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sábado, 14 de setembro de 2013

filosofia buddhista sem mistério

Abaixo a minha tradução para a conclusão do quarto capítulo (pág. 59) de "History of Buddhist Philosophie - Continuities and Descontinuities" de Davi J. Kalupahana.
Decidi publicar aqui, primeiramente porque é um daqueles trechos cujo fascínio me surge pelo poder que tem de dizer tanto com tamanha concisão. Merece ser lido e relido e servirá como guia para aprofundamento no Buddhadhamma naquilo que é fundamental.
Em segundo lugar pela satisfação que me causou ao perceber que, dentro dos meus limites, tenho escrito aqui sobre algumas ideias presentes neste trecho e naquele livro.

O princípio do surgimento dependente é concebido como uma alternativa à noção Brahmanica de um eu eterno (ātman) bem como ao conceito de natureza (svabhāva) apresentado por algumas escolas heterodoxas (contemporâneas do buddhismo e oposicionistas ao brahmanismo). Como uma alternativa, não só evita o mistério mas também explica os fenômenos como em um estado de surgimento e cessação contínuos. O Buddha realizou que, embora tal princípio seja verificável (ehipassika), não é facilmente percebido (duddasa) pelos seres humanos ordinários, que são absortos pela e deleitados na adesão (ālaya) tanto à coisas quanto às visões. Tais inclinações podem cegá-los em tamanha extensão que eles ignoram até os fatos mais evidentes. Assim a dificuldade em perceber e compreender a dependência é devida não a qualquer mistério quanto ao princípio em si, mas sim ao amor das pessoas pelo mistério. A busca pelo mistério, pelo algo oculto (kiñci), é considerada como causa fundamental de ansiedade e frustração (dukkha). Por isso diz-se que aquele que não procura nenhum mistério (akiñcana) e que percebe as coisas “como elas vem a ser” (yathābbhūta), desfruta da paz mental, a qual eleva tanto intelectualmente quanto moralmente. Isto explica a classificação do surgimento dependente como pacífico (santa) e sublime (panīta).

The principle of dependent arising is intended as an alternative to the Brahmanical notion of an eternal self (ātman) as well as to the conception of nature (svabhāva) presented by some of the hetorodoxy schools. As an alternative, it not only avoids mystery but also explains phenomena as being in a state of constant arising and ceasing. The Buddha realized taht even though such a principle is verifiable (ehipassika), it is not easily perceived (duddasa) by ordinary human beings, who are engrossed and delighted in attachment (ālaya) to things as well as views. Such leanings can blind them to such an a extent that they ignore even the most evident facts. Thus the difficulty in perceiving and understanding dependence is due to not any mystery regarding the principle itself but to people´s love of mystery. The search for mystery, the hidden something (kiñci), is looked upon as major cause of anxiety and frustration (dukkha). Therefore the one who does not look for any mystery (akiñcana), and who perceives things “as they have come to be” (yathābbhūta), is said to enjoy peace of mind that elevates him intellectually as well as morally. This expçain the caracterization of dependent arising as peaceful (santa) and lofty (panīta).

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Imasmiṃ sati idaṃ hoti, imassuppādā idam uppajjati, imasmiṃ asati idaṃ na hoti, imassa nirodhā idaṃ nirujjhati.

nada sei é um extremo.
onisciência é outro.

mas há um justo. um possível. que requer esforço:

isto sendo, este vem a ser
com o surgimento disto, este surge
isto não sendo, este não vem a ser
com a cessação disto, este cessa *

*Bahudhatuka Sutta


quinta-feira, 30 de maio de 2013

simples ficando ll

na disciplina do Buddha, do encontro do objeto com a percepção surge o mundo.

se uma mente não desperta, mais ou menos assim: um carro... um opala... rosa... bonito... do mário... o que saiu do armário... e a mente não desperta segue se enrolando num emaranhado de conceitos. 
papañca-saññā-saṇkhā

se uma mente desperta:
um carro... anicca, dukkha, anattā, paz... um opala... anicca, dukkha, anattā, paz... rosa, anicca, dukkha, anattā, paz... ...anicca, dukkha, anattā, paz...  ... anicca, dukkha, anattā, paz... paz... paz...
paz.



entenda, melhor que eu, este processo fundamental no livro Concept and Reality do Venerável Bhikkhu Kaṭukurunde Ñāṇananda
só em inglês, por enquanto.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

tu és só isso

mente e matéria. 
nada mais. 
uma condicionando a outra. 
só isso.
não é uma descrição agradável quando contemplada cuidadosamente. implica em que no visto há só o processo de ver, no degustado só o processo de degustar, no ouvido só o ouvir, no sentido só o sentir, no pensado só o pensar. tudo começando só para acabar, começando a acabar já no começo. nenhuma testemunha para curtir ou dar um plus. onde não há ninguém, ninguém há para haver, apesar das aparências. esta mesma aparência que faz de tudo tão sofridamente frustrante. 
segundo a segundo; hora a hora; dia a dia; semana a semana; mês a mês; ano a ano; só isso.
aparência até o fim.


segunda-feira, 3 de setembro de 2012

dual

a vida é feita de experiências boas e ruins.
isto é uma dualidade.
a vida é experiências que começam boas e terminam ruins ou começam ruins e terminam piores.
isto é começar a compreender a não dualidade.
dualidade é resultado da conceituação, da concepção de entidades, coisas,  saṅkhāras.
não ficamos na experiência sensorial até o seu fim. nos primeiros sinais de desconforto, mudamos para outra coisa e aquilo que surgia como bom fica sendo "bom". fica saṅkhārizado como bom. se ficássemos até o fim, veríamos sua mudança e saberíamos que as coisas são surgimento, aparência e cessação
do contato entre sentido e objeto surge o saṅkhāra . deste a proliferação de conceitos duais: isto, aquilo; bom, ruim; prazer, dor; felicidade, sofrimento; tudo, nada.
este o fundamento do mundo. este o motor da existência.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

o que dá para fazer ll

se eu sei que uma coisa me faz bem eu vou querer que muitos saibam da existência dela. vou querer que esta coisa permaneça neste mundo por muito tempo, que muitos possam ter acesso a ela, de forma constante, segura. que esta coisa seja preservada da forma mais pura possível conforme me beneficiou.
o Caminho do Buddha, o Buddha Sasana, que a maioria conhece como buddhismo, é esta coisa para mim.
a minha maneira de trabalhar por este objetivo é compartilhar minha compreensão do Buddhadhamma bem como aquelas fontes de onde nasce tal compreensão. se mais pessoas surgirem, se as condições forem se combinando, se as bases forem se tornando tão sólidas quanto anicca, dukkha e anatta permitirem, as ocorrências indubitavelmente evoluirão naturalmente, sem pressa, de acordo com o tempo, esteja eu manifesto por aqui ou não, mas tendo feito a minha parte.
veja o vídeo:


quarta-feira, 21 de julho de 2010

yoniso manasikara

Sempre que fazemos contato sensorial com algo e não lembramos de que este algo nada mais é que matéria e mente (ou só matéria ou mente...), não lembramos de que é impermanente (anicca), não lembramos de que é vazio  de uma essência (anatta), não lembramos de que é insatisfatório (dukkha), não lembramos de que é dependente de causas e condições, estamos funcionando em ayoniso manasikara. Funcionando sem a atenção sábia.
Funcionar sem atenção sábia é, estritamente, causa para sofrer. 
Parece simples, não?

segunda-feira, 19 de julho de 2010

ainda sobre o s

Às vezes alguém comenta que embora medite já a algum tempo, ainda é vítima de estados mentais venenosos, tais como raiva, aversão, anseio, etc.
Quando a pessoa diz "eu medito", ela geralmente quer dizer "eu sento e pratico a técnica".
Isso remete àquele imbróglio aludido no s do samadhi
A técnica do sentar é só um terço do Caminho, o cultivo da mente/coração ensinado pelo Buddha.
O ensinamento do Buddha conduz a um coração cada vez mais liberto de estados mentais venenosos, mas para isso é preciso que todo ele seja trilhado. É um mal-entendimento que nos leva a pensar que a técnica do sentar é um ritual mágico capaz de resolver todos os problemas para nós.
Se não nos mantemos ardentes na prática após nos levantarmos da meditação, não estamos praticando o que o Buddha ensinou. A mente que sai da meditação precisa manter as experiências e percepções o melhor que puder. Disciplina ética e o exercício de reflexão sábia (yoniso-manasikara), a reflexão que tem por parâmetro aquilo que apreendemos intelectualmente pelo estudo do buddhadhamma ou dos insights que obtemos, alimentam a chama ardente que transforma a mente. Um esforço consciente e consistente é necessário o tempo todo para que a meditação, o sentar e praticar a técnica de tranquilização e enfoque da mente, surta o efeito.
E uma coisa alimenta a outra.
No ciclo do samsara não há um começo discernível. Mas há pontos de oportunidade por todo ele. Precisamos atacar todos estes pontos se quisermos cessar este ciclo. Eu acho que foi isso o que o Buddha ensinou.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Causas e Condições II


Pensando em termos de condicionalidade, diante dos gostos e desejos passamos a nos comportar como a criança que puxa a barba do Papai Noel.
As condições do que é tão único, tão nosso, tão nós, se insinuam. O momento influencia, nossa disposição mental, nossa condição física, o tempo, o lugar... Enfim, são tantos os fatores que compõem os nossos quereres que eles e, em inevitável consequência, aquele que quer, assumem a aparência de uma projeção, um jogo, (de) sombras e cores, uma mistura e, não mais, um.
Os gostos e desejos podem não ser o que sempre pareceram ser, e dessa desconfiança o próprio status do eu fica abalado...

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Causas e Condições


Pensar em termos de condicionalidade, "havendo isto, há aquilo; não havendo isto, não há aquilo", é um exercício libertador.
Em certas ocasiões sentimos e reagimos de uma forma. Depois, ao se repertir situação semelhante, nossos sentimentos e reações são diferentes. Esta diferença deve-se ao emaranhado de condições que se associam à nossa mente o tempo todo. Pensando em termos de condicionalidade podemos ir constatando, cada vez mais claramente, como somos uma combinação de fatores, uma soma de eventos. Vamos observando e conhecendo o fato de que encontrar um ponto central com qual nos identificar vai se tornando uma tarefa mais ingrata... Condições que surgem e passam, condições que influenciam nosso humor, percepções, reações... Condições, em boa parte das vezes, fora do nosso controle...
Eventos que estão de acordo com nossos desejos... Eventos que não estão... E nós, constantemente, colando um 'proprietário' nesse turbilhão!

Speech by ReadSpeaker