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Buscando...?

terça-feira, 11 de outubro de 2011

eu acredito - 2

o diálogo foi mais ou menos assim:
como assim? você não crê em deus!?
não.
mas, e tudo a sua volta!? quem fez tudo isso??
é complicado... mas dá para dizer que foi ninguém.
ah, tá! tudo veio do nada...!
não é assim. eu disse que pode ser complicado...
tá bão, tá bão... mas você não tem medo da morte?
ainda tenho. mas mais de noite do que de dia...
haha. mas e daí? morreu, acabou?
pode ser complicado... mas dá para dizer que eu não sei.
não sabe? e você não se importa? não quer saber?
quero, claro que quero. mas prefiro não saber do que acreditar que sei.

E foi o que me trouxe a tentar escrever a continuação do título.
O "2".
Uma continuação do "1".
E a menção a um 'sentido' foi que me pôs a pensar.
A necessidade de um sentido para isso tudo aqui. Um propósito, um plano, como boa parte das religiões põe a acreditar. É um impulso muito forte este. E a minha compreensão do buddhadhamma, até aqui, me faz confiar intensamente no Buddha por que entendo que ele afirmou muito claramente que não há sentido algum! As coisas surgem e cessam muito veloz e ininterruptamente sem qualquer propósito a não ser surgir e cessar e ponto final.
Ou não.
Ponto final, não. Há dukkha. A dor de querer existir numa realidade que é puro movimento. E, talvez, a dor de buscar um sentido no que é pura manifestação. Dois quereres intrinsecamente atados.
E a mim, o Buddha diz que precisamos fazer as pazes com a falta. Cair. Nos manter conscientes da queda sem sentido que é como as coisas são.
Será que dá para vislumbrar um sentido nisso? O sentido da vida é o Despertar para a falta de sentido?
Não sei.
Mas sei que é preciso um Buddha, um Desperto que nos aponte a realidade e nos mostre como conhecê-la.  De outra forma o surgir é só surgir, o cessar é só cessar e não nos damos conta disso. Permanecer neste processo não dá qualquer sentido.
Duro de aceitar.
Dukkha de aceitar.
Aceitar pode não ser o sentido. Mas liberta.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

ha!... grande novidade...!

Deveria ter escrito antes. Já faz algum tempo que estou remoendo estes pensamentos e este texto saiu agora e agora eu vou escrever nenhuma novidade. 
Como sempre, aliás. 
Mas, na verdade, acho que quem quer novidade não deve passar em blog buddhista. E muito menos por este aqui. As atenções por este caminho aqui estão muito mais voltadas para o velho, o antigo, o fim, a perda, a separação, a cessação, a morte, enfim, para os outros cinquenta por cento do processo de existir. Aqueles que a gente evita. Somos bípedes tentando caminhar com um pé só: um passo é o surgir o outro é o cessar. Mas queremos andar só usando o surgir, quando usamos o cessar, costuma ser de leve, rapidinho e de olhos meio fechados. Resulta em tropeço e queda, talvez. 
E tentamos cair com o surgir bem firme no solo.
Mas como eu começava a dizer, aquilo sobre o que eu deveria ter escrito, é que uma das coisas que me trouxeram ao theravada, ou ao buddhismo registrado nos suttas em pali, foi sati. Esta palavrinha, quando a ouvi (ou li) pela primeira vez, não me lembro onde nem como, reverberou em alguma coisa aqui por dentro. Ruminava e ruminava e buscava encontrar uma explanação sobre aquela palavrinha tão interessante. Uma vez perguntei a um monge ordenado numa das tradições tibetanas: "como é este negócio da atenção plena?" e ele abordou pelo lado da tomada dos preceitos e tal, que tomar os preceitos ajudava a manter a mente alerta e tal e não foi a resposta que resolveu plenamente o meu problema. Eu achava que tinha mais na tal de sati
E segui insatisfeito e procurando.
Achei o theravada: sati! Aqui se fala de sati! E achei o satipatthana sutta! Deleitei-me neste sutta. Sem apreender muita coisa na época, e tenho muito ainda que estudar, ler e refletir, praticar, enfim... Mas foi o grande momento para o meu caminhar. 
Quando eu li o Buddha dizendo que precisamos manter a plena atenção ao urinar e defecar, esta frase causou mais impacto na minha mente do que qualquer mantra sagrado que já houvesse recitado, qualquer instrução sobre a radiância da mente original que tivesse ouvido, qualquer descrição de reinos acessados por jhanas profundos... Foi um potente "ISSO! É ISSO! É POR AQUI A TRANSCENDÊNCIA QUE EU PROCURO".
E assim está sendo a minha busca. Neste corpo, nesta mente. Nas coisas ordinárias e comuns. Na morte nossa de cada dia. No relaxar a mente e ver o mundo acabando. Tentando levantar e caminhar com os dois pés, o surgir e o cessar. Enfim.

***

dia desses um kalyanamitta me disse: "e aí, quando vai montar seu grupo de estudo? para falar de dukkha, dukkha e dukkha? (rsrs)"
"iiih... hehehe... ninguém gosta de ouvir sobre dukkha!"

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

paradinha

O Buddha disse: Todos os fenômenos compostos são impermanentes. 
Tudo bem.
O Buddha disse: Todos os fenômenos são vazios.
Ok.
E disse: Todos os fenômenos compostos são dukkha (sofrimento, insatisfação, dor, angústia...)
E aí, nós: Bom... Veja bem... Vamos pensar um pouco...
Por quê? Por que damos esta paradinha?
Eu acho que é porque esta é pedra fundamental do Ensinamento, o começo de tudo, a Primeira Nobre Verdade, aquela que nos cega por não a querermos ver.
Aceitar esta verdade, crua, franca, direta e tão claramente anunciada pelo Buddha, é o grande passo para qualquer um que queira trilhar o Caminho desbravado por Ele.
Não é fácil, pois não é agradável. Gera reações instintivas e culturalmente fermentadas de aversão e repúdio.
E damos a paradinha.
A paradinha que pode ter um custo para o nosso caminhar. Porque nela passamos a conceber diversas 'rotas alternativas' ao Caminho. Enraizados naquela nossa aversão, começamos a tentar combinar dukkha com nossa vontade de que a vida seja aquilo que sempre nos pareceu ser. E é veja bem prá lá... E é peraí pra cá... E não é bem assim... E não conseguimos engolir que o Buddha tenha dito de forma tão clara e inequívoca que 'sabbe sankhara dukkha' - todos os fenômenos compostos são dukkha - .
Mas a vida, segundo o Buddha, não é o que sempre nos pareceu ser. Todas as alternativas que surgem a partir da paradinha, diferentemente daquela que os jogadores fazem ao bater o pênalti, acabam errando o gol, nublando a meta, escondendo o objetivo. Isso quando não se fica parado para sempre. 
Dada a dificuldade do fato, oras, é a Primeira Nobre Verdade afinal de contas! Não deveria ser de outro jeito! A paradinha é natural, quase que inevitável e não um mal em si. Mas as alternativas, isso é uma desgraça completa! Disso é que surgem os problemas. Fiquemos só na paradinha, pensando, matutando, refletindo, mas mantendo o pé firme nas palavras do Buddha: 'sabbe sankhara dukkha'. Talvez tenhamos tempo, o nibbana espera e o samsara, bom, o samsara é isso que nós não vemos aí...

Speech by ReadSpeaker