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sexta-feira, 18 de março de 2011

morte

Tenho estado com a morte há alguns dias.
O início se deu com a narrativa saramaguiana das fabulosas intermitências. Nos entremeios, surgiram um texto do professor Ricardo Sasaki (dhammacharya dhanapala) sobre a concepção buddhista do pós morte e um longo diálogo sobre buddhismo e renascimento com uns materialistas. Isso me manteve no tête-à-tête com a morte por estes dias, com a morte na cabeça... E aí veio o tsunami, num desgraçante arremate a escancarar-me como é que, para a vida e a morte, dois nomes que, bem pode ser, inventamos para um mesmo mistério, não somos em nada diferentes das formigas. Apesar de todos os valores e importâncias que projetamos no mundo, nossos reality shows, minhas HQs, os celulares, os iQualquercoisa, desejos e encomendas que não chegam, nossos relacionamentos e momentos, nada disso nos resolve. Dificilmente vão além do que fazemos ir em conformidade com a nossa reconfortante estupidez: formas de mantermos os olhos fechados para o fato de estarmos morrendo.
Estar de papos com a morte na verdade significa meramente  tentar fazer-se ciente dela que sempre está conosco. 
Como ensinou o Buddha, nestas temporadas é quando mais sinto que dou passos no Caminho. Tomar consciência da presença da morte ocupa a mente com a certeza e coloca a dúvida a meu favor. Aonde eu estou é onde eu devo estar e é onde se dá minha prática. Tudo tem que ser percebido como sempre é, dhamma, se eu habito na consciência do que é inevitável e certo. Meu caminhar passa a ser constante e reto com a meta a minha frente, imediata, pois não sei se há tempo para 'chegar lá'. Minha única incerteza é com respeito a quando o fato se cumprirá. Estar com a morte me mantém atento para a importância de respirar e notar os movimentos do corpo e da mente. Pois qualquer que seja, o fim do movimento é um só. Estar com a morte me mantém atento para a minha igualdade com as formigas, minha desimportância e meu poder.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

ansiedade e dukkha

A ansiedade pode ser o dedo que nos aponta dukkha.

Algo que oculta a percepção de uma das três marcas da existência*, dukkha, é o movimento. Movemo-nos e nos tapamos a visão, desperdiçamos a chance de conhecer diretamente dukkha, a insatisfação, a marca do dissabor e decepção que reside em todos os fenômenos condicionados. Como o é o nosso corpo. 
Sentados por um período e surge o desconforto. Postamo-nos de pé, então. E após um tempo o desconforto se mostra novamente para nós. Mas só o vemos o suficiente para disparar o movimento, como cães de Pavlov. 
Algo tão simples como uma postura qualquer e tanto que perdemos em sabedoria por cordeiramente crermos na aparente simplicidade.
A vida não é simples assim.
Da mesma forma que não sei nadar mas entro no mar, vou linkar uma conversa que tive sobre ansiedade com este parágrafo aí de cima.
O que é a ansiedade se não uma movimentação mental incessante em busca do que não está aqui e agora? A mente correndo para lá e para cá atrás de suas próprias projeções? Parece que a mente ansiosa, da mesma forma que acontece com o corpo, sente o desconforto do momento presente. E logo muda sua 'postura'. Eis aí, neste ponto, a grande oportunidade que, aliás, me parece ser o que permeia todo o buddhismo, uma doutrina que não dicotomiza a vida em claro e escuro, para não dizer bem e mal, de, sabendo o que fazer e para que, qualquer fenômeno pode gerar sabedoria. É possível, para o ansioso, desde que esteja apto ao esforço e ao objetivo do Nobre Caminho, enxergar o valor de sua mente inquieta  escancarado diante dos seus olhos.
Se continuo nesta minha audaciosa incursão por caminhos que conheço meramente via Google Maps, o raciocínio que naturalmente segue é que se a mente ansiosa muda sua 'postura' obsessivamente é porque sente o desconforto, a decepção que há no momento presente, o desgosto dos condicionados fenômenos que se lhe apresentam aqui e agora. O problema é então uma questão de, 'apenas', permanecer um pouquinho mais com a percepção ao invés de se permitir o instantâneo 'pula para outra coisa'! Não seria isso, ora bolas?! Veja, supondo que já haja uma percepção de dukkha, o problema é que ela é fugaz, ou "fugaziada" pelo automatismo desatento da fuga! Quer dizer, o ansioso tem razão, embora talvez tema vir a verdadeiramente saber, realmente é insatisfatório o momento, o problema é que o próximo, fato que lhe é ocultado por sua incontroladamente ativa , reativa e, não raras vezes, inteligente cabeça, também o será. Pelo menos enquanto não nos damos conta e não aceitamos isto. E para que tal aceitação surja precisamos experienciar o momento por inteiro, sem fugas, pulos e movimentos. Eis aí o que perde o ansioso, ainda mais quando Caminhante, se atabalhoadamente sofre sua ansiedade sem enxergar nela o poder que, na minha amadora opinião, parece ter. 
Eu, que faço parte da comunidade calva mundial, sei o quanto custa olhar no espelho e ver o que é refletido. Mas não há remédio além da aceitação e um corte legal no que resta de cabelo. Há quem prefira a peruca.
Não há quem goste da ansiedade (e de peruca?). Talvez, o ponto de vista que expus aqui sugira uma forma de lidar com o problema mais estimulante que a frequentemente vã batalha por sua correção e mais positiva que a aceitação obtusa e pseudoinconsciente de sua existência. Talvez, pela percepção sábia e presente, a ansiedade naturalmente se desgaste. Ou se revele chata, inútil, ilusória, cansativa e dispensável. Coisas que já sabemos mas não nos regalamos na experiência, que é o que efetivamente conta!
Seja como for, é uma receita que vem funcionando muito bem para mim (logo, não tão Goolge Maps assim!). Para cada coisa ruim que percebo, antes do desgosto (ou um pouquinho depois...), tento achar o que há para aproveitar do monte.

*Para uma breve explicação das três marcas, clique ao lado nas abas anicca, dukkha e anatta.

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