What is your language?

Bornes relacionados com Miniaturas

Buscando...?

sábado, 23 de abril de 2016

Não Acredito

Perdi a necessidade de me convencer do que acredito.
Talvez, por isso, tenha parado por aqui.
Depois de um bom tempo, muito estudo e alguma prática possível, acabei chegando à conclusão: o buddhismo é de uma simplicidade nocauteante. O ensino do Buddha está diante meus olhos como a parede à minha frente, agora. Ou o céu, se eu for lá fora. 
E se eu fecho os olhos, eis aqui dentro, acontecendo, o que o Buddha diz que acontece.
Vez ou outra aparecem afirmações de que o buddhismo não é religião. Eu entendo. Religião, ao menos para muitos de nós, tem essa necessidade de aceitar algo pela fé, sem conhecer e muitas vezes sem esperança de vir a conhecer, numa espécie de garantia soteriológica pela ignorância. 
O buddhismo, por sua vez, me fomentou uma quase completa falta de necessidade de acreditar. Acredito muito pouco. 
Acredito que o fim completo do sofrimento é possível. O tal do Nibbāna. 
Na pior das hipóteses, é a morte mesmo. Na melhor, a não morte, pois que estar "vivo" é fruto de uma má compreensão, ou total incompreensão...
Seja como for, ambas as possibilidades são passíveis de defesa factual. 
Do fato da morte não há que se falar. O fato da composição de uma realidade por cada ser senciente é arroz de festa filosófico e científico. 
Aniquilando tudo mais que poderia ser dito e pensado, a não realidade do vazio. 
Por absurdo que possa soar, poucas coisas são mais concretas que o vazio. Depois que você se assenta na dinâmica de incessantes mudanças internas, depois que você leva a sério a realidade da sua morte, depois que você se rende à impotência da sua vontade, depois que você se desgosta com o infindável número de condicionantes e condições que compõem você, o vazio definitivamente deixa de ser um ensino, deixa de ser algo dito pelo Buddha. 
E é assim que as coisas são, ou passam a ser, ou às vezes são, às vezes deixam de ser... 
Certamente, o incerto. 
Algo em que eu não creio.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

menos

Mais uma manhã sobre a almofada. 
Manhã de natal.
Moro num lugar em que as manhãs são sonoras. Pardais, pombos, bem-te-vis, galos, vários outros cantos e trinados, alguns latidos.
A natureza me diz que este é mais um amanhecer. E só.
Nada demais.
Sem fixação, me dizem os pássaros, não há nada de especial, só respire com atenção, nos ouça e nos deixe, estamos só sendo, como você, só respire atento ao ar que passa, ao momento que passa, deixe ir. Deixe-se ir, como inevitavelmente você vai, como nós vamos, como se vai tudo no espaço em que o seu corpo aflora, como se vai tudo no tempo em que sua mente cria. 
Menos uma manhã.
Nada mais.

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

O Descaminho Do Bodhichátova

É um tipo numeroso. Você provavelmente conhece um. Quer ele se denomine bodhisattva, cristão piedoso, rotariano, espírita caridoso ou o que for. 
Ele ou ela se orgulha da própria bondade, humildade, modéstia e generosidade. Um nobre, enfim. 
O bem que faz continua sendo ótimo para aquele que recebe, mas vá conviver com o tipo. Uma benção para os distantes, um tormento para os próximos.
Não raro uma pessoa autoritária, dona da verdade, aquela que sabe. A que nos contempla do topo do monte, de onde nos prega, guia e salva.
No início do meu buddhismo, essa coisa do bodhisattva sempre me incomodava. Não engolia essa obrigação de iluminar o universo. Com o tempo e o estudo, compreendi melhor a coisa e convivo bem com a ideia hoje. Ao meu modo.
É que pensar nos outros é funcional para o Despertar. 
Simples assim. 
Uma vez que o Despertar é ou se revela fundamentalmente ao desfazer a ilusão de que existe o ego, pensar nos outros é um modo prático de ir esmerilhando a ideia do eu.
E não é só isso.
A bondade é funcional. O bom humor, o otimismo, a alegria também são. 
É a arte de fazer limonadas.
Contemplar o vazio de um refrescante copo de limonada é muito mais fácil que de um azedo limão.
Saber da desgraça que é a vida é básico. Identificar e valorizar o que há de tolerável e bom na vida é funcional para acabar com esta mesma desgraça.
Para meditar, preciso de uma mente contente. Parece que há mesmo raízes biológicas no sentir-se bem ao fazer o bem, já li isso em algum lugar. Logo...
Aquele tipo do qual comecei falando é um dos imbróglios do querer ser bodhisattva, que nos deixam ressabiados com essa coisa de abnegação. Porque é a distorção em pessoa a nos expor à perigosa falácia do desprendimento. Nós todos, no íntimo, sabemos do quase absurdo que é a ideia de fazer o bem sem esperar algo em troca. Queremos sempre algo em troca. Fazemos o bem para sentirmo-nos bem, no mínimo. Ao menos aqueles de nós que são sinceros e não altamente realizados. 
Ao eu, que imaginamos ser, alimentamos com a ideia da santidade.
Muito melhor, me parece, é fazer o bem porque é bom para mim: medito melhor. 
Se estou em paz na vida, se me permito a alegria de dar água ao beija-flor, que é um bichinho feroz e violento, medito melhor; se me permito a alegria de contemplar a beleza da flor, este estágio que prenuncia sua morte e apodrecimento, medito melhor.
E vamos vivendo, fazendo o bem. Reconhecendo e aceitando nossa realidade, tudo fica mais pacificado.
Estou numa fase de grande interesse pelo dzogchen, em grande parte porque do que vou elucubrando das preleções do Bhikkhu Kaṭukurunde Ñāṇananda, acho que o dzogchen está lá, nos suttas antigos. Lendo bastante sobre o assunto, passei pelo seguinte trecho do ótimo livro de um dos vários mestres do buddhismo chamado mahayana que transitam por essa prática:

"Muitas vezes, em nome do amor, acabamos desenvolvendo um ego enorme, quando o queríamos pequeno. A motivação é o nosso bem-estar, não o de nossos semelhantes. Ajudar os semelhantes, sem dúvida, nos deixa felizes por nossos atos, mas, como o ovo e a galinha, a questão é o que vem primeiro, qual é a nossa intenção original. Portanto, não se apresse a doar cegamente todos os seus bens materiais. Aos poucos, descobrirá o que realmente quer entregar ao mundo e aos outros. Faça o que tem a fazer sem deixar nada para trás e sem se forçar de maneira alguma. Vá devagar, avaliando bem suas ações."

por Gyalwang Drukpa
Editora Pensamento

Todos apreciam e gostariam de ser salvadores do universo. Eis o sucesso dos filmes dos Vingadores a demonstrar.
Mas é essencial voltarmos nosso olhar equânime e compassivo para a nossa própria necessidade de salvação.

Speech by ReadSpeaker