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quarta-feira, 11 de novembro de 2020

Vontade de Escrever: pós-samsara?

 


Faz quase três anos que escrevi aqui pela última vez. Muita coisa aconteceu desde então, muita coisa acontece o tempo todo, mas no sentido de provocar espanto como as que vem se sucedendo, não. 

Pra começar, as pessoas com medo, ódio, ignorância ou ressentimento para com a realidade intensificaram suas conexões e interações via internet. E outras pessoas descobriram que aquelas formam um capital valioso. Daí que gente como Donald e Jair, para ficar nos mais conhecidos por nós e nas consequências mais aterradoras desse movimento, se elegeram presidentes de seus países com discursos e ações que agradam e fomentam o tal capital valioso.

Nada mais samsárico que isso:

- Parte da humanidade dedicada a extrapolar o conceito de projetar um mundo em acordo com sua visão distorcida pela ignorância e acreditar que vive nele. Tipo um pós-samsara, pra usar uma prática comum dos nossos modos de comunicar: inventar termos e palavras novas para aquilo que é só repetição do que sempre foi.

Nesse pós-samsara, a realidade deve ser uma opção pessoal. Ao menos até que surja uma pandemia e nos desperte. Desperte alguns de nós, na verdade. Muitos seguirão, ao que parece, até o fim em seus delírios.

E foi, em grande parte, esses acontecimentos que tanto me mantiveram sem vontade de escrever quanto me fizeram ter vontade agora de esboçar alguma coisa que poderá vir a ser mais desenvolvida no futuro.

Vai que alguém passe por aqui: oi!

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Yāvadeva

Hoje participei de uma ação social organizada por um grupo de direita. Com direito a camiseta (neles) escrito "direita" alguma coisa. E um diálogo sobre o porquê de Bolsonaro, disseram eles, ser a "melhor opção" que temos. 
E um pouquinho mais sobre política geral.
Eu não sabia deles até chegar lá, eles não sabiam de mim até começarmos a conversar.
Depois do nosso breve bate-papo ficou um clima e veio o silêncio. E seguimos cada qual a fazer o que nos dispomos a fazer.
E foi isso.
A pessoa que foi chamada para argumentar comigo mais longamente se disse um "ex-esquerdista", desencantado e até revoltado com o que presenciou nos tempos de militância, no sindicato da sua categoria. Entendo ele completamente. Militar em qualquer causa com humanos é decepcionante. Esse é um ponto que, parece, não gostamos muito de ver. A causa da decepção deveria ser nosso foco de investigação, mas é o caminho mais fácil que tomamos, quase sempre, de manter algo externo como a causa.
E este desencanto nos leva ao encantamento com outra coisa, e outra coisa, e outra coisa na eterna esperança de que vá dar certo.
Até o momento, pra mim, parece que não deu.
O que fazer?
Hoje eu sou feliz por poder acessar falas, vídeos e textos de Márcia Tiburi e de Bruno Garschagen, por exemplo, de praticamente qualquer lugar e a qualquer momento. Pensamentos distintos, encantamentos distintos, caminhos distintos mas mentes dedicadas, aparentemente, a nos manter na busca por algo menos ruim, na minha visão, melhor, na visão deles. 
Mas...
O lugar onde tudo se revela como absolutamente inviável e inerentemente precário é meu ponto de observação. De partida e chegada. 
Naquele dia estávamos fazendo as vidas de algumas pessoas parecerem menos miseráveis, mais suportáveis. Ao menos tentávamos. Oferecíamos a elas um momento menos difícil. Do meu ponto de vista, algo vital e necessário. 
O que elas fariam daquela pequena alegria não deve nos importar. Em quem vão votar talvez importe um pouco... 
Mas...
Parece, para alguns mais do que para mim, que o Brasil está dividido, em conflito, guerra ideológica. Talvez haja um pouco disso. Mas no mundo real, aquele mundo anterior à conexão doentia das redes sociais, é possível dialogar, discordar e, em silêncio, trabalhar junto, desfrutar de e proporcionar momentos menos insuportáveis de vida.
Acreditar que vai dar certo pode fazer um grande mal.
Acordar pela manhã, contemplar o vazio, lugar de partida e chegada, e seguir dando um passo para que outro possa ser dado, atento no desencantar-se, neste mundo em incessante rodopio de encantos e promessas me faz muito bem.

domingo, 25 de junho de 2017

quem pensa que está pensando?

nada permanece por que o movimento para preencher o vazio é incessante



                        e do vazio nada se pode falar      

             talvez experimentar


e o saber na mente que experimentou o vazio



                                                                   a mente o traz consigo pela sua criação mágica de                                                      

                                         existência


que é o nome para o movimento    


só há movimento



                               e o tudo agora é uma avalanche
                               um incêndio?
   

                                                                                    um turbilhão

para não se perder no meio disso



                                                                      não há o que fazer




desfaça-se







                                      

segunda-feira, 24 de abril de 2017

me editar








fora isso 

que senta e pensa 
que pensa e passa
que passa e volta
que volta e sente
que sente e sofre
que sofre e surta
que surta e levanta
que levanta e pensa
que pensa e passa
que passa e volta
que volta e senta
que senta e sofre
que sofre e sente
que sente e pensa
que pensa e surta

fora isso

não encontrei mais nada

quarta-feira, 29 de março de 2017

imagens

Forma é como uma massa de espuma;
sensação uma bolha de água;
percepção uma miragem;
formações volitivas uma bananeira;
consciência, um truque de mágica


O Caminho começa onde estamos. 
Esse é um fundamento explicitado no Dhamma do Budddha por toda a coleção de seus ensinamentos no cânone antigo.
É aqui. É agora.
Você não começa por acreditar. Nem por não acreditar.
Você começa por ver o que está agora e observar isso, girar isso, burilar, mudar de posição, ficar nisso, investigar coisas que sempre pareceram não ter nada para investigar.

Uma instância em que este princípio se mostra de forma fascinante, na minha opinião, é quando o Buddha se utiliza de imagens como as do sutta citado acima para nos apontar a profundidade que Sua sabedoria alcança. 
Vamos das impressões causadas por obviedades imergindo a visão em profundidades até então não alcançadas no nosso mundo pessoal. 
E esse nosso mundo começa a ser transformado, mas no que sempre foi. 
Uma divertida sensação de espanto com aquilo que já era. 

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Sabedoria Incomum

Conforme anunciado aqui eis que depois de um cuidadoso trabalho de tradução, revisão e edição está disponível para download o livro Uncommon Wisdom! (Sabedoria Incomum)
Nos formatos PDF, ePub e MOBI.
É uma satisfação ter contribuído para que este livro fosse disponibilizado em português. Não só pela qualidade absoluta do biografado e de seus ensinamentos. 
Este texto me parece ter chegado em hora muito propícia pelas mãos de brasileiros. O buddhismo se espalha pelo Brasil e a necessidade de oferecer obras em português bem assentadas em tradições autênticas é grande. Neste sentido há um caráter quase metalinguístico neste livro que trata de um homem paradigmático como representativo da mentalidade ocidental que imerge e se transforma no Caminho do Buddha.
Ao final, fica claro que tanto mente ocidental como oriental são meras etiquetas sobre algo que não pode ser descrito nem categorizado. O que Ajahn Paññāvadho tem a nos dizer com sua vida e ensinamentos é que o Caminho do Budddha não pertence a ninguém, é acessível a qualquer um que esteja disposto a questionar suas concepções e a trabalhar consigo mesmo de forma honesta e corajosa.
Que este livro seja mais uma fonte de orientação, mais um dedo apontando a direção correta aos buddhistas que falam o português.

sábado, 4 de junho de 2016

Na Correnteza

Je Tsong Khapa, um dos mestres do buddhismo tibetano, descreveu numa metáfora poderosa a nossa condição. Algo mais ou menos assim: estamos presos, numa gaiola, jogados num rio caudaloso, numa noite sem lua. Chacoalhados todo o tempo e levados pela correnteza, sem muita noção do que está havendo. Com minúscula oportunidade de fazer alguma coisa. Na verdade, nessa situação, 'pensar' em fazer alguma coisa já seria uma conquista e tanto.
Só compreendemos a precisão desta metáfora quando nos decidimos com alguma seriedade a trilhar o caminho do Buddha.
Quando você pensa que 'entendeu' alguma coisa, uma nova percepção revela que você está passando do ponto ou está um tanto aquém. 
Se você fizer por merecer isso.
Daí a importância de manter-se em constante busca pelo dhamma do Buddha. Aproveitando todas as possibilidades de comunicação e acesso que temos hoje. Aliás, às vezes eu penso em como as coisas podem não ser mesmo por acaso: está claro que a humanidade vai se esfarelar não demora muito. Toda essa facilidade de encontrar o dhamma é providencial!
Ouvir, ler, assistir, para quem não pode estar agarrado no manto de algum ser realizado, é fundamental. Manter o dhamma na mente, entre as sessões de meditação, é o segredo mais secreto.
Hoje eu ouvi uma coisa daquelas que fazem tomar distância, olhar, abanar a cabeça e "Putz, então é isso!"
Está num vídeo do Ajahn Mudito, monge brasileiro na Tailândia, gravado em comemoração ao Vesak, a frase: "Não há ponto de equilíbrio. Há um contínuo equilibrar."
E tudo que eu leio, releio, ouço, pondero, medito e reflito sobre suññata, anatta, pattica sammupada não foi suficiente para eliminar o erro que, a frase revelou, anda me desequilibrando.
E não foi a primeira, e eu sei, não a última vez, desse momento tapa na testa. Nossa mente é engano puro. Enquanto procura a solução vai criando mais problema pelo caminho.
Mas a satisfação do insight compensa a constatação da condição capenga. E vamos aceitando que o insight é esta própria constatação. Ainda que em partes. Ainda que em gotas.
Crer que entendeu dá aquela afagada no ego. 
Constatar que não era bem assim, dá a necessária esmerilhada.
Na noite sem lua, dentro da gaiola, na correnteza caudalosa, entre um chacoalhão e outro, a gente vai percebendo: "Talvez eu esteja num rio... Será?"


aqui o vídeo.


sábado, 23 de abril de 2016

Não Acredito

Perdi a necessidade de me convencer do que acredito.
Talvez, por isso, tenha parado por aqui.
Depois de um bom tempo, muito estudo e alguma prática possível, acabei chegando à conclusão: o buddhismo é de uma simplicidade nocauteante. O ensino do Buddha está diante meus olhos como a parede à minha frente, agora. Ou o céu, se eu for lá fora. 
E se eu fecho os olhos, eis aqui dentro, acontecendo, o que o Buddha diz que acontece.
Vez ou outra aparecem afirmações de que o buddhismo não é religião. Eu entendo. Religião, ao menos para muitos de nós, tem essa necessidade de aceitar algo pela fé, sem conhecer e muitas vezes sem esperança de vir a conhecer, numa espécie de garantia soteriológica pela ignorância. 
O buddhismo, por sua vez, me fomentou uma quase completa falta de necessidade de acreditar. Acredito muito pouco. 
Acredito que o fim completo do sofrimento é possível. O tal do Nibbāna. 
Na pior das hipóteses, é a morte mesmo. Na melhor, a não morte, pois que estar "vivo" é fruto de uma má compreensão, ou total incompreensão...
Seja como for, ambas as possibilidades são passíveis de defesa factual. 
Do fato da morte não há que se falar. O fato da composição de uma realidade por cada ser senciente é arroz de festa filosófico e científico. 
Aniquilando tudo mais que poderia ser dito e pensado, a não realidade do vazio. 
Por absurdo que possa soar, poucas coisas são mais concretas que o vazio. Depois que você se assenta na dinâmica de incessantes mudanças internas, depois que você leva a sério a realidade da sua morte, depois que você se rende à impotência da sua vontade, depois que você se desgosta com o infindável número de condicionantes e condições que compõem você, o vazio definitivamente deixa de ser um ensino, deixa de ser algo dito pelo Buddha. 
E é assim que as coisas são, ou passam a ser, ou às vezes são, às vezes deixam de ser... 
Certamente, o incerto. 
Algo em que eu não creio.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

menos

Mais uma manhã sobre a almofada. 
Manhã de natal.
Moro num lugar em que as manhãs são sonoras. Pardais, pombos, bem-te-vis, galos, vários outros cantos e trinados, alguns latidos.
A natureza me diz que este é mais um amanhecer. E só.
Nada demais.
Sem fixação, me dizem os pássaros, não há nada de especial, só respire com atenção, nos ouça e nos deixe, estamos só sendo, como você, só respire atento ao ar que passa, ao momento que passa, deixe ir. Deixe-se ir, como inevitavelmente você vai, como nós vamos, como se vai tudo no espaço em que o seu corpo aflora, como se vai tudo no tempo em que sua mente cria. 
Menos uma manhã.
Nada mais.

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

O Descaminho Do Bodhichátova

É um tipo numeroso. Você provavelmente conhece um. Quer ele se denomine bodhisattva, cristão piedoso, rotariano, espírita caridoso ou o que for. 
Ele ou ela se orgulha da própria bondade, humildade, modéstia e generosidade. Um nobre, enfim. 
O bem que faz continua sendo ótimo para aquele que recebe, mas vá conviver com o tipo. Uma benção para os distantes, um tormento para os próximos.
Não raro uma pessoa autoritária, dona da verdade, aquela que sabe. A que nos contempla do topo do monte, de onde nos prega, guia e salva.
No início do meu buddhismo, essa coisa do bodhisattva sempre me incomodava. Não engolia essa obrigação de iluminar o universo. Com o tempo e o estudo, compreendi melhor a coisa e convivo bem com a ideia hoje. Ao meu modo.
É que pensar nos outros é funcional para o Despertar. 
Simples assim. 
Uma vez que o Despertar é ou se revela fundamentalmente ao desfazer a ilusão de que existe o ego, pensar nos outros é um modo prático de ir esmerilhando a ideia do eu.
E não é só isso.
A bondade é funcional. O bom humor, o otimismo, a alegria também são. 
É a arte de fazer limonadas.
Contemplar o vazio de um refrescante copo de limonada é muito mais fácil que de um azedo limão.
Saber da desgraça que é a vida é básico. Identificar e valorizar o que há de tolerável e bom na vida é funcional para acabar com esta mesma desgraça.
Para meditar, preciso de uma mente contente. Parece que há mesmo raízes biológicas no sentir-se bem ao fazer o bem, já li isso em algum lugar. Logo...
Aquele tipo do qual comecei falando é um dos imbróglios do querer ser bodhisattva, que nos deixam ressabiados com essa coisa de abnegação. Porque é a distorção em pessoa a nos expor à perigosa falácia do desprendimento. Nós todos, no íntimo, sabemos do quase absurdo que é a ideia de fazer o bem sem esperar algo em troca. Queremos sempre algo em troca. Fazemos o bem para sentirmo-nos bem, no mínimo. Ao menos aqueles de nós que são sinceros e não altamente realizados. 
Ao eu, que imaginamos ser, alimentamos com a ideia da santidade.
Muito melhor, me parece, é fazer o bem porque é bom para mim: medito melhor. 
Se estou em paz na vida, se me permito a alegria de dar água ao beija-flor, que é um bichinho feroz e violento, medito melhor; se me permito a alegria de contemplar a beleza da flor, este estágio que prenuncia sua morte e apodrecimento, medito melhor.
E vamos vivendo, fazendo o bem. Reconhecendo e aceitando nossa realidade, tudo fica mais pacificado.
Estou numa fase de grande interesse pelo dzogchen, em grande parte porque do que vou elucubrando das preleções do Bhikkhu Kaṭukurunde Ñāṇananda, acho que o dzogchen está lá, nos suttas antigos. Lendo bastante sobre o assunto, passei pelo seguinte trecho do ótimo livro de um dos vários mestres do buddhismo chamado mahayana que transitam por essa prática:

"Muitas vezes, em nome do amor, acabamos desenvolvendo um ego enorme, quando o queríamos pequeno. A motivação é o nosso bem-estar, não o de nossos semelhantes. Ajudar os semelhantes, sem dúvida, nos deixa felizes por nossos atos, mas, como o ovo e a galinha, a questão é o que vem primeiro, qual é a nossa intenção original. Portanto, não se apresse a doar cegamente todos os seus bens materiais. Aos poucos, descobrirá o que realmente quer entregar ao mundo e aos outros. Faça o que tem a fazer sem deixar nada para trás e sem se forçar de maneira alguma. Vá devagar, avaliando bem suas ações."

por Gyalwang Drukpa
Editora Pensamento

Todos apreciam e gostariam de ser salvadores do universo. Eis o sucesso dos filmes dos Vingadores a demonstrar.
Mas é essencial voltarmos nosso olhar equânime e compassivo para a nossa própria necessidade de salvação.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

uma coisa é outra coisa

"O mundano aliado ao desejo que continua vagando pelo saṁsāra por um longo tempo, não pode ir além da dualidade de 'esse modo' e 'outro modo'. No momento em que ele agarra um estado de existência como um 'esse modo', este objeto torna-se sujeito à alteridade. Isto é o que é chamado de impermanência, a tragédia inexorável da presunção de existência. A vida é uma luta vã para resistir à 'alteridade'."



Venerável  Bhikkhu Kaṭukurunde Ñāṇananda no Facebook

Venerável Bhikkhu Kaṭukurunde Ñāṇananda no Google Plus

sábado, 26 de setembro de 2015

corpo esquecido

Como se fosse um saco cheio de vários tipos de grãos e pela sua abertura olhássemos e identificássemos cada um dos tipos contidos nele, assim nos pomos a dissecar o corpo, discriminando suas partes e órgãos. Esta foi uma das formas que o Buddha nos ensinou, no satipaṭṭhāna sutta, para instigar o questionamento de nossa identificação com nossos corpos. Uma outra é a contemplação do processo de desintegração de cadáveres.
Quando o Buddha dizia que seu ensino ia contra a corrente do mundo, muitos de então talvez não imaginassem como isso soaria dois mil e quinhentos anos depois.
Hoje, com todos os recursos que há para esculpirmos nossos corpos, sermos nossos corpos é inquestionável.

Mas voltemos ao ensinamento.
Enquanto confiantes no Buddha, praticamos examinar aquilo de que somos compostos, ou os entes materiais com os quais nos identificamos, trazendo para a luz da consciência a natureza medíocre da matéria que gostamos de esquecer: átomos e moléculas, que são só o que tem que ser átomos e moléculas.

Graças ao atual conhecimento sem igual de átomos e moléculas temos inúmeros recursos para moldar nossos corpos. Quase como os oleiros moldavam a argila em belos potes nos tempos do Buddha.

Podemos sentir dor quando quebra-se um pote do qual gostamos, ao qual estamos apegados, no qual projetamos sentimentos e sensações. Felizmente é mais fácil optar por estabelecer ou não uma relação assim com potes.
Com o corpo há a ignorância fundamental e o mundo que gira por ela a nossa volta nos mantendo a ser corpos muito menos maleáveis e dóceis que argila. Muito mais decadentes.
Nos falta opção?
Somos consciência e matéria. Seja lá o que forem tais coisas, é possível, a partir de nossa experiência, afirmar este mínimo da nossa existência. 
O Buddha nos deixou métodos, como os citados acima, para confrontar a matéria de forma direta e franca dentro de nossa experiência do existir e descobrir se há uma opção para existirmos menos sujeitos à sua mediocridade. De várias formas inclinamos nosso ser ao escrutínio deste ente com que tão arraigadamente nos identificamos até sentir profundamente se é, ou não, dolorosa e frustrante esta identificação.
Trazer à consciência a natureza nua de nosso corpo, contra tudo o que há para nos fazer esquecer, talvez seja o  que exerça, dentro do preciso e vasto ensinamento do Buddha, o papel de um poderoso motor a nos impulsionar contra a correnteza.

domingo, 9 de agosto de 2015

Cultivador Da Sabedoria 3

"Para ser bem sucedida, a prática da meditação tem de abranger toda a pessoa e todos os aspectos da vida diária. O caminho da prática tem causa e efeito, o que significa uma fundação adequada conducente a bons resultados. Não podemos escolher nos ocupar com alguns aspectos do caminho e negligenciar outros. Se fizermos isso, todos os nossos esforços acabarão por se revelarem decepcionantes."

domingo, 2 de agosto de 2015

O Nobre Caminho Óctuplo - Livro

Meus primeiros contatos com o Theravada foram por livros do Venerável Bikkhu Bodhi e Venerável Buddhadasa. 
Há dez anos. 
Muito auspiciosa efeméride pessoal com este lançamento e o prometido para breve do Venerável Buddhadasa.
Que sirva para amenizar a vida de muitos!

quinta-feira, 16 de julho de 2015

despertar

não é um livro para religiosos. 
mas se forem buddhistas, talvez possam gostar, assim como eu.
o que faz a fama de sam harris é o seu franco combate ao teísmo. especialmente às religiões fundadas nas mitologias de criação por deus ou deuses e todos os absurdos que seguem no rastro. aquele religioso que traveste sua crença de conhecimento e reza para que um dia ela seja partilhada ou imposta, se necessário, nem considere a leitura. 
também aquele espiritual que crê serem as religiões meramente diferentes caminhos para o mesmo fim, pare por aqui. 
pois sam harris afirma que não são. expõe simples e claramente as diferenças e aponta o porquê de algumas crenças serem mesmo obstáculos intransponíveis ao progresso espiritual que ele julga conducente ao objetivo maior.
o objetivo maior é a constatação direta de que este eu que sentimos estar experimentando o mundo atrás da testa, não existe, nunca existiu, nunca existirá.
parece coisa de buddhista. 
e é, do início ao fim.
o caminho para realizar o objetivo supremo da espiritualidade ele diz não ser outro que o cultivo mental, através da atenção ao momento presente conforme ele vai se manifestando via nossos sentidos e mente.
buddhismo simples e franco, despojado de complicações como é o bom buddhismo.
penso eu.
sam harris relata longa experiência em meditação sob orientação de mestres famosos. o grande mestre de sua vida foi o lama tibetano tulku urgyen rimpoche, de quem afirma ser a pessoa que lhe concedeu o ensinamento mais relevante de toda a sua vida. 
sam harris é graduado em filosofia e doutor em neurociência pela universidade da califórnia.
mas também não há condescendência, nem para com a ciência, nem para com amigos com quem partilha sua cruzada ateísta: a ciência não faz ideia do que seja a mente, embora possa concluir coisas importantes a partir da observação da atividade cerebral e a espiritualidade é algo fundamental como uma busca por escapar quando se constata a realidade de que a vida, a existência é, assim, algo bem precário e insatisfatório. 
dukkha, para os iniciados.
fiz inúmeras anotações e não é viável citar tudo o que acho relevante, mas uma passagem achei genial e um trecho resume meu pensamento enquanto religioso:

a passagem: ele compara o sentimento do "eu" ao ponto cego ocular. se você não sabe o que é o ponto cego ocular, pesquise no google. há até execícios bem divertidos para explorar o ponto cego. depois compare com aquilo que se disserta sobre o atta, o eu, no buddhismo. insight é uma possibilidade.

o trecho:
A verdade é que, seja lá o que for que aconteça após a morte, é possível se justificar uma vida de 
prática espiritual e autotranscendência sem fingirmos que sabemos o que não sabemos.

e é só isso.

terça-feira, 30 de junho de 2015

O Discípulo Laico*

Este é o discípulo do Buddha, vivendo em seu lar. Ele tem confiança no despertar do Buddha. Ele treina a si mesmo para purificar suas ações e sua fala. Ele cultiva a generosidade, aprende a ceder e a deixar ir. E esta é a sua prática: ele aproveita as oportunidades para ouvir o Dhamma - a palavra do Buddha - de monjas e monges despertos. Mas isso não é tudo. Ele sustenta a lembrança do Dhamma que ouviu. Ele tenta memorizá-lo, mantê-lo em sua mente. Porque ele sabe que, assim, vai refletir sobre ele, observar, investigar, compreender profundamente. Então, por tal prática, ele sabe, sendo esta uma lei natural, sua vida vai seguir o processo, inevitavelmente.
Lenta mas seguramente, toda a sua vida é tocada e transformada pela mágica que é o milagre do Dhamma: em seu trabalho ele é aplicado, trabalhador e diligente. Em suas finanças ele é generoso, evitando dívidas, consciente dos benefícios de poupar e nunca se esquecendo de avivar o espírito de sua família e amigos. Ele cuida bem de seus pais, a quem deve sua formação e orientação na vida, e instrui e apoia seus filhos e companheiros sempre buscando se associar com pessoas boas e nobres. Assim, sua vida mundana está num equilíbrio que lhe permite dedicar mais tempo e clareza à vida espiritual.
Pelo menos uma vez por semana, vestido de branco, símbolo da pureza, ele desfruta de um dia de silêncio e contemplação. Ele determina sua mente a aplicar-se neste nobre treinamento de corpo, fala e mente. Ele sabe, cada dia passado a seguir os passos dos Arahants será, na soma final de seus dias terrenos, mais valioso do que qualquer fortuna em sua conta bancária. Neste dia, ele lembra-se do Dhamma que aprendeu, pode também jejuar, mantendo-se leve e simples, refletindo sobre as palavras do Buddha. Ele pode contemplar as qualidades do Buddha, aquilo que caracteriza um Desperto, ele pode contemplar Dhamma e Sangha. Ele pode lembrar das qualidades dos Devas sabendo que sua vida, se purificada desta forma, irá conduzi-lo a tal estado mental e nenhum outro.
Começa todos os seus dias com as cinco contemplações saudáveis pela manhã. Todas as manhãs ele reafirma a sua confiança no mestre, o contemplativo Gotama, na sua explicação do Dhamma e no grupo de discípulos que seguem esse caminho com sinceridade. Todas as manhãs, ele reflete sobre as virtudes que está determinado a pôr em sua vida e reflete sobre como pode praticar generosidade naquele dia. Todos os dias, ele se exercita, para fortalecer sua lembrança dos ensinamentos do Buddha, recitando as palavras do Desperto de memória. Todos os dias pode-se encontrá-lo calmamente refletindo sobre o significado do Dhamma que ele aprendeu. Outros chamam de meditação, ele chama de sammā samādhi e bhāvanā, ou desenvolvimento, pois ele sabe que isto é como uma planta, precisa de atenção constante e manuseio cuidadoso para que cresça forte a dê frutos.
Ele sabe que da confiança vem serenidade, e da serenidade alegria. Tal alegria interior vai levá-lo mais do que frequentemente à permanência tranquila dos quatro jhānas. Ele sabe como utilizar a perfeita calma e equanimidade do quarto jhāna para lembrar suas vidas passadas, sim, ele pode dominar habilidades como essa, mas acima de tudo, ele não conhece maior alegria do que refletir sobre a impermanência dos seis sentidos, observando seu borbulhante surgir e cessar conforme sua sabedoria cresce, não conhece maior alegria do que observar os cinco agregados surgindo e se dissolvendo, contemplando a origem dependente que conduz a um profundo insight e sabedoria purificadora.
Conforme seus dias periódicos de meditação (Uposatha) se desenvolvem em profundidade, guiado e alinhado pelas palavras do Buddha que ele preza como um antigo tesouro, sua habilidade em aprofundar seu despertar através da aplicação das meditações como descritas pelo Buddha torna-se formidável. Ele, vestindo branco, ainda vivendo entre esposa e filhos, mantém a sua mente firmemente empenhada na atenção plena ao corpo, ou às quatro satipatthanas, ou à meditação pela respiração, conducentes a profundos insight e sabedoria e aos frutos de entrar na correnteza, de só mais uma vez retornar e de não-retorno. Este ele sabe ser o caminho para Nibbāna conforme apontado pelo Desperto.

Com base nos seguintes suttas:
•                       Mahanama Sutta,   AN.8.25
•                       Vyagghapajja Sutta,   AN 8,54
•                       Singalovada Sutta,   DN 31
•                       Sakka Sutta,   AN 10,46
•                       Muluposatha Sutta,   AN 3,60
•                       Uposatha Sutta,   AN 8,41
•                       Nandamata Sutta,   UMA 7.6
•                       Cittasamyutta,   SN 41
•                       Gihi Sutta,   AN 5,179
•                       Anana Sutta,   AN 4,62
•                       Nakula Sutta,   AN 6,16
•                       Velama Sutta,   AN 9,20
•                       Brahma Sutta,   ITIV. 106
•                       Cinco reflexões diárias: Abhiṇha Paccavekkhitabbaṭhāna Suttaṃ,   AN 5.6.7   e   Aqui




*texto traduzido e publicado sob autorização do autor.
original aqui.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

A Escola Buddhista Caetanovelosoyana*

O Buddha simplificava as coisas. 
Nos suttas antigos, quem sou eu para falar nos suttas antigos? Parênteses. Mas sou um releitor permanente dos eruditos que podem falar, então replico o que destes consigo apreender... 
Nos suttas antigos o Buddha utiliza comparações frequentes com elementos do cotidiano ordinário de seus ouvintes para transmitir seus insights.  São vários os símiles e parábolas com arcos, serras, fogo, pedra, pregos, árvores, barcos e etc. que o Buddha belamente constrói e utiliza de forma sempre iluminadora e desconcertante como forma de, com palavras, dar instruções para que sigamos rumo ao indizível. Aqui é um momento em que eu deveria colar trechos daqueles suttas para corroborar minha afirmação, mas eu não planejei escrever isso aqui e não sou muito de fazer anotações nas minhas leituras. Fica por sua conta buscar pelas provas. Há muito material disponível.
O Buddha não promete pouco. É o completo fim do sofrimento o que ele garante. Ainda assim, é sempre claro, limpo, simples nas suas falas. Para nos levar ao fim completo do sofrimento ele nos indica o que investigar: nosso próprio sofrimento, aqui, agora, nesse corpo. Não nos manda contemplar a beleza transcendental da vida. Se você é um feliz e satisfeito mas ainda assim quer praticar o buddhismo, eu acho, eu, veja bem, outro parêntese, eu acho que você vai precisar aguçar sua percepção para a dor que existe nessa sua felicidade...
Mas voltando ao simples, estas linhas proliferaram na minha cabeça e forçaram sua vinda para cá depois de umas leituras que fiz por estes dias. Primeiro aqui, este texto do professor Ricardo Sasaki e, nos dias seguintes, dois outros que não vou citar. Enquanto o primeiro me parece estar em linha com aquilo que penso, os outros dois desalinham completamente. Apesar de serem de mestres que respeito, eles complicam, e complicam muito, seguindo devotamente uma longa linhagem de complicadores do Buddha Sasana surgida pelos milênios de expansão dos ensinamentos. 
É quase como se pensassem assim: se eu falar o simples, e eles entenderem, como é que eu fico?
Pensassem inconscientemente, talvez, pelos milênios afora até hoje... Sei lá, entende?
O Buddha ensinou e se mandou. Quando morreu, disse que nosso mestre seria o que ele deixou ensinado, ponto. Percebe o link com o texto do Sasaki? Nossa relação com um mestre deve ser a de buscar entender, e entender o que é dito para por em prática, e não passar a vida agarrado em seu manto encantado com a profundidade ininteligível do que ele fala. E ao mestre cabe a disposição de falar o que se pode entender...
Ouviu, entendeu, praticou, realizou, parabéns. Gratidão e respeito eternos, caso esse negócio de eternidade exista.
Quem é de nibbāna, nibbāneia. Quem é bodhissatta, boddhissatteia.
No livro que estou traduzindo, biografia e ensinamentos do Venerável Paññāvaḍḍho, terminei agora um capítulo em que há o seguinte trecho: Quanto mais vocês puderem conhecer o Dhamma, mais vocês terão um professor interno para guiá-los. Vocês provavelmente tem um professor externo, o que é necessário; mas, em última instância, vocês devem substituir o professor externo pelo interno. Quando isso tiver sido feito, vocês não precisam mais estar com um professor. Vocês podem praticar sozinhos, então.
Ser capaz de estar sozinho pode ser um estágio distante para a maioria de nós, mas é o espírito da coisa que precisa ser compreendido...
Mas voltando ao simples, quando o Buddha simplificava as coisas, me parece claro ser essa a intenção, que as pessoas entendam e sigam o caminho do abandoneísmo, conforme o Venerável Kaṭukurunde Ñāṇananda maravilhosamente explica.
As coisas, os ensinamentos, são para uso e descarte. Quanto mais simples for, melhor. A gente vai por etapas, gradativamente, mirando o fim.
Isso nos leva ao símile da jangada elaborado pelo Buddha, mas deixa isso pra outro dia, talvez.

*Escola fundada por um amigo que gosta de complicar as coisas...

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Cultivador Da Sabedoria 2

Conforme dito aqui, mais trechos:

"Quer seus alunos fossem novatos em meditação ou monges envolvidos em uma vida inteira de prática espiritual, Ajaan Pañña salientava que o desenvolvimento da concentração e sabedoria meditativa requeria a observância de certos princípios universais. Em essência, este processo envolvia uma progressão do externo para o interno; do grosseiro ao refinado; da ênfase no corpo à ênfase na mente; e de um estado de atividade a um estado de quietude. Para ser bem sucedida, a meditação deve ser uma disciplina que envolva toda a pessoa e todas as facetas da sua vida diária. É um caminho de prática que engloba tanto causa como efeito: a fundação apropriada levando a resultados apropriados. Praticantes não podem simplesmente optar por cumprir alguns aspectos do caminho e negligenciar outros; caso contrário, todos os seus esforços acabarão por se revelar decepcionantes."

(...)

"Ajaan Pañña imprimia em seus alunos a noção de que a prática da sabedoria cobria uma gama muito ampla de fenômenos mentais. Por causa disso, eles tinham que procurar métodos criativos para lidar com as inúmeras possibilidades que podiam surgir no decurso das suas investigações. Eles não podiam esperar que os métodos adequados simplesmente aparecessem do nada para si. Os métodos corretos, os que fossem mais adequado às suas necessidades, poderiam ser bastante evasivos. Não era uma questão de simplesmente sentar e observar a consciência em seu ir e vir. Eles tinham que buscar seriamente pelo método correto, ou então nunca iriam encontrá-lo. Eles tinham que fazer uma escolha deliberada de que facetas da mente iriam observar, escolhendo os aspectos mais relevantes com base em seus insights sobre o Dhamma. Para que isso acontecesse, eles deveriam realmente aplicar diligência ao que estavam fazendo. A investigação devia ser algo importante para eles. Para serem verdadeiros cultivadores de sabedoria, eles deveriam dedicar o tempo e o esforço para desenvolverem adequadamente a prática da sabedoria. Se o fizessem, a mais elevada realização não estaria fora de seu alcance.
'Essa era a essência geral das palestras que Ajaan Pañña oferecia igualmente aos monges e praticantes laicos."

quarta-feira, 15 de abril de 2015

saudade

recebi dia desses um vídeo, dessas correntes que as tecnologias de hoje permitem. na verdade recebi de novo, eu acho...
com aquela música em que o djavan diz que é feliz e por isso está aqui e também quer viajar naquele balão, o vídeo exibe uma sequência de coisas que marcaram a infância e adolescência da minha geração: doces, brinquedos, personagens, brincadeiras...
superfantástico.
e aí, se entre outros, é praxe concordar com o "nossa, aquilo que foi época! que saudade!"
faz parte de estar entre outros, como fazem tantas coisas...
mas só, eu não.
saudade é algo sobre o que nem penso muito. cada dia vivido, foi. que vá. que passe. na memória, um dia que passou.
a calva aumenta, o corpo dói cada vez um pouquinho mais, mas a alma menos.
a alma se aquieta.
aspiro ficar só com a dor que for inevitável.

Speech by ReadSpeaker