.
Pratica, pois, os métodos que te farão entender a manifestação dependente.


Aquele que, percebendo serem inquestionáveis
Causa e efeito de todos os fenômenos
Da existência cíclica e do nirvana,
E destruir, inteiro, o modo de percepção equivocado
Dos objetos [tidos como de existência inerente],
Terá, assim, ingressado num caminho que apraz ao Buda.

Enquanto se afigurem como separadas as duas compreensões
Da indubitabilidade da manifestação dependente
E do vazio - a não-afirmação [da existência inerente] - 
Não será compreendido o pensamento do Buda Shakyamuni.


Quando [ambas as percepções ocorrem], simultâneas, sem alternância,
E quando, apenas por ver a manifestação dependente como indubitável
O conhecimento preciso destrói por completo o modo de percepção [da concepção de existência inerente], 
Está completa a análise da apreensão [da realidade].


E mais: exclui-se o extremo da existência [inerente]
[Conhecendo-se a natureza] das circunstâncias externas
[Que existem apenas como designações nominais].
E, ao extremo da [total] não-existência, elimina-se
[Conhecendo-se a natureza] do vazio
[Como ausência de existência inerente e
Não como ausência de existência nominal].
Se for por ti sabida, dentro do vazio, a presença da causa e do efeito,
Não serás aprisinado pelas percepções extremas.


Ao teres compreendido com exatidão, do caminho
Os três aspectos principais, no que tem de essencial,
Procura a solidão e gera o poder do esforço.
Que logo chegues à meta final, meu filho!




segunda-feira, 29 de novembro de 2010

uma dose de Bukowski e muito dhamma

paro
não importa o quanto corram, eu vou devagar
e paro

ouço
não importa o quanto chamem, eu ouço

não importa quantos sabores criem
quantos modelos
quantos recursos
quantos aplicativos
de quantas necessidades precisem

não importa quantas festas
quantos shows
quantos bares
quantos assuntos
quanto barulho
quanta tv

eu não ligo
eu não vou
me basta o bastante

não importa quanta realidade inventem
quantos jogos
quantos programas
quanta disputa
quanto celebrem
quanta celebridade
eu ignoro

não importa quanto tocam
quanto compoem
quanto vibram
quanto pulam
quanto gritam
quanto cantem
eu silencio

e eu recuso os panetones de setembro
os ovos de páscoa de fevereiro
as canjicas de abril
e as micaretas todas

os amistosos
os preparativos
eu recuso

eu me enraízo
e abdico da razão
eu não penso enquanto caminho
eu sinto meus pés no chão

meditação, meditação...
quase ninguém percebe que
O Buddha
ao despertar
tocou a terra

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

padrinho mágico


Ele veio me perguntar sobre o seu casamento, que está próximo, naquele tom de brincadeira que usamos quando gostaríamos de falar sério: "Todo mundo me enchendo o saco... Enchendo minha cabeça contra o casamento...Você vai dar o veredicto! É sua a palavra final..."
Eu, num dia inspirado, imerso em filosofâncias  e psicologismos além da média dos últimos trinta e alguns anos, dei-lhe uma resposta que foi mais ou menos assim:
Casamento é coisa para gente grande e parece que cada vez menos queremos crescer. Temos incontáveis brinquedos e brincadeiras, agora. Conseguimos fazer do mundo o nosso parquinho. Todos querem brincar pelo infinito a fora. Mas, apesar de todo silicone, botox e suplemento alimentar, apesar de toda velocidade de conexão e ausência de fios que conquistamos, apesar de conseguirmos fazer parte da maior Turma do Bairro de todos os tempos via orkuts e facebooks, continuamos a envelhecer e morrer.  No mesmo ritmo de sempre. Apesar da variedade de brincadeiras, todas enjoam. Todos os brinquedos, se não quebram, envelhecem ou entediam. Todos os nossos mimos de crianças ricas estragam, droga!
O casamento é um momento complicado porque parece ser o chamado da mãe (ou do pai!) para entrarmos. É o início da noite mas estávamos na melhor parte da brincadeira. Começamos a ver o sol se por e sentimos aquele pavor: "está acabando..." Temos a opção, que cada vez mais parecemos fazer, de fingir que não ouvimos  a mãe natureza e continuarmos brincando pela noite. Mas é perigoso! E esta noite nunca mais amanhece. Só há luzes artificiais até o fim.
Temer os fatos da vida e encobri-los, não ver o envelhecer principalmente, é a nossa vida hoje (mais do que nunca?). E acabamos negando quase tudo o que envolve o processo, especialmente o amadurecimento. (Lembrei agora, enquanto escrevo, do episódio Miri, acho que era esse o nome, de um Jornada Nas Estrelas...)
Alguém diz: "E você acha que ele está pronto para isso?" E eu: "Quem tem que saber disso é ele. O que posso dizer é que ele precisa de muita maturidade para lidar com o moleque imortal se não quiser uma vida de brinquedo daqui para frente..."

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

mentira (de novo! fazer o quê?...)

Terminei de ler o livro "O  Que Nos Faz Felizes" do psicólogo americano Daniel Gilbert (Editora Campus/Elsevier). Resumindo, o livro fala sobre como nos iludimos na busca pela felicidade devido às falhas de percepção que temos.
Lê-se na página 149:

Se tivéssemos a experiência do mundo exatamente como ele é, cairíamos numa depressão tão grande que não conseguiríamos levantar da cama pela manhã, ficaríamos tão desiludidos que seria difícil achar nossos chinelos. É possível que tenhamos uma visão cor-de-rosa do mundo, mas essa visão nem é opaca nem é muito clara. Não é opaca porque precisamos ver o mundo para participar dele, para pilotar helicópteros, fazer a colheita do milho, trocar as fraldas dos bebês e todas as outras coisas que os mamíferos precisam fazer na luta pela sobrevivência. Mas também não pode ser muito clara, pois precisamos de um pouco de rosa para projetar os helicópteros ("Tenho certeza de que esse negócio vai voar"), plantar o milho ("A safra deste ano será ótima") e ter os bebês ("Que coisinha mais linda!"). Não podemos abrir mão da realidade, mas também não podemos abrir mão da ilusão. Cada uma tem seu propósito, e cada uma impõe um limite ao domínio do outra. Assim, nossa experiência do mundo resulta do compromisso fechado entre essas duas fortes concorrentes.

A ideia é desenvolvida em todo o livro mas na página 154 há o seguinte:


No final das contas, o cérebro e o olho talvez tenham uma relação contratual na qual o cérebro concorda em acreditar no que os olhos vêem, mas, por sua vez, o olho concorda em ver aquilo que o cérebro quer.


Quem tem passado por aqui deve imaginar que estes foram meus trechos preferidos do livro. Está certo. Foram. Acho legal que as disciplinas que estudam a mente acabem sempre esbarrando nalgumas verdades buddhistas.

Mas o autor para por aí.
Terminei o livro com a sensação de que sua proposta é que cheguemos a uma resignação com esta nossa, segundo ele, imutável condição de simbiose com a ilusão. Temos que aceitar que entrar em acordo com a ilusão é a forma de ser feliz e, todas as vezes que nos desiludirmos em função desta inescapável necessidade, podemos extrair algum consolo do prazer de saber que é assim que as coisas são. Ou seja, estou perdido, mas pelo menos eu sei que estou perdido e este saber é fantástico!
E há quem considere o buddhismo uma visão pessimista da vida!
Entendo o buddhismo como sendo, fundamentalmente, uma doutrina de transformação pela percepção/conhecimento. Afiamos a mente tanto em termos perceptivos quanto cognitivos através do cultivo da atenção reflexiva/vigilante.
Assim, onde para o autor, começa o Buddha.
A felicidade de saber que não há felicidade no mundo  não surge de saber que  não há felicidade! 
Há o nibbana.
O nibbana declarado pelo Buddha é um objeto da mente. E segundo o Venerável Ajahn Buddhadasa, muito mais acessível do que séculos de elucubrações metafísicas acabaram ocultando! O Buddha, quando nos diz que ao continuarmos buscando a felicidade da forma que buscamos só vamos ter problemas, afirma como 'opção' a felicidade real . Saber que não há felicidade no mundo é apenas a primeira parada rumo a felicidade. 
Deste ponto deveríamos levantar a cabeça e mirar os olhos na direção que o dhamma aponta!
Eis o ato que requer um esforço colossal da maioria dos humanos: considerar a possibilidade de um tipo de felicidade que não seja nos moldes do 'mundo'. Um tipo de felicidade que não dependa de ganhos parece até assustador para nós! Mesmo quando nos 'espiritualizamos' continuamos a conceber a felicidade da forma que sabemos: paraísos, sensações, lugares maravilhosos! Nossa versão de felicidade espiritual não consegue ser mais do que uma hipermundanidade. Continuando a nossa busca por felicidade nos mesmos moldes de sempre, a prática buddhista que para mim é uma espécie de desaprender os caminhos do mundo, em especial aqueles para a felicidade, é corrompida e rebaixada a um paliativo para a tristeza que resurge, para a frustração que resiste, para a insatisfatoriedade que permanece oculta da mente e ativa, como sempre foi, no coração. 
Um buddhismo para uso tópico.
Eu acho que temos que fazer uma escolha: ou ficamos na nossa versão do caminho do meio que é um vagar bobo e assustado entre aquilo que o dhamma revela e a nossa zona de conforto que sabemos ilusória ou damos o passo no Caminho do Meio do Buddha que requer alguma coragem para, ao menos, procurar por uma felicidade que não dependa de resignação com a natureza irremediavelmente ilusória do mundo.

terça-feira, 1 de junho de 2010

presença de anicca

"A única certeza nesta vida é a mudança!" Filosofávamos numa conversa...
Meu camarada contava como eram os planos de seu pai: comprar um grande terreno, construir casas para os filhos e ter todos juntos. Mantendo a tradição de festas e reuniões familiares animadas e calorosas.
O pai separou-se da mãe e mora na Bahia. Os irmãos todos estão também quilometricamente separados.
"O que nos faz pensar que será diferente conosco?" Falávamos... 
"Quantos planos já tivemos que refazer, adaptar, abandonar...?"
"Vou construindo a minha casa já morando dentro dela. Resultado: Um cômodo vai ficando melhor que o outro! Quando termina um, o outro já precisa de reforma! E as coisas quase nunca saem como planejado... Há sempre uma coisinha..."
"Será que a vida dos famosos e endinheirados é diferente?"
"Acho que não... Eles tem que se virar contra outros tipos de mudança, mas o tormento é o mesmo (talvez pior): fazer plásticas, academias, lutar com a mídia... Tem sempre gente mais bonita, mais 'talentosa', mais escandalosa surgindo. O público consome vorazmente!"
"E o cachê cai!"
Quanto maior a ilusão de controle, e dinheiro e fama parece que aumentam consideravelmente esta ilusão, maior o tormento a medida que os castelos vão caindo... Ou seja, o problema não está lá fora, nas condições externas, como sempre...
Havíamos começado este colóquio falando da pressa do tempo...
"Olha só, já estamos no meio de mais um ano!"
"Percebe como as coisas vão perdendo a graça? As datas, as copas, os aniversários..."
"De certo modo é bom... Vamos, probabilisticamente ao menos, chegando perto da morte, é bom que desencantemos dessas coisas todas. É tudo uma repetição só..."
"A graça vai sendo a própria mudança! O interessante passa a ser só a percepção das ilusões, das grandes bobagens que podem ser as vidas..."
E fomos dormir pra trabalhar no outro dia.


sábado, 27 de março de 2010

o sentido

O Buddha diz que se não houvesse o prazer no mundo, os seres não engendrariam a adesão ao mundo. 
O modo de funcionar dos sentidos é este: prazer e dor. E neutralidade. Esperar que chocolate um dia pareça jiló é ilusão! Chocolate é bom, para mim e para o Arahant (que goste de chocolate!). 
Não é confiando nos sentidos que a Renúncia será experimentada. A função deles é manter a Roda girando. 
Já a observação sábia dos sentidos, por outro lado, garante um conhecimento crescente de seu funcionamento e o do mundo. E é desse conhecimento que, até que se prove o contrário, surge o desgosto, o afastamento e a Renúncia.
O Buddha não ensina a transformação do mundo. Ensina, meramente, sua compreensão.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

O Samsara e o Timão


Tive um professor que marcou a minha caminhada espiritual pela personalidade e estilo de ensinar. Ele, entre outras boas sacadas, quando ensinava sobre samsara e renúncia, dizia que nosso sentimento com relação a estes tópicos era bastante curioso... Dizia que a gente sempre, sempre, lá no fundinho, tentava achar uma alternativa para a desgraça que é o mundo, a existência! Que a gente ouvia, lia, meditava mas ficava aquilo lá por baixo coçando; "Mas e se...?"; "Talvez...!"; "Será que não é deste outro jeito...!?" E completava com uma frase da qual eu me lembro sempre e que dá um bom post no momento, visto que o timão está em mais uma final!! (sim, eu sou corinthiano). Ele dizia que o samsara era muito ruim, mas se pelo menos o Corinthians fosse campeão!!

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Relações


Sendo a interdependência uma das palavras chave do buddhismo, isolar fatores do Caminho é apenas um recurso pedagógico. Todos os fatores estão relacionados e suas causas e condições são várias.
Uma relação entre fatores na qual eu gosto muito de pensar é na dos fatores renúncia (nekkhama) e compaixão (karuna).
Penso que sem renúncia, a compaixão, tal qual ensinada pelo Buddha, não pode existir. Naturalmente quando sentimos compaixão esta é, na verdade, algo mais próximo da dó, da pena. Tendemos a nos colocar 'acima' do objeto, aquele ser que sofre: "Coitado, como sofre!" Se há um esforço pela renúncia, juntamente com a compaixão, o sentimento de superioridade tende a arrefecer-se. Fomentando a renúncia, nos tornamos cada vez mais aptos a perceber que estamos todos no mesmo barco furado cujo motor é a ignorância e, embora existam diferentes níveis de sofrimento e de urgência nas ações a serem tomadas contra ele, em última instância, dukkha é onipresente no samsara e todos os seres samsaricos são dignos de compaixão. Nós inclusive!

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