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Buscando...?

domingo, 11 de outubro de 2009

Superfície

Estávamos em um grupo de mais ou menos sete pessoas. Caminhávamos de volta do restaurante para o trabalho. Num momento, em função do vai e vem dos bate-papos, um amigo me pergunta: "Você é evangélico?" E eu: "Não." "Católico?" "Não." "Você não é nada?" "Não." "O que você é, então?!" "Eu sou buddhista." "Ah, já ouvi falar... E no que você acredita?" "Eu acredito numa disciplina de vida que conduz ao fim do sofrimento..." "Acredita em Deus?" "Não." "...numa força, energia...?" "Não." "Ué! Mas como assim!? Quem criou as coisas? No que você acredita!?" Iniciei a explicação dizendo 'calma que vou chegar lá...' A partir daquele momento, uma coisa significativa aconteceu: começamos a afundar! Estávamos até então num grupo que ria, brincava, dava risada, ali, boiando na superfície. Mas então, daquele momento em diante, eu e o outro começamos a afundar. E fomos ignorados! Nossos companheiros começaram a se afastar, caminhar na frente, em silêncio e dali a pouco eu os via lá do fundo, brincando de novo!
Aquilo foi para mim uma imagem bem colorida do quanto estamos superficializados hoje. O quanto valorizamos tudo o que seja rápido, simples, prático, imediato em resultado e prazer. Tenho a impressão de que há mesmo um medo das profundezas. Parece que sabemos o quão poluída ela se encontra. Há uma determinação reinante de ficar na superfície a todo custo. Levados pelas marés, sob o calor do sol. Qualquer sombra é rejeitada. Qualquer nuvenzinha é amaldiçoada!
Mesmo nas religiões isso é uma clara tendência. Já vi gente estufar o peito e louvar a própria religião por que a prática dela não se faz 'isolando-se do mundo para meditar'... Queremos que o espiritual mostre serviço!!!
Terminado o nosso rápido mergulho, voltamos sorridentes e fomos aceitos de novo na brincadeira! Só faltou alguém perguntar: "O que aconteceu!? Vocês sumiram!!"

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Taṇhā 2

Pelo pouco que eu conheço da vida daquele meu amigo, eu sei que ele passou por momentos em que a necessidade de sobrevivência o impedia de pensar na vida.
É assim com todos nós.
Ou uma boa parte.
Como o 'espelho de sabedoria' do buddhismo pode ajudar numa hora dessas?
A honestidade na contemplação de si mesmo aliada à constatação da condicionalidade de todas as coisas, ao mesmo tempo em que nos lembra do grau de responsabilidade que temos em relação àquilo que vivemos agora, nos alerta para a infalibilidade das consequências daquilo que intencionamos e realizamos no mesmo presente.
Não sobra (muito) espaço para lamentações nem negligência.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Taṇhā

Um colega meu fez cirurgia bariátrica. Estes dias estava mal. Devido ao período de transição da dieta, nada parava em seu estômago. Teve que apelar para um potinho de papinha industrializada e uns goles de bebida isotônica! Embora sem sentir qualquer sabor obteve mais uma pequena vitória na sua desgastante jornada rumo a uma melhor qualidade de vida. Conversando comigo ele disse que 'um filme passava pela cabeça': em vista de tudo pelo está a viver, como teria sido melhor não ter ganho tanto peso! Quão mais fácil teria sido uma disciplina alimentar preventiva! Tive que concordar com ele em parte mas lhe disse também que a vida muitas vezes parece não nos permitir perspectiva. Há fases em que somos de tal forma engolidos, temos tantas coisas 'mais importantes' com as quais nos preocupar que a visão de longo prazo simplesmente parece não constar no cardápio! A única coisa que importa são os descansos imediatos que possamos obter para aquele momento; os pequenos prazeres que possamos experienciar e que nos salvam da realidade indigesta que nos devora. Não nos preocupamos com o preço, qualidade ou quantas calorias tem!
Mantemo-nos facilmente no engôdo. Há servido a nossa disposição um variado e sempre renovado banquete de irresistíveis e reconfortantes delícias. Os sentidos nos guiando num degustar incessante e míope. Deleite e fuga simultâneos. Enquanto temos a ilusória impressão de que conseguimos algum alívio para a nossa massa de dissabores, acumulamos mais peso com o qual teremos que lidar de forma exaustiva e desastrosamente sofrida no futuro.
Aquela perspectiva que precisamos ter pode surgir com o espelho da sabedoria que o buddhismo nos oferece.
Mas precisamos ficar totalmente nus diante dele compreendendo o que, quem e como somos e estamos.

Speech by ReadSpeaker